Acordo no outro dia com uma leve dor de cabeça. Demora um pouco até eu me lembrar de tudo o que acontecera no dia anterior, e ainda parecia um sonho... ou melhor, um pesadelo.

Sento-me na cama e esfrego um pouco a cabeça. Eu queria parar de pensar um outro sobre tudo isso. É tudo tão novo e tão assustador. Respiro fundo e olho para o lado. Percebo o quanto o quarto está frio e vejo gotas d’água escorrendo pelas paredes. Elas vêm do teto do quarto, que está cheio de estalactites. Uma está bem acima de mim e corro para fora do quarto antes que ela me perfure. Assim que chego á porta, duas delas caem no chão, fazendo um barulho de vidro quebrado.

Meus pais saem correndo do quarto e, ao verem o que me espantou, abriram a boca horrorizados. Lembro que ontem eles não perguntaram sobre meu dom, mas agora ligaram tudo, e depois de se recomporem, me dão um sorriso consolador e saem para buscar panos para enxugar o chão. Eu preciso aprender a controlar isso!

Depois de tudo seco, vou tomar um banho. Coloco a água no nível mais quente possível, como sempre gostei, e deixo que ela escorra por todo meu corpo. A sensação é tão boa que tenho vontade de ficar ali até que eu perceba que tudo não passou de um sonho ruim. Bem, isso é realidade, então me forço a sair e a enfrentar a realidade.

Visto uma roupa, escovo os dentes e vou tomar café da manhã. Percebo que interrompi uma conversa séria entre meus pais, tento sair de fininho antes de perceberem minha presença porque não quero mais outra conversa, mas eles me veem e tenho que ir sentar junto a eles. Para minha alegria, eles parecem ter esquecido o assunto, exceto que estão muito atenciosos e parecem estar sempre com o mesmo sorriso consolador. Passam o café inteiro me perguntando se quero isso ou aquele, e tudo o que faço é balançar a cabeça enquanto mastigo tudo rapidamente. Como eu estava com fome!

Ao final, aviso que vou à escola normalmente. Preciso viver como se nada tivesse acontecido, porque podem desconfiar de algo, ou o governo pode achar que estou fugindo. Eles concordam e pedem que eu não conte nada a ninguém. Apenas aceno com a cabeça, pego minha mochila e saio.

A sensação de sair de casa e andar até a escola é reconfortante. Apesar do calor, não levanto minhas mãos pra dizer a mesma frase de sempre. Apenas ando com as mãos nos bolsos, normalmente, tentando esquecer de tudo e de todos.

Logo estou na porta da escola e ao ver a entrada, toda a cena do dia anterior se materializou na frente dos meus olhos. Balancei rapidamente a cabeça para espantar essa lembrança, e caminho até dentro da escola.

Tudo está como antes. Pessoas conversando, fazendo fofocas, xingando uns aos outros, comendo. Mas algumas delas param e me olham atentamente. Depois desviam os olhares e passam a dizer algo, um sussurro, nos ouvidos dos amigos. Percebo que ontem, quando o gelo saiu da minha mãe e fui levado por uma cara enorme, algumas pessoas viram, então um frio na barriga toma conta de mim. O que estavam pensando agora? Eu já tinha visto pessoas sendo levadas depois de manifestarem seus dons, mas nenhuma era próxima de mim, então eu simplesmente continuava a andar. Egoísta!

Tento não prestar muita atenção e fingir que não vejo nada. Entro na sala de aula e meus amigos mais próximos, para meu alívio, me tratam como de hábito. Demoro um pouco a entrar no assunto, pois os cochichos lá foram ainda me atormentam um pouco, mas eles me ajudam a esquecer e logo estou rindo com eles. Depois de algum tempo, me pergunto se devo contar-lhes sobre o cientista e o interrogatório. “Decido isso depois”, penso. Outra característica minha: se algo pode ser feito depois, então que seja!

O dia passou mais rápido do que esperei, talvez porque não queria que a carta chegasse logo por medo do que podia haver ali escrito. Assim que o sinal bateu, saí da sala sem me despedir das pessoas. Não era realmente um hábito fazer isso, mas também não era totalmente estranho, por isso não me importei em fazê-lo.

Voltei relutante para casa. Ainda me assombrava a ideia de encarar meus pais, por mais compreensíveis que eles tenham parecido. Quando cheguei na porta, verifiquei a caixa de correios e meu coração parou. Ali dentro tinha uma carta endereçada para Léo com o símbolo do Governo.

Peguei-a com as mãos trêmulas e entrei em casa, largando a mochila no sofá e me jogando no outro. Abri o envelope branco e comecei a lê-lo.

Caro jovem Léo,

Presenciamos ontem a manifestação de um dom, o qual você parecia não ter conhecimento de possuir. Porém foi comprovado que é de fato uma mutação exacerbada, e por isso mandamos aqui um novo documento com a mudança de seu nome.

Olhei para dentro do envelope novamente e ali estava um documento verde plastificado, com minha foto e o nome Modificata-563. Continuei lendo a carta.

Além disso, você está convocado para comparecer ao estádio da cidade daqui a uma semana para a realização de um teste. Não é permitido a divulgação do que se trata a prova, mas é obrigatória, como um dever de cidadão, ir ao lugar na data marcada, ao meio dia (doze horas).

Grato,

Governador Carlos Fonseca

Ótimo, eu tenho que comparecer a um local enorme para realizar uma prova misteriosa provavelmente com inúmeros jovens ao mesmo tempo. Vai ser realmente emocionante contar isso aos meus pais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.