A História de Nós Dois
29 A Familia
Notas iniciais

Cap 29 — A Familia
Pov Milo
Eu havia depositado minha confiança em Pandora. Tinha certeza de que ela não iria me desapontar. O prazo que eu dera a ela se esgotava naquela tarde e eu sentia que poderia dar-lhe a promoção que eu havia prometido. Mesmo sabendo que teria problemas sérios com Kanon se o fizesse.
Mas eu não estava preocupado com Kanon, embora conhecesse sua capacidade de me arrumar problemas.
Então ela chegou, tinha uma fisionomia boa quando entrou em minha sala com um pequeno recipiente em mãos. Nele, o pescado embebido em um óleo cheiroso. Realmente cheirava bem, parecia o odor de algo que dava vontade de comer. Supus que ela havia tido êxito.
— Aqui está patrão. Prove, por favor
Ela pediu. Kanon me olhou com uma cara descrente, nos olhamos e eu provei. E o sabor era bom, realmente bom. Finalmente meu pescado tinha um sabor mais fresco e não de algo morto em uma lata há dias. Parecia peixe recém pescado, boiando em dois dedos de um óleo que cheirava a alecrim e pimenta.
Era perfeito
— Perfeito senhorita Heinstein, perfeito. Parabéns, acha que podemos reproduzi-lo em larga escala?
— É claro, podemos usá-lo em toda a linha de produção — ela garantiu, animada
Eu sorria como uma criança e no calor da emoção dei-lhe a notícia
— Excelente. Parabéns, a senhorita acaba de ser promovida a gerente geral, senhorita Heinstein. Prepare-se, pois trata-se de um cargo jamais ocupado por uma mulher
Então eu vi nos olhos dela uma emoção incontida brotar em lágrimas, mal pude me segurar quando ela pulou em meus braços, me abraçando de forma tão esfuziante que mal podia me sustentar de pé
— Obrigada senhor Bloedorn, obrigada
Mas é claro que a alegria dela veio na mesma proporção da indignação de meu primo Kanon
— Como pode dar a uma mulher um cargo como esse? Não pode fazer isso, por causa de um maldito óleo...
— Posso sim. Não só posso, como vou. Pandora agora dividirá com você suas funções aqui. Trabalharão juntos — eu decretei, sendo o mais direto e incisivo possível. Eu não queria deixar espaço para Kanon protestar.
Ele estava transtornado e eu o deixei falando sozinho.
Kanon não suportou nem por dois dias aquela situação, ver uma mulher disputar espaço com ele daquela forma foi um golpe brutal para meu primo e ele pediu demissão.
Naqueles dias os pais de Camus também decidiram seu retorno para o interior da França, e eu e o ruivo organizamos nossa mudança para a mansão Brahman, o que ocorreu em menos de dez dias, a contar daquela data.
Quem também esteve conosco naqueles dias foi Krest, que veio em viagem ver Camus. Os irmãos mataram as saudades e eu pude rever meu cunhado. Zaphiri não veio com ele pois teve que ficar á trabalho em Paris, mas o casal está bem e vive muito feliz. Os dias em que Krest esteve em casa foram bem divertidos, conversamos bastante e ele se mostrou um tio solícito e carinhoso para o Oga.
Naquela semana também recebemos um presente especial: uma garrafa de vinho, produzida na Italia, mais precisamente na vinícola que o Dite e o Matheo agora tem lá. O vinho foi batizado de Mia Rosa, em homenagem ao Dite e é muito bom. Os dois estão felizes e vivendo perto dos meninos do Matheo, o que era o objetivo deles.
Nossa vida seguia tranquila, a livraria estava quase pronta para ser reinaugurada, quando uma carta, na verdade um convite, poderia mudar tudo.
**
Camus estava de pé no meio da sala com o tal papel em mãos. Nos olhos do ruivo uma mistura de aflição e tensão. Ele não sabia como dar aquele comunicado, na verdade seu peito estava prestes a explodir porque sua vontade na verdade era de gritar devido a euforia dentro de si.
Mas Camus controlou-se, como era esperado dele. Manteve seu típico equilibrio emocional e quando Milo surgiu diante dele, decidiu conversar primeiro com o parceiro, a sós.
— Trata-se de uma carta. Na realidade, um convite — ele começou, com o papel em mãos diante do outro que o olhava atento e um tanto confuso
— Um convite? Pra que?
— Pra uma expedição, uma jornada de um ano a bordo do Chevalier. E eu fui convidado a ser o Comandante da tropa, para lidera-los por um ano no mar- Camus despejou o mais rápido e direto que pode. Acreditava que quanto mais direto, mais indolor seria a notícia.
Sim, porque não era um pedido. Camus não estava pedindo permissão para viajar. Ele estava comunicando sua decisão de juntar-se a tropa, mas com uma condição
— Será a última vez. Eu irei conduzir o Chevalier pela última vez.
Milo respirou fundo, digerindo a notícia. Não poderia ser egoista a ponto de tentar negar a Camus algo que ele sabia que era um sonho, um sonho internamente acalentado por muito tempo. Tirar isso de Camus seria cruel.
Mas ficar sem o seu amor, também seria cruel
— Um ano no mar? — a voz saiu fraca, com a parte que mais doía da revelação: o tempo que ficariam separados
— Sim, mon amour. Seria impossível uma jornada mais curta, não haveria tempo hábil para fazer o trajeto que precisa ser feito. Um ano será o mínimo e eu farei tudo para não me estender, é uma promessa.
— Eu e Oga...por Deus, Camus, como ficaremos sem voce?
— Eu também não sei como ficarei sem voces
Os olhos de ambos tinham agonia, se abraçaram e se beijaram. Milo tornou a encarar Camus e fez o que tinha que fazer, ele não tinha escolha senão liberar seu amado para seguir seu sonho
— Vá Tenente, eu cuidarei do nosso menino, vamos ficar bem.
Camus sorriu e tornou a abraçar Milo, agradecendo a compreensão do amado. Para alguém possessivo como o escorpiano, era difícil deixar quem amava ir daquela forma, mas depois de tudo o que viveram, tanto Milo como Camus haviam amadurecido em todos os aspectos, e saberiam lidar com a distancia que iriam amargar nos meses seguintes.
Contar a Hyoga foi uma tarefa mais delicada. Os dois pais juntos deram a noticia e com muita paciencia convenceram o loirinho de que seria um ano cheio de novidades e diversões, mesmo ele estando longe de um de seus pais. Milo prometeu que lhe faria todas as vontades, que poderia visitar a tia Pandy sempre e que o levaria para aprender a jogar polo no jóquei.
E em duas semanas, Camus estava de partida para Liverpool, de onde partiria em um outro navio rumo a Marselha. De lá, ele assumiria o comando do Chevalier em uma expedição que cruzaria o mar, do Oceano Atlantico até o Artico.
Milo e Hyoga foram com ele até Marselha, seria o máximo que poderiam acompanha-lo. Dali, Camus seguiria liderando a tripulação de 120 homens.
Naquela tarde, todos estavam a postos no porto. Atropa de marinheiros franceses devidamente organizada marchou para dentro do imponente navio de guerra. Ler o nome Chevalier era como ler o nome do próprio Tenente, comandante e navio agora seriam um só.
Camus vestia a farda de comandante, cujo a casaca era quase tão vermelha quanto seus cabelos, e no peito suas condecorações. Primeiro abraçou Hyoga, tomando-o no colo
— Toma conta do papai pra mim, ouviu? E seja o homenzinho responsável que eu te ensinei a ser. Nada de doces demais, e estude bastante. Seja um bom garoto, je t'aime mon petit
A voz de Camus saiu já um tanto embargada, por mais que tivesse se preparado pra aquele momento, a emoção de estar partindo em missão pela última vez era incontrolável. Estava prestes a fazer algo que amava muito, mas para isso, deixaria para trás as pessoas que mais amava.
Então parou diante de Milo. O loiro o olhava como quem tentava conter a emoção, mas sua vontade era de amarrar uma corda no pé no ruivo e impedi-lo de partir. Sentia calafrios só de imaginar sua vida sem Camus, por um ano. E Camus sentia o mesmo, um vazio desesperador em imaginar sua vida sem Milo pelo mesmo período
— Nunca ficamos tanto tempo separados, est pas mon amour?
Camus pousou a mão delicadamente na face do amado, que retribuiu tocando-lhe também. Milo apenas balançou a cabeça, tomou folego e conseguiu finalmente falar
— Prometa-me que vai se cuidar, e que vai escrever nos portos onde parar
— Prometo, uma carta a cada porto, eu mandarei — suspirou, tentando segurar uma lágrima que teimou em rolar na face alva
— Ah meu Deus, Camus...eu te amo, eu te amo....
— Também te amo, mon cher. Te amo muito
E foi diante da tropa de mais de cem homens que o casal trocou um beijo apaixonado de despedida. Sem se importarem com o que falariam os mais conservadores, não haveria como não trocarem aquele último beijo, que foi intenso e demorado.
A partida de Camus foi sofrida e lenta, com o Chevalier ganhando o mar aos poucos, se afastando do porto, até sumir por completo no horizonte. Milo e Hyoga ficaram em terra, e até onde a vista conseguia alcançar o navio, ficaram acenando. Eles em terra e Camus na embarcação, acenavam até que suas visões não pudessem mais alcançar um ao outro.
**
Pov Camus
Diário de bordo do Primeiro Tenente Camus Albert Garret
Setembro, 1816
Havíamos a pouco cruzado o último trecho pelo mar do Norte, passando pela Dinamarca, á nossa frente o mar cravejado de icebergs nos guiava pela costa da Noruega. Mas nosso destino ainda estava distante. Nossa meta era alcançar a longíqua Islandia: uma ilha ainda mais ao norte, pouco conhecida e muito isolada. Um dos pontos mais distantes e frios do planeta. Uma terra inóspita e deserta, que guardava riquezas naturais incontáveis e onde os pesquisadores que me acompanhavam a bordo poderiam colher os materiais que desejavam e estudar alguns animais que só existiam naquela região.
Já estávamos embarcados há meses, mais de nove pra ser exato. Escrevi cartas para Milo e Hyoga nos tres portos onde atracamos, comprei presentes pro petit e pra ele. Á noite jogávamos cartas até que a lua estivesse no meio do céu, depois disso eu me recolhia e era nessa hora que a saudade lancinante vinha me açoitar o peito.
Pensava em Milo, pensava na gente. No nosso amor que começou como um amor impossível e se tornou a razão de nossas vidas. Pensava nele, pensava a ponto de sonhar, de sentir-lhe o cheiro. Eu podia jurar que sentia o cheiro de sua pele, de seu perfume onde eu estava. Me recordava da testura da sua pele, da maciez dos cabelos. Lembrava dos olhos penetrantes que me cortavam com aquele jeito de olhar que parecia me ver por baixo das roupas.
Ah Milo...que saudade meu amor. Espero que para ele a saudade seja tão dolorida como está sendo para mim.
Nos aproximávamos de mais um porto, chegávamos a Hofn, já em terras islandesas. Atracamos o Chevalier e eu desci á frente da tropa que aproveitou para buscar água e abastecer o navio com mantimentos. Não escreveria outra carta naquele momento, era de todas a cidade mais deserta onde chegamos, haviam poucos habitantes e creio que nem haveria como mandar uma correspondencia.
Passamos a noite atracados no porto e nos preparamos para zarpar já nas primeiras horas da manhã. Assumi o leme do Chevalier e desviando de icebergs cada vez maiores, avançamos pelo mar Ártico, pela costa da Islandia, navegando um pouco mais para o norte. O mar estava calmo, diferente de outras noites anteriores, não haviam mais tempestades nem tormentas. O mar gelado era solitário e silencioso, o máximo que vimos foram baleias que nadavam em bandos e cardumes de bacalhau.
Na tripulação alguns pescavam, outros enjoavam e precisavam deitar-se. Uma outra parte mantinha o Chevalier nagevando, cuidando para que suas velas estivessem sempre de acordo com o vento. Na cozinha do navio outros quatro nos preparavam o almoço que já perfumava uma parte do convés.
O cheiro de cordeiro assado era tentador, entrei para buscar minha bussola, estava confuso quanto a direção e entrei em debate com um dos sargentos. Fui buscar o artefato para tiramos a prova e um barulho estranho vindo do porão me chamou a atenção.
A primeira coisa que pensei foi que talvez algum animal tivesse por descuido entrado no navio, como ocorreu quando encontramos um pinguim em plena cabine de comando. Pensei ser algo parecido, mas meu coração veio á boca com a surpresa que me aguardava.
Abri a pequena porta que dava acesso ao porão do navio, desci as escadas para averiguar o local e o encontrei encolhido, em um cantinho. O menino loirinho parecia com Hyoga, embora tivesse os olhos esverdeados. Era bem magro e estava vestido com peles, a julgar pelas roupas, era um esquimó. Seus cabelos loiros espetados estavam sujos e embaraçados
— Quem é voce, garoto? Como entrou aqui?
Eu perguntei, tentei não parecer tão austero, ele estava com medo e não quis deixa-lo ainda mais apavorado
— Eu...estou fugindo. Por favor, senhor, não me mande pular
Ele implorou e meu coração se encolheu com sua voz fraca e ainda infantil. Claro que eu não o faria pular no mar, mas eu precisava saber quem ele era
— Não te farei mal, petit. Vamos, me diga seu nome
Então ele falou
— Isaak, senhor. Tenha piedade, senhor
— Isaak...mas o que faz neste navio Isaak? Onde estão seus pais?
— Eu não tenho, eles morreram. Eu estou sozinho, me ajude, senhor
Aquele menino não devia ter mais do que dez anos. Era pouco maior que Hyoga, porém muito magro e fraco. Não precisei perguntar, sabia que Isaak havia entrado escondido no navio no último porto em que paramos e ficaria ali, escondido o resto da viagem se eu não o tivesse descoberto. Mandei que servissem-lhe um bom prato de comida, que ele comeu como se não visse alimento há dias. Depois mandei que um dos homens lhe desse um banho, enquanto isso eu pensaria no que fazer com o garoto.
Ver Isaak limpo e alimentado fez bem a minha alma, meu coração se acalmou e tive uma sensação. Como um sinal. Aquele menino implorava por ajuda, assim como meu petit Hyoga um dia implorou. E se eu e Milo sonhávamos em aumentar a familia, estava diante de mim a oportunidade de fazer isso. Temi tomar outra decisão sem Milo, outra vez ele não estaria comigo e eu deveria decidir sozinho, mas o que eu poderia fazer se outra vez a vida estava me trazendo uma criança naquelas circunstancias?
Eu não podia negligenciar Isaak, não podia ignorar que ele não havia invadido o navio á toa. Existia algo maior guiando o destino naquela criança e o caminho de Isaak poderia ser mudado, pra muito melhor.
E eu estava pronto pra fazer isso.
A noite veio, fiz o petit dormir e dormi também, ao lado dele. No meio da noite ele me abraçava, tendo pesadelos, chorou algumas vezes e eu o acalentei. Eu não tinha mais como fugir de ser pai de Isaak, eu já estava sendo.
Chegamos alguns dias depois ao ponto mais ao norte da Islandia, nossa última parada antes de começarmos a retornar. A diferença é que nossa volta seria direto, sem paradas. Iríamos navegar sem interrupções e para tanto, foi necessário abastecer o Chevalier o máximo possível de suprimentos.
Passamos quatro dias atracados em Husavik, a cidade quase deserta que seria nosso último porto. De lá, mandei uma última carta a Milo, alertando-o que traria uma grande e inesperada surpresa para ele e Hyoga. A esta altura meu amor e minha saudade explodiam doloridas no peito, mas ainda tínhamos meses no mar pela frente, navegando de volta para casa.
Eu e Isaak andamos um pouco pela cidade que tinha apenas esquimós em uma ou outra casa, pouco comércio e uma escola, tomamos uma sopa de peixe numa taberna com alguns marujos e depois voltamos ao Chevalier para zarparmos.
Começava nossa longa jornada de volta.
***
Seis meses depois
Milo estava os dedos, tenso olhava o horizonte na esperança de avistar logo o navio que segundo os cálculos feitos por Camus, e avisados na última carta que recebeu do amado, estaria chegando naquele dia. E Camus nunca errava estes calculos.
Do lado dele, Hyoga olhava o nervismo do pai que parecia que ia pular na água a qualquer momento e buscar seu tenente amado a nado mesmo. Havia guardado cada uma das cartas, cuidadosamente. Cheirava, lia e relia milhares de vezes. Era a única coisa que tinha do ruivo naqueles dias, a saudade já o estava enlouquecendo.
Então a espera terminou, quando o Chevalier apontou no horizonte, se fazendo enchergar. Os cálculos estavam corretos, precisos. Milo sabia que era ele.
Um sorriso se desenhou na face do loiro e gritos de viva foram ouvidos no porto de Marselha: soldados franceses comemorando a volta daquela tropa e o sucesso daquela expedição.
A medida que o navio se aproximava, e a visão revelava maiores detalhes pela proximidade, Milo podia ver, ainda que diminuta, mínima, a vasta cabeleira ruiva. O sol daquela tarde a deixava ainda mais vermelha e brilhante, era Camus, e Milo sabia que era.
Assim como Camus já podia ver de pé, no porto, o loiro que mal se mexia de tão tenso. Os fios loiros bagunçavam com o vento caindo sobre os olhos azuis que não se despregavam do navio. Era Milo, e Camus sabia que era.
Quando toda a distancia foi vencida, não houveram beijos que saciassem a sede que aqueles dois sentiam. Se atiraram nos braços um do outro, os lábios colados, se beijavam com loucura e urgencia. Palavras não seriam suficientes então nada foi dito, apenas sentido.
Mas Camus precisava mostrar a Milo quem havia vindo com ele, precisava mostrar a Hyoga também.
Camus tomou Hyoga nos braços, matando a saudade do filho. Em seguida, Milo e Hyoga observaram a outra criança que se aproximava. O outro loirinho correu para as pernas de Camus e ele o apresentou
— Este é Isaak, ele é islandes e fugiu para o meu navio sem que ninguém soubesse, não é Isaak?
O menino balançou a cabeça positivamente
— Fugiu? Mas e seus pais?- Milo perguntou, curioso e já pressentindo o que viria a seguir
— Não tenho mais meus pais, eles morreram. Por favor, senhor, não me mande embora
O pequeno segurava as barras da casaca de Milo, olhando para cima tinha os olhos tristes para uma criança tão nova. Milo se comoveu com a imagem do garoto e abaixou-se para falar com ele
— Não se preocupe, não vamos te mandar embora. Aquele ruivo já me fez uma surpresa assim uma vez, e vejo que fará outra — apontou o olhar para Camus, que riu se divertindo com o gracejo do amado
Camus não precisou dizer mais nada, Milo o conhecia o suficiente para saber o que o ruivo pretendia. Ergueu-se novamente e agora se dirigiu a Camus
— Ele é nosso agora, né? Eu sei que é mais um filho, e eu quero recebe-lo com o mesmo amor que recebemos o Oga
— Oh mon amour, como é bom ouvir isso
— Um irmão? Eu vou ter um irmão? — Hyoga agora perguntava, olhando os pais e Isaak em seguida
— Sim, mon petit. Voce e Isaak serão irmãos, irão crescer e brincar juntos — explicou Camus, aproximando os dois meninos
Hyoga sorriu e os irmãos se abraçaram. Milo e Camus se juntaram ao abraço, unindo aquela familia que agora era maior. Juntos, entraram na carruagem que os levaria para o hotel, para que Camus e Isaak pudessem descansar um pouco da longa jornada.
***
Mais alguns meses depois
A primavera coloria a cinzenta Londres, Camus observava pela janela da mansão Milo ensinando Hyoga e Isaak a montarem a cavalo. Os tres riam, pareciam felizes debaixo do sol e aquela imagem aquecia o coração de Camus. Era gostoso ve-los tão alegres.
A familia Garret Bloedorn era reservada. Apesar de serem os homens mais ricos da cidade, o fato de serem dois homens casados ainda era motivo para sofrerem muitas retaliações e perseguições. Milo foi aceito novamente na equipe de polo, mas ainda havia quem se recusasse a assistir aos jogos em que ele estivesse, como forma de protesto. Por mais que o casal se apoiasse, não havia outra saída senão viverem mais isolados.
Os meninos iam á escola e voltavam sempre com a governanta e os empregados da mansão não eram autorizados a darem informações sobre os moradores.
Assim sendo, pouco se sabia sobre aqueles dois ricaços, muitos mistérios povoavam o imaginário dos moradores da cidade, que acabavam por inventar histórias fantasiosas, como por exemplo a de que Milo e Camus seriam dois vampiros e que se alimentavam do sangue das crianças. Ou que Hyoga e Isaak mantinham relações sexuais, assim como os pais. Entre outras aberrações, mas que eram apenas fantasias do povo que precisava apenas de um motivo para falar do Tenente e do Empresário.
Até mesmo na livraria, que Camus deixou a encargo de um amigo que cuidava de tudo para ele, as pessoas chegavam fazendo perguntas, querendo saber detalhes. Mas nada era dito.
Mas o casal ainda não estava satisfeito e numa tarde foram até o convento. Não o mesmo em que Natassia estava, mas um outro onde crianças abandonadas eram deixadas.
Milo e Camus queriam mais uma criança, mais um filho.
Olhando as criancinhas, Milo não pode ignorar uma em especial: era ruivinha como Camus. Branquinha como ele, até mesmo as ferrugens no rosto ela tinha igual ao ruivo.
— Camus, olhe...veja que linda, e como se parece com voce
Milo tomou nos braços a bebe, que não tinha nem um ano. Camus a olhou também e o amor o tomou imediatamente. Milo e Camus amaram a pequena
— É ela não é? É essa criança que procuramos, vamos ficar com ela, não vamos?
— Claro mon ange, ela é linda. Posso escolher o nome?
— Sim meu amor, de-lhe um nome
— Milo. Ela irá se chamar Milo, que é maçã em grego
— Maçã? — Milo perguntou, rindo — mas porque vai por meu nome?
— Olhe bem pra ela. A cabecinha vermelha lembra uma maçã
— Milo, filha...seja bem vinda
Mais tarde, em casa, o casal comemorou com os dois filhos a chegada da caçula, a princesinha da casa.
A familia Garret Bloedorn estava completa: Milo e Camus agora eram os pais de
Hyoga, Isaak e a pequena Milo
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