Notas iniciais
Esse é o penúltimo capítulo desta PARTE da história. O último capítulo eu vou postar semana que vem. Enfim, espero que gostem!

Os dias que se seguiram foram uma tortura para nós. Parecia que o mundo queria que o dilúvio caísse sobre nós. Não parou de chover por um minuto sequer, e não tínhamos abrigo. Além disso, todos nós estávamos muito abalados com o que havia acontecido na última cidade. E, pra piorar, o plano de nos reabestecer de suprimentos foi um completo desastre graças aos Revolucionários. Ou seja, estávamos sem comida.

_Esses Revolucionários..._ Falou Felipe. _parecem que estão bem mais desesperados do que aparentam, não é?

Eu balancei a cabeça negativamente.

_Acho que a palavra não é "desesperados"._ Falei.

_E qual é?_ Perguntou Letícia.

_"Impacientes"._ Respondi, o que criou uma dúvida em minha cabeça, mas eu não dei atenção a ela.

Em nenhum momento nós encontramos os Revolucionários, o que, obviamente, foi um alívio. O que eles eram capazes de fazer me assustava. E o motivo pelo qual eles estavam fazendo aquilo podia ser bem mais perturbador. Eu não conseguia parar de pensar que o Líder deles era apenas um cara não muito mais velho do que eu. Tinha, no máximo, dezoito anos.

As dúvidas se amontoavam na minha cabeça, e eu sabia que a mesma coisa estava acontecendo com os meus amigos. Eu esperava que o Governo tivesse as respostas.

Eu sabia que não podíamos dormir por dois motivos. Estávamos sem comida e os Revolucionários podiam estar perto ou se aproximando de nós. Talvez, se aquilo fosse mesmo verdade, teriam nos alcançado antes mesmo de sairmos da cidade, mas não podíamos arriscar.

No dia em que chegamos ao Governo, a chuva parou. Letícia olhou para o céu e perguntou:

_Bom presságio?

_Talvez._ Resmungou Felipe. _Mas sugiro que não tenha tantas esperanças.

Sinceramente, esperança era uma coisa que eu não podia deixar de ter naquele momento.

O Governo ficava num lugar bem isolado, quase um deserto. Não havia um sinal de vida para onde quer que se olhasse. As únicas coisas que eu via de diferente era a estrada pela qual viemos e o próprio Governo. Por sinal, ele é enorme. Não tinha tanta altura, tinha no máximo três andares, mas era incrivelmente amplo.

_Pra que esse lugar precisa ser tão grande e ficar tão isolado?_ Perguntou Letícia.

Eu dei de ombros.

_Acho que ele precisa ser grande, já que tem que resolver os grandes problemas da população._ Falei.

_E precisa ficar isolado para que ninguém venha reclamar de coisas pequenas._ Acrescentou Felipe. _Imagine se alguém viesse só para reclamar de um salário atrasado ou algo do tipo? Nunca que eles teriam tempo para resolver as coisas que realmente importam.

Eu assenti. Fomos para a porta. A cada passo que eu dava, meu coração parecia bater mais forte. Por que eu estava tão nervoso? Esse era meu objetivo e eu consegui ele. Devia estar me sentindo feliz, não nervoso. Mas, a verdade, é que eu sabia muito bem o porquê de estar me sentindo daquele jeito. Se foi o Governo que me levou até meu pai adotivo, eles deviam saber alguma coisa sobre meus pais de verdade.

A porta era feita de metal, e era corrediça. Uma campainha estava do lado direito dela. Eu a apertei. Após alguns segundos, uma voz masculina disse:

_Se identifiquem.

Eu me apresentei e depois apresentei meus amigos. Houve alguns segundos de silêncio quando eu termine de falar, e depois, a porta se abriu. Dois homens usando uma roupa verde (a cor do exército), cada um com uma metralhadora nas mãos, estavam do outro lado. Um deles tinha o cabelo raso e olhos castanhos, e o outro tinha o cabelo quase caindo aos ombros e os olhos cor de mel. Eles nos fitaram, as armas abaixadas, porém a postura deixando claro de que não estavam relaxados.

_Meu nome é Leonardo._ Se apresentou o cara do cabelo raso. _E esse é Henrique._ Ele apontou para o cara ao seu lado. _Por que estão aqui?

Eu e meus amigos nos entreolhamos.

_Soubemos que vocês estão sequestrando eco sobreviventes para trabalharem pra vocês._ Falei.

Eles assentiram, e eu continuei:

_Queremos nos voluntariar.

Foi a vez dos soldados de se entreolharem. Então, Leonardo chamou uma garota e deu instruções a ela. A garota também usava verde, só que num tom mais claro. Depois que terminou de dar instruções a ela, Leonardo disse:

_Essa é a Jaqueline. Ela vai mostrar aonde vocês vão trabalhar, onde vão comer, e onde vão dormir._ Jaqueline começou a andar, e Leonardo fez um sinal para a gente fazer o mesmo. Nós começamos a seguir Jaqueline.

Ela tinha cabelos castanhos encaracolados e olhos cor de mel. Havia algumas cicatrizes em seus braços. Com certeza, ela era do exército. Eu decidi tentar ser amigável:

_Oi._ Comecei. _Meu nome é Fernando e esses são...

_Eu sei muito bem quem vocês são._ Ela interrompeu, secamente.

Eu franzi a testa, olhando para Felipe. Ele fez uma cara como se dissesse: "Todos os soldados são assim. Veja só meu pai, por exemplo."

_Bem, então pulemos a parte das apresentações..._ Falei. _e conversemos sobre nossos objetivos.

_Eu ouvi vocês falando o motivo pelo qual estão aqui._ Ela respondeu no mesmo tom seco de antes.

Eu assenti, olhando para Felipe, esperando transmitir um pedido de ajuda. Ele suspirou e disse:

_Os soldados não trabalham para o Governo?_ Jaqueline assentiu. _Então, por que usam roupas verdes ao invés de roupas brancas?

Ela fez uma careta.

_Os que usam branco são só as pessoas que trabalham o tempo todo no Governo, como os cientistas. Os soldados trabalham para ajudar as pessoas de uma cidade, caso haja alguma calamidade ou algo do tipo.

Eu assenti, mas ainda não entendia uma coisa.

_Por que você usa um tom de verde mais claro do que o dos outros soldados?_ Perguntei.

_Eu sou da classe mais baixa do exército._ Ela respondeu. _Os tons mais escuras ficam com os generais e coisa do tipo.

Letícia fez uma careta.

_Por que você é da classe mais baixa?_ Perguntou.

_Porque só há dois meses que eu estou no exército.

Dobramos alguns corredores em silêncio. Fiquei observando os detalhes. Em cada corredor, haviam salas à esquerda e à direita. Eram muitas pessoas andando pelos corredores também. Eu soube na hora que não poderia andar cinco minutos sozinho naquele lugar, pois eu me perderia facilmente.

_Há quanto tempo que está aqui, no Governo?_ Perguntei à Jaqueline.

Ela deu de ombros antes de responder:

_Desde que eu nasci. Meus pais trabalhavam aqui. Meu pai era soldado, e minha mãe era médica.

Eu assenti.

_E o que aconteceu com eles?

Ela suspirou, e eu soube imediatamente o que ela falaria.

_Eles morreram durante uma calamidade. Meu pai estava salvando pessoas dentro de uma casa incendiada, mas não conseguiu sair a tempo. Quanto a minha mãe, ela ficou doente enquanto tratava de crianças desse mesmo incêndio, e acabou morrendo.

O silêncio foi inevitável. Não tinha uma resposta para aquilo que não parecesse apenas palavras vazias e sem emoções. Qualquer coisa que poderia me acontecer jamais seria tão horrível, comparado ao que aconteceu com aquela garota. Eu pigarreei, querendo mudar de assunto o mais rápido possível:

_Vocês não deviam ter confiscado nossas armas ou algo do tipo?

Ela deu um risinho.

_Mesmo que vocês fossem conspiradores perigosos, nunca teriam como vencer, sozinhos, o exército do Governo.

Eu assenti. Ela parou de repente, e nós fizemos o mesmo. Ela mostrou uma porta para nós. Na porta, estava escrito "M.E.D.O.". Eu franzi a testa.

_Aqui é onde vocês vão trabalhar._ Falou Jaqueline.

_Por que essa palavra está escrita na porta?_ Perguntou Felipe.

Ela fez uma careta.

_É uma abreviação em outro idioma. Que coincidentemente é igual a uma palavra do nosso._ Eu fiquei me perguntando qual outro idioma seria aquele. _Vocês vão fazer relatórios e é aqui que eles serão colocados. Nós estudaremos seu estilo de vida. Vocês tem alguma outra maneira de fazer um relatório que não seja com papel?

Eu assenti, lembrando do gravador que eu tinha na mochila.

Depois disso, Jaqueline nos levou para conhecer o refeitório e o nosso quarto.No quarto tinha duas beliches, um banheiro e uma geladeira.

_Bem-vindos ao Governo._ Disse Jaqueline. _Nosso líder provavelmente vai querer conhecer vocês. Até que isso aconteça, se comportem e sintam-se em casa._ Então ela saiu e fechou a porta.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

_Uau!_ Felipe quebrou o silêncio. _Isso foi bem direto.

Eu e Letícia assentimos.

_O que fazemos agora?_ Indagou Letícia.

Suspirei.

_Ela disse para fazermos um relatório._ Eu peguei o gravador da mochila. _É isso que eu vou fazer.

Então, essa é a história de como eu cheguei ao Governo. Tenho a impressão de que essa história, na verdade, não está acabada. Até porque, o nosso objetivo ainda não foi alcançado. Viemos até aqui atrás de respostas, e não vamos sair daqui até consegui-las. Provavelmente vou gravar outra fita para contar o nosso progresso. Isso, claro, se sobrevivermos.