A Herdeira Da Máfia

14 XIV. The monsters come out to hunt.


Fazia mais de dez minutos desde que eu estava na entrada do hotel, dentro do táxi. O motorista me encarava a cada cinco segundos pelo pequeno espelho que possuía, esperando algum movimento meu e, mesmo tendo noção disso, continuei parada. Saber que Allan estava a poucos metros de mim, me causava arrepios.

Nunca ficamos tanto tempo sem se ver e eu sabia que não conseguiria expulsá-lo daqui sem antes lhe dar um abraço e chorar contando a ele tudo que tinha me acontecido desde o começo e detalhadamente. Estava ali, procurando algum vestígio de coragem. Eu precisava ser forte e o mais rápido possível, afinal, o conhecia tempo suficiente para saber que me procuraria até do outro lado do mundo por explicações.

Aquilo me lembrava vagamente da última conversa que eu e minha mãe tivemos antes de tudo acontecer. E essa lembrança claramente piorava a situação, me deixando abalada e frágil o suficiente para chorar ali mesmo. Contei números primos.

Uma mania que há muito tempo não utilizava, e aos poucos, acalmei tempo o suficiente para sair do carro e pagar o taxista. E eu achando que sair da mansão pela sacada do quarto seria a parte mais difícil. Logan iria me matar e a cruel realidade é que eu odiava brigar com ele.

Queria, por alguns segundos, que nos tornássemos amigos e a certa atração que, parte de mim ainda sentia por ele, fosse embora. Passo pela mulher que estava na recepção perguntando o número do quarto de Allan. Agradeço rápido indo em direção ao elevador. Lá estava eu, no mesmo andar que ele agora, em frente a porta de seu quarto para ser exata.

Bato na porta apenas uma vez e Allan a abre. O mesmo olhar de um adulto que não perdeu a inocência. Todas as minhas expectativas em encontrá-lo caem gradativamente assim que meus braços agem por impulso próprio o abraçando com força, sentindo o calor do seu corpo em volta do meu. Minhas mãos em seus cabelos emaranhados e um sorriso aliviado nos lábios. Não era isso que eu queria.

— Eu tentei acreditar que viria. Pareceu uma possibilidade inexistente considerando o jeito que me tratou hoje de manhã.

— Allan...

— Você ficou mais bonita desde que chegou aqui ou é impressão minha? Como é que convenceu o tal Logan de vir até aqui, hein?

— Allan...

— Vai me dizer que não avisou nada para ele? Eu realmente não quero te causar problemas, só quero entender o que está acontecendo com você.

— Allan, eu não sei como começar a explicar isso ou até mesmo como falar, é...

— Hannah? – Aquela voz infantil destravou partes do meu cérebro que eu desconhecia. Era como se todo o furacão que havia em mim, acalmasse gradativamente. Allan me encara lançando um olhar de desculpa, se afastando por alguns segundos para que eu pudesse ver a pequena imagem de Carl a minha frente.

Ele havia crescido poucos centímetros desde que o vi pela última vez. Sua pele branquinha, os olhinhos negros assim como os fios de cabelo que estavam também um pouco maior e mais rebelde, os lábios se curvando em um sorriso e as sobrancelhas finas arqueadas. As pequenas covinhas nas bochechas destacando ainda mais seu rosto angelical.

Me abaixo vendo seus pés se moverem depressa de encontro a mim, os braços pequenos envolvendo meu pescoço e a gargalhada que saia facilmente dele como se tivessem acabado de lhe contar uma piada. Ele estava feliz e em partes, eu também não podia estar mais alegre em vê-lo ali. Minhas mãos seguravam ele com força e meus lábios não se cansavam de dar beijos estalados em sua bochecha quando lembro a mim mesma mais uma vez de que...

Eles. Não. Deviam. Estar. Aqui.

— Carl, você poderia deixar Allan e eu conversando a sós? – Peço após longos minutos de carícias e palavras dóceis sobre o quanto sentimos saudades um do outro. Ele assentiu tristemente, mas acatando ao meu pedido correndo em direção a sacada e observando os traços dessa pacata cidade. Meus olhos finalmente vão de encontro ao homem a minha frente que sorriu esperando a mesma reação de mim, mas continuei séria, de braços cruzados, sem mover um único dedo.

— Sobre isso... Eu posso explicar...

— Já não basta você aqui, ainda traz Carl junto? Ficou maluco? – Seguro um grito irritado, lembrando a mim mesma da presença do pequeno ali.

— Eu já disse que posso explicar.

— Estou esperando.

— Carl apareceu do nada, está bem? – Ele abre os braços, perplexo por eu pensar que ele faria algo assim. – Juro que não trouxe ele e para começo de conversa, você é quem me deve explicações.

— Você precisa ir Allan, aqui não é seguro para nenhum de vocês dois. Eu imploro que vá. – Suplico e ele me olha descrente.

— Não sem uma resposta.

— Certo. – Respiro fundo segurando a velha vontade de chorar até um rio se formar em minha volta. – Eu sou como uma bomba relógio. A qualquer momento, eu explodo e todos a minha volta se machucam... Um alvo foi plantado em minhas costas e cada um que convive comigo sofre por esse único motivo quando deveria ser eu a machucada da história.

— Eu não entendi uma palavra do que você disse.

— Não precisa entender somente ir, por favor.

— Hannah! – Ele chama minha atenção ao ver a tensão se espalhar em cada canto do meu corpo. – O que fizeram com você? Está tão mudada... É como se fosse outra pessoa. Jamais falou assim comigo.

— Jamais estive nessa situação, então...

— Eu senti sua falta. – Sussurra ele, mudando o rumo da conversa por alguns segundos. Meus olhos já estavam marejados e trato de enxugá-los antes que alguma lágrima caia.

— Também senti Allan. Mas infelizmente não podemos nos ver de novo. Precisa ir embora.

— Mas eu tenho que te ver de novo... Para devolver o dinheiro que irá me emprestar para eu voltar para o bordel. – Murmura e eu o encaro perplexa.

— Mas você não disse que tinha dinheiro para...?

— Longa história, mas em minha defesa, a culpa é toda do Carl. – Reviro os olhos.

Ouvimos uma batida na porta e Allan me encara como se pedisse permissão para abrir. Ele compreende meu silêncio como uma confirmação e rapidamente gira a chave na maçaneta abrindo a porta. Meus olhos se arregalam ao ver uma Taylor ofegante entrar me procurando pelo quarto. Ela corre até mim me abraçando e vejo de esguelha Allan nos encarar confuso.

— Oh meu Deus! Que bom que está aqui! Quer dizer, é lógico que estaria aqui, te segui assim que a vi sair. – Exclama e um vinco se forma em minha testa. – Eu sei que devo um milhão de desculpas a você e prometo fazer isso, mas não temos tempo... Precisamos sair daqui agora.

— Calma aí, quem é ela?

— Quem é você? – Pergunta ela se virando para Allan com os olhos esbugalhados.

— Allan, essa é Taylor, minha melhor amiga. Taylor, esse é Allan meu melhor amigo e aquele ali na sacada é Carl, filho de Stella... Enfim, ninguém que eu já não tenha mencionado para você. E por que temos que ir? Do que está falando? — Pergunto vendo os dois se estranharem com o olhar.

— Minha irmã. Ouvi de trás da porta ela ligando para um dos caras que estão atrás de você. Ela praticamente te entregou de bandeja. Não temos muito tempo para explicação agora. Eu vim a pé e eles provavelmente estão vindo em comboio... Provavelmente estão virando a esquina... Precisamos ir...– Em questão de segundos ouvimos barulhos de tiros. – Imediatamente.

Engulo em seco encarando Carl que parecia não notar nosso desespero. Allan estava com os olhos arregalados, assustado demais para dizer alguma coisa e eu...

Estava prestes a surtar temendo a vida de cada um ali.