A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:
5 Espirais e Incerteza
O dormitório da Corvinal estava mergulhado em um silêncio espesso quando Amy acordou com um sobressalto.
Ela se sentou na cama, o coração disparado, as mãos úmidas de suor frio. As cortinas azul-acinzentadas ao redor de sua cama balançavam suavemente, tocadas apenas pelo ar que escapava pelas frestas das janelas altas da torre. Respirando fundo, tentou se lembrar do que havia sonhado.
Era escuro. Muito escuro. Mas não como a ausência de luz — como um véu sobre os olhos e então o símbolo.
Um círculo irregular, traçado com linhas quase vivas. Dentro dele, uma espiral, em movimento, mas estática. Como se tivesse sido desenhada há milênios e ainda assim continuasse girando, devagar, como quem espera ser decifrada.
Ela havia tocado o símbolo no sonho.
E ele tinha pulsado.
Como uma batida de coração.
Amy esfregou os olhos, tentando afastar a sensação de que o símbolo ainda estava ali — não no sonho, mas em algum lugar próximo. Dentro dela ... ou fora. Levantou-se sem pensar muito, os pés tocando o chão frio de pedra, pegou o casaco pendurado ao lado da cama e atravessou o dormitório devagar, evitando fazer barulho.
O banheiro feminino da torre ficava no final do corredor curvo. As tochas acesas magicamente lançavam sombras longas pelas paredes.
Ela empurrou a porta devagar. O som da água pingando em uma das torneiras mal fechadas ecoava como um relógio antigo.
Amy andou até a pia, abriu a torneira, deixou a água correr um pouco e molhou o rosto.
Foi quando viu.
O símbolo.
No espelho embaçado pelo frio, surgindo lentamente, como se alguém tivesse passado os dedos sobre a neblina mágica. A espiral. Exatamente como no sonho. Mesmas proporções. Mesmo traço irregular. Idêntico.
Ela ficou imóvel.
O símbolo estava ali. Mas ela não sabia se o havia desenhado. Ou se já estava lá quando entrou. Ou se… nunca esteve lá fora — apenas dentro.
O espelho não mostrava seu reflexo. Só o símbolo.
A espiral parecia observá-la de volta.
Amy recuou um passo, sem desviar o olhar.
E então, com o piscar de uma tocha, o espelho voltou ao normal.
Seu reflexo reapareceu. Pálido. Ofegante.
Mas sozinho.
Ela ficou ali mais alguns segundos, encarando a própria imagem, esperando — talvez — que a espiral voltasse. Que se movesse. Que explicasse.
Nada.
Amy fechou os olhos, só por um momento. Respirou fundo.
E quando os abriu de novo…
Estava de volta à sua cama.
A luz da manhã filtrava-se pelas janelas da torre. O céu lá fora estava pálido, quase branco. O som distante de passos e risadas sinalizava o início de mais um dia comum em Hogwarts. Seu casaco ainda estava pendurado, seus pés estavam cobertos e as cortinas ao redor da cama estavam fechadas.
Ela se sentou devagar, o coração ainda inquieto.
O símbolo não estava em sua mão. Nem no espelho. Nem em lugar algum.
Mas ela lembrava de cada detalhe.
A espiral.
O toque.
O espelho sem reflexo.
Tudo.
Amy levou a mão até o rosto, tentando se convencer de que tinha sido apenas um sonho.
Mas parte dela sabia que não era bem assim.
E o pior de tudo era não saber o que era mais assustador:
Se aquilo tinha realmente acontecido.
Ou se não tinha.
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