A Herdeira Silenciosa - As Vozes do Diário:
3 O Diário Esquecido:
– Amy encontra um diário antigo escondido na biblioteca com o nome de Helena.
A biblioteca de Hogwarts tinha cheiro de poeira antiga, tinta seca e magia adormecida.
Amy sempre achou reconfortante aquele aroma. Entre os sussurros das páginas e os rangidos dos móveis centenários, ela se sentia menos exposta, menos em evidência. Quase invisível. E isso, naquela semana, era exatamente o que queria ser.
Estava ali mais cedo do que o habitual naquela terça-feira cinzenta. A chuva tamborilava suavemente nas janelas altas, borrando o vidro com suas gotas irregulares. A maioria dos alunos preferia o Salão Comunal em dias assim, mas Amy precisava de silêncio que não fosse preenchido por risadas ou cochichos. O tipo de silêncio que só os livros conheciam.
Procurava algo sobre feitiços de proteção mental — não que esperasse encontrar fórmulas milagrosas nos livros de Introdução à Aritmancia, mas... qualquer distração servia.
Ela contornava uma das alas menos frequentadas, perto das estantes que quase tocavam o teto, quando algo chamou sua atenção.
Um espaço entre dois livros — Enigmas da Transfiguração Avançada e A Teoria da Varinha-Gêmea — parecia largo demais, como se algo tivesse sido removido às pressas… ou colocado ali propositalmente.
Amy olhou para os lados. Ninguém por perto.
Com cuidado, passou os dedos finos pelo vão. Sentiu um toque diferente. Não era madeira. Era couro.
Puxou com cautela. O objeto saiu com facilidade, coberto de poeira e com uma textura áspera, quase orgânica.
Era um diário. Antigo. Sem título na capa, apenas o couro envelhecido e, no canto inferior, uma letra cursiva bordada em dourado já desbotado:
H. M.
Amy virou-o entre as mãos. Ao abrir a primeira página, a tinta parecia ter sido escrita há séculos, mas ainda era legível:
"Helena Morrigan. Ano Letivo de 1940."
Ela piscou.
O nome não lhe era familiar. Mas algo nele — o som, talvez — lhe causou um arrepio. Como se já o tivesse ouvido... ou sonhado com ele.
Virou a próxima página. A letra era firme, precisa, com laços bem desenhados, como as letras dos livros de poções escritos à mão:
“Se você encontrou isto, talvez tenha o mesmo dom que eu.
E, se tiver, vai entender por que precisei esconder.
Há coisas neste castelo que não querem ser lembradas.”
Amy passou os dedos pelas linhas, o coração batendo mais forte sem saber por quê.
Ela leu mais algumas frases desconexas — trechos sobre visões, sussurros nas pedras, uma marca que ardia quando o perigo se aproximava. E então, no rodapé de uma das páginas centrais, quase apagado pelo tempo:
“A espiral sussurra nomes.
E, às vezes, um deles é o seu.”
A garota estremeceu.
Instintivamente, tocou a própria palma — a marca discreta e escura que dormia sob a pele desde sempre. A Espiral.
Nunca soube explicar por que a tinha. Nem por que vez ou outra ela ardia, ou formigava como se tivesse vontade própria.
Amy olhou ao redor de novo. Ainda sozinha.
Fechou o diário devagar, como se ele pudesse acordar e protestar. Guardou-o na mochila, entre os livros escolares.
Sabia que não devia levá-lo. Que provavelmente pertencia à biblioteca restrita. Que a Madame Pince arrancaria pontos da Corvinal só por cogitar isso.
Mas também sabia que aquele diário a escolhera.
Não sabia por quê.
Não ainda.
Mas alguma coisa dentro dela — algo primitivo, talvez — dizia que a resposta para muitas perguntas começava ali.
No nome de uma garota morta há mais de um século.
Helena Morrigan.
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