A História de Nós Dois
6 A Luz do Amor
Notas iniciais

Cap 6 — A luz do amor
Os primeiros raios solares entravam pela janela do quarto anunciando um novo dia. No entanto, nem eram necessários para despertar Camus que não havia pregado o olho a noite toda. Com a cabeça e o coração convulsionando, o sono não encontrou tranquilidade naquele corpo para fazê-lo adormecer.
O mesmo com Milo, que via Natassia despertar calma de seu sono tranquilo, alheia á toda a angústia daquela noite.
Antes que os demais moradores da casa despertassem, Camus desceu as escadas rumo á um quarto de hóspedes no andar térreo da casa, sabia que seu irmão havia passado a noite lá, para não terem que dormir no mesmo quarto depois de brigarem. Abriu a porta devagar e viu o moreno que dormia bem enrolado em grossas mantas, já que aquele era o único dos quartos a não ter uma lareira para aquecer. Krest despertou com as mãos suaves de Camus acariciando seus cabelos e um olhar doce de seu irmão caçula sobre si. Levantou sobressaltado, Camus havia sido implacável e duro da última vez que falaram.
— Não se assuste. Vim te pedir desculpas pelo meu destempero de ontem. Eu não deveria ter agido assim com você. Te disse coisas duras, me perdoe.
Krest sorriu sentindo seu coração bater mais calmo e abraçou o ruivo que tinha olheiras profundas de quem não havia dormido um só minuto.
— Você parece exausto. Camus, se abra comigo meu irmão querido. Sempre fomos tão unidos, tão amigos. Me sinto triste de não ser dígno de sua confiança agora.
Camus ficou sério. Confessar seus sentimentos era difícil, doloroso. Mas Krest tinha razão. Se existia alguém em quem confiar, esse alguém seria ele.
— Eu não sei como aconteceu...não sei em que momento exatamente. Não sei em que momento a companhia dele se tornou tão importante, olhar pra ele se tornou tão necessário, ouvir a voz dele se tornou um ritual. Tocar as suas mãos, observar cada expressão do seu rosto. Sentir meu coração bater como se fosse pular fora de mim. Eu não sei o que está acontecendo comigo, Krest. Eu acho que estou enlouquecendo...Milo se tornou o centro da minha vida desde que ele pôs os pés aqui, e isso me desespera.
Os olhos de Camus tinham angústia e medo, mas Krest o reconfortou primeiro com um abraço apertado e depois com suas palavras
— Você está tendo a confirmação do que já sabia, a diferença é que ninguém até agora tinha despertado isso em você. Isso se chama amor, Camus. E amor entre dois homens é sim possível e é tão puro quanto o amor entre um homem e uma mulher. Você o ama, precisa confessar isso á ele.
— Eu não posso. Não posso destruir a vida dele e de Natassia, não posso destruir o sonho de meus pais — Camus tentava não chorar mais uma vez — eu não posso Krest...
— Mas pode destruir a SUA vida? Se condenar a um casamento sem amor? Natassia é uma pérola, mas você não a ama! Vai ser infeliz e fazê-la infeliz!
— E o que raios você quer que eu faça? Todos serão infelizes de qualquer jeito, Krest.
— Você e Milo precisam fugir, fugir juntos de tudo isso. Eu posso cuidar de Natassia, consolá-la e enfrentar papai e sua fúria. Nesse tempo vocês dois sumam daqui!
Krest segurava nos braços de Camus que ouvia incrédulo a proposta de seu irmão mais velho
— Essa decisão não cabe só a mim, e duvido que Milo abandonaria sua irmã. Sua idéia é absurda e esse sonho é impossível. Além de tudo, eu nem sei se ele sente o mesmo que eu sinto. Eu vou me trocar para o desjejum...
Camus saiu sem dar a Krest a chance de novas explanações. Krest tinha claramente que a única saida para o amor de Milo e Camus seria a fuga.
**
O almoço em família seria degustado em absoluto silêncio se não fosse Gerrard se derretendo em elogios á futura nora. Ele já imaginava os filhos lindos que viriam do casal. Enquanto o patriarca da família Garret falava, Milo e Camus trocavam olhares, agora ainda mais profundos e só quem percebia aquela troca era Krest.
Milo observava Camus comendo, como era graciosa a forma como o ruivo mastigava e segurava os talheres. Já estavam na sobremesa e Camus pegou um morango com as mãos, Milo sentiu seus pêlos arrepiarem quando os lábios rosados de Camus envolveram a fruta, mordendo-a sensualmente. Um sensualidade espontânea, não provocada, que fez Milo desejar aqueles lábios ainda mais. Retirou de Camus seu olhar antes que ficasse nítida sua hipinose pelo ruivo e passou a comer da fruta também. Não demorou a perceber que também era observado. Camus o olhava da mesma forma.
Os olhares se encontraram e permaneceram fixos, como imãs. Se olhavam profundamente, perdendo a noção do perigo por alguns segundos. Como se só existissem os dois alí. Nem mesmo a voz de Gerrard os tirava mais daquele transe, mas foram interrompidos com a voz delicada de Natassia se dirigindo ao seu noivo.
— Camus, poderia me mostrar mais alguns de seus livros? Gostaria que me ensinasse mais sobre a literatura de seu país.
A menina pedia feliz e esperançosa. Era uma forma de tentar trazer para si a atenção do ruivo que parecia não a enxergar a maior parte do tempo.
— É claro, podemos ir a hora que quiser. Posso te ensinar sobre literatura, se deseja aprender.
Natassia sorriu seu sorriso delicado e se dirigiu agora ao irmão mais velho
— Veja Milo, irei aprender um pouco mais. Você sempre me disse para estudar ainda mais, lembra-se irmão?
Milo e Camus voltaram a se olhar, entrando novamente em um mundo que era só dos dois
— É claro querida, aproveite a oportunidade. Leia, se instrua, vai lhe fazer muito bem.
Seria um papo normal entre noiva, noivo e cunhado, mas Milo e Camus apenas se olhavam, não ousavam trocar nenhuma palavra naquele momento. Se abrissem suas bocas seria para gritar o quanto estavam se amando.
Camus e Natassia seguiram para a biblioteca. Milo foi com Krest para a varanda jogar conversa fora após o almoço. Era necessário cortar aquele contato, se permanecessem no mesmo ambiente, seriam descobertos por não poderem mais disfarçar. Isso foi o que Krest alertou a Milo logo que se sentaram na varanda, o moreno disse ao loiro que a troca de olhares entre ele e Camus estava tão nítida que não sabia como Gerrard e Anete não notavam nada.
— É um milagre ainda não terem sido pegos, você e Camus são mesmo protegidos de Deus, porque qualquer um veria a atração entre voces, é nítdo demais Milo. É muito arriscado!
— Eu sei, mas é mais forte que eu, Krest. Não consigo evitar, a presença de seu irmão atrai meu olhar sem eu mesmo perceber, quando percebo já estou o engolindo com os olhos.... — Milo passava as mãos pela fronte, tenso
— Engolindo, daquele jeito alí?
Krest apontava com o olhar na direção da grande janela de vidro. Do lado de dentro, Camus observava os dois lá fora. Ao lado dele Natassia lia, sentada. Camus, de pé e perto da janela, observava Milo, engolindo com os olhos através do vidro, exatamente como o loiro descreveu que fazia com ele. Ao perceber que havia sido descoberto, Camus saiu de perto da janela.
— É desse jeito que ficamos, Krest. É ssim que passamos nossos dias.
Milo falava em tom melancólico, olhando para a janela agora vazia. Era assim que ele e Camus estavam vivendo, se olhando, se procurando todo o tempo, mas sempre mantendo uma distancia segura para não chutarem tudo e se entregarem um ao outro. Krest sentiu pena deles, queria ajudar mas não sabia como.
— Voces precisam ficar a sós, Milo
— É perigoso, Krest. Se eu ficar sozinho com seu irmão, vou fazer uma loucura e vou querer me matar depois.
— Milo, vai enlouquecer se não fizer! E enlouquecer meu irmão! Vocês precisam disso, vão saber se conter, sejam fortes.
Milo ficou pensativo. Não queria e não podia fazer nada para magoar Natassia, mas Krest tinha razão. Ele precisava de um tempo com Camus, até para entender toda aquela avalanche de sentimentos que o ruivo lhe trazia.
**
— Natassia, querida, gostaria que me acompanhasse a um passeio ao bosque que há em nossa propriedade. É lindo e está uma tarde agradável. Vamos?
O convite que Krest fez sorridente era estratégico, mas simpático. A moça aceitou e seguiu com ele para a parte externa da enorme propriedade dos Garret. Uma área verde com pomares, campos de flores e um lago. Durante o passeio Krest observou como Natassia era frágil e entendeu a preocupação quase desesperada de Milo.
— Atrapalho?
A voz aveludada com sotaque inglêss entrou pela biblioteca e nos ouvidos de Camus, fazendo cada pelo do corpo do ruivo se eriçar.
— De forma alguma...
Camus fez uma pausa, encarando Milo. Os dois de pé e frente á frente. Mais uma vez a sensação de coração que vai pular pela boca era sentida.
— ...Senti sua falta
Camus não sabia porque havia dito aquilo. Milo sentiu uma batida falhar, ouvir aquilo fez sua barriga criar vácuo de tanta tensão, seu coração parecia que ia parar a qualquer momento
— Eu também senti a sua. Por isso estou aqui, gosto da sua companhia Camus.
Agora era a vez de Camus sentir que o chão se abria abaixo de seus pés com aquela declaração. Tudo o que desejavam era se atirarem nos braços um do outro e se beijarem loucamente.
Camus sorriu e Milo também, se aproximaram mais e sorrindo se abraçaram. Não ousaram se beijar, mas se abraçaram longamente. Naquele abraço, Milo envolveu Camus em seus braços, acariciando devagar seus cabelos. Finalmente pôde sentir o cheiro gostoso daqueles cabelos vermelhos, como eram macios. Camus sentiu o conforto dos braços fortes e o calor gostoso do corpo de Milo e desejou nunca mais sair dalí. Nunca mais sair daquele ninho, naquele porto seguro, daquele leito de amor e carinho que sentia seu corpo repousar.
O abraço de Camus era tão quente quanto, tão intenso quanto e envolvia Milo da mesma forma, como um ninho de proteção e calor.
Camus lembrou-se daquela noite em que viu Krest nos braços de Zenon e em como os dois se desejavam. Lembrou que achava que jamais sentiria algo parecido e no entanto a vida estava lhe presenteando com algo muito maior e mais forte do que aquilo. Sentiu o amor chegar como uma locomotiva que não pode ser parada, que não pode ser detida, que não pode ser impedida de alcançar o seu destino.
Se abraçavam e se acariciavam devagar, sentindo o cheiro delicioso um do outro. Não havia conotação sexual naquele gesto, tanto que não ficaram excitados, apenas amor. O mais puro amor.
Naquele momento, naquele abraço, Milo e Camus se amaram.
Uma lágrima rolou quente no rosto de Camus e outra no de Milo. Se olharam e secaram as lágrimas um do outro. Se olhavam. Não precisavam verbalizar nada, os corpos falavam, os olhos falavam. Nada precisava ser dito.
Mas uma pergunta precisou ser feita, e foi Camus quem a fez
— O que faremos?
A voz saiu rouca, carregada de preocupação pra não dizer pavor de seus destinos.
— Eu não sei, mas confie em mim.
A resposta para a pergunta de Camus era um pedido de Milo. Pedido que foi respondido com um olhar de aprovação e um sorriso sofrido. Um sorriso que parecia clamar por algo, parecia clamar para ser tirado daquela situação.
Se abraçaram ainda mais uma vez, Milo tocou a face de Camus e ambos fizeram um esforço sobre-humano para não se beijarem, seus lábios se desejaram com uma fúria assustadora, mas resistiram.
Saíram rápido dalí, se permanecessem sozinhos, não iriam se segurar. A libido e o desejo sexual logo começariam a crescer, precisaram interromper antes que isso acontecesse.
Krest e Natassia retornaram e encontraram os dois sentados á varanda.
Krest notou a luz do amor brilhando nos olhos dos dois.
**
Conversando com Milo e contando como foi sua conversa com Camus, Krest concluiu que ele e seu irmão precisavam de mais um momento juntos. Entendeu que aquele amor precisava de mais espaço, ainda que fosse naquele momento um amor impossível. Se eles não conseguissem mudar seus destinos, poderiam ao menos ter mais alguns momentos de felicidade lado a lado. Milo ponderou, achou arriscado ficar sozinho com Camus novamente, não sabia se poderia se segurar e Krest sugeriu que o encontro fosse fora da casa dos Garret.
O Rendez-Vous era o lugar perfeito.
Krest sugeriu á Milo covidar Camus para ir tomar umas canecas de vinho como cunhados e amigos, com um pouco de conversa convenceriam Gerrard. Milo achou a ideia positiva, em público talvez ele e Camus pudessem apenas descontrair e não ficariam naquela situação tão delicada da biblioteca, onde estiveram totalmente sozinhos. Longe dali eles poderiam conversar melhor sobre tudo o que estavam vivendo.
Milo levou a ideia a Camus que achou arriscado em um primeiro momento, mas cedeu. Faria qualquer coisa para estar perto de Milo, iria até ao inferno com ele. Não foi difícil convencerem Gerrard que achou até interessante que os cunhados estreitassem mais a amizade entre eles. O velho patriarca não tinha qualquer noção do que realmente se passava.
A noite avançava lenta e fria rumo á madrugada quando Camus e Milo saíram montados em seus cavalos rumo ao velho casarão onde funcionava o antro de beberrões. Ao chegarem foram logo notados por todos, principalmente pelas duas mocinhas cujo os olhos brilharam quando os viram: Brigite e Fantine.
— Olhe, Fantine, é o Senhor Garret! Foi com ele que passei a melhor noite de minha vida!
— O que está com ele é o Senhor Bloedorn. O homem mais gentil que já conheci.
As duas foram prontamente até os dois homens, que sentaram-se em uma das mesas após tirarem suas grossas capas que os protegiam do frio e do sereno da noite.
— Boa noite senhores, vinho? — perguntou Fantine, insinuando para Milo seu generoso decote que quase não escondia os seios fartos
— Sim, duas canecas por favor
O loiro pediu educadamente enquanto o ruivo não parecia reparar que Brigite também se insinuava. Os dois homens desta vez não estavam abertos ao charme das meninas e com isso elas apenas se limitaram a servir-lhes as bebidas.
Milo e Camus sorveram o líquido vermelho enquanto se olhavam profundamente. Camus correu os olhos pelo salão e notou que haviam mais forasteiros e homens estranhos, gente que ele nunca havia visto pelas redondezas.
— Aix está virando uma bagunça, nunca vi tanta gente estranha chegando a este lugar
Milo achou graça na reclamação de Camus
— Sua terra ainda é um paraíso diante de Londres, o lugar com mais doentes, assassinos e putas por metro quadrado!
Camus gargalhou com a fala de Milo e o loiro se encantou em ver pela primeira vez o homem á sua frente jogar a cabeça para trás e fechar os olhos parar rir ainda mais alto, mostrando todos os dentes perfeitos dentro da boca de lábios rosados.
Não muito longe deles, um dos homens de estranha aparência conseguiu ouvir o nome da capital inglesa, notando que Milo era um forasteiro londrino. Os dois permaneceram conversando distraídos. Pareciam não notar o clima á sua volta, mas tanto Milo como Camus já haviam percebido que eram observados por alguns daqueles homens.
— Acho que vamos ter problemas hoje aqui, Milo.
— É, eu acho que vamos. Eu espero que você não se importe com isso, Senhor Primeiro Tenente.
— Fique á vontade...
Milo sorriu e apoiou suas botas sobre a mesa, recostando-se na cadeira e falou alto para que os que o observava ouvissem
— Quando alguém que desconheço olha demais pra minha cara, penso que talvez queira lustrar minhas botas. Aqui estão. Quem será o primeiro pirata?
Um dos homens com cara de poucos amigos se levantou, sentindo-se afrontado e caminhou até Milo pisando duro. Antes que o homem pudesse chegar até ele, Milo se levantou, puxou um dos braços de seu oponente e o imobilizou. Logo veio outro para avançar sobre ele, fazendo o loiro largar o primeiro e ir pra cima do segundo lhe acertando um soco no olho direito. Agora Milo lutava contra dois que o tentavam imobilizar sem sucesso. Aquilo era tudo o que aqueles homens precisavam para começar um enorme quebra pau, mas o loiro era assustadoramente ágil e sabia defender-se de vários ao mesmo tempo, aplicando socos tão rápidos que mal podiam ver de onde os golpes vinham.
Camus que até então não havia nem mesmo se levantado, percebeu um terceiro partindo para cima dele e foi obrigado a agir. O ruivo levantou-se e caiu na pancadaria também, mostrando que era igualmente ágil e sabia bater muito bem, embora Camus não gostasse de usar agressão física, sabia muito bem como fazer. Logo todo o estabelecimento estava em pé de guerra, com cadeiras voando, socos pra todos os lados e as cortesãs gritando apavoradas encolhidas em um dos cantos do salão.
Milo já havia socado alguns deles, mas havia sido acertado no supercílio direito que estava ferido. Ao ver Milo machucado, Camus se assustou e sua distração fez com que seu oponente lhe acertasse um soco no maxilar, ferindo seu lábio inferior. Milo se preocupou em ver Camus ferido também e apenas com uma troca de olhares os dois saíram dalí rápido, alcançando rápidamente seus cavalos e cavalgando de volta para casa, deixando para trás a confusão que continuaria mesmo sem eles. Na verdade, aqueles homens bêbados nem sabiam mais porque brigavam.
Cavalgaram a galopes rápidos, chegando em pouco tempo á propriedade dos Garret.
— Milo, voce é louco! Viu o que arrumou? — Camus o repreendia preocupado
— Relaxa Camus, uma briguinha boba não faz mal a ninguém. E foi divertido no fim das contas!
— Divertido...voce está machucado, isso sim. Deixa eu ver isso.
Ao descerem dos cavalos e deixá-los em suas baias, Camus acendeu uma das lamparinas do estábulo para poder ver melhor o ferimento de Milo. O supercílio estava um pouco aberto, não sangrava mais, mas ainda era uma ferida. Camus retirou um lenço do bolso e limpou o pouco de sangue que restava no machucado com cuidado.
Enquanto limpava, sentia a força daquele olhar azul sobre ele. Milo olhava Camus fixamente, aproveitando a oportunidade para observar aquele rosto de traços tão finos e delicados á poucos centímetros de distância do seu. Estavam tão próximos que Camus podia sentir a respiração quente de Milo, e aquilo começou a fazer com que ele perdesse o auto controle. Milo então notou o lábio inferior de Camus, estava também machucado por terem acertado seu maxilar.
O loiro levou o dedo indicador á boca, chupando delicadamente a ponta, gesto que fez Camus se arrepiar por inteiro, depois com o dedo úmido de saliva tocou no pequeno ferimento que Camus tinha nos lábios. Ambos estremeceram. A respiração de Camus ficou mais rápida e ofegante, Milo se aproximou mais.
— Ahh...
Camus gemeu baixinho, o toque havia feito o machucado doer um pouco. Instintivamente o ruivo umedeceu os lábios com a própria saliva e diante daquela cena Milo não pôde mais se segurar, ao ver os lábios de Camus umedecidos Milo colou neles os seus, fazendo com que os lábios deles finalmente se tocassem em um beijo lento.
Camus esqueceu-se da dor, de olhos fechados apenas se entregou aquele momento tão esperado. O toque daqueles lábios o tirou do prumo a ponto de Camus fraquejar deixando o lenço que segurava nas mãos cair. Os lábios se tocavam, se tomavam devagar, com cuidado. Milo o beijava devagar, abrindo espaço aos pouquinhos. Colocou sua mão direita na nuca de Camus, afim de fazer um apoio e intensificar o contato das bocas, agora o beijo se tornava mais intenso. Camus, em resposta, abraçou Milo envolvendo-o totalmente em seus braços e colando totalmente os corpos, acariciando os fios loiros. As bocas se abriram totalmente e Milo ousou colocando sua língua e pedindo a de Camus, que veio prontamente. As duas dançavam um balé lento e doce, misturando as salivas quentes.
Milo se sentia no céu, Camus não sentia mais o chão abaixo de si, era como se flutuassem.
Não sabiam dizer ao certo quanto tempo ficaram alí, quanto tempo aquele primeiro beijo durou. Separaram, tomaram ar, se olharam..sorriram um para o outro e voltaram a colar os lábios outra vez, se beijando mais. Agarradinhos um ao outro, se deliciavam com aquele momento se esquecendo do tempo.
— Como pude ter resistido tanto?
Milo perguntava, segurando Camus pela cintura, mantendo o corpo do ruivinho junto ao seu. Camus sorriu, mais uma vez aqueles dentes lindos apareceram.
— Pois então não resista mais...nunca me senti assim com ninguém, Milo
Camus falava agora mais sériamente, mas ainda com um sorriso no canto dos lábios, assim como Milo, que ao ouvir seu amado tomou sua boca pra si novamente
— Eu te amo Camus
— Não mais do que eu amo você, Milo
— Eu te amei primeiro
— E eu te amo mais
— Será que até nisso vamos rivalizar?
— Foi assim que nos aproximamos, lembra? Nossa rivalidade é uma brincadeira, mas nosso amor é real, Milo.
— Nosso amor é o sentimento mais puro que trago dentro de mim agora, Camus
— Milo, você mudou minha vida. Você me transformou. Eu não posso mais respirar o ar em que você não está, eu não posso mais...
Milo interrompeu Camus calando-o com mais um beijo, ver Camus sofrer de amor o fazia sofrer também e quando se beijavam é como se alimentassem um ao outro.
— Camus! Milo!
Os dois se largaram rápido, era a voz de Krest que se aproximava do estábulo á procura deles. Apesar de tentarem disfarçar, as respirações ofegantes e os lábios inchados e molhados de ambos denunciavam o que faziam
— Krest! Nós...
Milo tentou iniciar uma explicação, mas Krest fingiu não perceber o que acontecia
— Por Deus, estão machucados! O que fizeram? Já sei, se meteram em briga não é? Eu sabia, sempre sai briga naquele antro de bêbados e vocês sairam no tapa com gente de lá...olha, não deveriam fazer isso!
Milo e Camus ficaram olhando para Krest assustados e sem reação. Acharam que seriam confrontados pelos beijos, mas levavam uma bronca por se meterem em briga.
— Desculpe meu irmão, mas está tudo bem, não se preocupe. Apenas nos ferimos levemente, não foi nada.
Camus tratou de amenizar o fato e fez Krest prometer que Gerrard não ficaria sabendo de nada. Ao entrarem silenciosamente em casa, Krest lançou um olhar e um sorriso para os dois, mostrando que sabia exatamente o que estava acontecendo.
**
Milo entrou no quarto e olhou Natassia dormindo como um anjo cálido.
Ele trocou a roupa pesada por uma mais leve para dormir, sentou-se em sua cama, juntando as pernas ao corpo, encolhendo-se. Olhou para o lado mais uma vez, observou a irmã. Sentia uma angústia se misturar a sua felicidade.
"Porque nossa felicidade não pode ser completa? Será que irá me perdoar? O que farei com você, minha vida? Como olharei pra você, minha menina? Estou amando o seu escolhido...Deus, será isso um castigo?"
Permaneceu assim, encolhido e olhando pra ela um tempo, até sentir o sono o vencer e deixar seu corpo espalhar-se na cama quente.
Em seu quarto, Camus sentia angústia parecida. Tocava seus lábios sentindo ainda o sabor e o toque delicado daquela boca. Havia sido tão bom. Mas racional como era, a cabeça de Camus pensava e raciocinando, entendeu que precisava agir.
"Agora que nos achamos, não posso permitir que a gente se perca um do outro. Ainda que doa, precisarei fazer isso."
Depois de algumas horas de insônia, o ruivo sentiu seu corpo delgado e perfeito queimar, arrancou a camisa, ficando apenas com a fina calça de algodão, exibindo seus músculos envoltos na pele alva e delicada. O gélido tenente queimou de desejo até pegar no sono e dormir como um anjo.
**
Poucas horas depois o dia clareou, trazendo a manhã gelada de outono, com o sol frio que pouco aquecia a relva molhada de orvalho lá fora.
Natassia levantou-se e pulou animada na cama do irmão mais velho, fazendo-o despertar ainda sonolento
— Ohh Natassia, me deixe dormir um pouco mais...sai de cima de mim, mas que droga
— Não, não! Acorda irmão, seu preguiçoso!!
Natassia se jogava sobre Milo, se enfiando nos lençóis com ele, as duas cabeleiras loiras pareciam apenas uma, ela fazia cócegas nos músculos dele fazendo-o ter espasmos brutos
— Merda, me larga! — Milo começou a rir, cedendo. Cócegas eram um golpe baixo e ele não teve escolha senão se levantar
Milo ajudou Natassia a fechar o apertado espartilho e viu sua irmã descer para o desjejum prometendo se trocar e descer logo em sequência também. Fez uma rápida higiene bucal e lavou o rosto, penteou os cabelos e trocou de roupa, saindo logo em seguida.
(NR: No século XIX, não existiam pastas e escovas de dentes como conhecemos. A higiene era feita com um produto que ainda estava longe de ser um creme dental, vinha em potes metálicos e ajudava a limpar os dentes, o processo era feito com o dedo mesmo, não existiam escovas)
Milo mal saiu do quarto e foi puxado pelo braço e com uma rapidez que não permitiu que ele reagisse, teve sua boca tomada em um beijo intenso, sendo colocado contra a parede com certa força
— Você tem um lado que realmente surpreende, Camus. — disse espremido entre o ruivo e a parede
— Precisava falar com você, tem que ser rápido pois aqui é arriscado sermos vistos juntos.
Milo então puxou Camus para dentro de seu quarto, entrando de volta nele e fechando a grossa porta de madeira talhada á chave, rápidamente.
Os dois se olharam levemente eufóricos, ficarem trancados e a sós era um perigo incalculável que poderia levá-los a cometer uma loucura. Camus piscou os olhos calmamente, recobrando o juízo e a frieza para agir e iniciou o diálogo.
— Milo, eu sinto muito mas terei que magoar Natassia. Eu irei entender se ficar ao lado dela, e quero que faça isso, que apóie sua irmã. Eu sei o quanto a ama, mas eu não tenho escolha.
Milo ficou sério e preocupado com aquela ideia
— Pretende machucar minha irmã? Camus, não sei se Natassia suportaria.
— Eu preciso fazer isso. Não posso falar de nós, não vou te envolver, mas preciso falar o que EU sinto e isso irá machucá-la. Eu sinto muito, mas preciso fazer isso. É a única forma de tentar livrar a nós três dessa situação. Eu, você e ela.
Os dois se olhavam nos olhos, próximos, as respirações já se misturavam
— Então quer que Natassia ao ser rejeitada não queira mais casar-se? Não sei se conseguirá o que pretende Camus, mas saber que Natassia sofrerá me faz sofrer.
Camus se encolheu um pouco, sentiu seu coração apertar e doer ao ouvir Milo falar daquele jeito, mas não podia recuar
— Eu entendo, meu amor, mas eu preciso ao menos tentar. Me perdoe, mas tem sentimentos dentro de mim que eu preciso gritar e infelizmente terei de magoá-la pra isso. Mas ela tem um irmão lindo e forte que irá confortá-la, ela vai sobreviver. Eu confio em você, como me pediu, lembra?
Milo fez que sim com a cabeça, os dois homens se abraçaram e se beijaram longamente mais uma vez. Não sabiam se em outra hora ao longo de todo aquele dia poderiam voltar a fazer isso, não sabiam quanto tempo separados ainda teriam que suportar.
Sem mais demora, saíram cuidadosamente sem serem vistos.
Camus teria uma conversa difícil com Natassia e Milo temia o resultado dessa conversa.
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