A Herdeira

34 O Hospital Infantil


Nos dias seguintes, Anita dedicou-se ao trabalho voluntário no novo Nosocômio, que Heitor batizou como “Hospital Infantil Vitória D’ávila”, em homenagem à própria filha. Visitava todos os leitos, brincava com as crianças, conversava com mães e pais, ouvia as necessidades da equipe médica e demais profissionais de saúde e fazia doações à Administração, sempre buscando saber o destino dos recursos.

Cada criança doente que via, lembra-se do filho que nem chegou a nascer. Pensava que ele poderia ter vindo deficiente e com questões delicadas de saúde, da mesma forma que aquelas crianças, então se colocava no lugar daqueles pais e enchia-se de compaixão e empatia.

As necessidades eram muitas e ela percebeu que o Hospital agia como uma “clínica geral” sem especialidades, contando com muitos pediatras. Porém, via crianças com câncer, queimadas, com doenças raras, etc, que precisavam de profissionais mais capacitados e especializados.

Durante um jantar, resolveu conversar com Heitor:

- Eu tenho ido frequentemente ao novo Hospital Infantil...

- Eu estou sabendo.

- O Rei vigia meus passos?

- Tudo se sabe no meu Reino.

- Claro, no SEU Reino.

- Nosso Reino ou seu Reino, como preferir, chame como quiser.

- Isso não tem importância agora. Venho lhe pedir um maior investimento de recursos no Hospital Infantil para que possamos contratar pediatras mais especializados nos cuidados das crianças.

- Já não tem pediatras o suficiente por lá?

- Pediatras sem outras especializações, acostumados com a clínica geral, que medicam e tratam todas as doenças de forma semelhante, quando cada moléstia tem sua forma única de ser tratada.

- Quer ser médica agora, Anita? Antes de virar Rainha, eu supunha que você queria ser advogada, já que estudava para isso.

- Isso tem tudo a ver com o Direito, trata-se do Direito básico à saúde de qualidade para a população mais vulnerável, que são as nossas crianças. Nós somos pais de uma criança, pense como seria se Vitória não tivesse saúde...

- Nem fale uma coisa dessas. Não quero nem imaginar.

- Pois imagine, coloque-se no lugar desses pais. Precisamos de mais recursos para a saúde das crianças.

- Ah, Anita! Precisamos de mais recursos para tantas coisas! Você acha que nesses anos todos como Rei eu nunca enxerguei as demandas sociais? Acontece que tudo tem que passar pelo Parlamento e eu já lhe disse que a minha relação com os parlamentares está desagastada, nada consigo deles. Eu te garanto que por mim, já teria injetado recursos em várias causas sociais.

- Mas, nós vivemos com muito luxo por aqui, talvez se cortássemos despesas pessoais nossas e da Corte como um todo, conseguiríamos liberar verbas para algumas causas sociais.

- Faça como quiser, Anita. Você é a Rainha desse Palácio.

- A Rainha do lar, você quer dizer?

- Você sempre entende mal tudo o que falo, então nem vou perder o meu tempo discutindo.

- Você me permite olhar o livro financeiro das despesas do Palácio?

- É claro, vamos comigo até o meu escritório.

Heitor abriu uma das gavetas, fechada a chave, tirou um livro grande de capa dura e preta e entregou para Anita. Quando ela o pegou, as mãos de ambos se tocaram, fazendo-os sentir forte corrente elétrica ao mesmo tempo. Os olhares se cruzaram por um momento, até que Heitor falou:

- Fique à vontade para olhar o livro o quanto quiser, apenas me devolva depois. Eu preciso desse controle – saindo do escritório e deixando Anita só.

Anita sentou-se na cadeira de Heitor, à mesa de trabalho de Heitor, rodeada das coisas dele. Ela podia sentir o cheiro dele no ar e aspirou com força. Ali, sentia-se dentro do próprio mundo de seu marido. Quantas memórias lhe vinham à mente, quantas saudades de estar mais perto dele, mas forçou-se a interromper seus devaneios românticos para focar no livro que abriu diante de si. Passou horas ali, estudando as finanças.

Quando Heitor chegou ao Palácio, à noite, viu Anita ainda no escritório, dormindo. Deitada nos próprios braços sobre a mesa, a cabeça virada de lado com seu penteado se soltando e deixando cair mechas de seus cabelos castanhos claros. Uma das alças do vestido havia caído do ombro direito, deixando-o amostra. A pele alva daquele ombro que Heitor tantas vezes devorou com beijos. Teve o ímpeto de pegá-la no colo e leva-la adormecida para cama, como já fizera tantas vezes, mas se conteve, chamando-a:

- Acorde, Anita! Vá dormir na sua cama!

Ela acordou assustada, levou a mão ao peito, dado o susto. Heitor acompanhou o movimento da mão dela, indo parar entre os seios fartos que pareciam querer pular do elegante vestido de Rainha. Desviou o olhar e disse:

- Desculpe assustá-la, não foi a minha intenção.

- Não tem problema, eu que não deveria ter dormido aqui. Sinto-me um pouco cansada.

- Não deveria querer ver todas as contas do Reino num único dia.

- Você me disse que eu deveria devolver o livro...

- Sim, mas no seu tempo.

- Ok, então. Amanhã quero olhar mais um pouco, se me permite.

- É claro.

- Obrigada. Boa noite, Heitor – disse ela, sonolenta, abrindo a boca num bocejo, que pareceu encantador a ele.

Anita começou a diminuir os excessos nas refeições, depositando as economias feitas numa conta pessoal no Banco, a fim de que rendesse juros. Faltava ver com a equipe médica quais os especialistas eles precisavam para dar suporte com maior urgência.

Alguns pediatras não gostaram da ideia, pensando que a Rainha menosprezava a qualidade técnica deles. Mas, ela explicou, com delicadeza, que esses profissionais não iriam substituí-los ou lhes tirar a autoridade, vindo apenas para reforçar a equipe que já era muito boa. A maioria a apoiou na decisão e a auxiliou na busca pelos novos profissionais.

O problema é que muitos dos especialistas indicados pelos médicos não eram de Seráfia, mas de outros Países da Europa. Convencê-los a tal mudança exigiria uma boa oferta de dinheiro, o que Anita sabia que não poderia fazer de imediato com as próprias economias.

A venda de algumas joias ajudou a reforçar as suas economias, mas não o suficiente. Então, decidiu pedir a Heitor para falar com o Parlamento. Ele foi contra a princípio, mas, diante da insistência dela, permitiu.

A conversa com os Parlamentares foi infrutífera. Eles se recusaram a destinar mais verbas para a saúde infantil, alegando limitação de recursos. Ao serem questionados pela Rainha do motivo pelo qual não cortavam alguns de seus privilégios para liberação de recursos, ficaram coléricos, sendo obrigados a se conter pela imposição de Heitor, no sentido de que respeitassem a sua esposa e Rainha deles, ameaçando-os com penalidades legais.

Na volta para casa, no carro, Anita estava chateada, quieta e pensativa. Heitor falou:

- Não fique tão triste, Anita. Você fez tudo o que estava ao seu alcance. Só de tentar ajudar crianças doentes, de coração, já te faz muito melhor que aqueles corruptos do Parlamento.

- Eu não quero tentar, Heitor, eu quero fazer. Do que me adianta ser Rainha desse País se não posso diminuir o sofrimento de meu povo?

- Não somos Super-heróis, não podemos salvar a todos. Fazemos o que podemos dentro de nossas limitações humanas. Mesmo com todos os recursos, nada te garante que você possa salvar todas aquelas crianças doentes. Muitas vão morrer, mesmo com toda a assistência necessária.

- Mesmo que morram, ao menos eu terei a alma em paz por saber que eu fiz tudo que estava ao meu alcance para tentar salvar cada uma delas.

- Eu entendo. Você quer salvar essas crianças doentes, porque não pôde salvar o seu filho.

- De que me adiantaria salvá-lo? Você o levaria para longe de mim e eu nunca mais o veria.

- Isso já passou, não tem mais cabimento remoermos o passado.

Anita se calou. Heitor também.