A Herdeira

33 O ressurgir da Rainha


Anita sofreu um aborto espontâneo poucos dias depois do contágio por rubéola. Maria Cesárea conversava com ela:

- Posso lhe fazer uma pergunta, Majestade?

- Até duas, Maria Cesárea.

- Como você se sente com esse aborto?

- Na hora senti muita dor, cólica, aí eu vi o sangramento, mas agora já passou.

- Eu digo, no emocional. Está triste ou aliviada?

- Eu estaria mentindo se dissesse que esse filho era desejado, mas jamais quis a morte dele. Era uma pobre vítima do meu grande erro. Rezei e continuo rezando muito para que Deus receba a sua alma pura. Mas, talvez tenha sido melhor assim. Imagine essa pobre criança nascer com deficiência da rubéola sem que eu pudesse cuidar dela, porque Heitor a mandaria para longe de mim. Assim, esse anjinho descansou.

Na manhã seguinte, Anita desceu para o café da manhã, surpreendendo Heitor, que já estava à mesa:

- Anita?! Não é melhor que se deite e descanse? Eu já iria pedir para uma das empregadas levar seu desjejum ao quarto.

- Eu já descansei demais, eu já me amargurei demais, eu já errei demais. Hoje é um novo dia, me sinto bem, estou viva e pronta para cumprir meus compromissos.

Heitor ficou surpreso, mas a convidou:

- Se está bem, então sente-se.

Anita sentou-se e tomou seu café calmamente. Heitor se calou e ela permaneceu quieta também, quebrando o silêncio ao perguntar quais eram os compromissos reais do dia, ao que Heitor respondeu:

- Pela manhã, tenho uma audiência com o Primeiro-Ministro para discutirmos os rumos da Política do País. À tarde, vou à inauguração do Hospital Infantil e à noite, tem a posse dos novos Embaixadores, com jantar. Vai ser um dia puxado.

- Como anda a sua relação com o Parlamento?

- Cada vez mais desagastada, eles gostam de dizer que sou um Monarca simbólico por direito hereditário e que só sirvo para evitar conflitos num País habituado à monarquia. Ditam os rumos da Política e minhas decisões têm cada vez menos peso.

- Como podemos mudar isso?

- Se tivesse um meio, eu já teria feito. Bom, melhor eu ir ser o Rei de enfeite que eles querem – jogando o guardanapo de pano sobre a mesa e se levantando.

- Espere, deixe-me ir contigo.

- Não vejo razões para isso, Rainha. Se nem a mim respeitam, imagine a você.

- Você quer dizer que se não respeitam nem você que é homem, imagine a mim que sou mulher.

- Você sabe como Seráfia é um País patriarcal e machista.

- Como sei! Mas, não adianta continuar aqui me lamentando. Por favor, deixe-me acompanha-lo, prometo ficar calada, apenas observar. Sei que não tenho direito de sair impondo a minha opinião, depois de tanto tempo afastada dos assuntos do Governo, quero apenas me inteirar.

- Se é assim, pode vir, mas lembre-se do que prometeu.

- Não vou me esquecer, tenho palavra.

Anita acompanhou Heitor durante todos os eventos do dia, finalizando com o jantar dos Embaixadores. As esposas deles conversavam com a Rainha, quando uma falou:

- Folgo em saber que a Rainha está recuperada, foram tantos boatos acerca do seu estado de saúde, falou-se até em aborto, vê se pode...

- Estive adoentada, mas já me recuperei. Agradeço a preocupação.

- O que vossa Majestade tinha? – perguntou a mesma mulher.

- Nada demais, apenas peguei rubéola da minha filha.

- Mas, foi um longo período para se recuperar de uma doença simples – insinuou outra.

- Voltei com a saúde fragilizada de minha viagem ao Brasil, mas, como eu disse, já estou recuperada.

- Não me espanta, afinal, ir se meter naquele ambiente selvagem do Brasil, cheio de mato, de índios, de bichos e de mosquitos. Credo! – disse uma terceira.

- Onde eu nasci não tem índios, só cangaceiros, que são bem piores, eles matam com bastante facilidade e dos fofoqueiros, cortam até as línguas. Agora, se me dão licença, preciso falar com meu marido.

As mulheres fizeram reverências constrangidas quando Anita se levantou sem ocultar a sua insatisfação. Encontrou um Embaixador conhecido no caminho e perguntou de Heitor, o homem respondeu:

- Da última vez que o vi, estava a caminho do Jardim.

- Muito obrigada.

- Disponha, Majestade – fazendo uma reverência.

Anita chegou ao Jardim e viu Heitor passar para trás de uma folhagem densa. Foi atrás dele, quando se aproximou, tomou um susto. Viu Heitor aos beijos e amassos com uma mulher loura e jovem, que parecia mal ter saído da adolescência. Teve vontade de gritar, mas se conteve. As lágrimas, não conseguiu segurar, então saiu correndo para fora e pegou o primeiro carro de aluguel que avistou, pedindo para tocar para o Palácio.

Quando entrou no Palácio, a chuva caía forte, molhando os cabelos de Anita, borrando a sua maquiagem, ensopando o seu vestido e tornando-o ainda mais pesado. Todos já dormiam, era madrugada, apenas os guardas estavam a postos, abrindo as portas.

Ela chegou ao quarto e fitou seu estado deplorável ao espelho. Pensou: “no que me tornei, afinal?”. Sabia que não tinha o direito de pedir contas a Heitor sobre o que vira, depois de ter estado grávida de outro homem sob o mesmo teto de seu marido.

Tomou um banho quente, limpou bem a maquiagem, secou seus cabelos e colocou uma bonita camisola para dormir. Olhou-se novamente no espelho, estava apresentável agora. Estava bem por fora, mas e por dentro?

Sentiu uma força vir de dentro de si e pensou: Estou péssima por dentro, mas posso me reconstruir, fui eu que cavei essa cova e agora tenho que ter forças para sair dela. Apagou a luz e deitou-se para dormir, amanhã seria outro dia.

Estava quase pegando no sono quando a luz se ascendeu, era Heitor:

- Aí está você, Anita! Por que saiu sem falar comigo?

- Eu não estava me sentindo bem, acho que me esforcei demais hoje, deveria ter repousado mais um pouco.

- Custava ter me avisado?

- E você ainda se importa comigo?

- Você ainda é a Rainha de Seráfia, seu sumiço é um assunto de governo.

- É claro, eu entendo. Peço desculpas. Prometo não fazer mais isso. Acontece que eu não te encontrei para me despedir e como o mal estar estava grande, logo peguei um carro de aluguel e vim para casa. Onde estava?

- Eu nem vi a hora que você saiu, como posso saber onde estava no exato momento?

- Você tem razão, pergunta estúpida a minha.

Heitor não pôde evitar de passar os olhos pela camisola provocante que Anita usava, perdeu-se nas curvas marcadas da esposa, até que ela o chamou à razão

- Vossa Majestade tem mais alguma coisa para me falar?

- Não, era isso. Estamos entendidos. Boa noite, Rainha – disse ele, saindo rapidamente do quarto.

Anita demorou para pegar no sono. Pensou que jogou o amor de Heitor fora não obstante estivesse fadada a conviver com ele para sempre, se não como esposa, como sua eterna Rainha, como ele fazia questão de frisar. Não podia impedir que ele tivesse amantes, embora estivesse decidida ela mesma a se fechar eternamente para o amor. Precisava encontrar um objetivo de vida e estava decidida a encontra-lo o mais breve possível.