A História de Nós Dois
11 O Casebre
Notas iniciais

Cap 11 — O casebre
A cada dia o outono se tornava mais gelado, anunciando que o inverno viria rigoroso naquele ano de 1813.
O fim de tarde se aproximava, ao longe se ouvia o apito da fábrica anunciando o fim daquele dia cansativo de trabalho. Pelos portões, operários saíam rumo ás suas casas enchendo as ruas do bairro, até que escurecesse, o local estaria totalmente vazio e silencioso. Permaneceriam apenas os moradores locais.
A revolução industrial, que aquecia a economia européia e mudava a vida de toda a população era a cada dia uma realidade mais consolidada. Um caminho sem volta. Trabalhadores trocavam seu suor por um salário, em jornadas de trabalho cansativas junto a máquinas, motores á vapor, caldeiras. Tudo em nome do progresso e do avanço econômico. De um lado o trabalhador, o povo. De outro, os poderosos, os donos de indústrias.
E um dos maiores eram os Bloedorn.
Mas o primogênito e herdeiro estava agora bem longe daquela posição social privilegiada.
Milo aproveitava o que ainda havia de luminosidade solar para terminar de pregar as últimas telhas. No alto do telhado, martelava com força se equilibrando sobre um caibro de sustentação para não ir parar em plena sala junto com as telhas. Lá dentro, Camus acendia o fogão de ferro á lenha. Além de ser o local de preparo das refeições, era também a "lareira" improvisada. O fogão possuía também uma caldeira para água quente, que poderia ser usada para cozinhar ou para ser usada no banho. As brasa manteria a pequena casa aquecida, já que não havia nem mesmo calefação.
Aliás, o casebre era mesmo precário. Apenas dois cômodos, um era uma sala convertida em cozinha, onde além do fogão de ferro havia uma pequena mesa para comerem e um sofá bastante velho. O outro cômodo era um quarto, com um guarda roupas, uma cômoda com espelho e uma cama muito antiga com o dossel quebrado. O assoalho de madeira bastante envelhecido rangia quando pisavam e os cupins comiam a parca mobilia. Não havia banheiro ou lavabo dentro de casa. O mictório ficava do lado de fora e era comum a todos os vizinhos, um pequeno cubículo mal-cheiroso. No canto do quarto, um enorme tacho de bronze servia por lavatório, fato que revoltou Milo
— Eu não posso me banhar nisso, não caibo nessa coisa!
O loiro reclamava descendo do telhado e ponderando com Camus sobre a questão do banho
— Se acalme, amanhã vamos ao centro da cidade e compramos o que falta. Com as economias que temos podemos comprar uma banheira grande e também madeira para consertarmos a cama. Fora comida, sabão...ou o que mais precisarmos.
Camus se mantinha sereno, havia conseguido fazer uma boa brasa, no entanto nada havia para cozinhar.
— Camus, onde vamos enfiar uma banheira dentro dessa casa? A banheira entra e nós saímos?
O ruivo acabou rindo, a impaciência de Milo era mesmo cômica e lhe rendia umas expressões engraçadas
— Não, ange. Podemos deixá-la de pé em um cantinho do quarto. Vamos dar um jeito, não se preocupe. O que acha de ir buscar algo para eu pôr nessa panela?
Mais calmo e depois de dar um beijo em Camus, Milo saiu no intuito de trazer algo de comer para ele e seu amor. Enquanto caminhava pela rua, o loiro sentiu-se pesaroso por tirar Camus de uma vida abastada, de luxo e conforto para dar-lhe uma vida tão miserável, em um casebre que nem onde tomar um banho tinha. Nem aquecimento para o rigoroso inverno que chegava, nem uma cama decente para dormir.
Olhava a fábrica com suas chaminés altas jorrando fumaça, funcionando a pleno vapor, gerando mais bilhões e bilhões para as contas de sua familia. Sua herança, tudo aquilo lhe pertencia. Mas ao mesmo tempo nada daquilo era dele, mas sim de seu pai. Sua realidade agora era outra, a dele e a de Camus.
Logo eles, que tinham tudo do bom e do melhor.
Milo pensou em sua casa em Greenford, a enorme mansão era confortável, quentinha e com todos os luxos que alguém bem nascido poderia querer. Uma bela cama, uma banheira de louça pintada á mão, lareira e calefação em toda a casa, mobiliários de madeira nobre, amplos jardins de verão e de inverno, entre outras coisas.
Mas nada daquilo teria qualquer significado sem Camus. Nada daquilo o faria feliz sem seu amor. Era preferivel uma casinha humilde, mas com liberdade para amar.
Intuitivamente, enquanto olhava o fogo Camus pensava o mesmo.
Havia deixado para trás o conforto da chácara em que vivia, onde não precisava fazer nada. A comida sempre quente e bem feita na mesa, suas roupas sempre bem lavadas, o conforto de seu quarto e sua cama, ou da biblioteca e sua imponência. Mas não estava saudoso na verdade de nada daquilo, pois desde o dia em que Milo entrou em sua vida, todas as outras coisas se tornaram detalhes insignificantes.
E ele não tardou a voltar, chegando com pães, um pedaço de queijo, um de carne, alguns legumes, sal e azeite.
— Ótimo! Conseguiu comprar bastante coisa ange. Farei uma bela sopa com isso — o ruivo animou-se, já descascando batatas, cenouras, cebolas...
— Nossa primeira refeição na nossa casa. Sabe Camyu...eu estou emocionado, sonhei muito com isso
— Eu também, esperei muito esse momento
Camus largou a faca para dar um beijo longo e apaixonado em Milo, que retribuiu enlaçando o amado pela cintura e lhe beijando mais.
Com a sopa pronta, os dois jantaram, a lamparina iluminava o ambiente que era humilde, mas um nome mais forte sobressaía e era o que eles sentiam naquele momento
Liberdade.
A noite avançava cada vez mais gélida.
O fogão de ferro era insuficiente para aquecer todo o ambiente, se não quisessem passar a noite tremendo de frio, deveriam se aquecer um no outro. E foi o que fizeram, os dois foram para a cama e se aninharam um no outro sob as cobertas. Bem coladinhos, não tardaram a começar a se beijar, vagarosamente. Terem seus corpos colados e nada fazer era quase impossível, o simples fato de sentir o corpo um do outro já era o suficiente para o desejo subir pelo sangue, despertando a libido e fazendo arrepiar.
As mãos de Milo passeavam pelo corpo de Camus ainda por cima das roupas, e este já enlaçava o namorado com as pernas, enquanto lhe acariciava os cabelos amarelos. Por cima, Milo começou a mexer os quadris lentamente, fazendo um roçar de corpos que excitava. Desejoso por mais daquilo, Camus acompanhava os movimentos mesmo estando por baixo, sentindo seu sexo acordar e retesar, preso dentro da calça. O mesmo ocorria com Milo, e logo as duas espadas rígidas se encontraram, ainda que debaixo das vestes, podiam senti-las duras como duas barras de ferro.
O frio agora era uma realidade apenas lá fora, do lado de dentro dois corpos queimavam bem mais que a brasa no fogão de ferro.
Se livraram das poucas roupas que inda vestiam, deixando que seus corpos nus ficassem visíveis. Era a segunda vez que podiam se ver nus em pelo, Milo e Camus admiravam um ao outro. Os músculos definidos de Milo, o corpo delgado e esculpido de Camus, se olhavam com fome, com luxúria e desejo. Se lançaram nos braços um do outro, lábios, mãos, cabelos, tudo se misturava num balé erótico e quente.
Os dois sexos, agora nús, podiam se encontrar sem interferências. Pele com pele, roçavam se esfregando. Glande, falo, testículos, pêlos pubianos. Tudo se misturava. Milo pegou os dois e juntou entre as mãos, fazendo Camus gemer. Com movimentos delicados, porém ágeis, masturbou ambos ao mesmo tempo. Com as bocas bem próximas, os lábios colaram, as línguas se acariciando por vezes á mostra completavam aquele quadro erótico, que faria até mesmo Eros corar.
Quando estavam se amando, ambos entravam em um estado de êxtase e loucura que estava totalmente fora de seus estados normais de consciência. Era como se viajassem para outro plano, outra realidade. Onde apenas os dois e o amor pudessem existir.
A esta altura Camus já havia perdido qualquer medo ou receio, estava tão entregue que revelava seu lado mais quente, e o ruivo possuía uma faceta erótica tão intensa que nem ele mesmo se reconhecia. Juntou suas mãos ás de Milo, masturbando junto. Logo deteve o falo do loiro em sua mão, ao passo que Milo segurou o do ruivo e ambos masturbavam vigorosamente um ao outro, isso sem descolar os corpos e os lábios um do outro. Se beijavam o tempo inteiro. Voltaram a esfregar lentamente os falos e os testículos, mexendo os quadris. Por vezes entre um beijo e outro um sorriso se desenhava nos lábios, o prazer era tão intenso que os fazia sorrir.
Parando um pouco de mexer, Milo abraçou Camus mais forte, lhe deu um beijo intenso e em seguida sussurrou com a voz grossa e sexy
— Vou te ensinar mais uma lição, Camyu. Preste bem atenção, meu anjo..
O loiro passou a abaixar-se lentamente, deixando beijinhos e lambidas pelo peito alvo, descendo pelo abdome definido até encarar frente á frente o sexo rígido e pulsante, emoldurado com pêlos avermelhados que desciam até os testículos que eram levemente rosados e bem redondos. Camus gemeu só de pensar o que Milo faria ali.
Milo permitiu que seus lábios escorregassem pelo falo de Camus, desde a glande, engolindo o máximo que pudesse suportar. Camus liberou um gemido alto, enquanto Milo felava lentamente seu amado, deixando sua saliva banhar todo aquele membro, sentindo cada veia, cada parte desde a base até a glande, que ele lambia com carinho. Afastou um pouco os pêlos vermelhos e voltou a tomar quase todo na boca, Milo lançou seu olhar para cima, afim de ver a expressão de Camus e vislumbrou o rosto de seu amado resplandecendo prazer, a boca rosada entreaberta, os olhos fechados e as sobrancelhas franzindo cada vez que um novo gemido saía pela boca.
Camus já havia recebido aquela carícia por bocas femininas, mas nada se comparava ao que Milo lhe dava naquele momento. Diferente das mulheres que faziam apenas para agradá-lo, Milo fazia porque tinha prazer naquilo, porque gostava, porque era bom. Ao mesmo tempo que chupava, o loiro se masturbava, mantendo seu falo ereto.
Depois de lavar o sexo do seu amor e dar a ele longos minutos de prazer em sua boca, Milo voltou pelo mesmo caminho, subindo e deixando uma nova trilha de beijos e lambidas. Seus lábios foram recebidos pelos de Camus em um beijo ávido, forte e luxurioso. Era como se o ruivo agradecesse pelo prazer que havia recebido. Ele agarrava a nuca do loiro, apertava seu corpo contra o dele com loucura, se esfregando, enlouquecendo. Não sabia se beijava ou se gemia, queria fazer as duas coisas juntas. Camus estava fora de si, o desejo já o havia dominado por completo.
Sem mais esperar, mostrou ser um bom aluno e repetiu o gesto do primeiro, se perdendo naquela musculatura perfeitamente definida, rígida, forrada por fina penúgem loirinha que engrossava á medida que descia, sentia os braços e mãos fortes lhe acariciando os fios vermelhos e incentivando. Camus vislumbrou o falo á sua frente, emoldurado por pêlos um pouco mais escuros, surgia dalí o falo grosso, acompanhado de testículos volumosos e veias saltadas. Primeiro passou a língua naquela escultura erótica, fazendo Milo gemer. Começou a experimentar devagar, o sabor de sexo invadiu o corpo alvo e ao deixar que aquele mastro escorregasse para dentro de sua boca, sentiu um prazer até então desconhecido.
Camus percebeu que dar aquela carícia era tão delicioso quanto recebê-la, e fez, assim como Milo, com muita vontade, lambendo, chupando, sorvendo o máximo que podia. Enfiar aquilo tudo na boca era impossível, mas engolia o máximo que podia, fazendo Milo jogar a cabeça para trás e gemer de prazer. Ao mesmo tempo que Camus sentia o sexo de Milo pulsar em sua boca, sentia o seu pulsar em suas mãos, enquanto o masturbava. Era uma sensação maravilhosa, mas era apenas a primeira da noite que mal começava.
— Apenas começamos a brincar, anjo. Venha...
Milo sussurrou novamente, puxando seu amor para cima e tomando sua boca. Agora ambos traziam o sabor um do outro nos lábios e se beijavam misturando seus sabores, a ponto de os lábios ficarem inchados, úmidos, vermelhos. Enquanto se beijavam, Milo já mostrava o que desejava do amado, acariciando seu bumbum branquinho, até achar a entradinha que almejava possuir mais uma vez. Umedeceu o indicador e passou a massagear a região com carinho.
Camus deitou-se confortávelmente, apenas algumas velas iluminavam o quarto mas era o suficiente para poderem ver detalhadamente um ao outro. Abriu bem as pernas e puxou seus testículos para cima, fazendo aparecer totalmente o buraquinho rosado abaixo deles. Milo continuou massageando e estimulando o local, ao mesmo tempo em que Camus se masturbava, estimulando-se. O ruivo fechou os olhos, se entregando aquela sensação maravilhosa, estimulando seu sexo ao mesmo tempo em que era tocado e massageado logo abaixo. Milo beijava seus lábios, apimentando ainda mais a brincadeira.
Estavam prontos, Camus se abriu ainda mais e recebeu dentro de si o falo úmido do seu amor. Um gemido alto marcou o quarto quando a glande do loiro lhe rompeu outra vez, mas logo a dor foi superada pelo prazer. Se encaravam, os olhos transmitiam paixão, desejo. Das bocas saíam gemidos, os quadris de Milo iam e vinham, entrava e saía vigorosamente numa dança sensual. Os cabelos loiros escorriam pelas costas largas, caíam nos olhos. Os cabelos vermelhos se espalhavam pelos travesseiros. Os dois corpos dançavam horizontalmente entre gemidos, sussurros, palavras eróticas em francês
— Ohhh collez mon cul, amour!
— Uhhh ton cul est délicieux, ange!
— Ohh!! Quel savoureux, coller plus..uhh!
Camus sentiu o prazer do orgasmo lhe chegar lancinante, em meio a espasmos, sendo penetrado ao mesmo tempo que se masturbava, jorrou seu sêmem sobre os próprio abdome, gemendo alto com o rosto jogado para trás. Apenas quem experimentava sabia o quão maravilhoso era gozar com um mastro grosso enterrado em si, Camus não desejava mais outra vida.
Milo retirou-se dele, e gozou em seguida jorrando também sobre o abdome do ruivo, misturando seu sêmem ao dele, lavando a pele alva com o líquido branco que se espalhava. Ainda gemendo e sentindo ondas de prazer correrem em seu corpo, Milo juntou os dois falos melados e os masturbou juntos. Camus mordeu os lábios e ajudou o amado, incentivando aqueles movimentos. Para eles não havia porque parar após o orgasmo, ele não significava um fim, mas uma continuação. Os corações ainda estavam acelerados, os corpos permaneciam quentes, Milo puxou Camus para si, não iriam parar ainda.
Milo deitou-se e Camus sentou confortávelmente no sexo do amado, deixando ele voltar novamente para onde estava. Agora a penetração estava mais fácil e indolor, o ruivo estava perfeitamente dilatado e começou a cavalgar, rebolando, subindo e descendo. Era gracioso vê-lo em movimentos tão eróticos, os fios vermelhos balançavam, no rosto a expressão de pleno prazer. Arqueou o corpo para trás, subindo e descendo, o sexo rígido balançava. Milo o tomou nas mãos para estimular seu amado enquanto esse lhe dava prazer com sua dança luxuriosa, naquele rebolado cadenciado. Não se apoiava nos joelhos, mas estava de cócoras para ficar ainda mais aberto e ter uma penetração mais funda.
— Danse sur ma pipe, mon ange...ohhh!!
— Uhh si delicieux, éjaculer en moi mon amour..humm
Milo atendeu o pedido do amado e se derramou dentro dele, gozando outra vez e preenchendo a cavidade com sêmem quente. Mais algumas reboladas no falo pulsante do loiro e Camus também gozou, dessa vez lavando o abdome de Milo com o líquido viscoso que vertia em jatos enquanto o ruivinho gemia de prazer.
Milo deitou Camus na cama, a passou a encher de beijos aquele corpo quente que lhe dera tanto prazer. Camus sorria e se deliciava com os lábios de seu amado passeando por cada centímetro da sua pele branquinha. Ainda havia sêmem no abdome de Camus, e Milo lambeu tudinho, deixando limpinho. Depois disso os lábios novamente se encontraram, com os corpos coladinhos, se esfregando lentamente, se beijavam sentindo ainda calor do prazer e o bem estar pós sexo o envolverem numa sensação gostosa de preguiça e desejo.
Quando se juntavam carnalmente, Milo e Camus se tornavam apenas um ser, apenas uma alma.
Naquela noite o amor aqueceu o velho casebre, a cama, os corpos. Ainda se amaram mais e adormeceram nus, colados um ao outro.
**
Milo despertou tateando a cama á procura do seu ruivo, mas não achou o corpo que pertenceu á ele na noite passada.
Levantou-se com calma, vestiu as calças e encontrou quem procurava já de pé, com a brasa do fogão acesa no preparo de um café fresco. Milo o agarrou por trás, afundando o rosto no pescoço e cabelos rubros, aspirando aquele cheiro bom
— Humm...Camyu seu cheiro é tão gostoso
Camus se virou, tomando a boca do amado em um beijo e devolvendo o elogio
Apesar de Camus saber a língua local, decidiram permanecer se comunicando em francês quando estivessem a sós. Milo adorava o idioma e também queria retribuir o fato de Camus abrir mão de viver em seu país para viver no dele.
— O seu também, ange. Principalmente ao acordar — sorriu sentindo o corpo do loiro junto ao seu e o beijando mais
Camus adorou observar o quão aéreo Milo ficava ao acordar. Seus movimentos eram lentos, os cabelos despenteados e as olheiras eram aos olhos de quem o amava um charme especial.
— Você fica tão fofo, lerdo, parece perdido — Camus riu e Milo também — seu corpo fica quente e é gostoso te beijar assim.
E o beijou mais, oferecendo café e pão em seguida. Fizeram o desjejum juntos, conversando e se olhando. Os dois ainda flertavam, mesmo já estando juntos. Era como se o flerte tivesse virado um hábito que não conseguiam largar, mesmo estando a sós.
Depois disso, usaram a banheira que cobre para um banho, e se vestiram com suas pesadas casacas, sairiam para comprar as outras coisas que faltavam.
Milo buscou em uma pequena maleta algo que fez Camus se assustar: eram duas armas de fogo.
— Pegue, guarde uma com você.
— Uma arma? Vamos andar armados? Milo, pra que isso?
Camus perguntava confuso, apesar de saber atirar muito bem.
— Camus, Londres é uma cidade perigosa. Acima de tudo para pessoas como nós. Nossa fama certamente já correu todo esse lugar, todos sabem quem somos. Seremos rechaçados, tomados como sodomitas, pecadores por sermos o que somos. — Milo falava sério e Camus entendeu a gravidade daquela situação — temos que nos defender, principalmente quando andarmos sozinhos.
E ele tinha razão, todos já sabiam que Garret e Bloedorn eram um casal de homens vivendo juntos. Para a sociedade da época, uma fato inaceitável. Porém, felizmente já existiam alguns poucos possuidores de bom senso e livres de preconceitos.
Camus pegou uma das armas e guardou dentro da casaca. Milo fez o mesmo e ambos saíram lado a lado, caminhando.
Compraram tudo o que precisavam e de fato notaram olhares pouco amigáveis todo o tempo. Cochichos em toda parte, eram observados de perto. Apesar de não haver veículos de comunicação poderosos ainda, era impressionante como as coisas se espalhavam rápido, apenas no boca a boca.
Mas o casal havia decidido andar de cabeça erguida, não iriam abaixar o olhar para ninguém, em momento algum. Não responderiam a provocações, apenas ignorariam quais quer que fossem. Eles estavam acima de todo aquele preconceito, e sabiam disso.
**
Os primeiros dias no casebre haviam passado, Milo e Camus passavam boa parte do dia á procura de trabalho, e o resto do tempo ficavam juntos. Viviam harmônicamente, estavam felizes e sentiam-se livres podendo viver plenamente o amor, como tanto almejaram.
Era gostosa a vida á dois, como um casamento ainda que informalmente, para eles eram casados. O compromisso que assumiram no dia em que embarcaram naquele trem tinha mais peso do que uma cerimônia de casamento. Na verdade, naquela tarde houve sim um casamento, mas não o que todos esperavam, mas um outro casamento, á bordo de um trem em fuga, dois corações juraram amor e fidelidade. Não haviam alianças, certidões e a liturgia foi sacramentada por eles mesmos, não com palavras ou sermões, mas com ações. Uma cerimônia onde os noivos não precisaram da autorização do padre para darem o primeiro beijo, mas se beijavam a todo tempo, jurando amor tendo como padrinho apenas o vento e como música de fundo o barulho do trem.
O casebre agora abrigava os recém casados, numa lua de mel que já durava dias e duraria muitos outros ainda.
Terminaram de jantar, mais uma vez Camus havia mostrado que tinha surpreendentes dotes culinários. Resultado dos longos anos no mar, o Tenente sempre gostou de frequentar a cozinha do navio e preparar ele mesmo a comida da tripulação. Cozinhar era para Camus uma distração prazerosa, assim como ler. Havia naquela tarde alguns miúdos de porco e feijões brancos, da panela saiu o clássico prato francês, o cassoulet. Milo cobriu seu amor de elogios, não apenas porque o amava e queria motivá-lo, mas porque realmente havia ficado dígno de deuses!
Após o jantar, ficaram por alí por perto do fogo, olhando o crepitar dos gravetos e da lenha que aquecia o ambiente quando batidas fortes na porta romperam a calma e encheram o ar de uma estranha tensão. Milo teve um pressentimento ruim e o coração de Camus se agitou além do que ele gostaria.
Ao abrir a porta, Richard e Gerrard os encaravam.
Os dois mais velhos correram o olho pelo casebre humilde antes mesmo de entrarem. Milo os convidou educadamente, sabia que não haveriam abraços ou qualquer clima que fosse diferente daquela tensão, daquela pressão que a presença deles causava. Camus apenas observava os mais velhos, com sua postura austera e sem nada dizer. Estavam em seu território e o ruivo não toleraria qualquer ofensa.
— Então é aqui que se escondem?
Richard falou firme, encarando o filho
— Não nos escondemos, esta casa, inclusive, é uma das que agora lhe pertence
Milo o encarou, sereno porém sério. Richard não gostou da segurança que percebeu nos dois mais novos. Eles se mostravam firmes, decididos, com as cabeças erguidas e nada temerosos.
— Camus, eu vim lhe buscar. Vamos voltar agora mesmo para a Fr...
— Perdeu seu tempo pai — o mais novo o interrompeu — vá embora, não vou a lugar algum.
— Eu disse que não permitiria que desonrassem nossos nomes. Vocês nos envergonharam, envergonharam suas famílias!
Richard mostrou discretamente que estava armado, vendo o gesto do pai, Milo não se conteve e sua serenidade se foi dando lugar a sua fúria
— Vai nos matar? Então faça de uma vez! Faça o que tem que fazer, senhor Bloedorn!
Richard trincou os dentes de raiva, queria mesmo acabar com tudo aquilo mas não tinha coragem para tanto. Mas não deixaria barato a afronta de seu primogênito. Camus e Gerrard observavam a discussão dos Bloedorn.
— Eu não sujaria minhas mãos com o sangue de vocês, mas se decidiram brincar de casinha, saibam que não vai ser fácil! Pra começar, quero que deixem esta casa, sumam daqui!!
Richard espumava e Milo outra vez não deixaria por menos
— Evidente. Eu não esperava do senhor atitude menos covarde. Nos colocar na rua deverá fazer bem ao seu ego doente e inflado pelo poder. Que triste meu próprio pai se tornou. Bendito deja Deus, que levou minha mãe sem que ela pudesse ver tamanha crueldade!
Quando Milo tocou no nome de Catherine, que para Richard era sagrado, foi o estopim para que o mais velho perdesse a cabeça e lançasse sua mão no rosto do filho em um sonoro tapa. Mal terminou o gesto e uma outra mão sobrevinha sobre ele, mas foi segura no ar.
A mão de Camus, pronta no revide á agressão sofrida por Milo iria em direção ao rosto de Richard. Mesmo sendo parado, Camus advertiu.
— Nunca mais toque nele, senhor Bloedorn.
A voz grossa do ruivo saiu acompanhada de um olhar cortante e ameaçador, lançado no mais profundo da alma de Richard, fazendo o mais velho temer. Camus conseguia rivalizar com Richard á altura.
— Ah não? E o que pretende fazer? Ele significa mesmo algo pra você a ponto de ter abandonado minha filha? — Richard perguntava com tom desafiador, segurando o braço de Camus, que logo se soltou em um movimento brusco
— Não queira pagar pra ver, senhor. Quanto a ele, é o homem que eu amo e ninguém vai tocar nele. Eu abandonei sua filha, mas estou ao lado do seu filho por amor.
Milo estremeceu com aquela declaração de amor tão ousada diante de seu pai, sentiu seu coração aquecer e seu amor pelo ruivo gritar, mas precisava frear os dois.
— Deixa Camus... bate aqui agora, pai. Estou lhe oferecendo a minha outra face. O senhor pode me espancar, pode me matar, mas não vai arrancar de mim o amor que eu sinto. Eu não me importo com seus insultos e nem com seu dinheiro.
O gesto de Milo fez Camus engolir á seco e Richard se afundar num misto de vergonha e raiva. Seu filho lhe oferecia a outra face, mostrando que jamais revidaria ou seria capaz de um ato igual. Por mais que Richard tentasse não enxergar, o que via diante de si eram dois homens que realmente se amavam, e aquele amor brilhava mais do que todo ouro ou fortuna que ele pudesse calcular. Era poderoso demais para ir contra.
— Por favor, Richard. Deixe-os ficarem aqui, eu lhe peço em nome de nossa amizade de tão longa data.
Finalmente Gerrard falava e a favor do casal que se mostrava irredutível. Não chamaria mais Camus de filho, mas também não suportaria ver seu caçula na sarjeta. Gerrard também percebeu que era inútil lutar contra os mais novos.
Richard ponderou e aceitou o apelo do amigo
— Está certo, farei apenas pela amizade entre nossas familias. Vocês poderão ficar aqui nesse...lugar — disse fazendo um ar de nojo ao falar do casebre — mas terão que honrar cada aluguel na data correta, não tolerarei qualquer atraso. E terá que trabalhar, Milo, pois da minha fortuna não verá um só centavo. Estarei mudando meu testamento hoje mesmo, e lá deixarei tudo para sua irmã. Você não terá direito a nada.
Milo não se abateu com aquela revelação, era algo já esperado. Não se considerava um herdeiro desde que embarcou naquele trem. Saber que ficariam no casebre era sim, um motivo para respirar aliviado.
— Camus, o mesmo vale para você. Quando abandonou sua noiva no altar fazendo nossa familia virar motivo de chacota em toda França você assinou sua sentença. Não terá direito a mais nada e Krest herdará tudo. Se ele se compadecer de você, quem sabe ele te ajude. E na Marinha também não terá mais lugar, seu título de Tenente lhe foi tirado por ordens minhas.
Camus chegou a rir, achando patética toda aquela represália e numa atitude que não era comum a ele, usou de ironia
— Certo senhor Almirante, algo mais? Quer também me tomar as roupas do corpo?
Ele e Milo trocaram um olhar cúmplice e o loiro colocou um ponto final naquele espetáculo deprimente
— Se os senhores já fizeram o que desejavam, podem se retirar por favor. Vão embora e nos deixem em paz.
— Saiam daqui — Camus falava mais olhando para Richard, de quem havia desenvolvido um asco ainda maior — sumam e não voltem nunca mais.
Os dois senhores saíram sem mais nada dizer. Haviam feito o que decidiram e agora só lhes restava esquecer aqueles dois filhos.
Milo e Camus se abraçaram longamente, Camus beijou a face em que Milo levou o tapa
— Ainda dói ange? Nunca mais vou permitir que ele toque em você, nunca mais!
Aquele tapa havia tirado Camus do seu estado de frieza e calma e lhe feito perder um tanto as estribeiras. Ver seu amor ser agredido lhe tirou do sério.
— Não amor, está tudo bem...
— Como pode um homem tão detestável ter feito um filho tão maravilhoso como você? Você não tem nada dele além do azul dos olhos
— Agradeça á Catherine, onde ela estiver!
Milo sorriu e Camus lhe retribuiu o sorriso. Não pôde conhecer sua sogra, mas sentia por ela um amor cálido, pelo simples fato de ter posto Milo no mundo.
Se beijaram decididos a esquecerem aquela noite.
A agressão não doía mais, nem as palavras de ódio podiam mais abalá-los. Nunca abalaram. Fortuna e herança não tinham para Milo e Camus qualquer importância diante daquele amor. O amor era maior do que tudo, ele sim, era intocável e inatingível.
Estavam dispostos a enfrentar qualquer coisa, desde que enfrentassem juntos.
Agora eram não mais o herdeiro e futuro empresário, ou o importante Primeiro Tenente. Agora eram apenas dois homens humildes que precisariam dar duro para sobreviver, ganhando o pão de cada dia na conturbada Londres.
Mas sempre haveria o casebre, para abrigá-los e servir de ninho para aquele amor que se tornava mais forte e mais sólido a cada novo desafio.
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Fichas de personagens:
Afrodite Svensson — 21 anos. Nascido na Suécia, vive em Londres para fazer a faculdade de Biologia. Mora com o avô, dono de uma livraria e o ajuda de vez em quando no empreendimento. Afrodite é um jovem de rara beleza, os cabelos longos e bem loiros são presos com uma fitinha vermelha no meio das costas, o rosto angelical conta com olhos água-marinha e uma charmosa pintinha abaixo do olho esquerdo. É esguio e elegante, sempre muito bem vestido. Possui adoração por flores e plantas, em especial as rosas. Ele cultiva um jardim de rosas nos fundos da livraria e aliado aos estudos são a vida do jovem sueco. Sua vida pacata e tranquila muda com a chegada de Camus, que será contratado pelo senhor Frederich para ajudá-lo na livraria. Dite, como gosta de ser chamado, se encanta pelo jovem francês, porém se frustra ao descobrir que ele é comprometido. Camus oferece á Dite sua amizade, mas o sueco deseja algo mais dele.
Frederich Svensson — 78 anos. O senhor sueco é bonachão e bem humorado. Extremamente culto, inteligente e dono de um vasto conhecimento sobre filosofia, literatura, física, astronomia entre outros assuntos. O senhor baixinho, calvo e de sorriso fácil passa a ser como um pai e conselheiro para Camus, o jovem francês vê em Frederich um exemplo e se encanta com ele e sua livraria. Frederich também se encanta com Camus, que mostra pelos livros e pelo conhecimento um enorme interesse, ao contrário de seu neto Afrodite. Camus e o senhor Svensson desenvolvem uma forte amizade, e o ancião será um grande aliado de Milo e Camus em sua luta.
Julian Taylor — 23 anos. O jovem inglês é filho de uma poderosa e abastada familia aristocrata. Mimado e vaidoso, Julian está acostumado a ter tudo o que deseja. O jovem de cabelos loiros caindo nos ombros e olhos bem verdes e felinos era companheiro de Milo na equipe de polo do jóquei club. Na ocasião, Julian e Milo tiveram um breve envolvimento, porém, Milo logo percebeu que Julian tinha um caráter duvidoso e tratou de se afastar do jovem, a quem passou a desprezar completamente. Agora Milo está de volta á cidade e Julian não irá demorar para descobri-lo. O jovem herdeiro da familia Taylor não irá gostar nada de saber que sua paixão voltou comprometido com outro homem.
Sir Charles Thompson — 56 anos. Charles é um grande admirador de Milo pelo talento que o jovem tem para o polo sobre cavalos. Sir Thompson é um homem refinado e possui um título de nobreza. Administrador e gerente do jóquei clube, se compadece da atual situação do ex jogador e lhe oferece ajuda. Porém esbarra no difícl conflito entre classes sociais, uma vez que Milo não pertence mais a alta sociadade londrina. Sir Thompson ficará dividido entre ajudar alguém que tanto admira e ceder as pressões da burguesia preconceituosa.
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