A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:
4 🕯️Entre Olhares e Palavras Não Ditas:
O intervalo entre as aulas de Poções e Feitiçaria trouxe consigo uma onda de estudantes correndo pelos corredores, discutindo sobre os resultados do último jogo de Quadribol e as lições que precisavam terminar antes do jantar. O Sol, que já começava a se esconder atrás das torres de Hogwarts, pintava os vitrais do castelo com tons dourados e rubros, mas para Amy, nada disso parecia ter importância. Estava acostumada ao calor do silêncio, como se o mundo se aquietasse em torno dela.
Mirra estava mais animada que o habitual, correndo ao seu redor enquanto ela caminhava em direção ao corredor silencioso onde se refugiava para escrever, ler ou simplesmente pensar. Mas antes que pudesse alcançar o canto da biblioteca, Rose a alcançou.
— Amy! — a voz de Rose era mais forte que o normal, uma mistura de confusão e curiosidade. — Precisamos conversar.
Amy parou e, com um suspiro, olhou para a amiga.
— Conversar sobre o quê? — Ela não soava irritada, apenas cansada. Como sempre.
Rose não perdeu tempo, indo direto ao ponto.
— Por que você chamou os dois para se sentar com você? — O questionamento vinha com um tom que Amy reconheceu. Não era exatamente raiva, mas uma sutileza de julgamento, como se Rose não entendesse o que Amy vira naqueles dois.
Amy, com calma, deixou que a pergunta se acomodasse na sua mente por um instante, os olhos vagando pela biblioteca silenciosa à sua volta.
— Eu... — Amy deu um leve sorriso, quase imperceptível. — Achei que estavam sozinhos demais.
Rose cruzou os braços, levantando uma sobrancelha.
— Sozinhos? Eles não são bem... os mais "sofridos" da escola, não acha?
— Não, não são. Mas ninguém parece entender o que realmente aconteceu com eles. — Amy olhou Rose, um pouco mais séria agora. — E se ninguém entender, vão acabar se isolando mais ainda.
Rose hesitou, dando um passo para trás, como se as palavras de Amy tivessem um peso maior do que ela esperava. Ela queria argumentar, queria julgá-los também, mas algo na calma de Amy a fazia pensar duas vezes.
— Eles merecem ser julgados, Amy. Todos estão falando sobre eles. Fizeram algo grave! E você... você os defende sem nem ao menos saber o que estava acontecendo! — Rose parecia frustrada, mas não completamente perdida. Seus olhos, que antes estavam furiosos, agora buscavam respostas. — Por que você não os vê como todos nós? Como eles realmente são?
Amy balançou a cabeça lentamente, ainda com o mesmo sorriso suave.
— Porque eu sei o que é ser mal interpretada, Rose. — Ela deu um passo à frente. — Se você estivesse no lugar deles, você gostaria que alguém se aproximasse por curiosidade ou por compaixão?
Rose mordeu o lábio, claramente desconfortável com a resposta de Amy.
— Isso não tem nada a ver com compaixão. Eles... — Rose fez uma pausa, tentando escolher as palavras certas. — Eles ainda são culpados, Amy. Não podemos ignorar isso. Não posso simplesmente virar as costas e deixar tudo passar.
Amy, com um olhar calmo, olhou diretamente nos olhos de Rose.
— Eu não estou ignorando nada, Rose. Estou apenas... tentando ver a coisa toda. A pessoa por trás dos erros. — Ela fez uma leve pausa. — As pessoas não são só os erros que cometeram. E você, mesmo com todo o seu julgamento, sabe disso, eu sei.
Rose, com os braços ainda cruzados, baixou os olhos por um momento. As palavras de Amy a tocaram de uma forma que ela não conseguia expressar, mas a dúvida ainda estava ali, latente.
— E se você estivesse errada? — Rose perguntou, mais suavemente agora. — E se eles realmente merecessem tudo o que dizem sobre eles?
Amy sorriu, mas não era um sorriso de desprezo — era mais como se ela estivesse aceitando um fardo que ninguém mais entendia.
— Errada ou certa, Rose, vou dar o benefício da dúvida a eles. E quem sabe, no final, possa ser que você também não faça o mesmo.
Por um momento, o silêncio pairou entre elas. Rose queria dizer algo, mas não sabia como responder. Amy tinha um jeito de fazer as palavras parecerem insignificantes — e ao mesmo tempo, tão importantes. Era como se Amy tivesse a resposta para algo que Rose nem sabia que estava perguntando.
— Você é estranha, Amy, — Rose disse, baixando a guarda, um leve sorriso surgindo em seus lábios.
Amy riu baixinho, com uma leveza que Rose raramente via.
— Agradeço o elogio, Weasley. Eu gosto de ser estranha.
Rose, agora mais relaxada, deixou o comentário passar. Ela deu um último olhar para Amy antes de dar um passo para trás.
— Bom, se você vai ser amiga deles, que seja. Mas se um deles fizer alguma coisa estúpida, não venha me pedir ajuda para limpar a bagunça.
Amy assentiu, com um sorriso tranquilo.
— Prometo. — Mas havia algo nos olhos de Amy que parecia mais uma promessa do que uma simples resposta.
Rose a observou por mais um segundo, como se tentasse entender o que acontecia com a amiga. Depois, ela deu de ombros e saiu, desaparecendo entre as fileiras de estudantes.
Amy ficou ali, com os olhos fixos na estante de livros à sua frente. Seu coração ainda batia calmamente, mas sua mente estava longe, viajando para o diário de Helena Morrigan Blake que estava escondido sob suas roupas. O diário começava a chamar mais forte do que antes.
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