A Herdeira

35 A Rainha bondosa


Anita foi ampliando as causas sociais, visitando comunidades carentes, estudando IDH e outros índices de Seráfia, fazendo comparações no contexto europeu. Também fortaleceu a diplomacia, abrindo diálogo com Diplomatas e Embaixadores de outros Países, bem como os próprios, fazendo sugestões de melhorias nas relações internacionais.

O dia da Rainha começava cedo, nos primeiros raios de sol e terminava tarde. Sentia-se mal por ter pouco tempo para a filha, então, decidiu que aos finais de semana, dedicar-se-ia integralmente à Vitória.

Num sábado de verão, mãe e filha nadavam alegres no lago que ficava dentro da vasta propriedade do Palácio. Jogavam água uma na outra, nadavam na brincadeira do pega-pega, apostavam corridas de nado, etc.

Anita colocou Vitória sobre seus joelhos para lhe dar impulso num salto na água. Heitor observava de longe a alegria das duas. O Mordomo Baltazar se aproximou:

- Hoje está um dia tão quente! Se eu pudesse também pularia nesse lago, como elas. Por que Vossa Majestade não aproveita?

- Estou bem aqui na sombra. Você pode voltar para os ambientes mais frescos no Palácio, eu lhe agradeço o suco.

- Obrigado, Majestade – fazendo uma reverência – Aproveite o suco que está bem gelado.

- Obrigado, Baltazar.

Heitor recordou-se dos beijos e amassos que já dera em Anita dentro daquele lago. Pensou que infelizmente tudo isso pertencia a um passado que não iria mais voltar. Levantou-se para retornar ao Palácio, quando Vitória o chamou:

- Papai! Vem brincar com a gente!

- Eu estou cansado, querida, fica para outro dia.

- Entra na água que o cansaço vai passar rapidinho. Por favor – pediu a menina, fazendo cara de choro.

- Está bem, só um pouquinho.

Heitor entrou e Vitória pulou no colo dele. A brincadeira de jogar na água passou para ele. Como tinha mais força, jogava a menina mais longe, arrancando gargalhadas dela.

Anita interveio:

- Fecha a boca ao cair na água, Vitória, fica rindo desse jeito, vai bebendo toda a água do lago.

- Não vou, mamãe. É muita água no lago, bebo só um pouquinho.

- Não tem que beber nem um pouquinho – disse ela, fazendo cócegas na menina, que estava no colo do pai.

As brincadeiras continuavam. Vitória ouviu o pedido da mãe para fechar a boca. Heitor disse:

- Pronto, papai já fez a sua vontade e já brincou com você. Agora vou voltar para o Palácio e dormir um pouco.

- Mas, dormir de dia?

- Tenho que recarregar as minhas energias e só tenho tempo de fazer isso aos finais de semana, porque trabalho muito durante a semana.

- Mas, é tão raro eu brincar com a mamãe e o papai ao mesmo tempo. Quase nunca vocês ficam juntos e comigo – reclamou Vitória.

- O papai tem os compromissos dele e a mamãe tem os compromissos dela – Justificou Heitor.

- Mas, vocês ainda se amam, né? – indagou a menina.

- Nós te amamos filha e amamos a nossa família – respondeu Heitor.

Anita olhou triste para o marido, compreendendo as suas palavras. Resolveu cortar o assunto:

- Vitória, chega de conversa. O papai vai descansar e nós também vamos voltar para o Palácio. Você tem que tomar banho e lavar os cabelos, como são longos, demora a secar e não é bom dormir de cabelos molhados.

- Aahhh – lamentou Vitória.

Heitor saiu do lago com a filha no colo, Anita foi atrás. Assim retornaram ao Palácio. Apenas Vitória foi tagarelando pelo caminho.

Anita resolveu dar banho pessoalmente na filha. A menina falou:

- Mamãe, tá chegando o meu aniversário. Vou querer uma festa bem grande para convidar todas as minhas amiguinhas.

- Ainda falta um pouquinho, filha. Mas, vai ser do jeito que você quiser. Agora fica parada para eu passar o xampu.

A mãe embrulhou a filha na toalha e a levou para o quarto. Coloco-a sobre a cama para vesti-la.

Vitória lhe deu um abraço forte ao final:

- Eu gosto tanto de quando você me dá banho e cuida de mim.

- Eu também, meu amor. Eu sinto muito não ter tempo para fazer isso mais vezes.

- Não tem problema, quando você faz, é importante.

Anita beijou o rosto da filha e a cheirou:

- Nossa! Como essa princesa tá perfumada! Minha vez de ficar cheirosa, vou pro banho.

- Isso, mamãe. Fica bem cheirosa para o papai sentir.

Anita apenas sorriu e foi para o banheiro. Olhou-se no espelho, sabia que ainda era muito bonita e atraente. Mas, seu marido sequer reparava nela ultimamente e ela não tirava a razão dele, ainda se sentia culpada pelo mau passo.

Em razão dos trabalhos sociais e das relações diplomáticas, ela passou a circular no meio de homens importantes. Muitos a paqueravam abertamente, mas Anita sempre se preservava e deixava claro que era casada e fiel ao marido. Alguns insinuavam as conhecidas aventuras amorosas do Rei, mas ela sorria e não mostrava abalo, afastando-se educadamente.

O Parlamento ainda era o ponto crítico do Reino. Os Parlamentares faziam questão de mostrar a força que tinham sobre o Reino e os Reis. Anita passou a frequentar algumas reuniões com Heitor, quando o assunto em pauta a interessava, e a impor suas opiniões, a despeito das críticas dos Parlamentares.

Os jornais do Reino passaram a publicar matérias falando da Rainha bondosa, dedicada a vários projetos sociais no País. Logo, a fama espalhou-se para outros lugares na Europa. A popularidade da Rainha não parava de crescer em Seráfia. Não raro, chegava ao Palácio ao final do dia e encontrava muitos presentes de súditos espalhados pela sala, bem como cartas de agradecimentos por coisas das quais ela nem se lembrava ter feito, pois tudo fazia de coração, sem nada esperar em troca.

Os jornalistas pediram uma coletiva de imprensa com Anita. Heitor foi contra, mas ela disse que faria. Aproveitou o ensejo para dizer que gostaria de fazer mais por Seráfia, mas que se sentia limitada diante da falta de apoio do Parlamento para ampliação de seus projetos sociais.

A falta repercutiu em forma de apoio da população em geral, mas gerou tensão política. As manchetes anunciavam em todos os lugares que havia conflito entre a Rainha e o Parlamento.

Heitor preocupou-se e chamou Anita para conversar no escritório:

- Anita, você está mexendo com vespeiro! Esses Parlamentares são homens perigosos.

- Eu não tenho medo deles.

- Mas deveria ter! Eu temo pela sua segurança.

- Se algo me acontecer, será melhor para você. Estará livre de carregar o fardo de uma Rainha adúltera. Poderá se casar novamente com uma mulher que o mereça.

- Você é a mãe da Vitória e ela só tem 7 anos. Você tem consciência do quanto ela precisa de você? Será possível que não pensa nela?

- Eu penso na minha filha a todo instante. Mas, não quero continuar sendo uma boneca de porcelana que enfeita o Palácio. Eu quero dar um bom exemplo para ela. Não quero que ela cresça vendo uma mãe medrosa, fútil e apática. Eu tive um belo exemplo de mãe forte e é esse exemplo que quero passar adiante.

- Você é teimosa, não adianta falar com você, nem sei porque perco o meu tempo.

Heitor foi falar com Baltazar:

- Quero que você fique responsável por fiscalizar cada presente que chega para Anita no Palácio. Cada súdito que vier deixar alguma coisa, vai ter que abrir antes na sua frente. Você só permitirá a entrega se for seguro. Anita não deve saber dessa minha ordem. Entendido?

- Claro, Alteza.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.