A Guerra dos Criativos
6 E tocam as trombetas
Quando se é um escrevinhador, como o fui entre os dez e os quinze anos, não se preocupa tanto com a arte de escrever, pois o que importa é se criar algo, uma história. Quando se passa a ser um aspirante a escritor, surge e aumenta um pouco a preocupação com o que se quer contar. E, por fim, quando se é escritor publicado, passa-se a planejar melhor cada história. Eu tenho tais pensamentos, estes de escritor; porém, antes de tudo, penso no que eu gostaria de ler. Se o que escrevo atrai leitores, quem sou eu para reclamar? É apenas uma consequência de minha persistência em criar histórias que eu gostaria de ler somente.
No momento em que me perdia em pensamentos, uma lágrima escapou e molhou o caderno. Afastei como pude algumas lembranças e voltei a digitar, concentrando-me na tarefa a ponto de me esquecer do tempo e somente parar quando os olhos principiaram a arder, causando irritação e me forçando a cessar a atividade. Salvei tudo no computador e no pendrive. Desliguei a máquina e joguei-me na cama, exausto, com os olhos fechados.
Um minuto depois senti o aroma de carne assada, o que fez a fome apertar gostosamente a barriga. Abri os olhos e vi que estava sentado numa cadeira, na mesa de banquete. Ao meu lado, em distâncias variadas, estavam os Generais e os Capitães que já eram conhecidos por mim, além de outros novos.
A mesa de banquete lembrava a Távola Redonda, porém era um imenso círculo, muito maior do que o mencionado nas lendas arturianas, restando um vazio no meio, um espaço grande o suficiente para ser preenchido por uma fogueira que preparava os alimentos, músicos tocando e criaturas humanoides dançando, tudo em beleza e harmonia tão impressionantes que chegavam a ser utópicas.
— Chegou na hora — falou Zarak, sorrindo.
O monstrinho parecia o Gato de Cheshire, aparecendo e desaparecendo quando bem quisesse. E aquilo começava a me irritar.
— É impressão minha ou hoje tem mais gente do que ontem? — indaguei, quase cochichando, para ele.
— Não é impressão — respondeu, um pouco sério. — Hoje ninguém ousou duelar.
— Por quê?
— Não se fala sobre ele na mesa.
Respeitei aquilo, visto que meu amigo era o meu Pajem. Só queria saber quem era “ele”, apenas isso.
— E já se passaram alguns dias desde a sua última visita — avisou-me ele.
— Como?!
— Tempo de sonho, oras.
Quando ouvi aquilo, não compreendi o que significava. Pesquisando depois, porém, em sites sobre sonhos, descobri que o tempo de sono normal de uma pessoa saudável dura de seis a oito horas; um sonho dura cerca de vinte minutos, ocorrendo geralmente nas últimas horas do sono, embora haja a possibilidade de se estender por algumas horas. Quanto ao “tempo de sonho", mencionado pela criatura felina, refere-se a um tempo que difere completamente do nosso. Para tentar explicar a teoria, imagine que você durma e sonhe por vinte minutos — o que é mais comum em pessoas saudáveis. Para cada um minuto de sonho ocorrido em tempo real, são doze no mundo dos sonhos. É parecido com a Teoria da Relatividade, ou com as teses de vida dupla do ser humano.
Dediquei-me a observar melhor os detalhes do Acampamento, talvez tentando controlar minha enorme curiosidade. Naquela noite não havia tantas criaturas quanto na noite anterior, e sim um bom número de Criativos. A julgar pelo clima pesado, todos estavam tensos e receosos, embora tudo ali inspirasse a alegria e a tranquilidade. E meu olhar logo se fixou num trio em particular: Elric e Alfredo conversavam com um sujeito um pouco gordo, robusto na verdade, que ostentava uma pequena parcela de barba negra abaixo do queixo.
— Quem é ele, Zarak? — questionei, cutucando o monstrinho e apontando discretamente para o rapaz que me era desconhecido.
— General Amaury, um lovecraftiano — respondeu meu Pajem. — Marlus era seu Comandante.
— Um lovecraftiano?!
— Sim, um escritor de horror ao estilo daquele...
— Eu sei o que é.
— Então por que essa cara de espanto?
— Ele é estranho.
— Todo autor do macabro é assim mesmo. Você logo se acostuma.
Lembrei-me de ter lido uma obra de H. P. Lovecraft, um livro de horror psicológico. Não era o dos mais macabros e famosos — creio eu —, porém me permitiu identificar as características que o tornaram mundialmente conhecido. Ele foi o mestre dos contos de horror, um dos precursores da onda de zumbis e monstros ameaçadores, de seres espaciais ansiosos para se despertarem e subjugarem a raça humana. Não é o meu gênero preferido, mas tem lá o seu charme.
Examinei cuidadosamente Amaury. Ele vestia roupas negras com algumas peças em cinza e prata, como correntes e anéis com formas de caveiras e serpentes — objetos estes presentes não apenas em suas vestes, mas também presos no pescoço e nos dedos. Se as roupas escuras e apetrechos estranhos não o tornavam uma pessoa destacável numa multidão, a altura e o porte, unidos a aparência severa, faziam-no. Era quase careca — digo quase porque seus cabelos eram muito curtos, permitindo ver o couro cabeludo —, semblante muito severo e enigmático, pele morena clara e olhos castanhos avermelhados.
Talvez o fato de saber que era o superior de meu primeiro oponente — e que quase me matara em um ato covarde e impiedoso — me fizesse ter um prejulgamento dele. E tudo se agravava ao saber que era um lovecraftiano, um autor de relatos macabros e assustadores, capaz de criar seres demoníacos para causar medo e inquietação nos leitores.
Desviei o olhar, servindo-me com um bom suco de laranja. Foi um gole demorado. Em seguida, busquei por minha fantasista, entretanto não a encontrei. Então fiquei analisando a refeição daquela noite.
Conforme permitisse a criatividade de cada um, havia todo tipo de alimento possível e para todos os gostos. No meu caso, purê de batatas, alface, frango assado, arroz, bolo de chocolate, pudins, sorvetes de inúmeros sabores, sucos de morango, limão, laranja e guaraná, bombons, pavês, pães de queijo, etc. Claro que fui incapaz de comer tudo, mas o que consegui comer estava muito delicioso. Éramos servidos por uma força invisível, que levava os pratos diretamente a nós, sem intermédio de terceiros, como garçons em rodízios de churrascarias ou pizzarias.
Enquanto eu comia, pensava na conversa maravilhosa que tive com minha Capitã. Era incrível como uma garota que eu mal conhecia me fazia sentir tão bem e importante! De todos os Criativos que eu havia conhecido até o momento, Marcélia era a que mais me havia despertado grande a simpatia.
Zarak estava mudado, tornando-se mais sério e distante. Parecia não ser mais aquela criatura totalmente alegre e surreal, porém mais adulta, com um humor mais sarcástico. Talvez fosse consequência do ataque traiçoeiro que eu sofrera. Talvez se sentisse um pouco culpado.
Após perder alguns minutos pensando nesses assuntos, voltei a minha atenção para os três Generais, que ainda conversavam. Alfredo era o que mais falava, parecendo argumentar, contra-argumentar e defender seus argumentos, enquanto ora ou outra Elric apontava algumas coisas e sugeria outras — numa energia quase maior do que a do primeiro — e Amaury somente ouvia, limitando-se a concordar ou a discordar. Estavam tomando alguma decisão importante. O que tanto conversavam? Teria alguma relação com o ataque covarde que sofri? Ou estaria relacionado ao mal que o ancião mencionara? Notei que uma vez ou outra um dos três olhava em minha direção, o que me fazia sentir um calafrio. O que falavam sobre mim?
Quando terminei de cear, retirei-me, afinal não havia motivos para continuar ali. Resolvi andar um pouco, sem rumo certo. Era algo que eu sempre fazia, quando precisava pensar ou simplesmente esfriar a cabeça, esquecer um pouco as coisas que me atormentavam, ou para arquitetar alguma coisa ou pensar melhor nas ideias. Andei um bom tempo apenas tendo em mente as lembranças de meu primeiro combate, o golpe que recebi daquele troll e a ajuda que o meu General me prestou. Foi Zarak quem pediu a ele para vir me salvar...
No segundo momento, devaneei — ou sonhei acordado dentro de um não-sonho — com coisas que eu queria que acontecessem e com fatos que nunca aconteceriam. Mas logo fui chamado de volta por sons de trombetas, ruídos altos e alarmantes, quase ensurdecedores.
Olhei em volta, notando enormes guerreiros de metal, androides, avançando pelo Acampamento, atirando para todos os lados, em fileiras militarmente bem planejadas. Instintivamente me joguei no chão, enquanto pensava em alguma coisa que os atacasse. Dezenas de tiranossauros surgiram, todos com fúria e agressividade, atacando-os com grande ferocidade, transformando-os em fumaça ou poeira enegrecida. Outros, contudo, eram logo abatidos, tornando-se cinzas incandescentes.
Levantei-me rapidamente e corri, escapando — milagrosamente — dos disparos das máquinas humanoides, que pareciam dispostas a matar quem encontrasse em seu caminho de destruição. E eu continuava a criar mais dinossauros carnívoros para os combaterem, impedindo-os de virem em meu encalço.
Em pouco tempo, todo o lugar era um campo de guerra onde máquinas mortíferas e impiedosas se confrontavam com monstros e animais de variados tamanhos formas e origens criativas.
Notei a presença dos lobos e licantropos de Alfredo, que variavam nos tamanhos e raças; todos eram muito violentos e eficazes em seus ataques, causando mais danos do que sofrendo, agindo em táticas de grupo perfeitas, impossibilitando fugas ou evitando muitas brechas para retaliações. Ao lado de meu General, como um cavaleiro medieval, estava Elric, cuja armadura emitia uma luz azulada muito intensa. Logo percebi um exército parecido com ele, todos com armaduras de cristais, de vários tons de cores, empunhando espadas e escudos, avançando com extrema disciplina e sucesso, golpeando de maneira quase sempre única e fatal.
Todo o Acampamento sofria um ataque selvagem de máquinas de guerra dispostas a matar. E os principais alvos eram os Criativos, que elaboravam barreiras enormes com suas criações, sempre acrescentando a quantidade exata que era destruída, buscando em desespero preservarem suas vidas. Resolvi imitar o exemplo e criei um grupo para me proteger, optando por golens, visto a grande força e maior resistência dos mesmos, equipando-s com escudos, clavas e espadas gigantescas.
Quando localizei Amaury, este estava cercado de monstros que sou incapaz de descrever. Eram, contudo, todos muito bizarros e sombrios, resquícios do pesadelo mais perturbador que alguém poderia ter, de quimeras oriundas das mais obscuras profundezas da alma. As criaturas do lovecraftiano eram mais mortais, violentas e poderosas do que as minhas e as dos dois primeiros Generais juntas. Eram tão monstruosas e cheias de tentáculos e chifres, tão grotescas, que poderiam facilmente ser confundidas com nossos inimigos. E por um breve momento, eu juro, senti pena dos androides que nos atacavam. Em pouco tempo, as criações daquele Criativo eram tantas que pareciam formar uma só, apenas um único e imenso organismo, um macro-organismo vivo e faminto, sendo suficiente para nos dar a vitória.
— Todos bem? — gritou Alfredo, montado sobre um enorme lobo negro, indo de um lado a outro.
Um a um — inclusive eu — confirmou estar bem, embora houvesse alguns levemente feridos.
— Precisamos partir o quanto antes para o Santuário! — exclamou alguém.
— Sim, concordo! — replicou Elric, a armadura com um brilho mais suave.
Agora havia uma algazarra por causa do tal Santuário. A maioria era a favor de irmos para lá, mas havia quem era contra.
— Não percebem? — interveio o lovecraftiano, a voz grave e firme. — Isto não é mais um jogo, mas uma guerra de verdade! Ninguém está mais seguro enquanto os Lordes não souberem do que está ocorrendo!
— É claro que eles sabem! — gritou alguém, talvez uma garota.
— Se sabem, por que nada fazem?
Ninguém soube responder.
— Há um mal aqui, neste mundo — continuou Amaury, defendendo seu ponto de vista. — Eu sugiro formarmos um grupo e irmos ao encontro dos Lordes e contar a eles o que está acontecendo, buscar uma solução imediata com eles.
— Mas, General, ninguém aqui sabe onde residem os Lordes — retrucou Alfredo, sereno.
— Há alguém que sabe!
Tão grande foi a minha surpresa quando ele apontou em minha direção, trazendo com esse gesto todos os olhares possíveis para mim.
— Eu?! — assombrei-me, incrédulo.
— Não você — disse o monstrinho, que surgira misteriosamente ao meu lado, como sempre fazia. — Eu.
Olhei-o ainda mais assombrado e incrédulo.
“Zarak?!”
Ele estava mais alto do que o normal, cabelos mais longos e aspecto digno de um guerreiro, corpo mais robusto, contudo conservando as características esguias e felinas da sua aparência por mim tão conhecida.
— Zarak, é você mesmo? — perguntei, esforçando-me para não gaguejar.
— Sim, sou — respondeu ele, com seriedade espantosa.
A sua voz estava mais serena e grave; soava como a de um jovem muito responsável — contradizendo o que eu já conhecia sobre ele.
— Ele esteve entre os Lordes três vezes! — exclamou o lovecraftiano, com grande autoridade. — E sabe o caminho!
Minha mente não sabia o que pensar. Era a segunda metamorfose de meu amigo imaginário. A primeira se dera em sua primeira visita, anos antes; não era mais uma criatura bizarra como eu havia imaginado no começo, todo surreal, mas um ser de um metro de altura e traços felinos, misturando travessura e sabedoria.
— Mas ele é um... um... — interveio Alfredo, hesitante.
— Um amigo imaginário?! — sugeriu Zarak, materializando-se ao lado do General. — Sim, e com orgulho.
Eu ainda era incapaz de esboçar qualquer ação ou reação lógica e racional. Tudo o que consegui fazer foi olhar aquela cena se desenrolar.
— E também sou o Pajem de Alec Silva, meu criador — prosseguiu ele, apontando o indicador para mim, fazendo meu coração bater muito rápido, a adrenalina ainda em meu sangue.
Desta vez ninguém se deu ao trabalho de me olhar. Talvez estivessem tão surpresos quanto eu.
— Por três vezes estive entre os Lordes por amor a ele. Uma vez os procurei para mudar de aparência. Outra vez estive para poder ir à Terra e ajudá-lo a acreditar em sua imaginação. E uma vez mais fui para suplicar que o incluíssem na Guerra dos Criativos.
Foram três revelações bombásticas, sobretudo a última.
— Então, você pode nos conduzir até lá? — indagou Elric, metódico.
— Posso, mas o caminho será árduo para vocês, que nunca foram até os Pilares, a morada dos Lordes.
— Eu irei assim mesmo — falou Amaury, decidido.
— Pode contar com a minha espada — disse o General de armadura de cristal, cravando a lâmina no chão.
— E com os meus lobos — concluiu Alfredo, quase no mesmo instante em que a alcateia uivava em harmonia.
Ninguém mais manifestou querer participar da expedição.
— Os demais deverão ir para o Santuário, onde o mal não poderá atacá-los! — ordenou o General que comandava os lobos. — Até que tudo esteja resolvido, não deverá haver mais duelos!
Nunca compreendi a poderosa influência que ele exercia sobre todos.
— E você, Alec? — perguntou Zarak, surgindo em minha frente. — O que vai fazer?
O que eu iria fazer?! Que pergunta era aquela? Eu não tinha certeza do que queria fazer! Em meu peito havia uma mistura dolorosa: alegria, por saber que ele havia ido aos Lordes — que eu nem sabia quem eram — para me ajudar a resgatar minha imaginação, e raiva, por saber que ele havia ido aos Lordes para suplicar minha participação na Guerra dos Criativos. Era uma avalanche de emoções opostas que tomavam conta de meu ser.
Meus olhos encheram-se de lágrimas.
— Vou para o Santuário — foi tudo o que consegui responder, um segundo antes de virar as costas, afastando-me.
Creio que meu amigo tenha ficado ressentido com a minha decisão.
Minutos depois, os dois grupos seguiam trilhas opostas. O menor grupo, formado pelos Generais e o guia, partia para terras perigosas, rumo aos Pilares. E o maior, o qual eu integrava, partia para terras tranquilas, para o Santuário.
Optei ir montado num dragão-libélula, pois assim eu poderia chorar a dor de uma amizade quebrada, de uma relação que se iniciara na infância e findava na juventude, numa época tão crítica e cheia de fatos decisivos. E, mais do que nunca, senti-me sozinho no mundo — um mundo que nem sequer conhecia.
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