Os corredores de Hogwarts tinham um eco estranho naquela manhã.

Não o eco habitual dos passos apressados entre uma aula e outra, nem o zumbido morno das conversas de fim de semana. Era outro tipo de silêncio — mais denso, mais desconfortável. Como se a própria escola, com suas paredes milenares, soubesse que algo estava... diferente.

Scorpius Malfoy caminhava com a postura ereta e o queixo erguido, mas o olhar baixo o traía. Albus Potter seguia ao lado, com a testa franzida e os olhos verdes fixos no chão, como se pudesse apagar as palavras cochichadas sobre os dois nas últimas semanas.

"Mexeram com o tempo."

"Trouxeram Voldemort de volta."

"Cúmplices de bruxaria das trevas."

Esses boatos se espalharam rapidamente, era como se tivessem jogado gasolina no fogo. Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido — nem mesmo os professores falavam sobre o assunto — mas bastava um sussurro no corredor, um olhar torto, um cochicho maldoso para alimentar os julgamentos silenciosos.

Amy Moore observava de longe, como fazia com quase tudo.

Sentada nos degraus de pedra que davam para o corredor principal da Ala Oeste, fingia ler um livro de feitiços que o professor Flitwick havia indicado durante as aulas (ela havia brigado pelo último exemplar disponível na biblioteca com sua melhor – e talvez única amiga na escola — Rose Weasley, uma experiência que preferia nunca mais repetir afinal descobrira com isso que Rose ficava irritantemente estressada quando não conseguia algo que queria). Mas não conseguiu evitar se distrair, seus olhos seguiam os dois garotos que atravessavam o corredor como se fossem fantasmas em carne e osso.

Foi então que aconteceu.

— Olha só... se não são os Salvadores das Trevas — disse um aluno da Sonserina do sexto ano, alto e com os cabelos presos num coque baixo, a voz carregada de sarcasmo. — Vai mexer com mais alguma linha do tempo, Malfoy?

Os risos foram instantâneos, venenosos. Outro aluno se aproximou, esbarrando propositalmente no ombro de Albus.

— Cuidado, Potter. E se ele conjurar um vira-tempo do nada? Da última vez, quase ferraram com o mundo inteiro, né?

Albus respirou fundo. Scorpius girou os olhos e apertou os punhos.

— Vamos embora — disse Albus, em tom contido.

Mas os outros não deixaram. Cercaram os dois de forma sutil, como se apenas estivessem "coincidentemente" no mesmo corredor, "coincidentemente" empurrando os ombros deles, "coincidentemente" lançando feitiços não verbais que bagunçavam os cabelos ou desamarravam as mochilas.

Amy se levantou um pouco, não o suficiente para chamar atenção. Só para ver melhor.

Scorpius girou nos calcanhares.

— Falem mais alto — disse, firme. — Quem sabe assim vocês tenham coragem de dizer o que realmente pensam.

Um silêncio breve — antes da próxima provocação. Um feitiço de empuxo suave fez os livros de Albus caírem no chão.

Foi quando a atmosfera mudou.

Um feitiço cortante atravessou o ar, atingindo a parede atrás de um dos alunos com um estalido seco.

— Vocês têm um problema com o meu irmão? — rosnou Tiago Sirius Potter – o maior canalha arrogante mulherengo de Howgarts e irmão de Albus Severo Potter — surgindo como uma tempestade no final do corredor.

Fred II estava logo atrás, o sorriso torto de sempre no rosto não escondia a postura rígida e a varinha já levantada.

— Vai repetir isso aí, campeoníssimo? — disse Fred, apontando para o aluno da Sonserina que ria até poucos segundos atrás. — Anda. Vai ser ótimo pra nossa manhã.

— N-não era nada — murmurou um dos agressores, recuando um passo.

Tiago avançou mais um, sem baixar a varinha.

— Não era? Porque daqui pareceu um "nada" bem específico. E bem idiota também.

— Relaxa, Potter. Só uma brincadeira...

— Engraçado — interrompeu Tiago, a voz baixa como uma ameaça velada. — Não tô rindo.

Amy mordeu o lábio, sentindo o coração bater mais rápido mesmo do outro lado do corredor. O grupo recuou, dispersando-se como sombras acuadas.

Tiago ainda lançou um último olhar para o grupo:

—Acho bom irem mesmo, e só para constar dois contra cinco não é um número muito justo seus babacas – Gritou Tiago em alto e bom som enquanto os agressores desapareciam no fim do corredor.

Albus abaixou-se para recolher os livros. Tiago o ajudou sem dizer nada, mas o gesto era tão claro quanto uma declaração.

Scorpius ajeitou a mochila nos ombros, os olhos fixos em Fred, que deu um tapa nas costas dele e murmurou:

— Eles só têm coragem quando estão em maior número.

Aos poucos, o corredor voltou ao normal — ou ao que Hogwarts chamava de normal.

Amy se sentou de novo, dessa vez sem fingir que lia. Seus olhos pousaram em Albus por um instante, que agora conversava em voz baixa com o irmão mais velho. Ele ainda parecia carregado, como se todo aquele peso continuasse ali... mas, por um instante, havia algo diferente no modo como seus ombros estavam menos curvados.

Talvez fosse o efeito da proteção inesperada.

Ou talvez fosse a presença de alguém que, mesmo diferente, nunca hesitava em defende-lo.

Amy fechou o livro, o som do couro se encontrando com as páginas ecoando suave no corredor vazio. Ela manteve o olhar por alguns segundos mais, mesmo depois que o corredor esvaziou de vez.

Não sabia exatamente o que Albus e Scorpius tinham feito — só o que as pessoas cochichavam. Que tinham mexido com o tempo, causado confusão, quase trazido Voldemort de volta. Soava absurdo demais… mas o olhar deles era de quem carrega culpa era difícil de ignorar.

Scorpius fingia muito bem. Albus… nem tanto.

Nos últimos dias, ela tinha notado os dois andando juntos como se fossem um só corpo tentando não ser notado. Não riam. Não falavam alto. Estavam sempre olhando por cima do ombro.

E, mesmo assim, continuavam andando lado a lado.

O que era mais estranho, porém, era o irmão mais velho de Albus.

Tiago Sirius Potter era barulhento, irritante, egocêntrico — tudo o que Albus claramente detestava. Ela quase nunca via os dois se falando na escola e quando falavam, discutiam.

Mas hoje… Tiago não hesitou.

Ele não perguntou, não duvidou, não pediu explicações.

Apenas apareceu. E protegeu.

Irmãos ... pensou Amy, são uma coisa curiosa. Ela não sabia o que era ter um

Mas vendo os dois naquele corredor — um no centro da tempestade e um se colocando no meio — sentiu que talvez nunca entenderia como funcionava esse tipo de laço. Mesmo quando se detestam, ainda se protegem.