A Hóspede

1 Cappuccino, neve e um guarda-chuva vermelho


Notas iniciais
Welcome welcome

Minha cabeça estava vazia. Meu coração distante. Por mais que eu buscasse inspiração, minha mão travava, a tinta já secava no pincel e eu ainda não havia pintado nada, a tela permanecia intacta. Deixei os materiais de lado e saí do ateliê, liguei a TV e fui fazer um cappuccino, minha bebida favorita.
“[...]Nesta tarde vai haver uma nevasca com ventos de 80 km por hora. Fiquem em suas casas até o temporal passar[...]”


–Bobagem! –Retirei a caneca do microondas.


Eu sempre vivi em lugares frios, moro nesta casa há dois anos, então, nevascas são bem comuns, principalmente aqui em Ottawa. A televisão exagera demais nos noticiários, ainda assim, eu não saio de casa, por precaução e porque não tenho o que fazer fora de casa, ainda bem. Sou pouco sociável.
Enquanto preparava meu tradicional cappuccino, ouvi o jornalista continuar:
“[...]esta será a maior tempestade dos últimos dez anos. Segundo os meteorologistas irá durar três dias, no máximo...” Parei de mexer o leite no mesmo instante e aumentei o volume da minha amada plasma 42. “[...]mantenham as janelas fechadas, carreguem as dispensas e tentem economizar energia...”Talvez o temporal seja mais severo do que pensei.

Desliguei a televisão e peguei meu cappuccino. Tudo aquilo era muito inútil para mim, em particular. É raro eu sair de casa a não ser para checar o correio ou reabastecer a dispensa, que está cheia. Sempre está.
Fui para o notebook responder uns e-mails da gravadora e perdi a noção das horas. Preparei mais umas duas canecas de cappuccino depois daquela e assim fiquei por um longo tempo.

Esta é a minha rotina e, por incrível que pareça, durante, durante estes dois anos que resido neste país, nunca me queixei da minha vida pacífica e monótona. Até eu olhar a janela, um pouco além dela, e avistar um guarda-chuva vermelho, quase todo coberto por neve, lutando contra a ventania.
O calor da caneca embaçou um pouco o vidro, limpei para enxergar melhor o que se passava lá fora e concluí que era uma garota, aparentemente frágil, que enfrentava o temporal. Muito corajosa... e idiota!

Após observá-la cair na neve(que já passava das bordas de suas botas) umas duas vezes, parei e refleti. Confesso que ninguém pode contar com caridade vida de minha pessoa, como disse antes, sou anti-social, não gosto de me envolver com ninguém, sou feliz na minha vida particular e independente. Mas não sei por que, minha consciência pesou ao ver aquela mulher lutando contra um temporal daquele...


E se não morasse aqui por perto? E se morresse de hipotermia? E se fosse soterrada de neve? E se... Ah! Droga!


Tomei o resto do cappuccino que havia no copo e vesti minha jaqueta, toca e cachecol. Abri a fechadura ainda relutante, buscando bons motivos para estar fazendo aquilo.

–Hey!-A chamei da porta de casa, mas ela não me ouviu. –Hey!!!-Tentei mais uma vez, porém tive o mesmo resultado da primeira tentativa: nada.
Como temia, tive que ir buscá-la. Entrei novamente e calcei botas de neve. Ao me aproximar da moça, percebi logo seu cabelo peculiar, rosa, ou um ruivo desbotado. Difícil de saber.


–Hey!-Toquei em suas costas e quão rápido como meu ato, ela de virou de supetão e começou a me bater coma bolsa. –Pára! Pára! Por favor! Eu só vim ajudar!-Tentei explicar com o antebraço na frente do rosto, me protegendo.

–Ajudar...?-Repetiu mais calma. De relance, pude ver seus olhos de jade assustados e exaustos me medirem da cabeça aos pés, desconfiados.

Ela tinha o rosto delicado e branco como a neve que nos congelava aos poucos. Seus cabelos róseos se batiam com o vento forte que fazia, mecha por mecha chicoteando seu rosto de uma maneira tão formidável que parecia ter sido ensaiada. Vi tudo em câmera lenta, com os pensamentos viajando a 300 km por hora na minha mente, até que voltei a realidade e respondi, um pouco aéreo:

–Sim... -Falei. –Mora por aqui?-Perguntei depois de uma pausa.

–Bem... Não sei ao certo... Creio que me perdi. –Respondeu olhando tudo ao redor com uma expressão que denunciava certo desespero.

–Se quiser, pode ficar aqui na minha casa... –Falei me xingando mentalmente por estar fazendo isso. Novamente ela me lançou aquele olhar desconfiado e auto-explicativo. –Não precisa se preocupar. Não sou uma pessoa ruim, só quero te ajudar.

–Como posso ter certeza? –Perguntou.

–Se eu quisesse fazer algum mal à você, não teria chamado sua atenção, chegaria a imobilizando ou ia desacordá-la para fazer a maldade que eu quisesse. –Ela abriu mais os olhos, surpresa, então tentei falar algo que a convencesse de que sou uma pessoa com boas intenções. –Posso deixar as chaves das portas e do meu carro com você. Quando quiser sair...
–Está bem. –Respondeu depois de pensar um pouco. Conformou-se de que não tinha escolha. Ou era vir comigo ou ficar na neve até Deus sabe quando.

Logo ao entrar em casa ela teve uma crise de tosses tão forte que por um vago momento senti medo. Medo de ela ter uma parada respiratória e morrer ali mesmo no tapete junto a porta.

–Você estava lá fora havia quanto tempo? -Perguntei ao notar suas roupas úmidas.

–Meia...hora... –Sua boca tremia. Seus braços estavam cruzados numa tentativa frustrante de se aquecer. –Por quê?

–Suas roupas estão molhadas. Se quiser, pode tomar um banho para se esquentar. Tenho agasalhos que podem servir em você, não sei.

–Ahm... Acho melhor não. Esse temporal... já... vai passar. –Falou coma boca trêmula. –Minha casa não fica muito longe. Eu acho...

A olhei com ironia e me sentei no sofá junto ao meu notebook.
–Iria chegar rapidinho... se não fosse toda essa neve! –Falou brava sacudindo seu guarda-chuva.
–Iria chegar congelada, isso se não morresse de hipotermia no caminho. –Falei sem olhá-la.

Já fiz bastante ao resgatá-la, se ela quiser pegar uma pneumonia ela tem todo o direito. Depois de uns minutos em pé na entrada de casa, tremendo como uma doente decidiu aceitar a minha gentileza.

–Bem... –Tomei um último gole do meu cappuccino e me virei para ouvi-la. –Talvez... um banho seria ótimo... Se não for muito abuso. Sorri e a guiei aos interiores da casa. Percebi que La observava meus quadros confusa, tentando entendê-los. Era em vão. Nem mesmo eu os compreendo bem, imagine ela, uma estranha que nada sabe sobre mim. A admirei por tentar. Particularmente não vejo nada de peculiar neles, nada que chame atenção, nada que valha a pena parar e observar.

–É aqui. –Disse abrindo a porta do quarto de hóspedes.

–Um quarto? –Perguntou com incrédula.

–Sim, seu quarto. –Respondi. -O banheiro fica naquela porta. –Apontei e saí irrelevante.

–Como assim meu quarto? –Perguntou enquanto me seguia pelo corredor.

–Este não é um temporal como os outros, é o maior da década. –Entrei no meu quarto. -Vai durar uns três dias, então até lá você vai ficar aqui. –A informei enquanto procurava algo no guarda-roupa que a servisse. –Se quiser, claro. E aquele será o seu quarto, a menos que queira dividir essa cama comigo. –Falei seco.

Aquilo não foi uma cantada ou um convite para dormimos juntos, acredite.

Na verdade, quis deixar bem claro que ela na minha cama está fora de cogitação. Não sou gay. Sou anti-social, não gosto de me envolver com ninguém, principalmente quando tem mulher e sexo no meio. Ou seja, a garota vai ficar longe do meu quarto, mesmo que ela pareça um anjo de cabelos róseos. Tímida e ingênua.

–Pode deixar –ela deu um sorriso torto e fitou meu zíper, ou o que estava através dele-, vou ficar com aquele quarto.

Ok, toda a timidez e inocência dela desapareceram de repente! Fiquei perplexo! Depois de muito procurar algo que coubesse no corpo aparentemente magro dela, achei uns moletons. Bati na porta, estava aberta. Bati um pouco mais forte, para informar que estava no quarto e coloquei as roupas sobre a cama. Quando me virei para sair do aposento, a vejo com apenas com uma toalha tapando suas intimidades. Sua postura ereta, o rosto mais corado e as curvas mais definidas por conta da toalha justa em seu corpo. Ela é realmente muito atraente. Confesso que fiquei um pouco excitado, mais só um pouco! Juro!

–Bem... –Tentei desviar meus olhos das pernas brancas da moça, encabulado. –Aqui estão suas roupas. –Ela ajustou mais a toalha, corada. Percebeu que eu a media. –Vista-se! –Falei por fim e saí às pressas do quarto. Estava morrendo de vergonha de mim mesmo.

O que foi aquilo? Eu abrigo a mulher em casa e fico contemplando o corpo (maravilhoso) dela? O que é isso, Sasuke? Esse não é você!

Acho que a neve de lá de fora congelou meus neurônios.

Porém, não há nada demais em olhar. Digamos que não é muito comum ver mulheres só de toalha na minha casa. Nos meus vinte e cinco anos não tive mais do que dois relacionamentos instáveis e traumatizantes. Mesmo assim, não sinto falta de uma presença feminina na minha vida, esta é uma ambição que eu nunca tive.