A História de Fátima Rosa

6 Capítulo 6 - A Volta para Casa


Notas iniciais
Bem-vinda(o), espero que goste de conhecer esta história, que é contada a partir do ponto de vista dos dois protagonistas. Para quem conheceu antes a história original, fica a homenagem para que possamos passar mais tempo com esses personagens inesquecíveis...

KERIM

Munir, irmão da mãe de Selim, era conhecido por ser um advogado muito hábil em defesa dos interesses dos Yasaran, para quem trabalhava em caráter de exclusividade. Para obter sucesso, era sabido que muito frequentemente empregava estratégias pouco éticas. Mas nem mesmo ele disfarçou sua indignação quando Erdogam e Selim lhe contaram o que havia acontecido.

“Seus pilantras!!!” Foi sua primeira reação.

“É que a gente tinha bebido muito...” Tentou se desculpar Selim.

“Dane-se a bebida! Não há como escapar, vão ter que cumprir pena! Mas antes disso, seu pai vai acabar com você, Selim! Não... seu sogro senador vai acabar com você primeiro!”

“Precisamos de sua ajuda.” Interveio Erdogan. “Algum de nós poderia se casar com ela. Poderíamos fazer um casamento às pressas e ajeitar as coisas.”

“A lei já não é assim há muito tempo...Mas se ainda fosse, qual de vocês ia se casar com ela? Seria você, Erdogan? Ou o otário do meu sobrinho ia desmanchar o noivado para se casar com a moça? Vocês não conseguem perceber que jogaram suas vidas fora?”

Munir andava de um lado para o outro, agitando as mãos, parecendo sentir vontade de espancar todos nós.

“Vocês são uns animais, uns cretinos!” Ele prosseguiu, gesticulando. “Estavam assim tão excitados que só conseguiram pensar com os seus pênis?”

“Pare com isso, Munir, você tem que dar um jeito nessa situação.” Insistiu Erdogan. “Afinal, você também será prejudicado se nós formos para a cadeia. O que fizemos foi nojento, concordo, mas estávamos drogados, alguém colocou algo em nossa bebida quando estávamos na festa.”

Como era de se esperar, Erdogan agora apresentava sua própria versão dos fatos, isentando-se de sua iniciativa quanto às drogas que havíamos consumido.

“Ela está no hospital e a família é humilde.” Continou ele. “Suborne-os para ficarem calados. Eu posso conseguir dinheiro.”

“Você precisa fazer alguma coisa, tio!” Selim reforçou. “Faça algo, eu estou implorando, eu faço qualquer coisa! Pelo amor de Deus, o dinheiro resolve tudo. Só faça ela calar a boca...”

Desde que tudo acontecera, Erdogan se mostrava muito ansioso. Vural parecia estar em uma espécie de transe, não acreditando no que acontecia. Mas Selim, sem dúvida, era o mais desesperado com a situação.

Eu sentia asco profundo por tudo aquilo. Mas não podia me manifestar, pois gostasse ou não, eu também era parte de toda aquela mesma sujeira que me causava repulsa.

FATMAGÜL

“Lembra-se de quando mamãe penteava seu cabelo e lhe chamava de filha com cheiro de rosa? Meu botão de rosa, ela dizia...” As palavras de consolo de meu irmão Rahmi enquanto fazia um carinho suave em meu cabelo me faziam chorar ao lembrar de nossos pais. “Fique tranquila, você vai ficar bem. Não chore mais, Fatmagül. Não chore...”

Ainda doía muito fundo em meu coração que Mustafá tão somente tivesse se importado em saber quem havia feito aquilo comigo, ao invés de se preocupar comigo. Sabendo o quanto ele era ciumento, talvez eu devesse ter esperado que ele pudesse reagir daquela forma. Só depois também eu descobri que ele havia sido informado do que havia acontecido enquanto ainda estava no mar, provavelmente recebendo as notícias de forma parcial e truncada. Porém, ao agir daquela forma comigo ao voltar, ele me fez saber que eu não poderia contar com ele ao meu lado naquela hora tão difícil, o que me fez sentir cada vez mais só, apenas meu irmão sendo a única afeição sincera que continuava ao meu lado.

Isso porque eu nunca havia considerado minha cunhada como alguém que me amasse. Mas naquela época eu também ainda não imaginava o quanto ela poderia me prejudicar. Durante as investigações, Mukaddes havia achado uma aliança no local onde eu havia sido estuprada e ocultou da polícia tanto o objeto como a informação de que o encontrara. A partir do nome gravado na aliança, Meltem, o nome da noiva do filho dos Yasaran, ela deduziu que ele era um dos culpados. Eu ainda estava no hospital, quando ela procurou os Yasaran chantageando-os por dinheiro para que nós ficássemos calados.

Logo depois disso, Mukaddes convenceu meu irmão a me levar para casa, ainda eu que não estivesse recuperada. Sem nenhum conhecimento de suas manobras escusas, não entendi bem porque ela insistia que eu fosse embora do hospital, mas quando você está internada é sempre um alívio voltar para seu lar, seja em quais circunstâncias forem. Por isso, não reclamei quando Mukaddes e meu irmão me retiraram do hospital contra as ordens médicas, mesmo ainda sentindo muitas dores no corpo. Só pensei que talvez em casa eu conseguisse dormir um pouco melhor, mas quando me senti arrasada ao passar pela praia onde sofrera a violência, percebi que as imagens daquela noite ainda me assombrariam por muito tempo quando eu fechasse meus olhos.

KERIM

“Obrigada por ter vindo pra casa assim que liguei...”

Essa foi a frase com a qual Meryem me saudou ao voltar para casa. Já havia anoitecido e ela estava muito aborrecida comigo. Eu só consegui balbuciar um pedido de desculpas em resposta, sem nada explicar.

“A única vez que te peço uma coisa e olhe só... Que maravilha!” Ela emendou em seu desabafo angustiado. “Aqueles pilantras não deixaram você vir, arrastaram você pra todo lado e você ficou vagabundeando como um mendigo o dia todo.... Onde você estava?! “

Ao ver que eu nada respondia, Meryem insistiu:

“Estou falando com você!”

“Chega!” Eu respondi, gritando com ela. “Não me pressione!”

Subi as escadas e me deixei ficar em meu quarto, olhando para as fotos de minha mãe. Meryem subiu e me perguntou o que estava acontecendo e eu pedi que ela me deixasse sozinho, mas ela não se foi.

“O que houve? O que aqueles caras fizeram para você estar assim? Essa foi a primeira vez que você gritou comigo. Você descontou o que está sentindo em mim porque eu disse a verdade? O que é mais importante do que a vida de uma jovem?”

Era muito irônico que tivesse sido Meryem a encontrar a moça depois daquela noite. E sua voz para mim agora falando da garota, repetia o mesmo que me dizia minha consciência atormentada.

“Eu juro que não sei como isso aconteceu!” Eu acabei respondendo. Meryem se afastou de mim, o rosto demostrando seu espanto diante do que eu dissera. “Não fiz nada. Eu não faria nada com aquela garota! Mas eu não me lembro do que aconteceu direito...”

Ao se dar conta da dimensão do que eu afirmava, a face de Meryem passou rapidamente do espanto ao horror.

“Eu estava bêbado e me droguei, mas não fiz isso! Não fui eu, acredite em mim!” Continuei, tentando inutilmente me justificar.

Inicialmente, Meryem mergulhou em um pranto convulso e tentou me dar uns tapas enquanto eu continuava a implorar que ela acreditasse no que eu dizia. Porém, assim que ela se recuperou um pouco daquela terrível revelação, sua reação imediata foi me obrigar a me entregar confessando o que fizera.

“O que quer que tenha acontecido, precisa arcar com as consequências! Ou eu mesma vou denunciar você à polícia.”

Era previsível que ela agisse assim. Sempre havia sido uma pessoa correta em tudo que fazia. E pensando no assunto agora, eu deveria ter me entregado naquela ocasião. Seria algo que teria evitado muito sofrimento. Porém, ao invés disso, eu desesperadamente continuei tentando convencer a ela e a mim mesmo de que eu não era culpado, negando-me a ir à polícia.

“Escute o que eu tenho para dizer primeiro, Meryem!”

“O que eu vou ouvir? Você realmente fez aquilo com ela ou não?”

Eu não sabia o que responder.

“Fale!!! Fez isso ou não fez? Se não foi você, quem foi? Selim? Erdogan? Ou Vural? Ou todos vocês fizeram isso?”

Creio que a última pergunta de Meryem havia sido feita apenas como uma bravata. Mas diante de minha reação, ela percebeu que aquela era a verdade e chegou ao ápice de sua indignação. Nem mesmo ela esperava que as coisas tivessem acontecido dessa forma.

“Vocês são uns monstros...”

Não houve tempo para eu responder nada a ela, pois logo depois alguém bateu à porta. Era Munir procurando por mim. Meryem, que já o conhecia, perguntou-lhe se ele também estava envolvido naquela sujeira e disse que iria denunciar a todos o mais rápido possível. Munir disse-lhe que eu estava encrencado e pediu a ela que ao menos esperasse mais um pouco antes de envolver a polícia. Eu achei que não havia nada mais que eu pudesse fazer além de ir com ele, e fui embora enquanto Meryem dizia que minha mãe se reviraria no túmulo se pudesse me ver agora.

Mesmo assim, achei que Meryem não iria me denunciar, pois sabia o quanto me amava. Porém, embora ela me amasse, seu senso de dever era mais forte. Logo depois que fui embora, ela se dirigiu à delegacia para contar o que sabia. Porém, chegando ao posto policial, encontrou um grupo formado por gente da cidade indignados por saberem que ao invés de seus possíveis estupradores, ou seja, um de nós, fora o noivo da moça a ser preso. E ao perceber que aquelas pessoas estavam dispostas a fazer justiça com as próprias mãos quando alguém fosse acusado, ela preferiu aguardar os acontecimentos.

Notas finais
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