A História de Nós Dois

21 Noite de Inquietações


Notas iniciais
Olá leitoras! Bem vindas a mais um capítulo de "História" Neste capítulo teremos dois POVs: um do Milo logo no começo e um do Camus no final. Além de estarem em itálico, eu irei sinalizar pra ninguém se perder. Também tem lemon!! Se alguém não curtir é só pular e voltar pra história que segue logo depois. Capítulo betado e revisado ao som de Band of Horses - The Funeral e Bon Iver - Skinny Love Boa leitura!

Cap 21 — Noite de Inquietações

POV Milo


Após cruzar o último portão, me vi em plena rua. Não me atrevi a olhar para trás, mas minha audição me dizia que ninguém havia me seguido. Para minha sorte, Julian havia dado ordens a todos os criados da casa que se recolhessem, com a unica exceção de Sorento. Assim sendo, não havia vigias nem ninguém que guardasse os portões.

A rua estava deserta e fria, com o inverno já começando a esboçar suas mais baixas temperaturas. A casaca da marinha parecia ainda mais pesada do que o normal e não aplacava o frio, que me fez arrepiar e ficar com as pernas trêmulas. Sentia meu corpo fraco e comecei a andar, me esgueirando pelo muro da mansão já por fora. Parei para tossir, levando a mão esquerda ao peito, espremendo os olhos. Foi quando o ouvi.

— Milo!!

Alguém gritava meu nome. Minha reação imediata foi fugir, meu subconsciente me mandava correr de tudo e de todos. Mas eu estava debilitado demais para isso. Ergui a cabeça, olhando de onde vinha a voz e logo o dono dela me alcançou.

Era Afrodite.

Ele me olhava incrédulo e vi em seus olhos uma mistura de susto e felicidade. Ele sorriu, passando meu braço sobre seus ombros para que eu me apoiasse e me mantivesse em pé.


— Por Deus, Milo! Estávamos todos aflitos, mal posso acreditar que te achei! Venha, vamos para minha casa.

Então em poucos passos subimos em uma carruagem que nem mesmo sei de onde saiu e rumamos para a livraria. Assim que sentei-me no assento interno, com Afrodite ao meu lado, desmaiei.


**


Algumas horas antes


Entre muffins, bolinhos com creme e uma caixa de chocolates Cailler*, Dite meditava sobre seu último encontro com Matheo. Lembrava-se de como seu carcamano estava lindo. Até mesmo apanhando de Camus ele não perdia seu charme habitual.

"maledetto...isso não vai ficar assim, carcamano. Essa afronta não vai ficar por isso mesmo.."

A vontade incontrolável de brigar e bater de frente com o italiano escondiam o real desejo de Dite: o de vê-lo. Qualquer desculpa era válida para que pudesse pousar seus olhos sobre aquele italiano com cara de poucos amigos, aquele cigarro insuportável no canto dos lábios e aquele ar de que pode seduzir até a mais carola das mocinhas.

Aquilo deixava Dite louco de raiva, mas ao mesmo tempo louco de desejo.

Os sentimentos se misturavam e se tornavam uma massa desforme de sensações que ele não saberia descrever. Mas uma coisa era fato e era inegável: Matheo era o dono de seus pensamentos, Dite já não pensava em outra coisa.

Então pulou da cama, deixando a bandeja de guloseimas que eram até então sua companhia para ir vestir-se. Colocou sua mais linda e vistosa roupa, que consistia em um longo sobretudo roxo escuro, adornado com detalhes dourados. Calças e longas botas negras que iam além dos joelhos e por baixo da casaca uma camisa marfim com um lindo broche de safiras abaixo do pescoço. Prendeu seus fios platinados no meio das costas por uma fita negra de cetim, deixando fios despretensiosos caindo soltos nos olhos.
Beliscou as próprias bochechas

"porque não um pouco de blush?"

Passou a pasta avermelhada na ponta dos dedos e realçou as maçãs do rosto batendo levemente, deixando o pigmento apenas o suficiente para estar corado sem estar envergonhado.
Estava magnífico!

Desceu as escadas feliz, quase saltitante e então repreendeu-se internamente

"oras, não fique tão feliz Afrodite Svensson!! Você só vai ver aquele carcamano, ninguém mais."

Chamou uma carruagem e seguiu para o Hotel George, que ironicamente, era muito próximo do palacete da familia Taylor. Ao descer da carruagem na porta do hotel, ao longe a figura de um homem loiro, trajando uma farda da Royal Navy, apoiando-se nas paredes de um muro.

"aqueles longos cabelos loiros, aquela farda.....aquele...não pode ser...Milo!!"

Dite deixou de lado o que faria no hotel e foi direto em socorro de Milo. Ao aproximar-se e vê-lo de perto, não restavam dúvidas. Gritou seu nome, chamando a atenção do outro que o olhou primeiro assustado, ameaçando fugir e em seguida aliviado em perceber que era alguém conhecido.

E lá estavam Milo e Afrodite, dois homens que um dia haviam rivalizado, haviam se provocado e declaradamente não se gostavam. Mas muitas coisas haviam mudado no coração de Dite, ele já não era mais o mesmo daquela tarde de chá em que provocou seu rival tentando seduzir Camus diante dele.
Ajudar Milo era a forma que a vida havia encontrado de fazer Afrodite se redimir.

Seria seu pedido de perdão.

**

— Meu avô!! Meu avô! Ajude-nos!!

O velho Svensson desceu as escadas em sobressalto pelo chamado aflito do neto e o viu entrar apoiando Milo sobre o próprio corpo.
O avô se assustou com a capacidade do neto de carregar um homem de 1,86 cm. Mesmo debilitado, Milo era um homem alto e pesado, mas Dite era surpreendentemente forte para ajudá-lo.

— Por Deus, é o Milo!! — o ancião disse, incrédulo

— Não, é a rainha da Inglaterra. Por favor meu avô, me ajude com isso!!

Nem mesmo naquela situação Dite perdia seu humor mordaz, e com a ajuda do avô levou Milo para o segundo andar, para seu quarto e o deitou em sua cama.
Milo estava tão exausto que havia acordado e quando se viu em uma cama, tornou a adormecer, agora mais profundamente. Dite lhe removeu as pesadas botas e a casaca, abriu a gola da camisa e o cobriu. O quarto estava bem aquecido.

— Vamos deixá-lo repousar, ele certamente dormirá a noite toda — ponderou o mais novo

— Mas não vamos avisar o Camus? Ele está desesperado por notícias, imagina o alívio que será saber que Milo está aqui!

— Claro que vamos, mas não agora. Já é muito tarde, deixemos isso para amanhã. Na primeira hora do dia eu mandarei chamar Camus aqui. Agora há algo que eu preciso fazer, meu avô querido.

Dite tinha um meio sorriso nos lábios e o avô entendeu do que se tratava.

— Está certo, vá fazer o que ia fazer e não fez. Eu ficarei atento ao Milo, se ele precisar de algo estarei aqui. Vá tranquilo, filho. Lycka till (boa sorte)*

— Tack! Ännu mer! (Obrigado, até mais)

Dite tinha algo a fazer naquela noite e não deixaria passar a oportunidade. Havia saído para ver seu carcamano e era isso que faria. Milo estava a salvo, e agora era a vez de Dite salvar seu coração.


**


No casebre, a parca luz da lamparina iluminava a banheira de carvalho onde Camus se banhava. A água fria ajudava a relaxar a musculatura tensa. Com parte do corpo imerso na água, bebia um pouco de vinho procurando relaxar ainda mais.

Era a primeira vez que tirava um momento para si mesmo desde o desaparecimento de Milo. Olhava o próprio corpo delgado, forte e envolto em uma pele branca e macia e suspirava ao lembrar das tantas vezes em que aquele corpo já fora a morada de outro corpo. Quantas marcas já haviam ficado naquela pele alva, quantas mordidinhas e vergões já haviam sido depositados em toda parte sobre aquela pele.
Camus acariciou a si mesmo, lembrando de como seu amor o acariciava. Da intensidade de seu toque, do calor intenso dos seus beijos marcando a pele fina, ao mesmo tempo em que as mãos dele se perdiam em seus cabelos vermelhos, por vezes puxando-os levemente e um tanto mais forte quando a paixão queimava a ponto de sobrepor a razão.

Milo era o único no mundo que conhecia aquele Camus nu e entregue. Aquele ruivo que permitia que seus sentidos lhe levassem ao clímax máximo, esquecendo a vergonha, o pudor, o recato e os bons modos.
Não haviam bons modos entre dois homens ardendo de paixão. Havia apenas luxúria e desejo.
Havia apenas amor.

Então sentiu seu coração acelerar e sua respiração ofegar e logo seu corpo reagia. Dentro da água o membro pulsava rígido e saudoso das mãos que o estimulavam com maestria, dos lábios que o provavam como quem prova a mais fina iguaria da mesa de um rei. Dos olhos de azul intenso que o assaltavam no ato da paixão, flagrando e fotografando as expressões de prazer que seu rosto certamente estavam exprimindo, para deleite dele.
Logo a taça de vinho estava ocupando a mão que necessitava usar para estimular-se ainda mais. Pousou a taça ao lado, no chão e em seguida Camus se entregou a si mesmo. Imaginando estar com seu amor ali com ele, se permitiu acariciar-se e estimular-se a ponto de fechar os olhos, pender a cabeça para trás e de seus lábios saíam gemidos baixos, sussurros. Logo os gemidos estavam mais fortes e as carícias mais intensas.
Suas mãos trabalharam ágeis, umedecia os lábios com a língua em uma imagem de sensualidade pura, e mantinha a boca entreaberta para respirar. Parou apenas após explodir, gemendo alto frases em francês e repetindo insistentemente o nome do seu amor com o rosto nublado de prazer. Permitiu derramar-se na água, liberando a seiva da vida que saía de seu corpo


**


Afrodite estava de volta ás portas do Hotel George. Dessa vez aquele carcamano iria ouvi-lo e não haveria fugitivo em apuros que o tirasse de sua missão dessa vez.

Assim que a recepcionista anunciou a chegada do Sr. Svensson, Matheo sentiu seu sangue gelar a correr mais lento em suas veias. Autorizou a subida dele ao quarto, livrou-se rápido do cigarro, espirrando perfume italiano pelo apartamento afim de afastar o cheiro do fumo que Dite detestava. Amarrou com mais força o robe de seda negro que cobria seu corpo e ajeitou rápido os fios diante do espelho.

Estaria bem apresentável aquela hora da noite? Era o que se perguntava. Mas também, quem que ao receber uma visita que chega depois de meia noite estaria tão apresentável?

Dite era a resposta. Ele estaria sempre impecável, fosse a hora que fosse.

E assim estava. Quando Matheo abriu a porta sua boca entreabriu e não foi possível esconder a perplexidade em seus olhos ao constatar: Dite estava simplesmente perfeito.
O cheiro delicioso do perfume fino invadiu o quarto antes que ele passasse do portal. Ao passar por Matheo, fez um floreio com a mão, pousando os dedos no queixo do ex namorado, fechando sua boca.

— Não precisa babar, Matheo. É apenas uma visita... — disse ensaiando um tom blasé

Gaguejando, Matheo fechou a porta e tentou ser ao menos cordial, disfarçando o quanto aquele loiro de olhos claros mexia com as estruturas dele

— Claro...fico feliz que tenha vindo, quer beber alguma coisa?

— Aceito vinho. Quando vai largar este maldito vício pelo cigarro?

Nem todo perfume de Paris faria Dite não perceber que Matheo andara fumando há poucos minutos. O italiano murchou ao constatar que o ex havia notado, e perguntou enquanto lhe esticava o braço com uma taça contendo vinho tinto seco

— Achei que não perceberia. Eu perfumei o quarto...ma Dio Santo, que faro é esse?

— O cheiro não tá no quarto, tá em você seu carcamano — provocou sem perder a compostura, pegando a taça e tomando um primeiro gole.

Em seguida suspirou e calmamente disse o que pretendia, sem gaguejar

— Eu vim aqui pra te dizer que quero que saia da minha vida, de uma vez por todas. Vim dizer que o que um dia existiu entre nós dois ficou em um passado que eu enterrei e não pretendo deixar voltar — disse, tentando reunir todas as suas forças e não se comover com o olhar perdido que Matheo tinha para ele agora.

— Mio amore, não faz assim...

Matheo tentou tocar em Dite, mas este não deixou, esquivando-se delicadamente. Recolheu então sua mão, respirando fundo

— Io te amo — disse em um tom que mais parecia um lamento do que uma declaração de amor

— Não minta pra mim, maledetto. Eu vim até aqui te dar satisfações porque sei que voltou a Londres por minha causa. Pois bem, não perca mais seu precioso tempo com isso.

A voz suave e os olhos brilhantes tentavam convencer Dite daquilo que ele desejava não acreditar. Seria tão mais facil poder apenas virar as costas e partir. Mas algo dentro do sueco não o deixava fazer isso. Algo dentro dele gritava por aquele italiano diante de si. Era o músculo vermelho e insistente que atendia pelo nome de coração. Conhecidamente confuso e detestávelmente traiçoeiro. Mas incansável e com um poder de persuasão que o cérebro, por mais que tentasse, jamais chegaria perto de ter.

— Eu não estou mentindo, mio amore. Desde que eu cheguei aqui fui um idiota, fiz tudo errado. Briguei com aquele francês da mão pesada, só fiz besteira. Dio ma donna!!! Mas eu quero consertar, amore. Eu quero fazer tudo certo, e quero fazer tudo o que eu não fiz

Dite o fitava não mais com os olhos acusadores e duros, mas agora uma névoa de perdão sobrevoava sobre ele. Seu coração pulava e aquele sentimento gritava no peito. Aquela boca diante si...não importava se aquela boca havia fumado, não importava nada. Só importava voltar a perder-se naqueles beijos depois de tantos anos.
E foi o que aconteceu.

Logo a taça de vinho havia sido abandonada e Dite recebeu em sua boca não mais o líquido fermentado de uvas, mas o calor dos lábios do seu italiano. E que beijo....um beijo que o fez perder os sentidos por milésimos de segundos e entender que ainda existia um amor ardendo embaixo daquelas cinzas de mágoa e dor.
O coração quase havia vencido quando cérebro lançou mais uma cartada. Durante o beijo Dite se lembrou das lágrimas derramadas ao ver Matheo ao lado da mulher e filhos, daquela tarde triste onde a verdade veio á tona. Do dia mais infeliz de sua vida.

Empurrou-o, interrompendo o beijo e separando as bocas. Estavam ofegantes.

— Nunca...nunca mais repita isso! Maledetto, desgraçado — dizia trêmulo, escondendo os lábios com a gola da casaca, como se tentasse esconder o quanto seus lábios estavam em festa com aquele contato maravilhoso — eu não vou sofrer tudo de novo, Matheo. Você não vai me fazer derramar outra vez cada uma daquelas lágrimas.

Matheo tentou interromper, mas Dite não deixou. Tinha ainda uma mágoa no peito e ele precisava expurgar aquilo

— Foram dias e mais dias chorando copiosamente. Foram dias trancado no quarto sem sair pra nada. Foram dias em que o coitado do meu avô até médico teve que chamar pra me ver. Porque eu estava definhando, eu estava morrendo. Foram dias em que eu sequei por dentro, sequei de tristeza, de dor. Foram noites chamando seu nome... — tentou segurar o quanto pôde, mas uma lágrima insistiu em rolar, sendo retirada com raiva imediatamente em um movimento rápido — mas eu me levantei. Eu prometi a mim mesmo que eu ia levantar e nunca mais ninguém ia me fazer sofrer daquele jeito. Que nunca mais homem algum nesse mundo veria uma lágrima minha.

Mas ele havia visto. Os dois emudeceram e Dite se deu conta que Matheo havia visto novamente uma lágrima sua. Então, se deu conta de que não poderia prometer o que não tinha como cumprir. Não podia prometer nunca mais chorar, se já estava chorando. Não podia prometer nunca mais amar

Se ainda amava.

E amava muito.

— Io posso te fazer esquecer todos os seus dias de tristeza, minha rosa. Porque eu estou aqui e estou pronto. Eu não tenho mais medo.

Aquela última frase saiu junto com uma expressão doce e um olhar sincero. O olhar mais honesto que Dite já havia visto em Matheo

— Eu odeio você, seu carcamano maledetto...

Depois daquela afirmação, Dite não viu mais nada. Apenas caiu nos braços de seu amor, se permitindo sentir novamente o que um dia lhe fez tão feliz. Matheo tirou cada peça de roupa vagarosamente, despindo sua rosa com cuidado, como quem abria a embalagem da jóia mais cara e refinada do mundo. Admirou o corpo perfeito a medida que ele ia surgindo a cada peça de roupa retirada, corpo perfeito e de pele delicada, macia. O cheiro inebriante de rosa misturado a algum perfume caro vindo de Paris acariciavam o olfato.

Dite puxou-o para si, desamarrando o hobe de seda que revelava o corpo másculo e bem trabalhado do italiano que estava totalmente nu. Dite se arrepiou ante aquela visão, depois de tantos anos, Matheo não havia mudado nada.
O italiano brindou seu amado com beijinhos e caricias por todo o corpo, retirando o que ainda havia de roupa. Nus, suas ereções se encontraram, se roçavam ao mesmo tempo que os beijos ficavam mais e mais intensos. O italiano então preparou o seu amor, descendo beijinhos pelo peito e abdome e encontrando sua ereção já pulsando. Dite arqueou o corpo quando sentiu-se ser sugado com devoção pelos lábios ágeis do seu italiano. Agarrou-se aos seus fios prateados como a lua, regendo os movimentos.

Matheo lavou com a saliva demoradamente aquele falo, parava para admirar aquela escultura que o sueco era, olhava a carne rosada e dura diante de seu rosto, era lindo. E voltava a chupá-lo com fome e loucura. O prazer intenso se desenhava no rosto angelical, para deleite do italiano que assistia a tudo sem tirar os olhos ao mesmo tempo em que "trabalhava" sem parar. Desejava ardentemente sentir seu amor se derramar em sua boca e estava disposto a ir até o fim para isso.

Dite já se agarrava aos cabelos de Matheo com mais e mais força, arqueando o corpo e gemendo em sueco, sua língua natal. Matheo não entendia o que o amado dizia, mas sabia, pelo pulsar daquele membro em sua boca, que era algo sobre prazer, muito prazer.
Intensificou a sucção até que seu amor explodiu, agarrando-se com força a ele, se derramando em sua boca, lançando a lava quente que escorria pelo queixo do italiano, lambuzando a cama.

Feliz e realizado, Matheo assistiu Dite deixar seu corpo repousar mole e relaxado sobre a cama. No ponto certo para agora, ser a sua vez de obter prazer.

— Il mio amore, tornare indietro (meu amor, vire de costas)

O pedido veio em italiano e em tom letárgico e grave, fazendo Dite arrepiar e obedecer imediatamente. Depois do presente que havia recebido, não negaria nada ao seu amado. O corpo ainda quente e mole pelo orgasmo era convidativo e excitante.
Após um beijo grego que deixou toda aquela área no ponto certo, Matheu se encaixou no seu amor. Um urro de dor e uma pausa.

— Fortsätter! (continue)

A ordem veio do sueco que tremia levemente, mas desejava ser tomado pelo homem que amava. Matheo retomou e deixou-se escorregar para dentro do corpo cálido. O movimento dos quadris ficava mais acelerado assim como as respirações. Dite agarrou-se aos cabelos do italiano e espremeu os olhos em uma cálida expressão facial de prazer. Matheo tentava se manter de olhos abertos o máximo que podia, fotografando na mente aquele rosto angelical e perfeito desfigurado pelo êxtase, até que não pôde controlar sua própria explosão, lançando-se em uma onda profunda de prazer lancinante, inundando por dentro o corpo do seu amado.

Desabou sobre a pele clara, deixando o peso descansar sobre ele. Ofegantes e satisfeitos, se mantiveram aninhados os dois amantes, recobrando vagarosamente o fôlego pós-coito.
Dite estava rendido, depois daquela noite de amor não podia negar que o carcamano era seu homem, o homem de sua vida, o homem que ele amava. Mas ao lembrar de todos os anos de sofrimento que amargou, não houve como um suor de insegurança não escorrer por sua fronte, fazendo-o levantar-se rápido, surpreendendo o outro.

— Isso não poderia ter acontecido — levantou, catando suas roupas espalhadas pelo chão

— Dite, mio amore, não fala assim. Aconteceu o que nós dois desejávamos — ponderou, ainda sentado na cama, tapando as partes íntimas com lençol

— Pode ser, mas isso não muda o fato de que você fez o que fez comigo. Você ainda não está pronto, Matheo. Não está pronto pra mim.

Dite vestia com certa pressa suas roupas, tantos botões, adornos e fivelas demoravam para serem recolocados. Matheo ainda permanecia nu entre os lençóis, olhando atônito

— Dite, pare com isso! — a bronca fez o loiro parar e encará-lo, surpreso — eu não viajei de Civita até aqui á toa. Eu vim por você e nós vamos nos acertar, carspitta!!


**


O grito grave e apavorado ecoou na casa em estilo vitoriano. O sr. Svensson saiu da cama e em poucos passos estava no quarto do neto, onde na cama, Milo com um olhar de pavor parecia ter despertado

— Onde eu estou? — perguntou com os olhos azuis arregalados. Os meses de cativeiro haviam deixado Milo arredio e assustado.

— Calma, está na livraria. Na nossa casa, na verdade — disse sentando na cama e espalmando a mão sobre o peito do outro, incentivando-o a deitar de volta — Afrodite o encontrou na rua, muito fraco e debilitado e o trouxe pra cá. Você chegou desacordado, Milo.

Milo tranquilizou a expressão, dando a entender que se lembrava agora do ocorrido

— Obrigado. Eu preciso agradecer a ele por ter me ajudado... — a voz saiu fraca, Milo parecia ter mais a dizer, mas silenciou

— Você deve estar faminto, vou trazer algo para comer agora mesmo!

Milo não negaria comiga no estado em que estava. Na verdade, o simples fato de saber que faria uma refeição decente depois de meses até o emocionava. Logo o ancião reapareceu com uma bandeja e nela um prato de sopa grossa, contendo pedaços de batata, abóbora e lombo de porco. O cheiro era maravilhoso e fez um carinho convidativo ao olfato do acamado. Junto ao prato um pedaço generoso de pão. Milo não fez muita cerimônia e devorou tudo em poucos minutos. Ao terminar, chegou a sorrir de felicidade em poder voltar a comer.

O velho bibliotecário via aquilo satisfeito e ao mesmo tempo sem jeito de finalmente perguntar como, afinal, Milo havia conseguido fugir. Se estava mesmo em poder de Julian e como tudo havia ocorrido.
Mas refreou sua curiosidade. Milo certamente contaria tudo, mas quando Camus estivesse ali, afinal, era o maior interessado. E foi o próprio Milo quem quebrou o silêncio, perguntando sobre seu ruivo

— Sr. Svensson, como está o Camus? Me dê notícias dele, por favor. Eu pretendia ter ido direto para casa mas não obtive forças pra isso — disse em tom de lamento, devolvendo a bandeja agora com o prato vazio e sem o pão.

— Oh ele está bem, na medida do possível. Esteve muito preocupado todo esse tempo. Camus moveu céus e terra para te encontrar Milo, não houve um dia em que ele descansasse. Não houve um dia em que ele não fizesse algo para encontrar você. Eu vi de perto o sofrimento daquele jovem, ele ficará muito feliz assim que souber que está aqui.

Milo abriu um quase sorriso com a força que ainda tinha. Então seu amor havia se preocupado tanto, havia realmente sofrido sua ausência. Ao mesmo tempo, Svensson se perguntava internamente qual seria a surpresa de Milo ao saber sobre Hyoga. Seriam muitas novidades assim que o dia amanhecesse e ele só desejava viver pra assistir tudo aquilo.

— Amanhã na primeira hora mandaremos chamar Camus aqui. Por Deus, ele ficará radiante ao lhe ver! Mal posso esperar e...

O mais velho parou de falar ao ouvir um barulho que vinha do andar de baixo. Milo também silenciou pois também havia notado o ruído. Logo, passos nas escadas e surgiu na porta do quarto um Dite que parecia algo entre cansado, feliz, anestesiado, perdido.

— Dite, onde esteve filho?

— Ah? Por aí vô...Milo, você está melhor?

Dite entrou no quarto e sentou-se na borda da cama, admirando o acamado e pousando as mãos de dedos longos sobre sua testa, num ar de preocupação e cuidado. Aquilo assustou Milo em um primeiro momento, mas logo percebeu que Dite estava meio aéreo, sabe-se lá porque

— Ah sim, estou melhor. Seu avô me deu de comer, me sinto um pouco mais disposto — disse, entre desconfiado e surpreso, afinal, eles nunca haviam sido amigos, muito pelo contrário

— Que bom, que bom. Descanse, você ficará bem acomodado aqui, eu vou para o quarto de hóspedes. Amanhã tudo se resolverá...
Soltou um bocejo após o "resolverá", esticando os braços

— Me perdoe desalojá-lo de seus aposentos Dite, eu sinto muito...

— Tsc..não, não diga isso. Eu fui um idiota com você todo esse tempo, Milo. Veja isso como um pedido honesto de desculpas. É o que posso fazer por você e o Camyu

Os dois trocaram um sorriso amistoso e sincero e se beijaram no rosto, estalando os lábios de forma carinhosa.
Milo observou Dite sair, seguido do avô e acomodou-se na cama. Sabia muito bem o que aquele olhar perdido e aéreo significava. Aquilo era coisa de gente apaixonada.

**


— Morto? Julian está morto? Você tem certeza disso?

Richard mal havia levantado, ainda vestia o hobe sobre o pijama e nem havia feito o desjejum quando um empregado dos Taylor chegou com a notícia. Julian, havia deixado avisado com seus homens de confiança que se algo acontecesse a ele, o primeiro a ser avisado deveria ser o Sr. Bloedorn.

O senhor de idade tinha o senho franzido e um olhar cortante, extremamente sério, digeria aquela informação como quem toma um xarope amargo. Encarava o portador da notícia parado no meio da sala em que o recebera.
Havia sido Milo, e ele sabia. Ninguém precisava dizer, era seu filho e ninguém o conhecia melhor. Richard sabia que se Milo tivesse uma mínima oportunidade, faria. Ele havia avisado, inclusive, a Julian de que Milo o mataria. Parecia ter previsto o futuro.

O rapaz que viera trazer o recado permanecia diante dele, sem muita reação. Certamente esperando uma nova ordem.

— Isso deve ficar em sigilo absoluto — ordenou, firme e áspero — levem o corpo para a funerária e diga a Sorento para tratar dos preparativos para o funeral. Eu mesmo avisarei aos pais. Nenhuma palavra a polícia.

O mais novo assentiu e saiu em seguida, deixando o empresário sentindo um súbito mal estar.

"sua culpa...únicamente sua culpa..."

A frase entoada como um mantra não lhe saía da cabeça. Era tudo realmente culpa dele. Jamais deveria ter dado asas aos devaneios de Julian, deveria ter defendido seu filho, sua cria, fosse como fosse. Mas não, o jogou na "cova dos leões" e aí estava o resultado.

Seu filho matara o leão.

Mas isso não o tranquilizava. Se a polícia entrasse nisso, Milo seria preso.
Arrastou-se até o escritório, se fechando nele. Deu ordens a governanta de não ser incomodado em hipótese alguma.

"sua culpa....únicamente sua culpa"

A voz agora mais alta, lhe turvava os sentidos e lhe atordoava a mente. Estaria delirando? Era o que se perguntava. Abriu a gaveta da escrivaninha de cedro, talhada em detalhes imponentes, retirou de lá o frasco de comprimidos e á seco engoliu um. Lá fora a neve ameaçava dar seus primeiros sinais em flocos ainda pequenos mas dentro do escritório cuja a lareira estava apagada, o frio cortante fez Richard arrepiar.

Precisava acalmar-se. Seu coração estava a ponto de explodir e a cabeça rodava, martelando de dor. Da direção da janela uma intensa luz emanou, o que julgou serem os primeiros raios de sol a incidirem sobre a vidraça. Mas era uma luz ainda mais forte, e não havia sol. Apenas uma nevasca que ameaçava começar e logo pintaria de branco os jardins lá fora.

Então dela saiu branca e pálida, vestida em uma túnica branca como sua pele. Os fios loiros varrendo o chão de tão longos. Os olhos em azul intenso e uma delicadeza na face entre o que era um sorriso doce e sério ao mesmo tempo

— Na...Natássia?

Balbuciou, julgando primeiro ser a filha caçula. Mas logo seus olhos o fizeram enchergar o que realmente viam

— Christine!!!!

Ao constatar que estava diante de sua esposa morta há mais de quinze anos, Richard estremeceu, sentindo o chão lhe faltar sob os pés. Boquiaberto, estava perplexo demais para emitir qualquer som que não fossem baixos grunhidos de pavor.
Então aquela voz era dela.

Ele levou as mãos ao peito, onde costumava sentir as dores. Ela permanecia plácida, com seu sorriso enigmático que não deixava transparecer se era bom ou ruim. Em alguns momentos parecia sorrir feliz e no segundo seguinte parecia um sorriso sarcástico e cruel. A dor sobreveio, insuportável tirando-lhe dos pulmões o ar, o coração falhou uma batida e o preto invadiu a visão, antes turvando e depois cobrindo tudo. A audição foi trocada por um zumbido e finalmente caiu ao chão, desacordado.

A culpa e a dor o haviam suplantado terrivelmente.


**


POV Camus


Acordei nas primeiras horas da manhã gelada de inverno com batidas na porta.

Levantei num sobressalto, a primeira coisa que me veio á mente foi Hyoga. Teria acontecido algo com o petit? Seria Pandora com algum problema? As ameaças de Julian ainda me ferviam a mente e me deixavam em estado de alerta permanente.
Pulei da cama, me recompus rápido vestindo uma túnica de pijama. Eu não poderia atender quem quer que fosse com a fina calça de algodão que tapava parcamente minhas partes íntimas e que eu costumava usar para dormir. Vesti-me ainda com as batidas insistentes ficando mais fortes e então abri.


Do outro lado um pequeno que não teria mais do que doze anos me olhava com um pequeno papel em mãos. Pela sua expressão, entendi sem precisar de explicações que ele desejava moedas em troca do serviço. Entrei, busquei algumas e entreguei a ele, que agradecido sumiu na friagem junto aos primeiros flocos de neve que caíam, marcando a manhã em branco cinzento e gelo.

Fechei a porta rápido, até mesmo para mim que aprecio as baixas temperaturas aquele golpe de ar gelado soou incômodo. Me encolhi, arrepiando um pouco e sorri ao notar a grafia do Dite no papel.

O que será que ele queria comigo de tão urgente? Só de pensar que não era nada com Oga, eu já pude suspirar em alívio.

Abri o papel, lendo a mensagem. Tive que ler e reler, piscando e sentindo meu coração vir á boca, batendo descompassado. Se meu coração não estava me enganando e me fazendo ver coisas, eu havia lido que Milo estava na livraria.

Meu amor havia aparecido e eu desejei explodir como um cometa rumo á livraria para vê-lo.


Me vesti correndo, nem desjejum fiz. Não havia tempo nem vontade de comer, a urgência de vê-lo superava tudo. Calça, camisa, casaca e finalmente as botas que devo ter pego trocadas devido minha pressa. Uma preta e outra marrom. Para minha sorte, um marrom escuro.
Cavalguei como quem corria em busca de um sonho e em poucos minutos venci o trajeto entre nossa casa e a livraria. Entrei ventando no estabelecimento e dei de cara com um Dite que, pelo sorriso aberto, me confirmava o que eu imaginava.


— Ele está lá em cima, no meu quarto

Eu apenas sorri de volta, sem nada dizer e subi as escadas pulando dois degraus de cada vez.

E lá estava ele.

Meu anjo dormia. Seus fios dourados espalhados pelo travesseiro e uma expressão serena, de quem dormia o sono mais tranquilo de sua vida.

Me aproximei e sentei na borda da cama, devagar. Passei minha mão delicadamente em seus cabelos e vi aqueles olhos azuis de mar me fitarem outra vez. Depois de meses.

— Camus...

Sua voz rouca saiu fraca e junto com ela um sorriso que iluminou tudo. Eu olhava pra ele, sem saber se ria ou chorava, sem saber o que falar. Tudo o que consegui foi balbuciar seu nome, com a voz trêmula de emoção. Então ele ergueu o tronco, desencostando-se do travesseiro e nos lançamos nos braços um do outro, em um abraço tão longo e ainda assim insuficiente para exprimir toda saudade que sentíamos.

Então ficamos ali, abraçados longos minutos.


Eu sentia o coração dele e o meu batendo juntos. Nossas respirações também combinadas em um mesmo rítimo. Eu pude sentir novamente o cheiro, o calor, o toque. Eu estava no paraíso quando estava nos braços dele.
Ele havia emagrecido e seus cabelos estavam um tanto mais longos, mas era o mesmo Milo. O homem que eu amava.


Nos descolamos um pouco para que nossos olhos se encontrassem e em seguida nossos lábios. E sem dizer uma só palavra nos beijamos ardente e urgentemente. As mãos dele acariciando minha nuca e minhas costas por baixo dos meus cabelos soltos. A minha mão segurava-lhe o rosto e outra nas costas o trazia mais pra mim.
Me deliciei com a sensação daqueles lábios nos meus outra vez, de provar sua língua em movimentos intensos, sugando devagar e oferecendo a minha em seguida. Minha urgência em sentir o seu gosto outra vez era quase incontrolável.

Nos separamos alguns milímetros para tomar ar, meus olhos nos lábios dele e os dele fechados. Um fio de saliva se esticou entre nossos lábios e então voltamos a uní-los, nos entregando em outro beijo longo e lento.
Eu podia sentir o cheiro dos seus cabelos, da sua pele. O cheiro de perfume longíncuo com alguma essência que parecia calêndula. Eu desejei me embriagar dele.


Palavras não eram necessárias.

Precisávamos apenas sentir um ao outro.

Naquela manhã fria, eu senti meu corpo e meu coração se encherem de calor.



*Cailler é a atual Nestlé. A fábrica de chocolates existe até hoje na Suíça e sua fundação foi em 1819. Podemos dizer aqui que Dite comia chocolates da primeira fábrica da Europa, recém inaugurada.
*lycka till — boa sorte, em sueco
Tack! Ännu mer — obrigado, até mais em sueco

Notas finais
Acho que esse foi um dos finais de capítulo mais fofos que já escrevi. Não sei vocês, mas eu to vomitando arco-íris aqui xD Sobre o que aconteceu ao Richard, fica ao encargo de vocês achar que ele alucinou ou que ele de fato viu sua ex esposa Christine. Há quem acredite que possa haver esse contato com quem se foi, então, deixo isso para cada leitor encarar como quiser. Só o que posso afirmar categóricamente é que: Christine está MORTA. Não há chances de ela estar viva. Guardem isso, ok? Assim como deixei em aberto se o que Natassia teve no dia do casamento foi uma possessão ou xilique de mulher mal comida mesmo. Cada um vai por onde achar mais coerente e de acordo com o que crer. Ah o amor...feito em italiano e em sueco! Amo trocar idiomas na hora do lemon e espero que vocês estejam gostando dessa brincadeira também. (aposto uma paçoca como acharam que o lemon ia ser Milo x Camus)