A História de Fátima Rosa
7 Capítulo 7 - O Esquema
Notas iniciais
KERIM
Durante o percurso com Munir, ele me perguntou o que eu havia dito a Meryem e como ela havia entendido as coisas. Eu respondi que não havia falado muito, mas que ela deduzira bastante do que acontecera, inclusive porque fora ela que havia encontrado a jovem. Munir disse que esperava que eu não tivesse culpado os outros diante dela. Como se eles também não fossem responsáveis pelo que havia acontecido!
Quando chegamos à mansão dos Yasaran, soube que a cunhada da moça havia encontrado a aliança que Selim havia perdido na praia naquela noite, descobrindo a verdade antes mesmo da polícia. E por isso viera exigir reparação em troca de que tudo não viesse a público. Quando a verdade foi revelada, Selim havia levado uma bofetada do pai, não apenas em função do acontecido, mas pelas consequências que aquilo teria nos negócios com o pai da noiva. Esta, por sua vez, tinha se aproximado e visto de longe Selim ser castigado pelo pai, sem entender a razão, mas Erdogan conseguiu disfarçar a verdade e reconduzi-la ao jantar de família onde ainda estavam seus pais, os pais de Vural e as mães de Selim e Erdogan.
Depois disso, quando Erdogan voltou a se reunir com Selim, foi acusado por ele de drogar a todos e ambos se atracaram diante de seus pais e da cunhada da jovem, que assim teve certeza da culpa de ambos. Naturalmente, ao final disso tudo, todos estavam muito nervosos e quando cheguei, os dois primos Yasaran também me acusaram de delatá-los para Meryem. Dessa vez, seria eu quem teria partido para a agredi-los se não fosse contido por Munir, que pediu a todos que se acalmassem e tentassem pensar juntos em possíveis soluções .
“A cunhada da garota nos ter procurado mostra que o silêncio da família pode ser comprado. É um bom sinal.” Disse ele, fazendo parecer que lidar coma situação daquela forma era algo natural para a família.
“E quanto à polícia e à justiça?” Perguntou Resat Yasaran. “Certamente não foi apenas a aliança que esses imbecis deixaram como pista na cena do crime... Vão descobrir o que realmente aconteceu.”
Foi então que Munir apresentou de forma definitiva a proposta que Erdogan antes apenas havia insinuado.
“E se apenas um deles assumir a culpa pelo que aconteceu e se casar com ela? Quando a família dela concordar em retirar a queixa, o caso pode ser encerrado.”
Nesse momento, todos os olhares se voltaram para mim e eu compreendi o papel que desejavam me atribuir naquele pesadelo.
“Eu não fiz nada com ela!” Reagi. “Não vou assumir a culpa sozinho.”
“Eu vi o que você fez, Kerim.” Vural me interrompeu. “Chega de mentir.”
Diante da minha memória embotada, não pude protestar, porque não tinha certeza do que havia feito ao final daquela noite.
“A vida desses três já está destruída, Kerim.” Disse-me Resat Yasaran, colocando a mão paternalmente em meu ombro. “Você é o único que pode fazer isso.”
“Você não será preso. A família da moça está quase convencida.” Munir retomou a exposição das providências que planejava. “Acertamos as coisas, fazemos o casamento e depois você pode se estabelecer em outro país e ter uma vida confortável, Kerim. Claro, se você quiser.”
Então era isso. Além da família da moça, eles também desejavam me comprar. Mas estavam enganados, porque nem por todo o dinheiro do mundo eu iria aceitar isso.
“Eu não vou fazer isso sozinho, todos têm que sofrer as consequências.”
“Por que você não usa a cabeça?” O tom de Munir, antes amistoso, agora se tornara ríspido e impaciente. “ A família dela está preparada pra fazer um acordo. Você sairá disso como o herói, caso contrário ela ficará marcada para sempre.” Ele fez uma pausa sugestiva antes de continuar. “Afinal, você se lembra de tudo que disseram de sua mãe depois que ela morreu... Não se lembra, Kerim?” Sua voz agora abandonava o tom seco de antes e tentava soar sedutora. “Afinal, vocês não precisam serem presos juntos. Fique tranquilo, eu não vou deixar você se prejudicar.”
Nesse instante, Meryem chegava e começou a chamar por mim gritando alto do lado de fora da casa. A noiva e sua família há haviam partido e as mães de Selim, Erdogan e Vural, que não participavam de nossa reunião mas a essa altura já desconfiavam de que havia algo errado, fizeram Meryem entrar e a trouxeram onde estávamos.
“Seja lá o que fizeram, vocês precisam se entregar.” Assim Meryem se anunciou ao chegar.
Minhas opções eram assumir a culpa integral por um crime terrível, mas do qual nem sabia direito como havia participado, ou ir contra todos os demais envolvidos, obrigando-os a confessarem o que haviam feito. Qualquer que fosse minha escolha, as perspectivas eram muito ruins. E os resultados, irremediáveis.
Eu não havia me decidido ainda, mas mesmo sem minha autorização, Munir tomou a palavra em meu lugar.
“Meryem, Kerim cometeu um grande erro que estamos tentando ajudar a reparar.”
“Não acredito nisso. Dr. Munir. Vocês estão escondendo alguma, posso ver pelo olhar de vocês.”
Todos se mantiveram em um silêncio culpado que parecia atestar o que Meryem dizia e ela continuou tentando me defender.
“Saibam que os médicos disseram que mais de um homem estuprou aquela menina. E foram vocês!” Ela agora se dirigia a Erdogan, Selim e Vural, diante dos olhares estupefatos de suas mães, que aparentavam ter descoberto a gravidade dos fatos apenas naquele momento. “Foram vocês, que agora estão culpando meu filho. Ele não faria isso, ele me disse que não fez isso.”
Foi então que o esquema sugerido por Erdogan e delineado por Munir, foi definitivamente sacramentado por Resat Yasaran.
“Meryem, você está enganada. Ontem à noite, nosso filhos ficaram conosco o tempo todo. Não ficaram, Peryan?” A mãe de Selim concordou debilmente. “Nós nos sentamos no jardim depois da festa de noivado. Não foi, Hilmiye?” Dessa vez, foi a mãe de Erdogan que assentiu com a mentira em um gesto envergonhado.
Leman Namli, a mãe de Vural, jogou a pá de cal na farsa, atestando que ela e o marido haviam chegado depois da festa e também haviam passado a noite na asa dos Yasaran. Todos compactuando com a mentira forjada para inocentar seus filhos. E para me culpar.
“Kerim me disse que também estava com vocês.” Insistiu Meryem, apegando-se às suas últimas esperanças.
“É mentira.” Novamente Vural parecia o mais ávido em culpar-me. “Ele não estava com a gente.”
Foi então que precisei encarar o rosto em lágrimas de Meryem.
“Kerim, meu filho... O que estão dizendo?”
Derrotado pelo cansaço e pela angústia, só consegui responder para ela que não me lembrava de nada direito e não mais fui capaz de olhar em seus olhos. E ela chorou muito, como só as mães são capazes de sofrer por quem amam. Foi assim que inicialmente eu concordei com o esquema.
FATMAGÜL
No dia seguinte, acordei um pouco melhor. Perguntei a Rahmi se os culpados já haviam sido presos, mas ele respondeu que não. No entanto, ele disse, segundo Mukaddes, que estava se encarregando dos contatos com a polícia, isso era apenas questão de tempo.
Não estranhei seu comentário a respeito da esposa. Meu irmão era o melhor homem que eu conhecia, mas desde que tinha doze anos e ele se casara com minha cunhada, era ela quem normalmente assumia o controle de tudo, uma vez que ele sofria de uma condição próxima a uma deficiência intelectual moderada.
Também perguntei a ele se Mustafá havia voltado a me procurar. Mesmo diante de uma resposta negativa, decidi ligar para Mustafá, mas ele não me respondeu. Apesar de seu comportamento que muito me magoava, eu desejava muito vê-lo outra vez para esclarecer as coisas. Sabe Deus o que haviam dito a ele. Eu queria acreditar que se ele ouvisse minha versão dos fatos, agiria de outra forma.
Eu ainda nem havia levantado da cama, quando Mukaddes chegou em casa com um advogado, a quem eu não conhecia, e que disse que estava ali para nos ajudar. Ele me perguntou do que eu me lembrava e eu disse que haviam sido quatro homens. O advogado, chamado Munir, respondeu que por eu ter passado por uma situação difícil, poderia estar enganada e recomendou que eu fosse muito cuidadosa com o que dissesse para não acusar ninguém injustamente. Eu respondi que tinha certeza do que dizia e que dois deles eram da família Yasaran. Meu irmão ficou muito surpreso, pois ainda não sabia dessa informação.
O advogado interveio e disse que se eu continuasse a falar essas coisas colocaria minha vida e a de Mustafá em risco. Segundo ele, meu noivo queria me matar e matar também quem fizera aquilo e quem quer que eu acusasse se tornaria alvo para ele. Eu ainda não sabia, mas após sua explosão no hospital, Mustafá havia sido retido por uma noite na delegacia para que não fizesse algo de que pudesse se arrepender. Porém, agora ele estava livre outra vez. Diante disso, Mukaddes e Dr Munir disseram que se eu ainda amasse Mustafá e desejasse ajudá-lo, eu deveria me calar, ao menos por enquanto. Eu não dizia nada, mas Rahmi discordou dos dois, dizendo que os culpados deveriam ser apontados e punidos, mesmo que Mukaddes e Dr. Munir continuassem a insistir em dizer que isso seria perigoso para todos nós, em razão do desejo de Mustafá de fazer justiça por si próprio.
Eu não sabia exatamente o que pensar, porque conhecia o temperamento intenso de Mustafá e vira sua reação no hospital. Embora eu não me importasse muito mais comigo mesma, me sentindo como se estivesse morta por dentro depois daquilo tudo, não queria colocar nem minha família e nem a vida dele em risco, mesmo depois de sua atitude. Mas também não me parecia justo que eu simplesmente ficasse calada depois do que acontecera.
Para finalizar aquela estranha conversa, Mukaddes disse que um deles, chamado Kerim, estava disposto a se casar comigo. Rahmi perguntou quem era esse homem e o advogado disse que eu o havia conhecido na festa. Era o homem que eu havia encontrado na escadaria e depois no jardim da mansão dos Yasaran. Eu me lembrei do rosto dele e me lembrei também de que um deles havia gritado aquele nome durante aquela noite. Sentindo meu estômago embrulhar ao me recordar outra vez daqueles instantes terríveis e precisei correr para o banheiro para vomitar. Foi então que percebi que do horror inicial agora nascia um ódio profundo por aqueles que haviam destruído minha vida. E soube que por minha livre e espontânea vontade eu nunca seria capaz de perdoá-los ou me casar com nenhum deles.
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