Notas iniciais
Olá pçoas lindas!! Bem vindas a mais um capitulo de História Vamos abrir com um POV do Camus (eu amo escrever POVs do geladinho) Vai ter limonada e dessa vez não vou apostar nada senão eu perco! A imagem do capitulo já diz tudo, né? Vai ser hard! Lembrando que: POV sempre em itálico quando tiver em itálico e entre aspas, é pensamento. Boa leitura!

Cap 22 — Os Gatos no Telhado


POV Camus


Tinha a certeza de que quando eu morresse e fosse para o paraíso, ainda assim não haveria sensação tão maravilhosa como aquela.

A sensação de sentir aqueles lábios outra vez nos meus, aquele corpo quente outra vez me desejando. Seu calor e seu toque eram tão maravilhosamente envolventes que eu estava a ponto de ceder e me entregar ali mesmo. A saudade era tamanha que não haviam beijos que pudessem suprir a carência que sentíamos um do outro.

Então minha cabeça me chamou á razão, como sempre.

Milo estava ali, mas em que condições? Como ele havia chegado, o que teria acontecido? Me senti culpado porque quando o vi, só desejei beijá-lo, sentir seus lábios nos meus, sentir seu corpo. Mas eu deveria me preocupar com coisas mais sérias antes de tudo. Deveria me preocupar com o que Milo teria passado naqueles dias e não em satisfazer meu apetite sexual. E aqueles meses de cativeiro, que marcas teria deixado no homem que eu amava? Tudo isso diante de mim e eu ávido por sexo? Me senti culpado por pensar mais com a cabeça entre minhas pernas do que com a que está sob o pescoço.

— Milo, amor...espere, precisamos conversar...

Eu balbuciei fraco, com o rosto dele no meu pescoço, ele aspirava meu cheiro com força e me beijava. Ela delicioso, delicioso a ponto de eu estar com meus olhos semi cerrados, mas eu não podia sucumbir ao desejo daquela forma


— Podemos falar depois, anjo. Agora só o que quero é matar a saudade que tenho de você

A voz dele saiu mais firme que a minha. Então o tarado ali não era eu, mas ele! E eu adorava que fosse. Eu me senti desejado como nunca antes e então me despi do meu pudor de uma vez por todas. Se era para ser libidinoso, ah eu sabia ser.

— Então vamos matar a saudade, mon cher. Vamos fazer amor.

Minha voz saiu mais firme dessa vez e vi um sorriso se desenhar naqueles lábios. Sorriso que eu retribuí, como duas crianças prestes a fazer alguma traquinagem, cúmplices em algo que era só nosso.

Ele já estava com quase nada de roupa, apenas a calça fina de algodão e uma camisa. Ele me ajudou a me livrar da casaca e das botas trocadas, rindo ao constatar meu erro. Riso que eu calei com um beijo, me jogando sobre o corpo dele e subindo de uma vez na cama.
Comecei a acariciá-lo por baixo do tecido, Milo estava mais magro, mas eu ainda podia sentir o que sobrara da sua musculatura definida e muito dela ainda estava ali. Os músculos firmes sob a pele clara, ele estava quente por estar debaixo das cobertas. Sentia sua mão deslizando em minhas costas, acariciando meus fios, agarrando minha bunda, me puxando mais pra ele. Nossas bocas estalavam beijos longos, por vezes beijos fora da boca, cujo as línguas dançavam soltas no ar, para os lábios voltarem a colar depois. Nos roçávamos, nossos sexos já eretos se enfrentavam quando esfregávamos um no outro.


Paramos um pouco para retomar o ar e terminar de tirar o que ainda havia de roupa, até ficarmos os dois nus em pelo finalmente. Gemi de prazer ao sentir o corpo de Milo inteiro colado ao meu. Desde a ponta do pé até nossas cabeças unidas em outro beijo, estávamos totalmente colados. Não sabia mais onde ele começava e onde eu terminava, o que era pele minha ou o que era pele dele. Os nossos fios se embolavam também num emaranhado de cabelos vermelhos e amarelos misturados.

Eu permanecia por cima, estava louco para dominá-lo e creio que ele percebeu isso. Além do mais, Milo ainda estava debilitado e eu não sei se ele teria forças para "comandar". Então eu tomei a iniciativa e ele pareceu gostar da ideia, se comodando na cama, separando levemente as pernas abaixo de mim. Passei a beijar seu peitoral com delicadeza, lambendo demoradamente os mamilos rosados que apontavam para o teto. Eu deixava minha língua passear lentamente na pele macia, marcando com chupões e mordidinhas leves que faziam ele arquear as costas e gemer baixinho. Milo gemia e me acariciava os cabelos, a cabeça, me incentivando.

Desci pelo caminho de finos pelinhos loiros que me levou para sua região mais quente, até dar de cara com seu falo ereto diante de meu rosto nada envergonhado.
Lancei pra ele um olhar safado, que ele amava me ver fazer e voltei meus olhos para aquela escultura á minha frente. Um belo mastro em riste, lustroso e lindo, com suas veias saltadas e uma cabeça rosada, quase vermelha assim como sua base. Eu podia sentir o cheiro másculo delicioso que havia naquela parte coberta de pelos. Que saudade eu tava daquele falo enorme e que eu adorava abusar de todas as formas. Lambi algumas vezes primeiro, passando a língua devagar para em seguida colocar em minha boca sem muita delicadeza, engolindo o máximo que eu podia dele. Milo segurava minha cabeça, me cariciando os fios, por vezes puxava de leve. Eu podia sentir o prazer dele na pulsação que aquele falo fazia dentro da minha boca. Eu o chupei com devoção e fome, com paixão. Ouvia ele chamar meu nome, já fraco de prazer, remexendo os quadris devagar.


Uma coisa que acontece não só comigo, mas com pessoas como eu: ruivas. Nós ficamos rosados durante o sexo. Por ter a pele muito clara, fico com a coloração rosada por conta do atrito da pele. Aquela altura eu já estava rosa no pescoço e nos ombros e minha "ferrugem" mais aparente.

Depois de saborear aquela delicia, me ergui para cima dele e Milo passou para minhas mãos um vidro pequeno que ele havia achado no criado mudo do Dite.
Ah Dite, meu amigo, parece que havia pressentido o que poderia acontecer e nos deixou aquele presente.


Derramei um pouco do líquido viscoso como um óleo na entrada no meu amor, o líquido escorreu pela pele rosada daquela região com pelinhos loiros um tanto mais grossos. Passei mais um tanto no meu sexo, a ponto de escorrer. O líquido tinha um cheiro bom.
Apontei para a entrada de Milo e sem esforço me permiti escorregar para dentro dele, que já tinha as pernas bem separadas e os joelhos para cima.

Ele ajudava com as mãos e se abrir ainda mais e eu remexi meu quadril a ponto de me encaixar ainda mais dentro dele. Gemíamos cada vez mais alto, a cada estocada que eu dava, a cama rangia fazendo barulho, mas isso não parecia preocupar Milo nem um pouco. Meu parceiro estava em extase pleno, com seus olhos semi cerrados, falava palavras pouco educadas em minha língua natal e ao mesmo tempo masturbava seu sexo livre.

**

No andar debaixo, na livraria


Afrodite e o avô tentavam atender aos primeiros clientes, mas coraram ao notar a barulheira que vinha de cima. A cama rangia, arrastando-se no assoalho e fazendo barulho em baixo. Os gemidos dos dois amantes, cada vez mais altos, faziam as mocinhas e senhorinhas corarem.
Afrodite então achou que deveria dar alguma satisfação, alguma desculpa que aliviasse aquela saia justa.

— Err...são...são gatos! São nossos gatos no cio queridas, nós da Livraria Svensson pedimos perdão, mas o reino animal é mesmo incontrolável, não?

"Ohh minha nossa senhora dos aflitos, a quem acho que posso enganar? Isso são aqueles dois fazendo amor na minha cama. Gatos no cio, pff!!"

Dite se desculpava com as clientes, se segurando para não gargalhar na cara delas. Enquanto isso, os "gatos" miavam cada vez mais alto e o cio parecia interminável.
Dite o o avô se olhavam, tentando manter a serenidade mesmo com aquela sinfonia de gemidos e rangidos.

**

— Ohhh mon cher! il est si chaud... (ohhh meu querido, isso é tão gostoso) — foi o que eu consegui balbuciar

Eu estava a ponto de atingir o clímax, meus movimentos cada vez mais intensos e fortes, abaixo de mim Milo gemia e seu rosto parecia sorrir de tão satisfeito.


Então me senti ser arremessado para outro mundo. Um mundo onde meus sentidos me foram tirados e apenas um fundo azul celeste existia. E eu boiava no azul, planando no ar, na sensação mais maravilhosa que eu já pude sentir. Sentia correntes elétricas percorrerem meu corpo, partindo do ponto entre minhas pernas e reverberando para minha cabeça. Eu estava tendo espasmos e não conseguia parar de gemer. A medida que meus sentidos voltavam, um zumbido em meu ouvido e minha visão foi voltando. Desabei sobre Milo, eu o havia inundado por dentro, ele sorria feliz e literalmente preenchido por mim.

— Ce fut un plaisir, amour (isso foi tão bom, amor) — ele balbuciou, fraco e feliz

— Je t'aime, Je te veux en moi (eu te amo, quero você em mim) — eu pedi, agora eu o desejava dentro de mim

— Mintenant je veux vous prouver (agora eu irei te provar) — ele sussurrou que agora queria me provar e eu arrepiei com aquela provocação.

Mordi meus lábios e me sentei na cama, deixei meu corpo cair com o toque quente e úmido da sua língua, que começou a passear pelo meu peito lentamente. Milo deixava beijos pelo meu pescoço, descendo pelo meu peito e se demorando ali, lambendo meus mamilos e me fazendo arrepiar. Ao mesmo tempo sua mão ávida masturbava meu falo em riste. Então ele juntou o dele e o meu e masturbou ambos com as mãos, eu mexia os quadris acompanhando os movimentos..oh aquilo tava tão bom!

Ele me untou do mesmo óleo que Dite havia nos deixado, me deitei de ladinho para facilitar pra ele, e ele se encaixou por trás de mim. Senti aquele mastro maravilhoso e quente me penetrar sem cerimônia, levantei minha perna o máximo que conseguia, ele agarrou minha coxa me ajudando a sustentar aquela perna no alto. Ele me estocava com sede e eu jogava a cabeça para trás, afim de alcançar sua boca e colher mais beijos dos seus lábios.

Sentia sua respiração pesada no meu ouvido, lancei um braço para trás e alcancei uma de suas coxas, eu podia sentir a musculatura se movimentando, o corpo de Milo se movimentava com sensualidade, seu quadril mexia de uma forma que já estava me enlouquecendo. Eu olhei para trás e vi se desenhar no rosto de Milo uma expressão de prazer intensa, ele aumentou a pressão dentro de mim e gemeu alto, quase um grito e eu me senti ser inundado por dentro, por jatos e mais jatos de lava quente, ao mesmo tempo que ele estimulava meu sexo abandonado com a mão.
Ficamos caídos, naquela posição de "conchinha", ele por trás de mim, um bom tempo.


Ele não pôde ver por estar atrás de mim, mas eu sorri. Naquele momento se desenhou em meu rosto um sorriso que eu não pude segurar.
Mudamos de posição e eu me deitei no peito dele, como sempre fazíamos.
Deixei minha cabeça repousar em seu peito, ela subia e descia junto com a respiração dele. Sentia em meus fios suas mãos passeando e me acariciando. Seria um sonífero se não houvesse uma pergunta me corroendo internamente. Então a razão voltou, uma vez que meu lado mais carnal havia sido devidamente satisfeito.


— Milo, como se livrou de Julian?

Eu precisava perguntar, eu tinha que saber. Ele haveria fugido? Ou sido libertado? Como havia sido o desfecho daquele pesadelo?
A respiração até então cadenciada pareceu falhar logo após minha pergunta. Eu levantei o rosto para fitá-lo e Milo estava extremamente sério. Me olhava com uma seriedade que poucas vezes vi, mas sua voz saiu serena


— Eu o matei

Então eu fiquei em silêncio, digerindo aquela informação por alguns segundos, olhando para ele igualmente sério. Mas eu não via crueldade nos olhos de Milo. Não foi difícil entender que ele não tinha outra saída. Nos sentamos na cama e enquanto ele me relatava todo o ocorrido na noite da fuga (o jantar, as provocações, as promessas de morte, o pedido por uma noite de amor, a valsa dançada até finalmente o golpe fatal), eu acariciava as mãos dele, pensando como um homem poderia ser tão sujo. Julian era sujo, insolente, invejoso.
Havia ordenado que Milo decidisse entre minha vida ou a dele próprio. Aquele homem era deplorável.


— Você agiu em legítima defesa, você não tinha escolha. Era você ou ele, ou eu. Alguém iria morrer — eu o encarava sério, mas passando confiança. Eu precisava que Milo se sentisse seguro

— Eu matei um homem, Camus. Nada muda isso. Eu agora tenho uma morte nas costas e pagarei por ela

Ele tinha angústia nos olhos. Meu coração se encolheu, e eu que segurava suas mãos, passei a abraçá-lo e a sussurrar no seu ouvido

— Shiiu..não diga isso. Não vai acontecer nada, mon ange. Vai ficar tudo bem.


Eu tentava manter a calma e alguma segurança, mas por dentro eu estava com medo também. Com muito medo. Se Milo voltasse ao cárcere, dessa vez numa prisão acho que não suportaríamos. Nem ele e nem eu.
Ficamos ali um tempo abraçados, o silêncio carregava uma certa angústia e ele tremia levemente.

— Está com frio? — perguntei


— Um pouco...

— Vamos nos limpar e nos vestir então. Vou ao lavabo buscar toalhas úmidas para nós.

Me levantei e vesti ao menos a calça de algodão para ir até o lavabo, saí deixando Milo ainda na cama. No caminho pelo corredor, senti uma rajada do frio invernal atingir meu peito sem camisa e me chamar a razão, me fazendo arrepiar subitamente.


Eu precisava contar a ele sobre Hyoga.

Estranho, mas quando pensei nisso um engulho me veio á garganta e um medo estranho.
Peguei uma toalha grande, molhei numa bacia que tinha água préviamente aquecida e torci. Meus pensamentos vagavam.

E se ele não aceitasse o petit?

E se ele não quisesse ser pai naquele momento?


**


Ainda era cedo, Afrodite havia voltado para o quarto de hóspedes para descansar um pouco mais, passada a confusão com os "gatos no cio", e o avô estava cuidando da livraria naquela manhã gelada.

— Buongiorno senhor!

O Svensson mais velho olhou por cima dos óculos o italiano que entrava animado com um buquê de rosas vermelhas nas mãos.

— Bom dia Matheo. Imagino que sejam para o Dite, acertei? — perguntou, bem humorado guardando um livro em uma estante

— Ah sim, sim! Eu vim até aqui para vê-lo, para ver mia rosa. Onde ele está?

— Está lá em cima. Pode subir, no final da escada pegue o corredor e vire a segunda porta a direita — deu as coordenadas para chegar ao quarto do neto, esquecendo-se de que ele não havia dormido lá.

Matheo ouviu tudo com atenção e animado subiu as escadas, pegando o caminho que havia aprendido. Sonhava em fazer aquele trajeto mais vezes, certamente para estar com seu amor em sua cama. Já se imaginava despertando ao lado dele todas as manhãs, sentindo aquele cheiro gostoso de rosa que ele sempre exalava.
Ao chegar em frente a porta do quarto, suspirou. Deu duas batidinhas fracas e entrou antes que quem estava dentro pudesse responder

— MA DIO SANTO!!!!! O QUE É ISSO??? UM UOMO PELADO!!!!!

— O...oque?? Quem..quem é você??

Milo que estava de pé e juntava suas roupas, estava a ponto de vestir as calças quando a porta se abriu. Imaginando se tratar de Camus, não pensou em esconder suas partes íntimas. Estava totalmente nu e assim ficou, estático, olhando o italiano esbravejar falando alto e gesticulando com os braços para cima.

— Como quem sou eu?? Eu sou o uomo do Afrodite!! E você, quem você é seu carcamano pelado?? Algum tarado?

— Uomo?? O que?? — perguntou confuso com o sotaque italiano que deixava aquele diálogo ainda mais estranho. Pegou um lençol e tapou suas partes entre as pernas, corado de vergonha. Para alivio de Milo, Camus logo surgiu, atraído pelos gritos veio correndo o máximo que pôde

— Matheo!! Calma, não é nada disso que você está pensando...

— MAAAA DIO SANTO! OUTRO PELADO!! AFRODITE, QUER ME VER CORNO E MORTO!!!!! — bradou ao ver o ruivo seminu diante dele. Milo revirou os olhos e Camus interveio

— Calma Matheo! Me ouça, seu namorado não tem nada a ver com isso. Nós só...só usamos a cama dele, pra....

Camus precisava concluir mas ficou sem jeito, até que foi salvo por Afrodite que logo apareceu. De pijamas, pantufas e cara de sono. Milo permanecia olhando confuso toda aquela balbúrdia e se perguntava como uma manhã de amor tão linda poderia terminar naquela confusão.

— Uhhh...que gritaria é essa aqui? Oh, Milo, como está querido? Amanheceu melhor? — quis saber, se dirigindo diretamente a ele e reparando que o loiro escondia as partes com o lençol — uhh pelo que vejo, está bem melhor sim! Camus, amigo, pelo que vejo você e o Milo "dormiram" mais algumas horinhas, hã? E muitos gatos miaram por aqui...

— Gatos? — Camus franziu a testa

— Que gatos? — quis saber Milo

— Errr...nada, nada...gatos na rua, no cio, sabe como é...

Dite piscava maliciosamente, Camus corava ainda mais, Milo tinha cara de quem tava boiando e Matheo pensava em qual pescoço iria pular

— Ma quer me explicar que patifaria é essa, Afrodite? Este bando de uomo na sua cama!!

— Não é "bando de uomo", carspita! — disse, imitando o jeito de falar do namorado — são um casal de amigos. Este você conhece, é o Camus. Aquele é o namorado dele, o Milo.

Milo manteve uma mão segurando o lençol e a outra estendeu a Matheo, que apertou desconfiado

— Er...sou Milo Nickolas Bloedorn, é um prazer...me perdoe toda essa confusão, Matheo. O Dite só queria me ajudar

— Ah sim, então você é o namorado do francês da mão pesada — nesse momento olhou Camus que o encarava com cara de poucos amigos

— Well....vamos deixar os pombinhos se recomporem em paz, carcamano mio. Essas flores são pra mim? São lindas! Vem. vamos tomar nosso desjejum. Meninos, vocês vem? — perguntou um Dite pomposo e animado, já arrastando Matheo pelo braço

— Obrigado, mas eu e Milo ainda precisamos conversar muito. Precisaremos de mais tempo a sós. Não vai se zangar se tomarmos café em outro lugar, vai?

— Ah, claro que não! Vou mandar servir vocês no jardim de rosas — piscou e saiu com Matheo em seguida.

Depois daquilo tudo Dite nem precisou contar que havia reatado com Matheo, noticia que deixou Camus feliz, mas não aplacou o turbilhão interno em que se encontrava. Por conta da notícia sobre a morte de Julian e por não saber como Milo reagiria a Hyoga.

— Então esse é o sujeito por quem Dite se apaixonou? Formam um belo casal — Milo brincou, tentando espantar aquele sentimento de peso que também recaía sobre ele.

Ambos se limparam com as toalhas que Camus trouxe e se vestiram. Quando Camus viu Milo com a farda da marinha, lançou-lhe um sorriso que murchou em seguida quando lembrou do porque de Milo estar vestido daquele jeito

— Então a loucura dele incluía isso. Usar você como um modelo, vestindo-o com um fetiche dele. Esse homem me dá náusea... — disse olhando o fardamento no corpo do amado com tristeza

— Ei, não faça isso. Acabou, ele está morto e isso é só uma farda. Eu não posso tirá-la agora porque eu não tenho outra roupa aqui, mas eu não quero que isso nos traga más lembranças, anjo

Milo segurava o rosto de Camus, ambos se olhavam nos olhos. Camus balançou a cabeça positivamente e um beijo encerrou aquele assunto. Os dois sairam em seguida para o jardim.

**


Milo e Camus sentaram-se frente a frente. Entre eles, duas xícaras de café e alguns brioches que eles nem conseguiam comer, tamanha a ansiedade por aquela conversa. Podiam ver por além da claraboia de vidro no teto a neve que caía lá fora, agora mais pesada. Dentro do jardim aquecido as rosas exalavam protegidas da friagem o seu perfume, misturando-se ao perfume do café fresco, criavam um ambiente confortável.

— Então, o que desejava tanto me contar? — Milo quebrou o silêncio — disse que tinha algo muito importante a me dizer e confesso que com exceção dos nossos momentos mais íntimos, senti você angustiado e temeroso, Camyu. O que aconteceu?

Diante da interrogativa de Milo, Camus sorveu um gole longo de café. Respirou fundo e o encarou nos olhos. Milo sustentava seu olhar, como quem desejava saber finalmente o que Camus tanto tinha para dizer, voltando á ele toda a sua atenção.

— Enquanto você esteve desaparecido, eu conheci um menino. Um garoto, uma criança. Ele tem seis anos e seu nome é Hyoga.

Milo franziu a testa. Como o fato de conhecer uma criança podia angustiar Camus daquele jeito? Ele permaneceu calado, como quem esperasse algo mais daquela história. Percebendo isso, Camus prosseguiu

— Ele é um menino de rua, uma criança orfã e abandonada. Bom, então eu o adotei.

Pronto. Camus sentiu sair dos seus ombros um peso gigantesco e agora apenas encarava Milo, esperando sua reação. Milo piscou algumas vezes, como quem desejava digerir aquela notícia. Levantou a xícara lentamente, levando café á boca e baixou a cabeça. Camus permaneceu mudo, em espera a uma resposta. E aquela espera começou a angustiá-lo. Milo não teria uma reação? O que ele estava fazendo que nada falava? Estava feliz? Triste? Zangado? Quando pensou em abrir a boca para cobrar alguma reação do loiro, ele mesmo quebrou o silêncio

— Camus, porque adotou o garoto? — perguntou, sendo direto. Não em tom acusatório, mas como quem tinha curiosidade

Estava sério e aquele tom preocupou Camus, mas este não demostrou e tentou explicar de forma serena e prática

— Porque se trata de uma criança a quem todos sempre deram as costas. Eu já havia visto o menino numa véspera de Natal há um ano e então voltei a vê-lo a ponto de levar uma sova por conta de uma maçã. Uma maçã que seria para ele a única refeição de todo um dia. Não houve como não me afeiçoar a ele. Oga é doce e inteligente, se parece muito com você

Mais um gole de café aqui e outro lá. Outra vez alguns segundos de silêncio e Milo prosseguiu, como quem procurava as palavras

— Eu entendo que desejou ajudar o pequeno, mas porque adotá-lo, ange? Ainda que eu estivesse desaparecido, sempre imaginei que uma escolha tão importante assim só pudesse ser tomada por nós dois juntos

Camus tentou não usar seu tom mais duro, mas ouvir Milo rejeitar Hyoga daquela forma o ferira por dentro. Respirou fundo para tentar outra vez ponderar em defesa do menino. Pensou que talvez Milo ainda estivesse confuso pelos meses de cativeiro e aquela novidade jogada assim em sua cabeça estava nublando suas ideias

— É claro que o mais sensato seria decidirmos juntos. Mas você não estava, Milo. E eu nem mesmo sabia quando voltaria a vê-lo. Oga precisava de mim e eu o adotei pensando em nós dois, em formarmos com ele uma familia, em sermos a familia que ele sonhava em ter e nós também. Não vê que fiz isso por amor a ele e acima de tudo á você?

Milo então engoliu seco aquelas últimas palavras ao notar o tamanho do ato nobre realizado por seu parceiro. Mas algo dentro dele ainda o deixara inseguro.

— Ele sabe de mim?

— Sabe, eu falei de você pra ele no primeiro dia. Ele sabe que tem dois pais, ele esteve comigo nessa espera angustiante pela sua volta. Ele te espera, tanto quanto eu te esperei, Milo.

Milo pousou a xícara na mesa e esticou a mão, tocando o rosto gélido e sério

— Eu quero amar esse pequeno e ser para ele o pai que você disse que eu seria, meu amor. Mas eu não sei se estou pronto para ser pai agora. Eu tenho medo, Camus...

E então os poucos centímetros entre as bocas foram vencidos e os lábios se beijaram. Camus beijou Milo como quem tentava passar-lhe tranquilidade

— Não tenhas medo, mon cher. É apenas uma criança e não um bicho de sete cabeças. Nós vamos conseguir e dar a ele todo carinho que uma criança deve receber. Eu só preciso que você esteja nisso comigo

Milo roçou outra vez os lábios nos de Camus, estalando um beijo doce e cálido

— Eu entendo. Onde o pequeno está?

Camus explicou á Milo sobre Pandora e as ameaças que Julian fez á vida do menino. Ao ouvir o relato, Milo teria socado a mesa se ela não fosse de vidro. Precisou conter sua ira, passou a mão pelos cabelos, recobrando o ar

— Eu não posso acreditar que aquele miserável fez isso. Como ele te ameaçou?

— Eu fui ao palacete á sua procura, eu sabia que você estava preso lá. Acho que ele se assustou com a minha insistência e fez esta ameaça para que eu desistisse e me afastasse de uma vez. Milo, acalme-se, já passou

Milo agora em pé andava em círculos, Camus pediu que ele se sentasse e se acalmasse

— Eu quero conhecer o menino, eu posso vê-lo?

Ouvir Milo perguntar por Hyoga fez Camus sorrir e sentir esperança de que Milo se acostumaria a ideia de cria-lo como um filho ao seu lado. Pegou suas mãos e o tranquilizou

— Mas é claro que pode. Nós vamos criar o Oga juntos, ele é nosso filho. Ele é louco pra te conhecer, já até tem um desenho seu

— Um desenho? — riu, surpreso

— Sim, eu mesmo fiz e dei á ele. Ele já te ama e te admira sem nem te conhecer. Hyoga é uma criança doce e linda. Vamos para casa, você troca de roupa e buscamos Hyoga

Milo balançou a cabeça positivamente e os dois saíram dos jardins, descendo as escadas em direção a saída. Na livraria encontraram Dite e Matheo que retornavam juntos de uma casa de chá.
Milo e Dite se abraçaram, Milo agradeceu a ajuda e a acolhida recebida e Dite pediu apenas que ele fizesse seu amigo ruivo muito feliz. Camus observava a tudo satisfeito e Matheo tentava entender aquelas relações tão confusas entre aqueles homens

— Eu disse que ele merecia uma segunda chance — Camus sussurrou no ouvido de Dite quando se abraçaram e o loiro sorriu, como quem lhe dava razão

Camus estava satisfeito em ver seu amigo novamente feliz ao lado de quem amava. Assim como ele e Milo também estavam, no entanto, ele e Milo ainda tinham alguns problemas que poderiam adiar mais um pouco a felicidade que tanto buscavam.


**


O principal cemitério da cidade de Londres tinha seus túmulos brancos pela nevasca.

No funeral do jovem Julian Taylor, apenas seus homens de confiança e o poderoso empresário Richard Bloedorn.
O padre dizia algumas palavras em latin enquanto o caixão descia. Um pesado tampo de granito foi colocado no túmulo que ficava dentro de uma crípta subterrânea. Sobre ela, uma pequena capela ou mausoléu cujo na porta de ferro fora forjado o brasão da familia e a inscrição do nome daquele que jazia ali.

Quando todo o cerimonial terminou, já do lado de fora da capela, Richard e Sorrento tentavam se proteger da nevasca com grossos sobretudos de lã. Observavam a beleza do mausoléu com paredes de pedras, portão de ferro fundido e a imagem de um anjo no seu topo

— Sorento, tudo está indo como combinamos?

— Sim senhor. Tenho sido o mais discreto possível sobre esse assunto, senhor — disse, guardando no bolso o terço de contas de madeira e um crucifixo de metal

— Ótimo. Nenhuma palavra sobre o Milo a ninguém, estamos entendidos?

— Sim senhor.

Após a conversa de poucas palavras, Richard saiu caminhando pelos corredores do cemitério, cujo o gelo já se cumulava nos cantos e nas copas das árvores, deixando aquele ambiente fúnebre ainda mais gélido e misterioso.


**


Milo e Camus entraram correndo no casebre, por conta da nevasca que ficava a cada hora mais forte. Somente os cavalos eram fortes o suficiente para resistir a tão baixas temperaturas do lado de fora. Londres estava mais coberta de branco a cada hora.

Milo olhou aquelas paredes, o fogão, a cama...não se conteve e sorriu de felicidade por estar outra vez em casa. O casebre terrivelmente frio sem calefação, mas que tinha um calor diferente e especial. O calor que emanava da brasa no fogareiro era pouco, mas levantava um cheiro de lar que acariciava o coração. Cheiro de madeira, fuligem, café e alguma sopa que Camus estivesse preparando.
Finalmente estava de volta ao seu mundo.

— Bem vindo ao lar, mon amour!

Camus sacudia os fios rubros retirando a neve, ao mesmo tempo que admirava o olhar de encanto do namorado por estar de volta

— Nossa casa, Camyu. Está tudo exatamente igual. Por um momento eu tive medo de nunca mais voltar a este lugar, de não viver para estar na nossa casa outra vez — se jogou na cama, espreguiçando e balançando nas molas do colchão velho onde dormiam, fazendo-o ranger.

Camus abraçou Milo com força. Sentir a presença dele ali novamente era reconfortante e trazia uma paz que há muito ele não sentia. Só desejava que todo aquele pesadelo terminasse de uma vez, que não pairassem sombras nem medos entre eles.

— As noites que Oga passou aqui me reconfortaram muito, eu me senti menos sozinho — Camus explicava, arrumando a gola da casaca que Milo havia pego para vestir — mas logo veio aquela ameaça e eu precisei esconder nosso petit. Foi muito ruim, mas agora acho que ele não corre mais riscos

— Eu creio que não. Mas então, posso conhecê-lo? Eu estou louco para ver o pequeno, você falou tanto dele que estou curioso — Milo sorriu e Camus sorriu de volta, feliz com a empolgação que Milo agora demostrava em ver Hyoga.

Milo trocou o fardamento da marinha por uma casaca escura e saiu ao lado de Camus rumo a casa da familia Heinstein. A medida que avançavam a cada passo, Milo sentia um embrulho de ansiedade crescer no estômago. Era como se caminhasse para a maternidade pois sua esposa havia ganho bebê, era como um tiro no escuro ou mergulhar num vácuo de emoções que ele ainda não sabia lidar.

"E se ele não gostar de mim? E se me rejeitar? E se me achar chato? Feio? E se eu não souber ser pai? E se eu não souber ensinar, educar, acolher quando ele chorar? E se ele cair e se machucar? E se...."

Sacudiu a cabeça tentando dissipar tantos pensamentos e perguntas. A mão direita de Camus pousou em seu ombro, o ruivo parecia perceber o nervosismo do companheiro e tentava acalmá-lo. Em poucos passos estavam ás portas da casa da familia Heinstein. Era uma casa igualmente humilde, mas um pouco maior e mais confortável do que a deles.
Quando Pandora abriu a porta e viu Camus, logo entendeu que aquele ao seu lado só podia ser Milo. Ainda assim, Camus fez as apresentações devidas

— Boa tarde senhorita Heinstein. Esse é Milo Nickolas, o homem da qual lhe falei

Camus costumava ser discreto, ele não precisava explicar com palavras o que Milo era, a proximidade entre os dois já mostrava que ou eram irmãos, ou eram dois homens muito íntimos. E Pandora sabia que se tratava da segunda opção.
Pandora fez uma mesura e Milo roçou de leve os lábios nas costas de sua mão. Pandora percebeu pelos gestos que Milo e Camus eram dois homens de educação muito polida. Eram dois lordes de fato e se comportavam como tal
Mas logo toda aquela convenção foi quebrada pelo pequeno loirinho que surgiu correndo traquina, se jogando no colo de Camus

— Papai!!

Camus abraçou o menino e o ergueu no colo.

— Senhores, vamos entrar. Está muito frio e congelaremos aqui fora

Camus entrou com Hyoga no colo e Pandora logo atrás, mas Milo ficou ali, estático. Seus olhos azuis quase não piscavam, vidrados no garoto.

— Ange, venha. Entre

Percebendo o encanto de Milo, Camus o chamou, tirando-o do transe. Ao notar o loiro, Hyoga escondeu o rostinho nos fios vermelhos do pai, com vergonha.

— Pare com isso petit. Lembra que lhe falei sobre seu outro pai?

O menino balançou a cabeça positivamente e permitiu que apenas um dos olhinhos azuis saíssem fora da cascata vermelha de fios onde se escondiam. E assim fitou com máxima atenção o homem que o olhava com uma mistura de emoção, amor e medo. Lembrou-se do desenho, era aquele rosto. Aquele era o homem do desenho. O homem que ele havia julgado ser um anjo. Seu outro pai.
Era bonito, mas tão sério. Porque estaria com tanto medo?

Enquanto Hyoga se perguntava tudo isso, espreitando Milo do colo de Camus, Milo se encantava com aquela bola azul intensa dentro de um rosto angelical de criança. Emocionado, se viu naquele menino e por isso estava tão sem ação. Com a fisionomia fechada devido ao impacto que o amor por aquela criança estava causando nele.

Então Milo se aproximou finalmente, com delicadeza ergueu uma das mãos e acariciou os cabelos loirinhos como os dele. Aquele contato fez o pequeno fechar os olhinhos. O cafuné estava bom e logo ele desejou um contato maior com seu outro pai.
Notando isso, Camus virou-se e estendeu Hyoga para Milo, para que ele o tomasse nos braços. Após trocarem um olhar de cumplicidade e confiança, Milo pegou Hyoga dos braços de Camus e abraçou o menino.

Com aquele abraço ele teve certeza: podia ser pai. Ele estava pronto para ser pai.

— Eu estou pronto, meu pequeno — disse emocionado cruzando os olhares azuis dele e do menino — estou pronto pra você. Pronto pra ser o seu outro pai.

Camus precisou lutar internamente para não derramar nenhuma lágrima, embora tenha sido vencido e por alguns segundos sentiu seu olhar umedecer e algumas lágrimas teimosas brotarem

— Você é o anjo do desenho. Meu pai de cabelo amarelo, e meu pai de cabelo vermelho. Meus dois pais!

O pequeno Hyoga, outrora abandonado e sozinho, hoje tinha a proteção de seus dois pais. Dois homens capazes de dar a própria vida por ele. Nunca mais nada iria lhe faltar.
Muito menos amor.

Pandora assistia aquilo tudo também emocionada, mas não pôde evitar sentir uma pontinha de inveja ao perceber o tamanho do amor que Camus devotava por aqueles dois. Um amor incondicional, sem medida. Um amor que ela sonhava em viver, como toda mocinha casadoira. Ela não tinha muito essa pretensão antes, mas ao ver aquela familia tão unida, se amando tanto, ela desejou fortemente ter um dia, aquele vínculo.


**


Na manhã seguinte, Milo e Hyoga brincavam distraídos enquanto Camus recebia um mensageiro que batia á porta.
Enrolou-se em um sobretudo de lã grosso, deu algumas moedas ao homem e em troca recebeu a carta endereçada a ele, que vinha de Aix-en-Provence. Seu coração saltitou ao perceber a grafia de sua mãe, Anete, no papel.

Fechou a porta rápido para que a friagem não entrasse tanto na casa e voltou-se para dentro, dando a Milo a boa notícia de que uma carta havia chegado por parte de sua familia. Milo tomou Hyoga no colo e veio até a cozinha, sentando-se com o garoto em volta da mesa, onde Camus já abria a carta, rompendo o selo com o brasão da familia Garret, forjado na cera sobre o papel.

Ao abrir, somente o fato de ver as linhas bem escritas de sua amada mãe quase fizeram Camus derrubar lágrimas. A saudade que sentia dela, de Krest e de casa já o açoitavam há muito tempo, mas ele vinha se segurando e controlando esse sentimento até então.
Camus pôs-se a ler as linhas bem grafadas, nelas Anete contava como ela e Gerrard estavam vivendo sozinhos, já que Krest havia ido para Paris concluir a faculdade (e ficar perto de Zaphiri, claro), Milo e Camus riram com este parentese, certamente Gerrard não sabia deste pormenor, ou fingia não se importar. Se Camus conhecia bem seu pai, ele fingia.

Contou que ela e Gerrard estavam vivendo como na ápoca de recém casados, antes de terem filhos, mas com a diferença de serem agora bem mais velhos. Gerrard andava melancólico e resmungão, vivia dizendo que aquela casa deveria estar cheia de netos e não com dois velhos sozinhos e tristes. Contou que as vizinhas fofoqueiras sentiam muito a falta de assunto por parte dos Garret e que o Rendes-Vouz havia sido fechado e vendido para outra familia que prometia transformar o velho bar em um hotel decente (algo que ela estava pagando pra ver).
Disse nas linhas que Krest estava bem, estava feliz e vinha de tempos em tempos visitá-los. Por fim, esclareceu que escreveu umas duas vezes ao Convento em que Natassia estava e que tudo o que sabia era que a irmã de Milo estava bem em sua escolha pelo sacerdócio.
Antes de terminar, pediu que lhe enviassem notícias. Queria saber como estavam, se comiam direito e como estavam se protegendo do inverno. Desejou que ficassem com Deus e dessesm notícias o quanto antes.
Camus suspirou ao concluir a carta escrita em francês, olhou para Oga depois para Milo

— Precisamos contar á eles sobre o petit, não acha?

— Uhum, eu acho. E acho que seu pai pode gostar de saber que ele já tem o neto que tanto sonha

Os dois sorriram e Camus cortou mais um pedaço de bolo para o pequeno.


**


Passava um pouco da hora do almoço quando Pandora abriu a porta e levou um susto ao constatar que quem batia era Camus com Hyoga nos braços.

— Pandora, me perdoe....mas poderia ficar algumas horas com o petit?

Camus tinha um olhar aflito e Pandora viu por trás dele que Milo preparava dois cavalos e parecia ter muita pressa

— Aconteceu alguma coisa? Sim, claro que posso ficar com ele

— Não papai, eu não quero...

Hyoga protestou e Camus agachou-se para falar cara a cara com o menino

— Oga, eu preciso que fique com a tia Pandy alguns instantes. Eu e Milo temos algo muito sério a resolver e não podemos levá-lo.

— Mas papai...

— Vamos Hyoga, eu já te expliquei. Agora me obedeça.

Quando Camus foi mais firme, o pequeno não teve outra escolha senão obedecer. Fez um muxoxo e logo Milo surgiu e depositou um beijo na testa do menino

— Não vamos demorar, logo estaremos de volta

O menor correu para a barra da saia negra de Pandora e os dois homens montaram nos cavalos, saindo em galope rápido. Tomaram o rumo da base de polícia.

Milo havia recebido uma notificação, e ambos sabiam o motivo: o assassinato de Julian.

— Camus, eu vou ser preso. Merda, eu vou ser preso! — gritou enquanto cavalgava, sentindo o medo do cárcere lhe assaltar

— Não! Não diga isso. Vamos fazer o que combinamos, Milo. Você vai alegar legítima defesa.

Camus tentava se manter frio e calmo, mas internamente também temia que o pior acontecesse á Milo. Logo ambos estavam de frente para a base, onde deixaram os cavalos e entraram.

Lá dentro o detetive local tomou o depoimento de Milo, que confessou o crime e alegou ter agido em legítima defesa. Ele relatou o sequestro e o cárcere privado em que foi mantido por mais de dois meses. Quando perguntado se sofrera alguma tortura ou mal trato, ele negou, mas Camus interferiu dizendo que aquilo não faria diferença. Que era um caso de sequestro e que Julian teria negado que Milo estivesse com ele.

Milo e Camus não demoraram a perceber que Julian e sua familia eram influentes e que a polícia estava tentada a condenar Milo para que Julian não ficasse com a imagem manchada como a de um sequestrador, mesmo já estando morto.
O detetive estava prestes a bater o martelo e prender Milo, era algo certo a ser feito.

Mas havia mais alguém disposto a contribuir com o caso.

Quando o outro depoente foi chamado, Milo sentiu um frio na espinha ao ve-lo entrar na base.
O homem imponente usava um sobretudo negro até os pés, a cartola na cabeça dava-lhe um ar nobre e aristocrata. No rosto um óculos fino de lentes redondas deixavam os olhos azuis ainda mais ameaçadores.

Seu pai, Richard Bloedorn.

Richard entrou e encarou Milo e Camus, que lhe devolveram o mesmo olhar seco. Sem nada dizer, o mais velho se dirigiu direto ao detetive

— Excelência, vim esclarecer a morte de Julian Taylor. Pode liberar estes jovens, eles não tem o que fazer aqui. Quem matou Julian fui eu mesmo — disse em tom sereno, porém sério.

Milo levantou da cadeira e o encarou assustado

— O que está dizendo? O senhor nem estava lá! Não faça isso pai — implorou, sem sucesso

— Não dê ouvidos a ele Excelência. Meu filho só quer me livrar desta acusação pois tem medo do que possa me acontecer na cadeia, mas esta é a verdade. Eu entrei no palacete, tirei meu filho de lá e matei Julian.

Milo estava boquiaberto, Camus encarava sério o mais velho, tentado entender o que estava acontecendo. Richard prosseguiu

— Pode liberar estes meninos, eles não tem nada com isso. E quanto a mim, pode me prender se desejar, mas eu não faria isso Excelência — ele agora encarava o detetive, que recuava na cadeira sentindo o peso da austeridade ameaçadora de Richard — sou um homem muito influente e me prender significaria ter sérios problemas, inclusive com a realeza. Vossa Excelência não vai querer prender um Sir* não é? E não vai querer seus superiores investigando sua conduta sobre um caso de sequestro que durou mais de dois meses e vocês não conseguiram solucionar, não é mesmo? Isso seria péssimo para sua reputação.

O detetive suspirou pesadamente ainda encarando Richard. Deu mais uma baforada no charuto que fumava e ao jogar a fumaça no ar tomou sua decisão

— Escrivão!! — gritou o detetive, mandando o funcionário anotar a conclusão que fecharia definitivamente o processo.

Diante daquilo, o detetive não tinha outra alternativa senão arquivar o caso. Não ia mexer com um vespeiro prendendo o homem mais poderoso daquela cidade naqueles dias. Foi decidido que o caso da morte de Julian teria sido um acidente.

— Escreva:

A conclusão do processo é de que a vítima, o Senhor Julian Taylor, teria caído acidentalmente em cima de sua espada, pois estaria embriagado. Dado o seu conhecido costume de beber absinto, uma bebida forte e de grande graduação alcólica. Sorento, seu empregado, teria o socorrido, mas era tarde demais.
Assim fica o referido caso encerrado.

Londres, 10 de dezembro de 1815
Deus Salve a Rainha.

Milo e Camus saíram da base de polícia com uma sensação estranha. Por um lado, alívio. Mas por outro, Milo tinha um sentimento estranho.
Richard já embarcava na carruagem suntuosa que o levaria para uma de suas fábricas, quando Milo o abordou, segurando-o pelo braço

— Espera...pai

Aquele "pai" foi pronunciado baixo e em tom tímido. Não sabia se ainda podia chamá-lo assim. Mas talvez pudesse, afinal, ele havia acabado de livrá-lo da prisão

— O que você quer? — perguntou seco

— Porque fez isso? O senhor não estava lá.

Richard suspirou e lançou seu olhar azul e gélido para Milo

— Porque já basta o quanto você e aquele alí — se referiu a Camus — vem arrastando o nome dos Bloedorn e dos Garret na lama. Eu não preciso de um filho preso para acabar de vez com o sobrenome que eu coloquei no topo dessa cidade. Além do mais, aquele Julian era um idiota incompetente, teve o que mereceu.

— Pai...

— E não me agradeça Milo Nickolas. Agradeça a sua mãe.

Após estas palavras, o mais velho ia entrando na carruagem, mas foi impedido pelo filho que mais uma vez o segurou

— O senhor tem um neto, senhor Bloedorn

Richard encarou Milo após aquelas palavras, mudo. Encarava o filho nos olhos, como se buscasse dentro deles algo que indicasse que Milo estava apenas blefando. Mas não encontrou. Finalmente desvencilhou-se do filho sem nada dizer e entrou na carruagem. Partiu fechando as cortinas internas do veículo, deixando para trás um casal que agora se abraçava, aliviado com o fim de tudo aquilo.
Internamente, Richard tremeu com aquela noticia

"o senhor tem um neto"

Levou as mãos ao peito, sentindo um mal estar estranho.

*Sir ("Senhor", em inglês) é o título nobiliárquico britânico superior a baronete, inferior a barão, e significa aquele que tem domínio sobre algo ou alguém.

Notas finais
E os gatos no cio? Muitos gatos miando aí? Uma paçoca para a Suh, comentarista do Nyah que matou a charada (sua danadeenha) de que o Richard ia resolver a parada pro Milo e assumir a bagaça no lugar do filho. E assim foi! Mas será que ele fez isso só pelo nome ou existe alguma bondade no coração do velhote? Essas minhas leitoras videntes viu...uahuahuaha Ah, uma coisinha: meu Milo é mais branquinho por não tomar o sol da Grécia. Ele é britânico e não tem a morenice grega que é comum a ele em outras fanfics. Quanto ao Matheo, eu não lembro se já havia explicado isso, mas apesar de o personagem Mascara da Morte ser originalmente mais sombrio, eu fiz o Matheo mais puxado para a comédia. Ele tem um visual até de acordo com o original, mas gosto de puxar as cenas dele para uma coisa mais bem humorada, retratando um italiano atrapalhado e apaixonado. Isso do Camus ficar rosa eu vi num vídeo educativo no redtube, onde mostrava um casal de meninos e um deles era ruivinho, mas ruivo mesmo, tipo o Camus. Ele tinha tudo rosinha, ficou todo rosinha kkkkk!!