A História dos Selvagens - Parte 1 - Medo
17 Lucas: Uma bagagem pesada
Eu e Tatiane fomos para casa de Metrô. Quando chegamos na estação, eu perguntei a ela:
_Por que você não chama seu pai pra te dar uma carona, ou algo do tipo?
_Se você está fazendo essa pergunta pelo fato de meus pais parecerem ricos..._ Ela começou.
_E são._ Eu a interrompi.
Ela suspirou.
_Olha eu não gosto de sair por aí falando para todo mundo que meus pais são "influentes"._ Ela disse com a cabeça baixa.
_Por que não?_ Indaguei.
_As pessoas me tratam diferente quando sabem disso. Pensam que eu sou uma garota cheia de frescuras, que por qualquer coisa, reclama com os pais.
Eu assenti, pensando em como aquilo podia ser difícil.
_É mais ou menos como... sempre ter alguém pra fazer tudo por você, mesmo sem você querer._ Falei, franzindo a testa. _Certo?
Ela me olhou, admirada.
_Sim._ Ela abriu um grande sorriso. _Você é a primeira pessoa que eu conheço que entende como é isso.
Franzi a testa de novo.
_Nem seus pais te entendem?
Ela soltou um risinho debochado.
_As novelas e os filmes pode ser uma completa mentira, mas tem uma coisa na qual acertaram em cheio: todos os pais que são importantes pra sociedade, nunca tem tempo pra falar com os filhos.
Eu assenti e suspirei.
_Todos nós temos problemas com nossos pais.
Ela assentiu, e depois perguntou:
_Qual o seu? Ou, os seus?
Eu fiz uma careta.
_Meus pais tiveram certos problemas no relacionamento quando eu era criança._ Eu esperei por uma interrupção da parte dela, mas isso não aconteceu. _Eles vivem brigando e falando mal um do outro pelas costas.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
_Você deve ser o mais inteligente da sua sala._ Ela disse.
Eu não pude deixar de rir.
_Com todo o respeito, mas não é tão difícil ser o mais inteligente numa escola pública._ Falei.
Ela deu de ombros.
_Eu daria tudo pra estudar em uma. Na minha escola só tem garotos que se acham o tal, e meninas que não estão nem aí para nada nem pra ninguém.
Eu fiz uma careta.
_A escola pública não é a melhor coisa do mundo também. A maioria ali só quer saber de alcançar um nível de "popularidade" maior.
Ela riu.
_Ainda acho que faria mais o meu estilo.
Nós rimos um pouco, e depois ficamos em silêncio por alguns minutos.
_Por que você acha que a mãe-natureza nos escolheu?_ Perguntou ela.
Eu tive que pensar antes de responder.
_Talvez por causa das nossas dificuldades, talvez pelas nossas qualidades._ Dei de ombros. _Não sei ao certo.
Ela ficou olhando pro nada por alguns instantes.
_E por que ela apareceu só pra você?
Fiz uma careta.
_Como eu vou saber?_ Falei. _Talvez ela apareça para você e para o Vitor em algum momento.
Eu esperei que aquela fosse a última pergunta, mas ela fez outra:
_Você acha que cada um de nós representa um deles?
Eu suspirei.
_Não sei. Acho que é bem difícil. Até porque, foi a mãe de Fernando que nos escolheu, e foi você quem sonhou com ela.
_Bem, ela disse que vocês eram parecidos._ Disse ela fazendo uma careta. _Então, acho que é possível que eu e Vitor sejamos parecidos com Letícia e Felipe.
Eu assenti, concordando. Mas ainda tinha algo que estava me incomodando. Se tinha algo que eu sabia, é que a família de Fernando guardava segredos. O Governo aposentou um cara só pra ele não ficar totalmente perdido, pois sabe-se lá o quê aconteceu com os pais dele. A impressão que eu tinha, é que os pais não haviam simplesmente largado ele e fugido. Alguma coisa fez com que a mãe e o pai se separassem e, por algum motivo, o bebê ficou sozinho. A hipótese que se formava na minha cabeça, era que algo parecido do que aconteceu com os pais de Vitor, aconteceu aos pais de Fernando.
A viagem até minha casa foi tranquila. Eu desembarquei antes da Tatiane, e dez minutos depois, estava em casa.
Tatiane ficou com um comportamento estranho no trem. Ficou de cabeça baixa o tempo todo, tamborilava os dedos na perna nervosamente e falava baixinho algo que eu não conseguia entender. Quando eu tentava falar com ela, ela falava com a voz mais fina do que realmente era para não ser incomodada. Era perturbador ver ela assim.
Quando eu cheguei em casa, a primeira coisa que notei era o som da minha mãe fungando, como se estivesse chorando. Eu franzi a testa e fui direto para o quarto. Minha mãe estava sentada na cama, com uma caixa a seus pés. Segurava algo, e olhava para aquilo com uma expressão de saudade. Realmente, parecia que estava prestes a chorar.
_Mãe, você está bem?_ Perguntei.
Ela se assustou. Colocou o que estava segurando dentro da caixa, se levantou e esboçou um sorriso. Depois, ela respondeu:
_Sim, só estava arrumando nossas coisas para a viagem.
Era óbvio que não era só aquilo que estava acontecendo, mas não dei importância aquilo naquele momento. Ela perguntou:
_Como que foi lá?
Eu ponderei se devia ou não falar para ela o que havia acontecido na casa de Vitor.
_Depois falamos sobre isso._ Eu disse por fim.
Ela assentiu, esboçou mais um sorriso, e foi pra cozinha, esfregando os olhos com as mãos.
Rapidamente, me sentei na cama e peguei o que ela havia jogado lá. Era um porta-retratos com uma foto antiga. Nela, estávamos eu, meu pai e minha mãe no Pão de Açúcar. Eu lembrava desse dia. Eu tinha apenas cinco anos. Lembro de ter ficado espantado com a grandeza do mar. Foi nesse dia em que eu aprendi a respeitar a natureza. Meus pais pareciam tão felizes naquele dia. Nem parecia que iam se separar alguns meses depois. Me perguntei como mudanças como aquela podiam ocorrer tão depressa.
Eu franzi a testa, com uma pequena hipótese (que me fez sorrir) se formando na minha cabeça.
Se minha mãe estava olhando para aquilo quase chorando, significava que sentia saudades de dias como aqueles. O que significava que ela sentia saudades do meu pai.
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