A Hóspede

18 “Não se esqueça de mim!”


Notas iniciais
Demorei?
Perdoem-me, estava deveras ocupada com outras histórias que escrevo.
Sou autora de uma websérie da escola e tenho que escrever amostras para um editor ver se sou capaz de escrever um livro.

Sakura’s POV on~

- O que espera que eu faça?

-Que me entenda. Só peço isso e, se possível, que se lembre de mim de vez em quando. –Colocou a caneca vazia sobre o piano e ficou olhando para os próprios pés. Eu não sabia o que fazer, eu não sabia o que pensar ou que dizer, estava confusa, com raiva, triste...

-Era só para ser sexo sem emoção, por que está levando as coisas nesse ponto?!

-Porque agora você parece ser uma das coisas mais preciosas que alguém pode ter...

-Não diga isso, sou igual a todas as outras mulheres de Ottawa, na verdade, sou menos que elas. Há mulheres mais bonitas, altas, ricas, inteligentes e que fazem sexo tão bem quanto tocam piano, por que eu? Uma hóspede que se perdeu numa tempestade de fim de ano?

-Você pode não ser a mais bonita, a mais alta, rica, esperta ou especialista em um instrumento, você é a mulher que eu quero e isso a torna única pra mim. É perfeita! Não se esqueça disso. –Já estava com lágrimas nos olhos. –Essa não era minha intenção, você sabe, nunca pensei que fosse me envolver, mas aconteceu, não pude evitar. Perdoe-me, eu... –Isso já bastava. Se eu ouvisse mais largaria tudo para ficar com ele e isso não seria possível. ‘Ele não me ama, gosta do meu corpo e do meu cappuccino’, ele não me ama e não serei eu que irei convencê-lo a gostar de mim. A vida não é um filme onde tudo é feito para dar certo, felizes para sempre é privilégio de poucos, no meu caso sempre é felizes enquanto dure. Duraram esses dias e acabou como tudo na vida.

Tenho que confessar que estou arrasada... Há tempos não saio da minha rotina louca e vivo momentos tão agradáveis como estes que vivi, há tempos não vejo um homem tão belo e gentil, creio que jamais vi igual. Queria guardá-lo no meu bolso, carregá-lo sempre comigo em todos os lugares, mimá-lo, dar a atenção e afeto eu lhe faltaram, mostrar como o mundo social pode ser interessante se souber lidar com a sociedade, levá-lo à cafeteria, apresentá-lo para as meninas e fazer loucuras básicas que deveríamos ter feito na nossa adolescência. Seria perfeita uma vida ao lado de um homem desse de extrema beleza, inteligência e flexibilidade, mas uma vida não se constrói em dois dias, muito menos um amor que faça tudo durar.

Quando o interrompi, pensei rapidamente em tudo isso e o beijei da forma mais honesta e amorosa que pude, este era meu grande obrigada por ele ter feito este Dezembro o melhor da minha vida. Afirmo isso sem medo de errar. Lágrimas buscavam um espaço entre nosso lábios, desciam como acido por minha face, pareciam me cortar lentamente a cada fôlego que eu puxava para manter o beijo vivo. Estiquei meus pés na meia ponta de balé (sim, eu era dançarina até enquanto o beijava), o lençol que me cobria deslizou meu corpo até cair no chão silenciosamente chamando a atenção das mãos de Sasuke que envolveram minha cintura no mesmo instante.

-Seja minha agora antes que eu tenha que deixá-la ir! –Sussurrou no meu ouvido ao mesmo tempo em que subia os dedos por minhas costas. Não conseguia mais nada dizer, estava submissa a ele, tentando manter uma distância segura da vontade de ficar com ele para mim. Não pude negar isso, ficamos ali mesmo, num silêncio ponte agudo que vinha penetrando minha mente, me alertando de que eu me arrependeria disto mais tarde, que precisaria disto mais tare e não poderia ter.

Não foi uma dessas transas loucas que tivemos, foi algo mais ameno e eu não tinha certeza se gostava bem disso, não me sentia protegida. Enquanto ele me possuía com aqueles movimentos repetitivos, eu pensava nisso e vez ou outra uma lágrima escorria pelo canto dos olhos, silenciosa como nossas bocas que tudo que pronunciavam eram suspiros.

Sakura’s POV off~

O sol era fraco mas iluminava bem nossos corpos nus entrelaçados no lençol de seda branca. Estávamos satisfeitos em absoluto, confortáveis da maneira que estávamos a não ser pelo fato de que teríamos que encarar um breve adeus. Eu buscava formas de fazer isso da melhor maneira possível embora todas as alternativas serem desfavoráveis para mim. Ela, bem, eu não sabia o que ela estava pensando, mas parecia estar triste. Eu realmente esperava que depois que eu disse tudo aquilo ela diria “eu também”, que sentia o mesmo. Ela me deu um beijo. O que diz um beijo? É um poema mudo e confuso, mas não me importa a resposta que aquele beijo queria transmitir, de certo a resposta falada não iria me agradar.

-Que barulho é esse? –Perguntou com a voz rouca.

-Trator. Devem estar tirando a neve do asfalto.

-Na minha rua não fazem isso...

-Aqui é bairro nobre, a prefeitura meio que teme os moradores daqui por eles serem muito influentes no mercado e na sociedade. Se a vizinhança estiver insatisfeita com a prefeitura, ninguém vai dar inicio às ações no fim do mês.

-Ok, como eu vim parar num lugar desse?

-Foi o destino. –Beijei sua testa.

-O destino bem que poderia me visitar mais vezes.

-Você poderia me visitar mais vezes também... –Arrisquei.

-Quem sabe?

-Isso foi um sim?

-Não, isso foi um talvez mais puxado para o não.

-Por que não?

-Sasuke, nós somos muito diferentes, se mantermos essa loucura adiante vou me envolver cada vez mais no fim me magoando como sempre.

-Eu não a magoaria jamais!

-Isso era o que minha mãe dizia, no fim, foi a minha pior decepção. Não tenho condições de passar por isso de novo.

-Eu faria de tudo para evitar que isso acontecesse.

-Não faria isso quando se cansasse.

-Então acaba aqui definitivamente? –Ela deu um longo suspiro e disse com a voz baixa.

-Creio que sim, para o nosso próprio bem.

-Entendo. –Menti. Eu não entendia, nada, absolutamente nada, não queria entender, porque seria o mesmo que aceitar e eu não aceitava de jeito nenhum, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Nada. Não sou nada. Vou continuar sendo nada sem ela. Sakura parece ser feita de preto e branco, se encaixa em cada cantinho vago de dentro de mim. Como isso é possível? –I don’t believe that anybody feels the way i do about you now...-Ela riu e começou cantar junto.

And all the roads we have to walk are widding, and all the lights that lead us there are blinding... –Acompanhei com minha voz rouca e baixa. –There are many things that i would like to say to you but i don’t know how...

-Você tem uma voz linda.

-Você tem bom gosto pra música. –Disse. –Oasis. Tenho um pôster deles no meu quarto.

-Pôster? Isso não é coisa de adolescente? –debochei.

-Eu só tenho vinte e cinco anos ta? –Riu. –E eu gosto dos caras, as músicas deles são demais. Sabe tocar alguma?

-Stop crying your heart out. Mas só o refrão, não consigo tocar a introdução de cor, sem a partitura.

-Toca para mim? –Pediu me olhando com seus olhos radiantes de jade, mais brilhantes em contraste com a luz do sol.

-Toco. -Beijei o topo de sua cabeça e a chamei para tomar café, sem cerimônia nenhuma. Estava evidente que a situação era desconfortável para ambos.

As panquecas já haviam esfriado assim como o cappuccino, esquentei tudo rapidamente enquanto Sakura arrumava suas coisas, já chegou à cozinha com sua bolsa.

-Minhas roupas ainda estão úmidas, será que posso devolver o moletom pelo correio?

-Não o quero, pode ficar, tenho dezenas desses.

-Que bom. –Sarcasmo detectado.

-Cappuccino?

-Sim.

-Ainda não me passou a receita. –Cobrei e ela riu.

-Faça natural. Misture o café com achocolatado, açúcar e bata tudo. Depois coloca creme. Simples!

-Dá trabalho...

-Fica gostoso!

-Então compensa.

-E mantém o meu emprego. –Riu.

-Por que não fez faculdade?

-Não passei em nenhuma.

-Ia fazer o que?

-Educação física, mas voltada à dança. –Bebeu um pouco do leite. –Queria dançar no balé de Nova York como minha mãe, sabe, para fazer esse lance de geração para geração, mas não rolou. –Comeu um pedaço de panqueca.

-Ainda quer isso?

-Não. Já estou nos meus vinte e cinco anos, não compensa e estou feliz trabalhando na cafeteria, mesmo sendo uma loucura e o salário uma miséria!

-Quer ficar lá pra sempre então?

-Se possível... –Ri. –Que tem de tão engraçado?

-Nada. Eu sou idiota. –Sorriu.

-Um idiota muito lindo! –Me beijou.

-Sim, eu sou. –Confirmei agarrando ela.

-Convencido! –Me bateu. A abracei de canto sorrindo e ela me disse: -Não me esqueça.

-Nunca.

-Promete?

-Eu prometo.

-Amo você. –Quando ouvi isso, não agüentei. A beijei e agarrei e não quis mais soltar de jeito nenhum. –Eu tenho que ir.

-Não tem, não.

-Tenho sim, a Hinata vai me buscar no metrô.

-Ok. –A soltei e terminamos de comer em silêncio, até ela receber uma mensagem.

-É a Hinata. Está saindo de casa agora.

-Eu poderia te levar...

-Não é preciso. Acho que é melhor eu...

-Eu sei. –Sim. Eu sabia. Infelizmente essa era a hora de dizer “xau, obrigada por encerrar minha abstinência de sexo e me ensinar fazer cappuccino”. Eu jamais diria isso. Não pessoalmente.

-Pode me levar à porta?

-Claro. –Me levantei e a acompanhei à entrada em silêncio, mas por dentro eu gritava pois eu não queria vê-la partir, não ela, não naquele momento, não daquele jeito. Ela pegou seu guarda-chuva escorado no hall de entrada e abri a porta para ela. Ainda estava meio frio, pelo menos fazia sol e a entrada da minha casa estava limpa, que milagre.

-Este bairro é lindo quando as casas não estão repletas de neve.

-Aqui é como se fosse o Upper West Side de Ottawa.

-Percebe-se. –Depois de um longo silêncio se pronunciou. –Bem... –Como se despedir numa situação dessas? Fiquei parado, esperando uma atitude dela. Ela sempre dá o primeiro passo. Mas dessa vez não foi assim. –Então, adeus! Obrigada por tudo que fez por mim! –Disse com um sorriso falso.

-Não foi nada. –Respondi a cortesia. Ela se virou e eu a vi partir. A vi andar em direção a cerca do jardim sem olhar para trás; a vi cruzá-la e virar a direita na calçada; a vi desaparecer depois da caixa de correio do meu vizinho.

Eu nunca mais a veria.

Eu nunca mais sentiria aquela pele macia nos meus braços.

Eu jamais a teria de volta.

Nunca mais.

Pensando assim, me toquei de que não poderia perder a chance de beijá-la pela última vez, de aquecer meus lábios frios e finos com a boca rosada dela. Coloquei um casaco rapidamente e sai na rua correndo atrás dela. Já estava na esquina.

-Hey! –Chamei. Mas dessa vez não era para convidá-la a se hospedar em casa por conta de uma tempestade, era para convidá-la para um ultimo ato de despedida, como um selo sobre um envelope onde vou guardar todas as lembranças desses dias. Ela se virou. Tinha os olhos marejados, o rosto vermelho, estava chorando. Sorriu ao me ver. Fiz o mesmo, então, corri para abraçá-la. Ficamos assim por uns minutos. A beijei guardando cada pedacinho dela. Um beijo intenso, urgente, asfixiante, me deixou sem ar. Parei para respirar. Sequei as lágrimas do rosto divino dela e sussurrei. –Precisava disso para poder deixá-la ir. -A soltei e fui me afastando, ainda sorrindo. –Adeus, meu anjo! –Ela não disse nada. Mandou um beijo e virou a esquina correndo. Eu fiquei ali, no meio da rua, com cara de bobo desesperado, andando de costas, meio torto e tonto enquanto um vizinho tosco acenava mandando bom dia.

Chegando em casa me afoguei em cerveja e séries de TV reprisadas. Não tenho nenhum contato com ela, nem e-mail, telefone, endereço de casa ou trabalho, só um nome. Apenas um nome, uma lembrança. Eu sabia que seria assim desde o começo, sempre estive feliz sozinho e sabia que se eu deixasse quem quer que seja invadir meu mundo dessa maneira eu só iria sofrer com a falta. Eu sempre soube disso. Para que amar se nunca dura? Para que me envolver sendo que eu sabia que duraria apenas três dias? Ou melhor, dois e meio!

Como minha vida foi mudar tanto em apenas dois dias e meio? Tenho que manter-me forte nos meus princípios, sou anti social, solitário e sério. E esses são só os ‘S’. Não gosto de barulho, crianças e vadias. Amor só pelo meu irmão que em uma cama vegeta, pela música e pintura. Comer, apenas pizza e panquecas, cappuccino e cerveja de bebida.

Isso! Assim que tem que ser! Este é o Sasuke em seu juízo perfeito! Vai ser fácil esquecer a rosada, não estou tão apaixonado por ela, quem disse? Não namoro há tanto tempo que até perdi a noção do que dizer para uma mulher um dia depois de transarem. Deve ser isso. Daqui alguns meses eu nem vou lembrar de que alguém esteve aqui em dezembro, vai ser moleza!

...

...

...

A quem eu estou tentando enganar? Eu vou surtar aqui!

Hoje será o dia

Que eles vão jogar tudo de volta em você

Por enquanto você já deveria, de algum modo,

Ter percebido o que deve fazer

Não acredito que ninguém

Sinta o mesmo que eu sinto por você agora

Andam dizendo por aí

Que o fogo no seu coração apagou

Tenho certeza que você já ouviu tudo isso antes

Mas você nunca tinha uma dúvida

Não acredito que ninguém

Sinta o mesmo que eu sinto por você agora

E todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas

E todas as luzes que nos levam até lá nos cegam

Existem muitas coisas que eu gostaria de te dizer

Mas não sei como

Porque talvez

Você vai ser aquela que me salva

E no final de tudo

Você é minha protetora

Notas finais
Músicas citadas:
Oasis - Wonderwall
Oasis - Stop Crying your heart out