A História de Karin
42 Academia de Shinigamis
Notas iniciais
Soul Society
Atordoado pelas drogas que injetaram em suas veias, ao despertar parecia que ainda estava preso numa dimensão paralela. Zonzo, apalpou o lugar tentando descobrir onde estaria. Aparentava estar deitado numa maca de laboratório. Isso foi o suficiente para o obrigar a despertar totalmente, deparando-se com inúmeros fios ligados em seu corpo, e outras coisas estranhas.
Instintivamente, arrancou tudo de seu corpo. Notou que também estava um pouco húmido, ao início pensou ser suor, mas constatou que era outro líquido. Quando desviou seu olhar para a sala percebeu que estava no laboratório de Mayuri, com uma vastidão de contêineres, com um botão vermelho no lado esquerdo de cada um. Estes tinham shinigamis presos lá dentro, adormecidos, em volta de um líquido semelhante ao que tinha em si. O que era aquilo?
— Vejo que acordou. Demorou mais do que previa.
Quase pulou pelo susto de ter a fase do capitão ao seu lado. Porém, seu medo foi completamente ignorado. Não lhe dera sequer tempo para fazer perguntas saindo da sala novamente.
— O que me aconteceu…? Deveria estar…
— Mayuri-sama o curou.
— Nemu-san? Como assim?
A tenente indicou visualmente os shinigamis, e ele entendeu. Aquele processo era para retirar os zombies de seu corpo. Apesar que no seu caso, ele não tinha mais um parasita e sim um ferimento profundo, considerou até mortal.
— Não compreendo como ainda estou vivo.
Nemu não respondeu às divagações de Kira. Talvez, nem ela tivesse uma resposta para lhe dar.
— Alguém sabe que… fui medicado?
— Não. Não havia certeza do êxito nos resultados, por precaução, evitando euforias Mayuri-sama não revelou a ninguém.
— Certo, obrigado Nemu-san e agradeça ao capitão Kurotsuchi por mim.
Poderia ser rudeza da sua parte não esperar pela resposta da tenente, porém, os músculos latejavam, implorando por descanso. No reflexo dos aparelhos do laboratório enxergou suas diversas cicatrizes pelo tronco. Não lamentou, estava grato por não ter perdido nenhum braço ou uma perna; afinal, de Mayuri…. Podia-se esperar tudo.
Cogitou se devia ir ao encontro de Hinamori. Mas o que lhe dizer? Ele não previa confrontar-se com uma reacção desta pela sua confissão. Contudo, seria covardia fugir quando ela sofria por uma morte que não aconteceu.
Kira arrastava as pernas ao andar, não sabia que palavras escolher, tentou alastrar, portanto, o seu reencontro. Inspirava fundo, expirando depois muito rápido, sentia o suor acumular-se na palma de suas mãos, à sua frente encarava a porta do escritório do taicho do quinto esquadrão. Antes de reunir coragem para manifestar sua presença, a porta abriu-se de repente.
— Tenente Kira!?
— Com a sua permissão, Hirako-taicho. Preciso de falar com Hinamori-san.
— Não estava morto!?
— É uma longa história…
— Entendo… — A surpresa no rosto do capitão era um tanto engraçada. Se não estivesse nervoso, Kira teria rido. – Mas lamento. Hinamori-san não está, ela tirou o dia de folga. Não estava se sentindo muito bem.
O tenente que estava ligeiramente inclinado, numa reverência de respeito, rapidamente voltou à compostura ereta. Mostrando em pequenos gestos seu receio.
— Não sabe para onde ela foi? — Hirako acenou negativamente.
— Ela passou mal pela sua suposta morte, e pela sua avó e do capitão Hitsugaya.
— O que aconteceu?
— Foi atacada, infelizmente, não sobreviveu.
O tenente não deixou de preocupar-se. Momo era emocionalmente fraca quando perdia alguém que amava. Ansioso, procurou por todos os lugares que a amiga costumava frequentar, e outros em que nunca a encontrou. Tentou rastrear sua reaitsu, mas devia estar a encobri-la, facto que deixou Izuru nervoso. Por que ela se estava escondendo? Ou do quê?
Inclusive, a buscou no décimo bantai, no entanto, só assistiu de relance o capitão Hitsugaya carregar a Kurosaki adormecida, em seus braços, para os seus aposentos. Apesar de ele estar sereno era perceptível os traços da tristeza em seu rosto. Possivelmente, por causa da vovó de Rukongai que falecera.
— Hinamori-san… onde se meteu…?
Ele não sabia mais onde procura-la. Deixou de utilizar o shunpo, limitando-se a uma caminhada calma sem direcção precisa. Não dirigia-se a nenhum sítio em concreto, só andava. Kira não pretendia desistir de a procurar. Tão distraído em pensamentos, só notou naquele instante, que seus pés o guiaram para a Academia de Shinigamis onde graduou-se. Sentiu-se nostálgico. Mesmo estando fechada, e completamente deserta, Kira adentrou por um enorme portão, avistando de imediato os longos corredores com diversas portas.
Foi naquele lugar onde sua jornada de ceifador de almas começou, na verdade, era ali que iniciava-se a vida de qualquer shinigami… aprendendo a lutar, a viver mesmo estando morto. Quando se obtinha os sonhos e ambições.
Rukongai transpirava medo e desespero. Ninguém acredita num futuro melhor, era uma questão de sobrevivência. Tornar-se shinigami era a passe de saída daquele mundo.
Recordava-se que muitos colegas o deixavam de parte, debochando sua falta de atratividade. Na verdade, esse detalhe nunca o perturbou. Nunca ambicionou dotes físicos, limitava seus desejos ao poder, principalmente kidous e sua zanpakutou. Apesar de também nunca ter tido uma força fenomenal ou um poder único que se destacasse, fazia o seu melhor com aquilo que era. Talvez por isso conseguia surpreender muitos adversários em campo de batalha, subestimavam-no por ser fraco, mas ele sabia usar bem o seu poder… e por isso vencia com regularidade, obtendo até o cargo de tenente. Quando voltava ao seu eu do passado, lembrando-se de seus sonhos, sentia seu peito inchar de orgulho pelas conquistas bem-sucedidas através do seu esforço.
Escutou alguns soluços numa das salas, foi caminhando silencioso. Ao adentrar na sala, pensava que ia deparar-se com algum aluno solitário, que deveria ser massacrado pelos colegas da elite, contudo ficou pasmo ao encontrar quem esteve procurando todo o dia.
— Hinamori-san! – Aproximou-se cauteloso enquanto a chamava, para evitar assustá-la com a sua repentina aparição.
— Kira…kun?
Ao contrário do previsível, ela o olha horrorizada, afastando-se bruscamente do loiro, encarando-o com o rosto lavado em lágrimas. Estava assustada com o real que, para ela, aquela alucinação era. Achando que tinha ficado louca definitivamente. Kira sorriu discreto, era impróprio, mas não deixava de ter piada a sua expressão em vê-lo.
— Sou eu, Hinamori-san. O capitão Kurotsuchi conseguiu curar meus ferimentos, não me pergunte como, nem eu sei… e confesso que tenho algum receio em descobrir. Os experimentos do taichou são suspeitos, mas até podem ter bons resultados de vez enquanto. Está vendo?
Enquanto elaborava seu monólogo entretido, Izuru abriu o kimono, revelando as cicatrizes por todo o seu tronco. Também tinha algumas queimaduras superficiais junto da pele que tinha sido cosida.
O espanto de Momo o deixou ligeiramente encabulado por estar parcialmente despido. Ela amara dois capitães apreciados pela constituição física, ele era discreto. Não tinha uma característica que o fizesse destacar. Com a linha de seus pensamentos, coçava a nuca, nervoso.
Ignorando de todo os pensamentos de Kira, Hinamori ainda receosa, aproximou-se com a mão estendida no ar, perto de seu peito. Com alguma ousadia e coragem, ela contornou algumas cicatrizes mais salientes, focando principalmente naquela que fora ele o responsável, para a proteger. Ainda num estado submerso, não notou que o tenente arrepiou-se com o seu toque, quase suspirando, motivo que o obrigara a morder o lábio com força discretamente. Estava extremamente envergonhado por seu corpo agir tão perversamente com um singelo e inocente gesto.
— Já acredita que estou vivo?
Novamente, voltou a rir nervoso, tentando esquecer as sensações que o perturbavam.
— Kira-kun.
Perante a confirmação que necessitava, como se fosse um reflexo ela o abraçou forte, não conseguindo esconder o sorriso em seu rosto. Apesar de que havia algo que ainda a perturbava… o motivo que apagou a felicidade em sua expressão.
— Desculpa…
Pediu-lhe perdão repetidas vezes, ele ficou um tanto apreensivo, cogitando que a eventual culpa que esta sentia, remitia-se à luta entre eles. Não colocando a hipótese de ser algo mais profundo.
— Acalme-se Hinamori-san, não fez nada de errado. Você estava tentando me ajudar! Nada aconteceu por sua culpa.
“Gomene”, ela repetia essa palavra a cada dois segundos praticamente sem recuperar o fôlego necessário. Ela estava fraca, possivelmente estava desnutrida. Provavelmente, com um tanto de febre. Isso explicaria a falta de sentido em pedir desculpas tantas vezes, sem o escutar.
Sacudiu os ombros da tenente do quinto esquadrão, tentando despertá-la do transe em que estava presa, estava a começar a ficar deveras preocupado com a sua inexpressividade.
— Doí muito… perceber-se que se perdeu alguém importante quando descobrimos que a amamos. Mesmo não podendo fazer nada para mudar o que aconteceu, eu faria tudo para ter essa oportunidade…- Mesmo o encarando fixamente, seu olhar opaco pelas lembranças fazia crer que ela ainda duvidava parcialmente que Kira realmente tivesse vivo.
No entanto, as circunstâncias não eram totalmente diferentes para o loiro. Ela tinha-se declarado indirectamente? A ele? Como era isso possível? Ela o amava?
Apesar de ficar surpreendido, o choque seguinte não se podia igualar ao primeiro. Todo o corpo enrijeceu, paralisando, quando os lábios húmidos pelas lágrimas tocaram os seus. Nem nos seus melhores sonhos, acreditava que Hinamori tomasse iniciativa, justo com ele… que tinha sido sempre apenas um amigo.
Ele a amava, nunca teve dúvidas. Mas temia que ela não o correspondesse, que aquele gesto fosse devido à carência por o capitão Hitsugaya estar com a oficial Kurosaki, ou pela perda da sua avó de Rukongai. Porém, recordou as palavras antes ditas. Hinamori o amava, sofreu com a sua ausência, o próprio capitão dela notou e lhe contou! Ele não acreditava que ela conseguisse brincar com os seus sentimentos, não depois da cumplicidade que criaram.
Sentindo as pernas amolecerem por estar sob a ponta dos pés para beijar o tenente, Hinamori envolve o pescoço deste com os braços. Ao perceber que não estava a ser correspondida, Momo afastou-se ligeiramente, ela compreendia a posição de Izuru. A sua felicidade por ele estar vivo era forte demais para ela conseguir ficar decepcionada com uma possível rejeição. Perante isso, quase com as testas coladas, ela abriu um sorriso largo…
Um sorriso que há muito não enxergava. Kira não conseguiu duvidar da sua sinceridade com isso.
Uma das mãos que estava em seu pescoço, deslizou para seu ombro. Notando a ausência do calor que ela transmitira, ele a pressionara contra seu peito com um braço, percebeu pela primeira vez, naquele momento, um rubor em sua face.
Ele tentou, mas não conteve a risada. Alisou com o indicador o rosto corado, com algumas madeixas acastanhadas coladas pelo suor e lágrimas de vários dias. Percebeu que este estava ligeiramente maior, de facto, ela estava a falar a sério quando afirmara que o deixaria crescer de novo.
— Kira-kun?
Sem aviso prévio, a beijou. Não foi um toque leve, era mais agressivo… uma exigência que seu corpo há muito desejava, mas sempre fora covarde para ambicionar, para lutar por ela. Inclusive preferiu morrer por Hinamori do que lutar por ela. Estava errado.
Com a mão livre soltou o coque de Momo, permitindo que o cabelo deslizasse para sua palma, só conseguindo segurar uma parte deste.
Era na academia que a vida de um shinigami começava, onde os sonhos floresciam. Kira estava mais certo disso do que nunca.
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