A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:
2 🕯️ Um Lugar a Mesa
Na manhã seguinte ao incidente no corredor o Salão Principal parecia mais frio naquela manhã.
As velas flutuantes continuavam a brilhar como sempre, e as bandeiras das casas balançavam suavemente no alto, encantadas contra o vento inexistente. Mas havia algo no ar — uma tensão que não vinha da magia, mas dos olhares.
Quando Alvo Potter e Scorpius Malfoy cruzaram as portas de carvalho maciço, o burburinho das mesas caiu como um feitiço Silêncio mal conjurado. As conversas foram substituídas por cochichos abafados, cotovelos cutucando colegas, olhares desviados tarde demais.
Alvo caminhava com o queixo erguido, mas os olhos fixos no chão. Scorpius parecia menos afetado — ou fingia melhor —, os braços cruzados, expressão de tédio ensaiado. Havia algo de cruel em como os estudantes os observavam: como se procurassem neles os traços de vilania que os jornais deixaram implícitos.
Amy Caroline Moore viu tudo de onde estava: o canto mais afastado da mesa da Corvinal, com seu caderno de anotações aberto à frente e Mirra, sua gata preta, dormindo com a cabeça apoiada em uma pilha de livros.
Ela não olhou como os outros.
Ela observou.
Observou em como o passo de Alvo vacilava ligeiramente ao passar por um grupo de alunos da Lufa-Lufa que murmuravam sem disfarce.
Observou na forma como Scorpius apertava o punho direito, como se quisesse lançar um feitiço que nunca sairia.
Observou... e fez o impensado.
Quando os dois passaram por sua mesa se dirigindo para a mesa da Sonserina, Amy empurrou os livros de lado, limpou um espaço com a palma da mão e falou, sem levantar muito a voz:
— Aqui tem lugar.
Scorpius parou primeiro.
Alvo ergueu os olhos, surpreso.
Amy apenas deu de ombros, como se fosse o gesto mais comum do mundo.
— Achei que vocês iam se sentar longe de novo.
— Você sabe quem a gente é, né? — disse Scorpius, sem rodeios.
— Acho que todo mundo sabe — respondeu Amy, desenhando distraidamente um círculo no canto do caderno com a pena. — Mas quem disse que eu me importo? .
Alvo olhou para ela por alguns segundos, em silêncio. Era difícil decifrar Amy Moore. Muitos achavam que ela era estranha. E talvez fosse mesmo. Sempre andando com cadernos, falando pouco, com aquela gata silenciosa que parecia julgá-los mais do que qualquer professor.
— Você não vai perguntar? — ele arriscou.
Amy parou de desenhar.
— Não.
— Nem comentar?
— Também não. Mas posso te passar manteiga, se quiser.
Scorpius soltou um riso abafado. Não de deboche — de alívio.
Eles sentaram.
Os murmúrios aumentaram por um instante, como um vendaval em miniatura, depois se dissiparam, sem nada mais para alimentar o fogo.
Rose Weasley que observava de longe quase engasgou com um gole de chocolate quente ao ver a cena e observou a cena de longe, da mesa da Grifinória. Os olhos dela passaram por Amy como se tentassem se comunicar— mas não encontraram nenhuma resposta ali. Apenas serenidade.
Amy cortou um pedaço de pão e empurrou um açucareiro na direção de Alvo.
— Chá?
— Por Merlin, sim — disse Alvo, e foi a primeira vez que sorriu em dias.
Mirra, ainda deitada, ronronou baixinho, e Amy voltou a escrever como se nada tivesse acontecido.
Mas no canto da página, onde antes havia apenas o círculo que ela rabiscava, agora havia uma espiral.
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