A Hipótese da Magia Viva
1 Um Chapéu, Duas Bolsas e Um Sonho
O flash da câmera fotográfica invadiu com violência os olhos de Aggy Docherty. Com os olhos arregalados, sorriso de orelha a orelha e mãos esticadas ao lado das pernas, a bruxa estava certa que aquela era a melhor foto que tirara na vida. Claro que o fotógrafo revirou os olhos todas as vezes que ela fez uma pose, tirou o chapéu e colocou, sorriu de mais ou simplesmente ficou com os olhos fechados. Fora exatamente uma hora de trabalho para conseguir uma foto “menos estranha”.
A bruxa estava exultante, extasiada! Depois de anos defendendo uma teoria ridicularizada por colegas muito mais renomados, o Ministério da Magia reconheceu sua pesquisa sobre a Hipótese da Magia Viva. Não só isso, ganharia uma promoção também! Sairia do Departamento de Regulamentação e Controle dos Artefatos Mágicos e para ingressar no Departamento de Mistérios.
Uma Inominável! Finalmente!
O fotógrafo deu mais um suspiro desalento. Seu rosto cansado, tedioso, contrastava com o sorridente e empolgante de Aggy.
— Sua foto sairá na próxima edição do Profeto Diário. — Informou o profissional. — Parabéns — seu tom de voz foi monótono, como se tivesse sido dita por obrigação. Mas isso não impediu Aggy de considerar que o fotografo estava comemorando com ela.
Aggy deixou o pequeno estúdio em Londres saltitando. Do lado de fora, sob o Sol do verão londrino, que naquele ano decidiu ser generoso, colocou na cabeça o chapéu cônico de cores azul e roxo, cheio de remendos coloridos, de abas largas que quase escondiam seu rosto.
Aggy a excêntrica.
Fora assim que a apelidaram ainda em Hogwarts. Mais de uma década depois, o nome continuava a acompanha-la com a mesma teimosia do chapéu que jamais deixou de usar. Afinal, não era todo o dia que se via uma bruxa com camadas de tecidos em todas as cores imagináveis, duas bolsas a tiracolo, pendendo de cada lado do corpo e um cinto com pequenas bugigangas balançando a cada passo.
Aproveitou para comprar doces trouxas, sem graças se comparados aos do Dedosdemel, mas igualmente deliciosos. Com um saquinho de guloseimas nas mãos e divertindo-se com as expressões curiosas e perplexas dos trouxas diante de sua vestimenta, aparatou para casa, no pequeno vilarejo Brockburrow.
A casa que mais parecia um misto de cabana de pedra e uma torre torta, recebeu Aggy com vida. O espantalho no jardim acenou para ela e, após alguns passos de sapateado no capacho de entrada, a porta abriu sozinha, recebendo-a calorosamente.
Na sala, na mesa ao lado da poltrona cor de salmão, agulhas de tricô trabalhavam sozinhas em um xale colorido de lã. Aggy se inclinou sobre o trabalho, avaliando os pontos.
— Hum... Poderia ficar melhor.
As agulhas pararam por um instante.
— Não reclamem! Vocês sabem muito bem que esse ponto ficou torto.
Resignadas, começaram a desfazer os próprios pontos.
A bruxa tirou a capa de viagem. O cabide, que até então permanecia imóvel ao lado da janela, atravessou a sala em pequenos pulos apressados, para receber a vestimenta.
— Obrigada — disse ao cabide, pendurando a capa.
O cabide fez uma pequena reverência antes de voltar saltitando para seu lugar.
Enquanto subia para o quarto, a casa respondia a ela. Mal lhe ocorreu a ideia de tomar uma xicara de chá quando ouviu a chaleira começar a ferver.
— Você é um amor — disse ao som da xícara e pires sendo posto sobre a mesa. — E você é muito gentil. — Disse quando a porta do quarto abriu antes de pisar no ultimo degrau da escada. O chapéu voou para o cabide sobre a penteadeira.
Não precisou puxar a cadeira para se sentar, nem abrir a gaveta em busca dos cartões de correspondência. Antes mesmo que estendesse a mão, a pena mergulhou sozinha no tinteiro, que saltitou de seu canto sobre a penteadeira até acomodar-se ao lado do papel. A magia sempre parecia saber do que ela precisava.
Com um sorriso satisfeito, começou a escrever.
Querida Molly,
Como vocês estão?
Creio que Arthur já tenha contado a novidade, mas ainda assim preciso dividir minha empolgação com alguém.
Compre o Profeta Diário de amanhã! Estarei na primeira página! (Espero que desta vez o fotógrafo tenha conseguido uma imagem em que eu esteja com os olhos abertos.)
PS: O Egito é realmente tão fascinante quanto dizem? Tenho muita curiosidade em conhecer a magia de lá. Se Bill descobrir alguma biblioteca antiga ou uma ruína cheia de inscrições, peça que me conte tudo!
Aggy dobrou cuidadosamente a carta e deu dois assobios curtos. Alguns minutos depois, uma coruja-marrom entrou pela janela do quarto, que abriu sozinha com a aproximação do animal.
— Boa tarde, Mnemosine — Aggy foi até a ave e acariciou as penas do animal. — Será que você pode levar esta carta até a Toca?
A coruja soltou um pio ofendido, como quem dissesse "É claro que posso."
— Tem razão. Que pergunta boba a minha.
A ave esticou a pata para receber o envelope, alçou voo e desapareceu pela janela.
Naquela noite Aggy não dormiu. E a casa também não. Estava empolgadíssima para ver sua imagem no jornal mexer diante de seus olhos. Diante dos olhos de toda a sociedade bruxa. E, sobretudo, diante daquelas que riram de sua pesquisa.
Aggy revirava-se de um lado para o outro na cama, incapaz de conter a energia do corpo e da mente para dormir. Levantou três vezes para trocar de roupa, separando conjuntos diferentes para o primeiro dia no Departamento de Mistérios. O primeiro parecia formal demais, O segundo, colorido de menos. O terceiro... bem, o terceiro era perfeito.
Em pé, diante do espelho, estendeu a mão ao próprio reflexo.
— É um prazer conhece-lo, senhor Ministro! — fez um movimento como se apertasse a mão do próprio. — Aggy Docherty. Muito prazer. — Pigarreou e imitou uma voz masculina. — “Parabéns pela descoberta, senhorita Docherty.” Hahaha, excelência, foi apenas o resultado de muitos anos de trabalho.
Ela sorri de orelha a orelha com as mãos na cintura. Sim! Estava perfeito, maravilhoso e... A casa ficou silenciosa de repente. O som das agulhas cessou, o chapéu, pesado demais para se sustentar no cabide, caiu no chão. As luzes piscaram, a chaleira apitou sem água, lá embaixo na cozinha.
Aggy franziu a testa.
— Meninas?
Desceu as escadas, as agulhas estavam inertes, o cabide com sua capa estava no chão, o fogão estava acesso sem magia. Mas assim como aconteceu repentinamente, tudo voltou ao normal repentinamente. O fogo apagou, o cabide se ergueu acanhado, como se a culpa fosse dele, e as agulhas voltaram ao trabalho.
— Isso... — Olhou para os objetos retomando a vida, boquiaberta. —...Preciso registrar— Subiu correndo para o quarto. Seu caderno de anotação saiu da ultima gaveta e abriu numa folha limpa.
02:35
Todos os objetos interromperam suas funções simultaneamente. Duração de 20 segundos. Não houve descarga magica perceptível. Sem registro de fenômeno semelhante em doze anos de observação.
Parou de escrever e deixou que a magia guardasse seus itens. Deitou na cama e debaixo dos lençóis, procurava uma hipótese para origem de tal fenômeno.
**
A janela do quarto abriu quando o sol nasceu. Aggy tomou seu banho, tendo as costas esfregada por uma esponja e os pés, por outra. O cabelo longo e preto era penteado por um pente de marfim.
Enfim o dia que a foto estaria estampada em todo o Profeta Diário. Se vestiu, ajeitou o chapéu cônico diante do espelho e desceu as escadas. A chaleira já a esperava com o chá servido e uma torrada ainda quente repousava ao lado da xícara.
— Bom dia. — sorriu para a casa. — Hoje é meu dia, finalmente!
A ampla janela da sala abriu-se sozinha. Uma coruja-correio entrou em um rasante preciso, deixou cair um exemplar do Profeta Diário sobre a mesa, apanhou um nuque que a aguardava sobre a lareira como pagamento e voltou a ganhar o céu.
Aggy serviu-se de mais um pouco de chá. Arrumou a aba do chapéu e considerou usar algum feitiço para realçar a maçã o rosto. Talvez a foto a deixasse mais bonita e deveria manter um padrão de beleza para os novos colegas.
Desfez o nó do jornal com o peito estufado de expectativa, ansiosa para ver seu próprio sorriso empolgado estampado na primeira página. Mas a expressão em seu rosto murchou no instante em que os olhos pousaram na manchete.
O rosto em movimento estampado na capa não era o seu. Era uma figura esquelética e atormentada: cabelos escuros, longos e encrostados de sujeira emolduravam uma face cavada, onde olhos fundos e insanos encaravam a câmera com um desespero quase selvagem. Aquela feição maníaca não era a sua.
Aggy sentiu um arrepio percorrer a espinha
SIRIUS BLACK ESCAPA DE AZKABAN
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