A História de Karin
33 Desvendando Ventos
Notas iniciais
Soul Society
Despertando da dimensão fantasiosa, Karin remexia sua face contra a almofada macia. Ainda ligeiramente presa ao mundo dos sonhos, ronronava imaginando esse simples gesto no tronco quente de Toushirou, pronunciando ligeiramente seu nome em sussurros abafados.
Espreguiçando seus braços no alto, abriu os olhos calmamente deparando-se com duas shinigamis a encarando sorridentes, mais propriamente a capitã Unohana e sua tenente Isane.
O escarlate tingiu a face alva da morena. Completamente ruborizada, pelos seus actos e pronunciamento de nomes inapropriados, compreende a sua situação como no mínimo embaraçosa. Num movimento reflectivo cobre seu rosto, como se medisse ocasionalmente sua febre.
— Pequena shinigami, não vais enganar ninguém desse jeito. É óbvio que sonhavas com o capitão bonito…
Porque sua zanpakutou não podia ser normal? Tinha de ser tão atrevida!? Em vez de a ajudar só piorava seu constrangimento infinito.
— As zanpakutous são parte da alma do shinigami, não te esqueças disso Karin.
Escutava a gargalhada graciosa de Fujin, coberta de vergonha. Só queria refugiar-se, fugir daquela situação e retomar à normalidade. No entanto, assistir Isane rindo discretamente enquanto Unohana demonstrava um sorriso ternamente encantador em seus lábios, fingindo que não escutara nada, não era um grande apoio a isso.
— Bom dia Karin-san. Como se sente hoje?
— Melhor. Obrigada capitã Unohana.
— Fico feliz em saber. Sendo assim terá alta ainda hoje.
— Certo.
O constrangimento ainda assombrava a divisão. Enquanto a tenente fora tratar da papelada para a Kurosaki ter alta, Unohana permaneceu no compartimento, analisando alguns pormenores relevantes, somente para confirmar que o estado da shinigami permaneceria estável. Cumprindo seu dever, a capitã desloca-se para a saída, porém antes de o fazer se redirecciona para a paciente, sorrindo. Karin nitidamente ficou mais nervosa, não esperava um comentário desagradável ou provocador mas pressentia que algo do que a capitã diria estaria relacionado a seu sonho.
— É bom que uma criança possa ter bons sonhos em tempo de guerra.
Fujin ignorara completamente a mensagem utópica de Unohana, focando-se no constrangimento de sua mestre, provocando gargalhadas estridentes que ecoavam pela mente da morena, a deixando encavacada. Num gesto puramente infantil, ela cobre a totalidade de seu corpo por debaixo do lençol branco, numa tentativa inútil de esconder sua presença do mundo, ainda com a face esquentada pelos recentes acontecimentos.
— Quieta Fujin.
— Pequena shinigami ser flagrada a babar numa almofada pensando ser o jovem e esbelto capitão do décimo bantai é hilariante.
— Idiota, cala-se ou livro-me de si.
— Não conseguiria viver sem mim Karin-san.
A Kurosaki bufou, quando sua zanpakutou queria, sabia ser bem irritante. Porém, estava a obter êxito ao sentir que o fogo que domou suas bochechas tinha sido controlado, diminuindo progressivamente sua temperatura.
Novamente se levanta, trocando o kimono alvo por suas vestes negras habituais, para abandonar o esquadrão sorrateiramente. Pretendia evitar encontros desagradáveis com a tenente ou a capitã Unohana de novo. Subitamente ergue seus dedos até o olho vendado, seria difícil acostumar-se com as circunstâncias actuais. Pelo menos, até encontrar uma solução para o resolver.
O céu estranhamente estava sem nuvens. No caos em que Soul Society se encontrava, o ar regularmente espelhava um cenário acinzentado. Uma perturbação irregular no espaço porém alertou a Kurosaki que automaticamente depositou sua mão no cabo de sua zanpakutou.
— Maldição, isso parece impossível. Ainda agora saí do quarto esquadrão!
— A guerra não terminou, pequena shinigami.
— Que caras mais chatos.
Pressionou seu pé esquerdo, tomando impulso para pular longe esquivando de um golpe certeiro na zona onde ela se enquadrava.
— Muito bem garota shinigami.
— Vocês nunca se cansam?
— Vejo que é das rabugentas.
O combate se iniciara sem formalidades, ambos desferiam golpes e os desviavam. A morena ainda tinha aperfeiçoar suas técnicas uma vez que o seu campo de visão diminuiu drasticamente e o inimigo aproveitava-se disso. Tinha que agradecer a alguma identidade misteriosa ou ao destino por seu elemento ser vento... Mesmo parcialmente cega conseguia prever alguns movimentos na escuridão. As correntes de ar se movimentavam acoitando sua pele quando o quincy se aproximava perigosamente dela, sendo raramente apanhada desprevenida. No entanto, mesmo assim, o quincy parecia jogar com a morena que constatava que seus golpes não pareciam nutrir o efeito desejado. Ele encontrava-se praticamente intacto apesar das inúmeras tentativas. Afinal Karin estava a conseguir proteger-se bem, mas atacar estava a revelar-se uma missão árdua.
— Você é tão fraca quanto aquele capitão de cabelo branco, que ridículo.
Um cinza claro cobriu as íris negras como uma nuvem, entre a fúria despertou a essência destrutiva de sua zanpakutou, a cólera dos ventos, dividindo assim a katana peculiar de dois tons opostos da Kurosaki em duas espadas divergentes. A cor das lâminas era as que diferenciava visualmente, uma pálida como a máscara de um hollow, e a outra negra como a farda de um shinigami.
Ambas as espadas eram a alma de Fujin, no entanto representavam duas personalidades divergentes da zanpakutou. A lâmina branca começou a cintilar, emanando pequenos raios, enquanto a preta mantinha somente a brisa calma a rodeando. Os ventos embatiam furiosamente contra o inimigo, eles estavam ferozes como se a raiva da sua portadora lhes permitisse ter vida própria.
O elemento mais forte, capaz de travar a água e de apagar o fogo. Apto inclusive de perfurar o solo para adentrar por este, se assim o quisesse.
— Retire o que disse.
— O quê?
— O Toushirou... Não ouse falar dele desse jeito!
O quincy não tivera tempo para se recompor dar surpresas, imediatamente ficara perplexo pela segunda vez. Uma alta quantidade de energia espiritual criara-se nas costas e braços, destruindo as vestes negras que a shinigami utilizava, que cobriam essas mesmas partes de seu corpo. Como um furação de relâmpagos a circularem envolta de Karin, assustando o adversário por breves segundos, este consequentemente deixou transparecer seu medo momentaneamente.
— O que é isso? Que está fazendo?
— Surpreendido? Shunkou…
A morena retomou os ataques utilizando a nova técnica naturalmente, que aumentou não só seu potencial em combate físico como sua velocidade, permitindo-a ainda disparar raios de reiatsu para além dos de sua zanpakutou.
Nunca utilizara aquela técnica, nem compreendia como a despertara, fizera-o inconsciente… Simplesmente se lembrou de Yoruichi-san em combate. Aquela técnica assemelhava-se aos seus poderes, e ela conseguiria os fundir em perfeita harmonia.
O quincy sente momentaneamente ser-se electrocutado, seguidamente sendo socado e ponteado em diversos pontos. Não conseguira acompanhar a velocidade da shinigami. Frustrado empunha sua seele schneider, quando conseguira se afastar.
— Nunca serei derrotado por um lixo como vocês.
Aceitando a força superior da inimiga, recusou seu destino inevitável. Não perderia o combate… Usando a espada para cortar almas, perfurou seu próprio peito para espanto da morena que assistiu o inimigo perder a cor em seu olhar desabando lentamente.
Ela pensava que já tinha visto de tudo mas estava redondamente enganada. Numa guerra sempre era-se alvo de surpresas desagradáveis, sempre se esbarraria com algum acontecimento pior do que o anterior.
Os ventos se acalmaram, dançavam graciosamente envolta desta que simplesmente desfrutava do aconchego da brisa.
— Estás a crescer pequena shinigami, você está mais forte.
Um aperto em seu coração alegrou a morena. De todos os elogios que lhe pudessem dar, esse seria sempre o que mais a emocionaria. Contudo, subitamente, as madeixas brancas invadem sua mente, perturbando-a com um assunto até aí desconhecido. Nem ela compreendia a origem daquele receio, somente apareceu. Será que os quincys também tinham o poder de controlar o coração dos shinigamis?
— Fujin… E se um dia eu esquecer o Toushirou?
— O que quer dizer com isso?
— Não sei, é só um pressentimento. Tenho medo de um dia acordar e não sonhar com ele… Tenho medo de o encontrar, e não o reconhecer.
A pressão do vento envolto de Karin aumentou consideravelmente para ser algo natural. Fujin manifestando-se perante esse efeito surreal, os temores de sua mestre eram os dela. Os medos que habitassem na alma da Kurosaki seriam sua fraqueza, e consequentemente a perturbação dos céus.
— A mente humana é facilmente manipulável. Se o esquecer só tem de conhece-lo de novo, simples.
— Como se isso fosse algo fácil...
A morena sempre se acalmava perante o positivismo e calmaria de sua zanpakutou. Contudo algo desta vez não a deixou tranquilizar completamente, porém não conhecia o motivo ou o que podia ser ao certo. E ela odiava essa ignorância. Quem não detestava o desconhecido?
Encarou o cachecol que achara de Toushirou e ruborizou perante a sensação agradável que a possuiu ao sentir seu cheiro. Mesmo longe ele lhe transmitia segurança, sempre foi assim, mesmo quando ainda era humana… Ele tinha esse poder sobre ela.
— Maldito aluno do primário com cheiro gostoso.
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