Sabe aquelas histórias que nossos professores contavam de que a população não sobreviveria devido ao aumento dos gases tóxicos e ao fim da água potável? Pois eles estavam errados.

Eu sou um sobrevivente do suposto apocalipse. Mas isso não faz de mim especial. Mais da metade da população sobreviveu. Foi meio doloroso nos adaptar. Os biólogos que examinaram a maior parte dos sobreviventes disseram que passamos por transformações. Disseram que nosso DNA sofreu um tipo de mutação, o que fez com que nossos pulmões se adaptassem a um ambiente com escassez de oxigênio. Ninguém previu isso, e tal coisa só aconteceu porque um gás novo apareceu e mudou nossas células.

Aqueles que eram imunes à ação desse novo gás morreram. Meu avô foi um deles. Já o resto da minha família passou pela mutação e hoje vivemos normalmente... ou quase. Bem, nosso corpo adaptou-se a falta de oxigênio. Passamos vários dias tossindo, nossos pulmões diminuíram de tamanho e a maioria de nós vive ofegante. Mas ao menos estamos vivos. O problema é que nosso organismo não achou uma maneira de sobreviver sem água ainda, e acho que nem vai. Então muitos países estão entrando em guerra, porque isso nossos professores previram bem: a água está realmente com seus dias contados.

Bem, o Brasil nunca foi alvo de muitas guerras, nem esteve em destaque. Porém, agora que sabem que a maior parte da água restante está aqui, praticamente todos querem entrar no território e roubar água. Houve várias tentativas de acordo, mas nada que nosso presidente aprovasse. Ele sabe que a água é suficiente pra abastecer só o povo que mora aqui, e que a ela é direito nosso. Enfim alguém sensato comandando o país.

Deixe-me dizer quem eu sou, porque ler uma história sem saber quem está contando é incômodo. Meu nome é Modificata-563. Eu sei que é bem estranho, e parece até nome de menina, mas ele nem sempre foi assim. Antes de tudo acontecer meu nome era Léo. Isso me leva a ter que explicar mais uma coisa sobre a nova situação: Quando nos adaptamos, coisas estranhas aconteceram com os jovens, somente com jovens. Nossas células — de alguns de nós, na verdade — sofreram mutação demais, e nós desenvolvemos alguns “dons”. Foi muito assustador andar na rua e ver pessoas saindo do chão e voando, ou gritando tão alto que vidros se quebravam.

Os biólogos explicaram que os mais velhos não sofreram essa mutação “exagerada” porque suas células não tinha tanta capacidade de se modificar. Então, à medida que os jovens adaptados foram sendo descobertos, seus nomes foram mudados e seus corpos marcados. E, como você deve presumir, faço parte desse grupo. Minha marca é no meio do peito, e é o numero 563.

Eu tinha acabado de sair da escola quando meu “dom” apareceu. Era um dia normal, mas com o excesso daqueles gases, o dia estava insuportavelmente quente. Então, como hábito, levantei as mãos para o céu pra perguntar a quem quer que estivesse ouvindo “estamos vivendo num forno ou é impressão minha?” e saiu gelo das minhas mãos. Foi como uma corrente de água saindo de dentro de mim, mas congelada. Quando viram, os agentes do governo me pegaram instantaneamente pelos braços e me levaram para um lugar isolado numa van.

Chegando lá me levaram pra dentro de uma sala que tinha um cientista e um cara grandão com cara feia. Eles me fizeram várias perguntas do tipo “você sente dores?”, “quando foi a primeira vez que você fez o que vimos hoje?”, “você poderia fazer aquilo de novo?”, “quantos anos você tem?”, “onde você mora?”, enquanto anotavam todas as reposta numa caderneta.

Respondi a tudo com o menor número de palavras possível. Eu sentia medo e excitação. Por mais estranho que seja, foi legal fazer sair gelo das minhas mãos. Eu era diferente e podia servir pra alguma coisa, afinal, o frio (eu) é o oposto do calor (a Terra).

Quando me pediram pra fazer novo, eu disse que não conseguia. Eles me forçaram a tentar, ameaçando minha família, e eu tentei. Coloquei as mãos pra cima de novo e fechei os olhos, esperando alguma coisa. Nada. Forcei mais, abri e fechei as mãos, mas nada aconteceu. Quando as abaixei, desistindo, senti-as esfriarem. Olhei para elas e estavam cobertas de uma camada fina de gelo. Já estava derretendo, mas estava lá, com certeza.

O cientista olhou espantado para a água que pingava de minhas mãos e o grandalhão sorriu. Pegou-me rapidamente, rasgou minha camisa e com um caneta preta escreveu 563 no meu peito. Então me levou de volta para a van e para minha casa. Disse que eu receberia uma carta em alguns dias e foi embora. Não prestei atenção direito, porque eu queria limpar aquela tinta da caneta do meu peito.

Chegando ao quarto, larguei a camisa rasgada de lado e corri para o banheiro. Peguei sabonete e esponja e esfreguei-o até sangrar, mas nada saía. A tinta continuava ali, como antes, visível e ameaçadora. Como meus pais reagiriam ao saber que seu filho era um Modificata?

Deitei na minha cama, olhando para o teto, e liguei meu som. Eu precisava colocar meus pensamentos em ordem. Por que estavam “catalogando” os jovens? Por que levar todos pra um lugar e fazer mil perguntas, forçá-los a repetir o que os caras do governo tinham visto e depois marcá-los? Será o governo queria eliminar todos os Modificados? E ainda, como é que ele faria pra controlar seu recém-descoberto dom? Só parei pra refletir sobre isso depois de acontecer comigo, e me senti péssimo. Eu era tão egoísta assim?

Quando terminei de divagar e me sentei, senti algo gelado tocando minha pele. Depois olhei ao redor e todo o quarto estava branco. Estava nevando dentro do meu quarto. Mas como? Como parar isso? Então, pra tentar controlar o gelo que caía, fechei as mãos e me concentrei ao máximo. Esvaziei minha mente e me concentrei em fazer a neve parar de encher o chão do quarto. Logo ela derreteria e encharcaria todas as minhas coisas. Quando abri os olhos novamente, tudo tinha parado. O chão ainda estava branco, mas nenhum floco caía sobre ele mais.

Respirando fundo, me levantei, e uma ideia veio a minha cabeça. E se eu conseguisse mover o gelo dali de dentro para fora do quarto? Abri a janela, esfreguei uma mão contra a outra e as estendi sobre o gelo. Respirando profunda e lentamente, com os olhos apertados, me concentrei em tentar levantar o tapete de neve que havia ali. Lentamente, floco por floco, a neve foi saindo do chão, e assim que percebi, movi minhas mãos em direção à janela. Toda a neve foi passando por ela, algumas vezes batendo na parede perto da abertura, outras vezes caindo e depois subindo, mas pouco a pouco, esvaziei o quarto. A grama que há muito morrera lá fora pareceu agradecer a neve que derretia sobre ela. Não gastávamos muita água com plantas mais, e aquela era a primeira vez que recebiam aquele líquido em muito tempo.

Dei um largo sorriso por ter conseguido fazer aquilo, e me senti um pouco cansado e com fome. Corri para a cozinha para pegar algo na geladeira, e assim que peguei uma maçã e dei uma mordida, a porta da sala foi aberta e meus pais entraram.

Eles estavam se comportando como sempre: colocaram as coisas sobre o sofá, me deram um beijo, foram para o quarto trocar de roupa e voltaram para perguntar como foi o meu dia. Nessa hora, minhas pernas falharam. Perdi a fome quando comi metade da maçã e me sentei num banco para não correr o risco de cair. Estavam começar a achar estranha minha hesitação em respondê-los, então decidi contar logo.

Falei sobre tudo. Desde a hora que acordei, passando para o incidente na porta da escola, o interrogatório, a volta pra casa, tudo. Eles ouviram tudo calados e sem expressão. Quando terminei, me pediram para mostrar meu número. Parece que foi aí que perceberam que era tudo verdade. Eles olharam para meu peito com olhos arregalados e depois se olharam. Minha mãe tampou o rosto com as mãos e meu pai foi consolá-la. Eu podia ouvi-la abafando um soluço. Meu pai fez um gesto para que eu fosse para o quarto e esperasse, e então o fiz.

Minha cabeça estava a mil. Minha mãe chorava por preocupação ou por não aceitar que seu filho era um Modificado? Eu rezava para que fosse a primeira opção. Depois do que pareceu horas deitado esperando, a porta do quarto se abriu. A primeira coisa que minha mãe fez foi me abraçar, com olhos inchados e mãos trêmulas. Ela sussurrou em meu ouvido que me amava e que nada de mal aconteceria comigo. Nenhum de nós sabia no que ser um Modificado implicava, mas todos podíamos sentir que não era algo bom. E então, ao perceber que estive o tempo todo prendendo o choro, deixei minhas emoções transparecerem.

Abracei-a com mais força e chorei. Chorei por medo. Chorei por pena de mim mesmo. Sim, pena de mim mesmo, que achava legal assistir a filmes em que heróis tinham poderes e que agora que realizara um desejo, não podia comemorar. Chorei por não saber o que viria a seguir. Chorei por pensar no que mamãe e papai estavam pensando. Enfim, chorei.

Depois de me afastar do abraço dela, abracei meu pai. Não foi tão demorado, mas pude sentir que ele pensava nas mesmas coisas que a mamãe, e que ele queria dizer muitas outras, mas não tinha coragem. Ele é assim, então apenas continuei abraçando-o. Quando terminamos, fomos jantar e prometemos agir normalmente, como se nada tivesse acontecido. Pensei em contar sobre o problema da neve no quarto, mas resolvi deixar de lado. Já estava resolvido.

À noite, na hora de dormir, me despedi e me deitei pensativo. Todo o dia passou em minha cabeça como um filme. Lembrei-me de todos os amigos que eu tinha, e também que nenhum deles tinha manifestado nenhum dom. E, por mais cruel que isso pareça, rezei para que pelo menos um deles tivesse desenvolvido uma habilidade, porque assim eu não sofreria as consequências sozinho.

Notas finais
Esse é o começo da história.
Se puder, comenta, dá sua opinião e me fala das suas expectativas.
Espero que goste!