A Herdeira Da Máfia
13 XIII. An unexpected knock at the door.

Allan
Era a primeira vez que Hannah e eu ficamos sem nos ver por tanto tempo. Eu tinha quatro anos quando ela nasceu e podia facilmente me lembrar do dia em que a vi tão pequena e vulnerável. Os cabelos ruivos e o rosto angelical. Na época, odiei ela por alguns segundos porque todos no bordel só davam atenção a ela. Eu era uma criança mimada, que nunca se viu obrigado a compartilhar atenção com outra pessoa. Mas tudo isso mudou quando Chloe teve que trabalhar, e deixara Hannah nas mãos de Charlie. Estava tarde e eu finalmente havia decidido deitar quando escuto um choro alto vindo do corredor.
No começo resmunguei, possesso e ignorei os gritos acreditando que meu pai iria vê-la, mas ele não foi e decidi eu mesmo ir até lá. Foi a primeira vez que a vi sozinho, sem ninguém por perto e decidi deixar a raiva de lado e observá-la um pouco melhor. Era o primeiro bebê que eu via e tudo era muito novo para mim. Peguei Hannah no colo e por alguns segundos senti vontade de chorar por não saber acalmá-la. Acariciei suas bochechas rosadas, limpando as lágrimas que caiam em seu rosto.
Sinto suas mãozinhas segurarem o meu dedo com força e levá-lo a boca, chupando avidamente. Ela estava com fome e eu não tinha ideia de como fazer algo que a amamentasse, então fiquei ali, cantando uma canção de ninar qualquer que Chloe cantava quando esse incidente acontecia. Ela rapidamente adormeceu em meus braços e prometi a mim mesmo cuidar dela sempre... Pois eu havia acabado de ganhar uma irmã e ela fora a única que me deu atenção por tanto tempo desde que minha mãe morreu de câncer.
Crescemos juntos, muito apegados um ao outro. Ela era toda fofa, mesmo crescendo em um lugar sujo e podre como aquele. Chloe conseguiu dar todo o amor e educação a filha. Eu sempre me senti como o irmão mais velho dela. Na sua visão, eu era o príncipe encantado, um completo cara gente boa. Mas longe, com amigos e em festas, eu bebia muito e ficava com muitas mulheres. Nunca me importei em quebrar o coração de adolescentes que sonham em ter o homem dos sonhos. Acho que isso é normal entre os adolescentes. Mas há um coração que eu jamais me permitiria quebrar: o de Hannah.
Tanto que quando ela pediu para que eu fosse o primeiro a provar o gosto de seus lábios, temendo ser zoada por nunca ter beijado na vida, eu o fiz. A beijei delicadamente como jamais beijei alguém. Foi praticamente um selinho para mim, entretanto, para ela, foi algo importante. Seu primeiro beijo. Mas não passou disso. Eu realmente a considerava uma irmã e não queria ser um canalha com ela. Algo que, eu provavelmente seria se, por acaso, decidíssemos fazer daquele beijo, algo mais. O pior foi quando descobri toda a humilhação que ela passava todos os dias ao ir para o colégio. Nunca me senti tão fraco e impotente. Era como se eu tivesse apanhado sem ter chance alguma de me defender.
— Longa história. Mas não direi nada enquanto não ver você aqui. – Desligo o telefone sem dar a chance de Hannah dizer algo. Estava preocupado. Ela nunca havia falado daquela maneira comigo a não ser que algo estivesse errado. Estava bravo por não ter me dado notícia alguma. Jogo o celular na cama e respiro fundo.
O quarto do hotel era minúsculo, tendo apenas uma cama grande, uma televisão que não ligava e um pequeno criado mudo ao lado do único móvel ali. Um banheiro mofado e uma porta que dava para a sacada. Demorei tempo demais para abrir aquilo e não tinha ideia de como iria fechar depois. Minha mala de mão era grande, havia me prevenido trazendo muitas roupas... Se Hannah não aparecesse, eu iria até lá, afinal, consegui o endereço e o telefone do tal Logan vasculhando os arquivos do meu pai. Ouço o barulho de alguém batendo na porta e abro apressado acreditando que seja Hannah. Uma mulher que eu havia visto há pouco tempo atrás no balcão do hotel, sorria educadamente.
— Desculpe incomodá-lo, mas essa criança entrou dizendo ser seu filho. – Balbucia e meus olhos se arregalam. Observo aquele projeto de gente em pé no chão, com um sorriso animado no rosto. Só pode ser brincadeira. Puxo Carl para dentro do quarto e quando iria fechar a porta, a mulher pigarreia. – O taxista gostaria do dinheiro da viagem até aqui.
Pego minha carteira entregando o dinheiro a mulher que me encara agradecida e eu fecho a porta. Carl observava o quarto com os olhinhos infantis brilhando. Eu estava ferrado. Acabo de gastar o dinheiro para voltar pagando a viagem desse garoto.
— O que você está fazendo aqui? – Pergunto me segurando para não gritar. – Como conseguiu chegar até aqui?
— Eu ouvi você dizer que iria ver a Hannah. Aí eu falei para o moço do carro que eu queria ir para onde você estivesse indo e ele não queria deixar então disse que você era meu pai e que tinha me esquecido ali...
— No bordel? – Ele assentiu e eu suspirei pesadamente. – Ótimo, agora alguém acha que sou um pai irresponsável. Stella sabe que está aqui?
— Ela não precisa saber. – Grita irritado, indo em direção a cama e após muitos pulos, conseguindo sentar ali.
— Ela, Carl, é sua mãe. E você só tem seis anos... – Digo cruzando os braços e ele dá de ombros. – Vou ligar para Stella.
— Não. Não. Não. Não. Por favor Allan... Liga para minha mãe depois que eu ver a Hannah. Eu quero ver ela. Eu sinto falta dela. Quando assistíamos bob esponja e comentamos sobre o que aconteceu no desenho...
— Ei! Eu assisto aquele desenho com você. – Repreendo-o me sentindo ofendido.
— Mas você não assistiu todos os episódios comigo, não sabe de nada. Hannah também fazia bolinhos para mim e me levava para brincar na pracinha no final da tarde.
— Você nunca me pediu para fazer bolinhos. – Resmungo coçando a nuca e ele dá uma risada fofa.
— Porque você não sabe fazer.
— Eu sei sim.
— Não sabe nada. A última vez que se ofereceu para fazer para mim e para Hannah, queimou todos eles. – Retrucou. Esse garotinho tem a memória boa. Céus! – Cadê a Hannah?
— Está vindo. Eu espero.
— Oba! – Ele comemora pulando na cama e eu caminho até a janela observando a paisagem urbana do lado de fora. – A Hannah está vindo. A Hannah está vindo.
— Ela está vindo sim... E quando chegar é bem provável que cave minha cova e me mate de forma dolorosa. – Sussurro para mim mesmo ouvindo Carl cantarolar alegremente contando os segundos para ver Hannah.
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