A História de Karin
23 Dragão Domesticado
Notas iniciais
Soul Society
Hitsugaya, como um ceifador letal, deslocava-se tranquilamente por uma rua de Seireitei, eliminando todos os seus moradores sem enternecimento ou condolência. Indiferente, aos corpos que lentamente desabavam num campo escarlate de morte. Ao acercar-se de um beco soturno e moribundo, defronta-se com uma criança frágil e delicada, semelhante a uma boneca de porcelana. Esta chorava, encolhida no canto, agarrada a um peluche seu; enquanto o encarava aterrorizada. O albino ergue seu punho com a zanpakutou, determinado a dar-lhe uma morte sem dor. O sobretudo de capitão que um dia fora símbolo de segurança agora era desonrado pelo sangue dos inocentes.
Num súbito momento de lucidez, com a lâmina a escassos centímetros do pescoço pálido, Toushirou consegue desviar a Hyourinmaru da garota, percebendo os olhos dela fechados fortemente, com receio de ver seu próprio sangue. Pousou carinhoso a sua mão livre no topo da cabeça desta, procurando reconfortá-la. Com esse singelo toque, ele pode perceber que ela tremia descontroladamente, o capitão inclusive escutava o tiritar dos dentes da criança que tentava conter os soluços. Embora, ao reparar que este não lhe fizera algum dano, abriu receosa um de seus olhos, deparando-se com um mar turquesa. Ficou surpreendida ao constatar um olhar tão dócil num assassino. O shinigami sorriu, como se dissesse que tudo iria ficar bem e sem dizer nada ele desaparece utilizando o shunpo. Desde o seu reencontro com Karin que seus momentos de discernimento aumentaram razoavelmente. O hollow que habitava em seu corpo, como um parasita, estava furioso com esse aspecto, contribuindo e muito para uma sessão de gargalhadas para o albino.
Se houvesse uma estação do ano que pudesse corresponder à vida de Toushirou seria o Inverno. Essa estação remete-se imediatamente para a chuva e a neve, elemento da zanpakutou de Toushirou. Porém não se limitava a essa razão, também era uma época de nebulosidade, assim como eram os pensamentos do capitão. A nebulosidade que simbolizava a confusão dos sentimentos de Hitsugaya, o facto de estes não serem perceptíveis. A sua desorganização tornou-se numa debilidade, que o inimigo a aproveitou. Ele não era mais que um dragão dominado. Seus sentimentos eram acobertados por um denso nevoeiro que o cegavam. Ele estava desnorteado não sabendo por onde dirigir-se. E com o hollow dentro de si, o caos interior agravou-se.
Contudo, Karin o socorrera. Ele sentira uma leve brisa remexer suas madeixas brancas e mesmo não enxergando o caminho, ele sentiu que de alguma forma a Kurosaki o guiava. E por isso estava a conseguir recuperar a posse de seu corpo temporariamente, mesmo que por escassos segundos, já era um processo!
— Não esteja tão confiante shinigami… Não me pode vencer.
Toushirou não se incomodou em responder. Sabia que realmente ainda não o podia derrotar. Mas suas forças se renovavam com o tempo, e com elas sua esperança.
A lua minguante resplandecia no céu negrume, misteriosamente seu brilho se concentrava na entrada de uma gruta, onde uma mulher peculiar se encontrava. Um rosto jovial encantador, belo demais para um mero mortal, parecia que sua face fora esculpida pelo próprio Rei Espiritual. Hitsugaya temeu descontrolar-se e a atacar mas algo naquela figura desconhecida cativou sua atenção, decidindo arriscar.
— Quem é você?
— Meu nome é Fujin.
— Fujin…? Esse nome não me é estranho… Espera…
O shinigami recua um passo, pelo impacto da informação que acabara de deduzir.
— A zanpakutou da Karin! O que faz aqui!?
— Perdoe-me senhor pelo que farei mas é necessário.
Toushirou não teve tempo de questionar a zanpakutou pois uma corrente de ar inesperada o golpeou, cortando-o agressivamente seus braços e pernas, enquanto os farrapos de seu kimono e sangue dançavam com o vento.
Gritos agudos do capitão ecoaram pelo campo e estranhamente ele não sentia manifestações do hollow que deveria sofrer com ele ou troçar de seu padecimento. Repentinamente, a tortura finda. Curiosamente deixou de sentir a aflição anterior, ao mesmo tempo que uma leve brisa o acariciava em seus ferimentos, como se a sua frescura atenuasse o ardor dos machucados. Ao abrir os olhos, o capitão sente seu corpo levitar no ar e por um momento enxerga cores nos ventos. Como se estes tivessem vontade própria. Seriam eles quem o conduziam? Ele ergueu uma mão, e uma corrente rodeou seu punho. Era mais gélida que as outras e esta tinha uma cor peculiar, um azulado prateado.
— Hyourinamaru.
— Mestre.
— Como é possível…? Nós não estamos no meu mundo interior.
— Estamos no de Karin-dono.
O albino ficou caótico e mergulhado numa profunda surpresa. Desde quando Hyourinmaru manifestava divinação por outros shinigamis? E principalmente: o que Karin tinha haver com a ligação de sua zanpakutou? E porque Hyourinamru não se manifestava como um dragão e como uma corrente de ar colorida?
— Se eu tentasse falar com o mestre no nosso mundo o intruso iria sempre estar presente, por isso pedi a Fujin-san para o encontrar e o transportar até aqui.
— Como é possível eu estar no mundo interior da Karin, Hyourinmaru? Como você, sendo minha zanpakutou, tem acesso a outro mundo espiritual?
— Nem tudo é o que parece, Mestre.
Toushirou compreendeu que seja qual fosse o cerne daquelas questões, que o dragão de gelo não poderia responder por enquanto. Como companheiro de longa data, o shinigami decide confiar nele e esperar pela hora certa. Porém algo ainda incomodava o albino.
— Ela está bem?
— Sim, encontra-se em repouso no quarto esquadrão.
— Será que ela um dia vai perdoar-me?
— Mestre, ela confia em si.
As palavras do dragão animaram o jovem que voltou a sentir os ventos investirem contra sua pele. Toushirou grunhiu com a dor latejante. A corrente com a voz de Hyourinmaru fica mais espessa, apertando o punho do capitão.
— O que se passa!?
— O hollow… Ele está a puxá-lo de volta, por isso os ventos ficam violentos e o atacam. Porque tem em si alguém que não é permitido entrar aqui.
O albino encarou uma última vez para a tonalidade azulada e viu os ventos se entrelaçarem num belo dragão, ele sorriu, mesmo em meio das dores, feliz por ter reencontrado seu fiel nakama.
— Arigato, Hyourinmaru.
Ao despertar ele novamente estava na entrada da gruta. Ele rapidamente reconheceu aquele lugar, era onde ele passara a maior parte do tempo a treinar sua bankai. O hollow voltou a tomar conta de seu corpo e ele fora recambiado para um lugar escuro e solitário.
Hitsugaya cerra as pálpebras como querendo relaxar, mesmo ouvindo os berros das vítimas do zombie, ele tentava não se afectar com isso.
"— Capitão! Agora é um observador?
— Te enganas. Só há algo que me preocupa.
— O capitão gosta de uma menininha do Mundo Real!
— Não é nada disso!
— Está tudo bem... Não tem porque ser tímido.
— É suficiente!
— Oh taicho! Espere por favor!"
Um sorriso estava desenhado na face do capitão de gelo, recordando o dia em que observava de um telhado a Kurosaki jogar futebol, na época em que ainda era humana. Naquele dia, estava preocupado com a sua situação, pelo crime que cometera e recusava-se a admiti-lo mesmo sendo óbvio para algumas pessoas como a sua tenente.
Ele cometera o pior erro de qualquer shinigami: apaixonar-se por uma humana. Quando soube de sua morte ficou feliz, e sentiu-se culpado por estar a ser egoísta… Mas ao menos eles poderiam estar juntos como antigamente. Seria interessante criar um jogo de futebol no décimo esquadrão, ela jogar contra ele. Quem venceria? Toushirou teve vontade de rir com seus pensamentos.
Ele reabriu os olhos e encarou as trevas, e pensou que só talvez o escuro não fosse tão arrepiante assim. Afinal lembravam-lhe a bela cascata negra dos cabelos de Karin. Seus olhos ónix sem fim com um brilho peculiar.
Por um breve momento, Toushirou apreciou uma corrente percorrer todo o seu corpo. O capitão não conseguiu identificar sua cor pela estranha mistura que esta aparentava ter mas de uma coisa ele tinha a certeza: aquele cheiro impregnado no vento agridoce era sem dúvida o de sua recente recruta futebolista.
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