A História de Fátima Rosa

16 Capítulo 16 - Visita inesperada


Notas iniciais
Bem-vinda(o), espero que goste de conhecer esta história, que é contada a partir do ponto de vista dos dois protagonistas. Para quem conheceu antes a história original, fica a homenagem para que possamos passar mais tempo com esses personagens inesquecíveis.

FATMAGÜL

Ebbe Nine colhia ervas, à beira do rio, com meu sobrinho brincando ao seu lado. A casa agora estava mais organizada e eu tomava um pouco de sol no quintal, enquanto Rahmi e Mukaddes haviam saído para resolver algo relacionado à nossa fazenda e “aquele homem” fora comprar material para algum reparos. Foi quando uma visita inesperada chegou.

“Fatmagül, preciso falar com você!”

Eu não esperaria de modo algum que exatamente aquela pessoa viesse nos procurar.

“Sou Meltem, noiva de Selim Yasaran.”

“Eu sei.” Respondi. “Eu estava na sua festa de noivado.”

Eu não queria falar com ela. Não desejava de modo algum relembrar mais uma vez aquela noite. Já bastava o rosto daquele homem com quem eu havia sido obrigada a me casar me assombrando todos os dias. Por isso me afastei. Mas ela me seguiu e insistia dizendo que precisava saber porque Selim havia sido difamado.

“Diga a verdade!” Ela me pedia.

Eu estava a ponto de despejar toda aquela história sórdida para ela, quando meu irmão e Mukaddes chegaram. Minha cunhada cumprimentou a moça e se postou ao meu lado, dizendo que nos faria companhia enquanto conversássemos. Claro, ela estava preocupada porque preferia que a moça continuasse sem saber o que realmente havia acontecido. Mas eu não precisei decidir se continuaria a conversar ou não com a noiva do Yasaran na frente de Mukaddes. Aquele homem chegou e disse a ela que não precisaria conversar comigo, pois ele tinha todas as respostas de que ela precisava. Lógico, ele era parte daquele esquema desde o início e lutaria para mantê-lo, em favor de seus próprios interesses.

Diante disso tudo, embora eu sentisse uma uma certa piedade pela ignorância da noiva que se casaria com um crápula, deixei que ele se fosse com ela. Depois que ambos foram embora, Mukaddes se mostrou muito nervosa pelo fato de a moça ter nos procurado, dizendo que desse jeito Mustafá também nos encontraria facilmente.

Ebbe Nine, pelo contrário, pareceu curiosamente satisfeita ao saber que a moça havia decidido me procurar.

“Você disse a verdade a ela, Fatmagül? Pois ela tem o direito de saber quem seu noivo é de fato. Ajude-a a não se casar com um canalha.”

Justo ela me dizer tal coisa! A mãe de um deles!

Eu não poderia suportar ouvir isso e calar.

“Eu também me casei com um canalha!” Respondi. “E ninguém me ajudou.”

Mukaddes, que assistia a tudo, resolveu intervir, antes que eu contasse mais.

“Seja grata a quem a ajudou, Fatmagül. Você foi estuprada por quatro Homens! Quem iria se casar com você depois disso? Nós restauramos sua honra! E deixamos tudo para ficar ao seu lado.”

Mukaddes, mais uma vez, não perdia a chance de me rebaixar e de registrar o grande peso que eu era para ela.

“Porque vocês acharam que eu estava impura! Vocês me calaram e agora querem que essa moça continue sem saber de nada!”

“Ele ia matar você, será que não entende?!” Quando Mukaddes retrucou essa frase em tom irritado, chegou a me dar um empurrão, o que me levou a sentir uma onda de ira incontrolável me consumir.

“Pois saiba que eu preferia ter morrido.” Gritei.

“Não percebe que você seria o assunto da cidade? E que ele mataria a todos nós? Sua mal-agradecida!!! ”

Ela continuava a me incomodar, me dando safanões que eu não conseguia revidar por estar um tanto desequilibrada devido ao tornozelo machucado, enquanto Ebbe Nine tentava contê-la. Logo depois, meu irmão chegou e a levou para o quarto.

“Vocês todos deviam me agradecer!” Mukaddes continuava aos brados enquanto meu irmão a conduzia. “Não teriam para onde ir sem mim! E saibam que uma hora dessas não vou aguentar mais e vou embora com meu filho de uma vez por todas!”

Ebbe Nine permaneceu ao meu lado por algum tempo, tentando me dizer palavras de conforto. Mais tarde, meu irmão também veio conversar comigo, me consolando, enquanto também me pedia que eu fosse paciente com Mukaddes ou ela nos abandonaria. E eu senti muita pena, mais por causa dele do que por mim mesma.

KERIM

Meltem havia encontrado nosso endereço após seguir Munir, na ocasião em que ele havia se encontrando com o irmão e a cunhada de Fatmagül para negociar a venda de sua fazenda. Eu estava disposto a contar ao menos parte da verdade para ela, assim começaria a acabar com aquele pesadelo. Disse-lhe que Fatmagül havia sido abandonada pelo noivo e que eu havia decidido me casar com ela para que não ficasse desamparada. Mas eu lhe disse também que de início eu não havia tomado essa iniciativa por livre espontânea vontade. Quando eu ia começar a contar ela sobre toda a trama montada pelos Yasaran que culminara em nosso casamento, Munir chegou e nos interrompeu. Imaginei que ele devia ter sido alertado por Mukaddes de que eu havia saído para conversar com a noiva de Selim Yasaran.

Não houve como eu contar mais nada a ela naquele momento, mas ao menos tive o prazer de dizer ao Munir que havia contado toda a verdade sobre o que acontecera com Selim quando ele nos perguntou sobre o que estávamos convefsando. Ele ficou consternado, mas logo Meltem comentou que agora estava mais tranquila por ter certeza de que a participação de Selim no que acontecera com Fatmagül não passara de um lamentável mal-entendido.

Mesmo após Munir estar presente, eu poderia ter insistido em dizer o restante da verdade a ela, mas me pareceu que mais do ninguém ela queria acreditar na história que contava a si mesma. Assim, achei por bem deixar tudo como estava, ao menos por enquanto. Que ambos fossem felizes para sempre...

FATMAGÜL

A esposa do, Sr. Ibrahim, o proprietário da casa, veio nos visitar. Emren, seu filho, gentilmente nos trouxe peixes que havia pescado. Infelizmente eles deveriam ter ouvido o barulho da discussão de Mukaddes comigo, o que devia ter lhes causado uma péssima impressão. Preparei o café para todos e o constrangimento inicial diminuiu. Quando foram embora, eles disseram que viriam mais vezes. De modo geral, eu me sentia pouco á vontade diante de estranhos nos primeiros contatos, porém a calidez do gesto de nossos vizinhos me fez algum bem, em meio áquele dia difícil.

Após eles irem embora, Ebbe Nine insistiu energicamente em cuidar do meu pé, a despeito dos comentários de Mukaddes reclamando que a imobilização de meu tornozelo era agora apenas um pretexto para eu não ajudar em casa. Como se eu não fizesse nada, mesmo mancando! Eu não estava muito acostumada a ser cuidada por ninguém depois que perdera meus pais, exceto por meu irmão e depois por Mustafá, por isso precisei reconhecer o quanto a mãe “dele” vinha tentando ser gentil comigo, a despeito de minha rejeição a sua pessoa. Decidi que estava sendo injusta com ela e permiti que cuidasse de meu tornozelo, que de fato estava doendo muito. Ela preparou e aqueceu um cataplasma e aplicou no inchaço que aumentara nas últimas horas, massageando firmemente o local, que logo melhorou. Pena que não houvesse um cataplasma que pudesse ser aplicado ao coração...

KERIM

Quando voltei para casa, reclamei com a cunhada de Fatmagül por não ter me avisado de seu encontro com Munir. Desse jeito, como ficariam seguros quando eu fosse embora? Disse-lhe que ela precisava me avisar de tudo que fossem fazer ou eu não me responsabilizaria pelas possíveis consequências, como acontecera agora. Depois disso, quando entrei na casa, Ebbe Nine, que estava cuidando do pé de Fatmagül, me perguntou como fora minha conversa com a noiva de Selim. Eu respondi que havia esclarecido as condições do casamento e ela ficou aparentemente aliviada, enquanto Fatmagül se afastou com uma expressão inequivocamente enojada. Aquela farsa fazia mais mal a ela do que a qualquer outra pessoa, infelizmente. Pelo visto, ela não havia dito a verdade apenas porque fora interrompida, como acontecera comigo.

Depois disso, Ebbe Nine continuou me pressionando a falar mais sobre o que havia ocorrido, parecendo de novo não estar conformada com a versão oficial dos fatos, enquanto eu desconversava e lhe dava meu novo número de celular. Ela me perguntou porque os Yasaran havia ajudado Mustafá e eu lhe expliquei que a intenção deles, segundo Munir, fora enviá-lo para longe de Istambul, a trabalho.

“Todos vão se dar bem no final. Todos vão para algum lugar. Apenas Fatmagül ficará por aqui com sua dor.” Disse Ebbe Nine com tristeza.

Ela sempre teve esse dom de fazer alguém ver a verdade e se envergonhar por estar agindo errado. Talvez porque fosse uma pessoa tão íntegra. Fato é que eu me senti tão culpado quanto me sentia quando era criança e ela me flagrava fazendo algo que não devia. Mas agora o caso não era tão simples.

“O que acha que devo fazer então, Ebbe Nine?”

Ainda que eu fosse responsável por tudo aquilo ter acontecido com Fatmagül, precisaria ir embora: já que ela me odiava tanto, o melhor era não ficar ao seu lado, como ela mesma havia me pedido.

“Você estragou a vida dela. Não é justo que se vá. Fique e cuide dela. Trate-a com paciência e gentileza. Ela não tem ninguém. Seja alguém para ela.”

O tom firme e suave de minha mãe parecia transmitir o que meu coração desejava fazer. Mas minha cabeça sabia que não poderia ser assim.

“Não poderei ficar por muito tempo. E no mais, mantive minha palavra e me casei com ela. Estou ajudando a organizar a sua casa para que fique ao lado de sua família. Ela não estará só.”

“Será que você não percebeu ainda como a cunhada a trata mal? Como não a deixa se esquecer por um segundo do que aconteceu? Não entende que o irmão dela não consegue enfrentar a esposa?”

Sim, eu sabia. Mas como poderia mudar isso tudo se ela não me permitia sequer me aproximar dela para conversar?

“Quanto tempo acha que ela vai aguentar? Por quanto tempo sua mãe aguentou? Não vá embora. Não permita que essa moça também tenha esse destino. Se ela perdoar você, você também vai ser capaz de se perdoar.”

Nisso Ebbe Nine estava errada. Eu sabia que eu nunca conseguiria me perdoar, enquanto vivesse, não importa o que acontecesse...

Notas finais
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