A História de Fátima Rosa
15 Capítulo 15 - Uma noite mal dormida
Notas iniciais

KERIM
Decidi conversar com Munir. Eu detestava continuar a ter contato com aquela gente, mas para ir para longe, de preferência morar em outro país, eu precisaria da ajuda que ele havia oferecido. Estranhei quando me disse que os Yasaran haviam empregado Mustafá, supostamente para silenciá-lo sobre o que acontecera. Eu me dei conta então de que o ex-noivo de Fatmagül poderia ter conseguido meu número de telefone com ele, mas a princípio, Munir negou essa hipótese. No entanto, depois de eu explicar o que acontecera, ele pensou mais um pouco e concluiu que o ex-noivo de Fatmagül poderia ter espionado seu celular quando havia ficado sozinho por algum tempo em seu escritório.
Eu havia trocado o número de meu telefone, mas ainda me preocupava a possibilidade muito provável de Mustafá insistir em encontrar e matar Fatmagül, ainda que Munir assegurasse que os Yasaran pretendiam despachar Mustafá a trabalho para bem longe de modo a evitar problemas. Eu não confiaria em nenhuma promessa que eles fizessem depois do que acontecera, mas ao menos havia algo em nosso favor: obviamente não seria do interesse dos Yasaran que houvesse mais algum escândalo e por isso eu sabia que de fato tentariam manter Mustafá distante.
Ao final de nossa conversa, Munir pediu meu endereço para contato, mas eu preferi não lhe dar, atitude que ele acertadamente avaliou como sendo de desconfiança da minha parte para com ele. Mesmo assim, ele assegurou-me que eu teria todas as condições para sair do país, desde que eu providenciasse o passaporte e os documentos necessários. Pelo visto, não era só Mustafá que eles queriam distante, era a mim também.
Dei umas voltas pela cidade o quanto pude para evitar voltar, mas a noite chegou, começou a chover e eu não poderia mais ficar na rua. Quando cheguei na casa, cuja reforma agora estava bastante adiantada, todos jantavam e ainda antes de entrar vislumbrei o semblante de Fatmagül pela janela. Ela não podia me ver e pude olhá-la longamente, refletindo sobre os sentimentos contraditórios que sua presença me provocava. Minha vida se tornara um inferno tanto pelo que eu fizera como pelo muito que ela, justificadamente, me odiava. Ao seu lado, eu me sentia profundamente culpado e angustiado, o que resultava em um gosto amargo que corroía minha alma por vê-la tão triste.
Mas ao mesmo tempo, eu sentia um profundo desejo de evitar que mais coisas ruins pudessem atingi-la e sabia que no fundo de meu coração, a despeito de tudo que ocorrera entre nós, ainda pulsava por ela aquele mesmo sentimento que me levara a abordá-la na malfadada festa de noivado. Ah, eu daria tudo que pudesse para que houvéssemos nos conhecido de outra forma... Mas infelizmente meus remorsos e minhas boas intenções não teriam o poder de consertar o passado, como o nosso desentendimento daquele dia mais cedo havia demonstrado. Por isso, o melhor que eu poderia fazer agora era incomodá-la o mínimo possível com minha presença. Até que eu pudesse partir definitivamente.
FATMAGÜL
Eu não tinha apetite e quando comia me sentia enjoada, o que levou Mukaddes a me perguntar se eu estava grávida. Aquela possibilidade gelou meu sangue, mas Ebbe Nine disse que isso não aconteceria de forma alguma porque haviam tomado precauções médicas para evitar uma possível gravidez. Dei-me conta de que sequer sabia direito o que acontecera comigo naquele período de inconsciência em que estivera internada e arrependi-me só um pouquinho por tratar Ebbe Nine com frieza, reconhecendo que ao menos ela me acompanhara a maior parte do tempo no hospital, ainda que pudesse ter sido mandada para me vigiar.
Quando acabávamos de jantar, “ele” chegou e anunciou que dormiria no quarto dos fundos, mesmo que o cômodo ainda estivesse sem porta. Ebbe Nine preocupou-se que ele ficasse resfriado, mas ele insistiu e improvisou uma proteção na porta e na janela contra o frio da noite e arrumou um colchão no chão do quarto ainda sem pintar. Ainda bem. Daquela forma, além de me livrar de sua presença, com um pouco de sorte, ele contrairia uma pneumonia ou algo assim.
Mais tarde, enquanto eu estava deitada na cama com meu sobrinho, eu o ouvi indo ao banheiro tomar banho. Depois disso, Ebbe Nine começou a conversar com ele e eu me aproximei da porta para ouvir o que diziam. Ele disse que Mustafá estava trabalhando na empresa dos Yasaran e havia descoberto o seu número do telefone! Mal consegui dormir pensando naquele assunto. E quando o dia amanheceu, decidi que precisaria fazer algo a respeito.
KERIM
“Precisamos conversar.” No dia seguinte bem cedo, Fatmagül veio falar comigo.
“Eu ouvi você conversando com sua mãe.” Ela prosseguiu. “Já sei que Mustafá está procurando por você. Ele vai achar você. E vai te matar.”
Ela começou a chorar e parecia ter tanta certeza do que ele faria... Eu estava especialmente irritadiço em função da noite mal dormida e aquela fé que ela mostrou na capacidade de seu ex-noivo de me enfrentar me incomodou muito, mas eu não disse nada.
“Ele vai se tornar um assassino.” Ela continuou. “E vai ser preso!”.
As lágrimas corriam livremente pelo seu rosto agora e era claro que ela estava exclusivamente preocupada com o que acontecesse com Mustafá.
“Vá embora. Você destruiu minha vida. Não destrua a dele. Não o deixe apodrecer na cadeia.”
Então ela queria que eu a abandonasse para protegê-lo? Nem por um momento passou pela cabeça dela que eu havia me casado com ela principalmente para salvá-la dele? Não aguentei mais e arremessei a ferramenta em minha mão ao chão, desabafando minha raiva e meu ciúme. Sim, eu sentia ciúmes dela, embora não tivesse esse direito.
“Você está implorando por esse sujeito? Está chorando por ele? Ele não ama você como você o ama. Ele lhe deu as costas depois do que aconteceu! Está atrás de você só porque acha que o traiu!”
“Pelo amor de Deus, vá embora!” Ela insistiu.
“Saiba que ele está mesmo disposto a matar. Mas é para limpar sua própria honra, não porque se importa com você. Seu querido Mustafá é apenas um egoísta.”
Sem conseguir suportar continuar a ver em seus olhos tristes o amor que ela ainda sentia pelo noivo, me afastei. Foi quando ela tomou da ferramenta pesada que eu havia jogado ao chão e a lançou em minha direção.
“Quero que você morra!” Ela gritou e depois fugiu ao ver a expressão de fúria em meu rosto que sua atitude provocara.
Meu sangue subiu à cabeça e eu me descontrolei totalmente. Corri em sua direção, disposto a me atracar com ela fisicamente se preciso fosse, mas seu irmão chegou e se interpôs entre nós, pedindo que eu não a fizesse se entristecer ainda mais. Eu parei, contido por Rahmi, e a observei chorando à margem do rio. Fui obrigado a me lembrar mais uma vez do quanto eu era culpado por ela estar naquela situação. Por causa disso, eu precisaria engolir a raiva e aguentar mais um pouco antes de ir embora, por mais difícil que aquilo estivesse se tornando.
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