A Hipótese da Magia Viva

2 A Mais Nova Inominável


As agulhas pararam seu trabalho quando Aggy soltou o jornal e permaneceu sentada, imóvel, sem um único sorriso no rosto. Inúmeras coisas passaram por sua cabeça. A época da escola, duelos, guerra, mortes e prisão. Mas sua foto não estar na primeira página parecia pior. Tinha ciência do quão perigoso Sirius Black era, mas seria capturado logo por dementadores ou pelos aurores. Sua pesquisa, no entanto, era única. Uma descoberta que ela sonhara ver estampada em uma grande manchete com uma imagem sua. Soltou um suspiro dolorido. Se não se movesse chegaria atrasada ao primeiro dia de trabalho no Departamento de Mistérios.

— Imagino que uma fuga de Azkaban seja um pouco mais importante do que eu.

O cabideiro ao lado da porta balançou de um lado para o outro, indignado.

— Não estou dizendo que a fuga dele não importa — respondeu Aggy. — Só estou dizendo que eu esperava pelo menos uma pequena nota. — Levantou-se desanimada e antes de aparatar despediu-se da casa.

O Ministério estava em pavoroso. Aurores, chefes, funcionários corriam de um lado ao outro ansiosos, nervosos e apavorados. Todos tinham de baixo do braço uma edição do Profeta diário. Em meio ao caos, Aggy andou calmamente ao Nível de seu antigo departamento. Lá, passou despercebida por seus colegas. Ninguém queria papo, só tinham teorias de para onde Sirius Black foi e como escapou. O amuleto no formato da pata de coelho, que deixara na mesa de seu cubículo, saltou para sua mão.

— Tchau, pessoal. — Disse, mas ninguém pareceu prestar atenção.

Enquanto esperava pelo elevador, um colega passou apressado por ela. Parou apenas por um instante e disse:

— Ahn, Aggy... Parabéns pela promoção.

E antes que ela pudesse responder, ele já havia desaparecido no corredor.

— Obrigada... — murmurou ela. — Eu acho.

O elevador estava cheio. Aggy se espremeu entre uma bruxa carregando uma pilha de pergaminhos e um homem que abraçava uma gaiola de tronquilhos. A cada parada, funcionários saiam e outros entravam. Quando as portas abriram no Nível Sete, Aggy finalmente ficou sozinha.

As grades douradas tornaram a se fechar.

— Nível Nove. Departamento de Mistérios. — A voz feminina do elevador ecoou pelo compartimento.

Aggy endireitou o chapéu imediatamente e respirou fundo. As portas se abriram para um corredor muito diferente dos demais andares do Ministério. Ali não havia o vaivém frenético de funcionários, nem o burburinho constante de conversas.

No fim do corredor, uma pesada porta negra conduzia ao setor mais reservado de todo o Ministério da Magia: o Departamento de Mistérios. Pouquíssimos bruxos sabiam o que realmente acontecia além daquela entrada. Corria o boato de que seus pesquisadores dedicavam a vida ao estudo dos maiores enigmas da existência: o tempo, a morte, o espaço, o pensamento, o amor e outros mistérios tão antigos quanto a própria magia.

Por isso eram conhecidos apenas como Inomináveis. O sigilo era tamanho que, mesmo entre os funcionários do Ministério, quase ninguém sabia quem trabalhava ali ou em que exatamente consistia em suas pesquisas.

Aggy respirou fundo antes de empurrar a porta. Do outro lado, encontrou uma sala perfeitamente circular. As paredes negras e reluzentes refletiam sua imagem distorcida, enquanto inúmeras portas idênticas, sem maçanetas, placas ou qualquer identificação, cercavam todo o ambiente.

Era impossível distinguir uma da outra. Por um instante, teve a estranha impressão de que a própria sala a observava.

Só havia uma questão: Aggy não sabia em qual porta entrar. Com o caos causado pela fuga de Sirius Black, ninguém estava ali para recebe-la. Havia imaginado uma pequena cerimonia onde apertaria a mão dos novos colegas, onde seria orientada a sua nova função e apresentada a uma nova sala, mas... não tinha nada.

Andou pelas portas olhando-as minuciosamente, mas não havia a menor diferença entre elas. Levou a mão a uma das bolsas, apertando a pata de coelho que reagiu ao seu toque.

— Isso é um bom sinal. — Deu um sorriso. — ... Eu acho.

— Aqui está você.

Aggy virou surpresa para a porta negra que abria naquele momento. Um bruxo em vestes púrpuras, cabelos brancos, e levemente corcunda pela idade vinha arrastando os pés em direção a ela.

— Você é a senhorita Docherty, imagino?

— Sim, senhor! — Estendeu a mão ansiosíssima para apertar a dele. — Autora da Hipote...

— Vou mostrar sua sala. — Disse ele, passando direto e ignorando a mão estendida.

— Ah... — Aggy recolheu a mão, pigarreando. — Certo...

O bruxo abriu uma das portas, que dava direto a um corredor estreito com várias outras portas. Essas, diferentes das outras dozes, tinha desenhos de um cérebro cruzado com uma varinha ao fundo. A Sala do Cérebro.

— Com licença... — chamou ela. — Achei que ficaria na sala do Espaço. Visto que a magia...

— E a consciência andam juntos — interrompeu o bruxo sem diminuir os passos e sem olhar para Aggy. — Toda magia começa com uma intenção antes de se tornar um feitiço.

Finalmente ele parou e ao toque de sua varinha abriu uma das portas.

— Sua sala. — Anunciou sem animo algum.

Aggy atravessou a porta com cautela. A sala era ampla, mas mal iluminada. A poeira pairava no ar, dançando sob a luz das poucas velas magicas. Livro antigos estavam empilhados pelo chão, abandonados. Havia apenas uma escrivaninha, uma cadeira de madeira e uma estante vazia.

Não era exatamente o escritório grandioso que imaginara. Ainda assim, esforçou-se para esconder a decepção. Voltou-se para o homem, que já se preparava para partir.

— Obrigada. Eu ... ainda não sei seu nome, senhor...

— John Bates. E boa sorte. — A porta já estava quase se fechando quando Aggy falou outra vez. Dessa vez, sem o entusiasmo de antes.

— É... O senhor chegou a ler minha pesquisa?

— Li. — Aggy esperou que dissesse mais alguma coisa. Ele não disse. — E... o que achou?

Ele suspirou.

— Se pretende provar que a magia possui vontade própria, vai precisa melhorar bastante.

Sem acrescentar mais uma palavra, fechou a porta. O clique da fechadura ecoou pela sala vazia. Aggy permaneceu imóvel por alguns segundos, chocada. Então, olhou ao redor e respirou fundo.

— Bom... — murmurou. — Acho que oficialmente sou uma Inominável

Tirou da bolsa a pata de coelho, o primeiro enfeite para decorar sua nova sala. Da bolsa esquerda tirou a varinha, preparava-se para realizar os movimentos de feitiço de limpeza quando a pata ficou em pé e saltitou pela mesa.

— Até agora você é o primeiro que fica feliz com a minha promoção, pequeno. — A pata deu mais um saltinho. — Eu também estou feliz... Só esperava um pouco mais de entusiasmo do mundo. — Lançou um feitiço de limpeza sobre a cadeira e sentou, cruzando os braços. — Maldito Sirius Black! Deveria estar preso, acorrentado na parede e amordaçado! O mundo é injusto, não é, pequeno?

Com um suspiro pesado, balançou a varinha novamente e a poeira sumiu do chão e dos moveis, enquanto os livros subiam para as prateleiras, ocupando seus lugares. Independente de Sirius ter roubado as semanas dando entrevistas, as visitas, os pesquisadores que sonhava conhecer, Aggy tinha um trabalho para fazer: prova que a magia estava viva.

**

A pata de coelho pulou incessantemente quando o expediente acabou. Aggy deu um suspiro olhando para a parede escura, onde seu reflexo era disforme e embaçado, imaginando outra pessoa ali. Uma pessoa mais empolgada que ela com sua conquista.

— É prazer conhecer você também! Sim, sou a autora de Hipótese da Magia Viva. Hahaha, é claro que posso dar um autografo. Uma palestra? Será uma honra!

A pata de coelho deu três pulinhos apressados, como se estivesse aplaudindo. Aggy sorriu.

— Obrigada. — Guardou cuidadosamente o pequeno amuleto

A bruxa saiu do Departamento de Mistérios sem encontrar sequer John Percy ou os colegas das portas vizinhas. Sozinha, refez o caminho até o elevador. Ao menos pôde pegar o elevador sozinha, porém, as portas se abriam e funcionários entravam aos montes, enchendo o compartimento de vozes, jornais amassados e especulações sobre Sirius Black.

Quando as portas se abriram no Átrio, Aggy foi levada pela multidão.

— Aggy!

Ela reconheceu a voz imediatamente. Arthur Weasley vinha em sua direção acenando e com um sorriso desajeitado.

— Molly recebeu sua carta ontem.

O cansaço de Aggy desvaneceu imediatamente, tornando empolgada no mesmo instante.

— Ah! Então ela viu a reportagem!

Arthur faz uma careta. Então foi a vez de Aggy fazer uma careta, lembrando que a manchete do dia não tinha nada relacionado a ela.

— Ah... é verdade...

— Molly pediu que eu lhe desse os parabéns. Ela está orgulhosa de você. — Disse e Aggy enrubesceu, agradecida. — Então... como é o Departamento de Mistérios?

Aggy olhou para os lados, para os bruxos que caminhava ao lado deles.

— Acho que eu não posso contar.

— Nem para mim? — Arqueou a sobrancelha.

— Principalmente para você.

Os dois riram, o que chamou a atenção dos bruxos ao redor. Arthur então puxou Aggy educadamente para uma parede, onde o cartaz de Sirius fora colado.

— Eles estudam mesmo o tempo lá embaixo?

— Talvez.

— Eles já descobriram por que as torradeiras trouxas fazem aquele barulho?

Aggy não soube o que responder, franzindo o cenho em dúvida se a pergunta era séria de fato...

— Eu... acho que não pesquisamos sobre isso.

Arthur ignorou o incomodo da jovem e passou a falar de utensílios trouxas completamente fascinado. Uma bruxa passou pigarreando incomodada com a risada e a conversa alta dos dois.

— Todos estão preocupadíssimos hoje. — Suspirou Arthur, ajeitando a túnica. — E não é pra mais.

— Eu também esperava acordar com outra manchete. — Aggy acompanhou seu olhar até o cartaz de Sirius Black.

Arthur soltou um longo e pesado suspiro.

— Sirius Black escapar de Azkaban... nunca imaginei que veria isso acontecer. — Por um instante, pareceu muito mais velho. — Passei o dia inteiro respondendo memorandos. O Ministério inteiro está em alerta. Há boatos de que ele pretende terminar o que começou doze anos atrás.

Aggy franziu a testa.

— Harry Potter?

Arthur assentiu lentamente.

— É o que todos acreditam. — A preocupação era evidente em sua voz. — Molly está apavorada. Nossos filhos voltarão para Hogwarts em poucas semanas... e Harry estará com eles. Não consigo parar de pensar nisso. Azkaban era o lugar mais seguro do mundo. Se alguém conseguiu escapar de lá...

Aggy voltou a olhar para a imagem de Sirius. O homem na imagem se batia e gritava contra as grades, parecendo mais um espectro atormentado do que o bruxo que ela conhecera na juventude.

— Ele pode muito bem ser capturado de novo — disse Aggy, tentando soar convicta. — Os dementadores acabarão com ele.