A Guerra do Alvorecer
33 Abençoado ladrão
Dias de inverno de Dezembro de 2004. Mais um dia no Brooklyn onde a temperatura estava abaixo de zero. Noite passada ultrapassou -10 graus, o que tornava cada vez mais difícil a sobrevivência do grupo de garotos órfãos que fugiram deus seus lares adotivos temporário. No estado de Nova Iorque, adultos que se disponibilizassem a cuidar dessas crianças enquanto elas não achavam pais adotivos, ganhavam muitos benefícios, tais como isenção de pagamento de IPTU, IPVA ou multas de trânsito. Benefícios que para muitos valeria o incomodo de ter que dar teto e comida para crianças indesejadas. Ambos os cinco garotos que encontraram um no outro amizade e confiança, tinham algo em comum; todos foram abusados de alguma forma por seus pais temporários adotivos. Alguns apanhavam, outros eram explorados em serviços domésticos e outros tipos também, outros sofriam agressão psicológica e bullying e havia um que chegou a sofrer abuso sexual.
― RUN! RUN! (Corre! Corre!) ― Gritava os cinco ao sair de um mini mercado. Eles carregavam pães, bolachas, bolinhos e refrigerante em lata.
― POLICE! POLICE! (Polícia! Polícia!) ― Gritava um senhor bigodudo, careca e obeso. Os garotos já tinham sumido de vista quando o dono do mini mercado saiu na rua.
― Your time to watch. (Sua vez de vigiar) ― Falou um dos garotos para outro enquanto os outros quatro adentravam o beco apressadamente. Um parou na esquina e ficou olhando o movimento da rua, mas rapidamente o mesmo entrou na mesma portinha num beco sujo ao lado de uma fábrica.
Eles estavam sentados juntos no único colchão que havia naquele galpão abandonado. A única menina do grupo dividia a comida igualmente entre os cinco enquanto o sorriso de felicidade não saia dos rostos de nenhum deles.
À noite o frio castigava e eles tinham que vestir todas as roupas que tinham e dormirem agarrados, pois só tinham 2 cobertores e na maioria das janelas o que impediam o vento congelante de entrar era alguns sacos presos com fita.
O natal estava chegando e a cidade inteira já estava decorada. Então eles decidiram ir para o centro de Manhanttan para ver as árvores, papai noel e experimentar um pouco do que era o Natal. Todos estavam com fome quando chegaram na quinta avenida, mas a beleza da cidade os distraía disso.
O tempo foi passando e mesmo com a ajuda de algumas pessoas que os davam comida na ruas ou algumas moedas e mesmo furtando de algumas lojas eles não estavam conseguindo se safar com a mesma facilidade que nem antes. Um por um foi sendo pego e levado para o reformatório até que ficaram apenas os dois mais novos dos cinco. Eles já estavam nas ruas há mais de dois anos, ambos estavam prestes a completar 13 anos, logo eles não seriam mais mandados para outra casa de família temporária e sim para o reformatório como os outros.
Em uma de suas saídas para pedir dinheiro nas ruas de Manhanttan, um homem de estatura média, branco, cabeça raspada, cheio de tatuagens, anéis e correntes douradas e prateadas parou os dois garotos na rua e os ofereceu um jantar no McDonald's. Eles mal acreditaram, esse era um dos sonhos deles; comer pelo menos uma vez no famoso fast food. Enquanto eles comiam o homem demonstrava interesse maior na garota. O tempo todo perguntando sobre a vida dela até que ele perguntou se ela ainda era virgem.
― You don't need to be ashamed, my angel. (Você não precisa ficar envergonhada, meu anjo) ― Ele falava como um legítimo cavalheiro, o que contrastava com sua aparência. Rapidamente ele conseguiu saber tudo o que ele queria saber da garota.
Ele levou os dois para um passeio pelas ruas movimentadas da cidade, pagou mais alguns doces e brinquedos para ambos os dois. A essa altura eles já estavam completamente suscetíveis à lábia do homem.
― Don't you wanna come to live with me? I can give you a lot more! (Você não quer vir morar comigo? Eu posso te dar muito mais!) ― Perguntou o homem à garota.
―Hm... What about my friend? He can come with us? (Hm... E o meu amigo? Ele pode ir conosco?) ― Perguntou a garota.
― Oh my angel, I wish I could take him too, but I can't. (Oh meu anjo, eu queria poder levar ele também, mas eu não posso.) ― Respondeu ele com pesar na voz. A garota parecia confusa por um tempo.
― Without him I'm not coming. (Sem ele eu não vou) ― Falou a menina agora decidida.
― Yes, you are! (Sim, você vai!) ― Falou o homem segurando no braço da garota e puxando-a, mas rapidamente ele soltou depois de ser acertado no meio das pernas pelo garoto. Eles saíram correndo e sumiram da vista do homem antes que ele pudesse se levantar.
No caminho de volta para o Brooklyn, os garotos resolveram garantir o café da manhã e almoço do dia seguinte. Mas a sorte não estava ao lado deles nesse dia. Ao saírem correndo da pequena loja de esquina um carro de polícia chegou e os dois policiais correm atrás deles, mas dessa vez eles eram magros e corriam muito rápido. Eles viraram numa rua estreita e mais a frente um carro preto para e abaixa o vidro, era o homem de antes.
― GET IN! (ENTREM!) ―Gritou o homem para os dois. Eles pararam alguns metros do carro, a garota estava indecisa se entrava, mas o garoto a puxava para continuar correndo dos policiais quando eles apareceram na esquina. A garota não pensou mais, abriu a porta de trás do carro e entrou.
― COME ON! (VAMOS!) ― Chamou a garota, mas o menino estava decidido a não ir com aquele homem. Então ele acelerou o carro com a porta aberta e rapidamente sumiu de vista. O garoto permaneceu parado com um saco de pão na mão olhando para a direção de onde a sua companheira foi.
Segundos depois ele foi derrubado no chão pelos policiais e algemado. Eles gritavam e batiam no garoto que não demonstrou resistência em nenhum momento. Chegando na delegacia ele passou horas algemado uma mão à uma barra de ferro na parede até que o delegado veio falar com ele. Ele estava sendo acusado de roubo a mão armada e agressão à autoridade. Ele tentou discutir e dizer que era mentira, mas foi ameaçado. Pediram que ele constasse sobre o cara do carro que levou a garota e ele contou por estar preocupado com sua amiga. Depois de todo o interrogatório ele conseguiu ouvir o delegado falar que o homem que levou sua amiga era um aliciador de menores para prostituição procurando no país inteiro.
Nesse momento ele entrou em desespero e começou a pedir ajuda para algo que ele nem sequer sabia o que era exatamente. Depois de alguns minutos de desespero ele sentiu seu corpo arrepiar e sua visão expandir. Foi quando ele olhou para o chão e viu um clip de metal. Ele sabia exatamente o que fazer com aquilo mesmo sem nunca ter feito, tentado ou visto alguém fazer. Ele pegou aquele clip, os desdobrou e fez um formato que ele via na cabeça, enfiou na entrada da chave da algema, fez alguns movimentos até que ela se abriu. Sem ter que pensar duas vezes, sorrateiramente e se escondendo pelos cantos ele conseguiu sair da delegacia sem ser notado.
Ele já estava correndo há mais de meia hora e nem sequer estava ofegante ainda. Quando ele se deu conta de que ele não sabia para onde ele estava indo, ele parou numa rua residencial do subúrbio do Bronx. Já era madrugada e não tinha ninguém na rua. Como as ruas residenciais da cidade eram todas praticamente iguais, ele estava confuso, mas logo se lembrou ao olhar para aquela janela com alguns sapinhos no parapeito. Ali era a casa do homem que o abusou sexualmente antes de fugir.
O garoto se assustou quando um raio parou no jardim da casa para qual ele estava olhando. Lentamente esse raio foi se transformando num homem baixo, branco, magro, com uma bolsa prata de lado, uma túnica branca, sapatos com mini asas e na mão direita um cetro prateado com duas cobrar enroladas.
―What the hell? (Que porra é essa?) ―Falou o garoto espantado.
― Hell is not my especiallity! (Inferno não é a minha especialidade!) ― Respondeu o homem estranho com um tom divertido ― I'm Hermes, the god of the merchants, robbers, travelers and the messenger of the olympian gods. Son of Zeus, the king of olympio, and Maia, goddess of the summer. (Eu sou Hermes, o deus dos comerciantes, ladrões, viajantes e o mensageiro dos deuses do olimpo. Filho de Zeus, o rei do olimpo, e Maia, deusa do verão.) ― Explicou o deus.
― Wait... So, you're a god!? (Espera... Então, você é um deus!?) ― O garoto começou a gargalhar.
― Don't laugh at me, boy! How do you think you were able to open that handcuff and leave that police station without anyone noticing you!? I blessed you! Now you have new abilities and you must use them wisely! (Não ria de mim, garoto! Como você acha que você conseguiu abrir aquela algema e fugir daquela delegacia sem que ninguém te notasse!? Eu te abençoei! Agora você tem novas habilidade e você tem que usá-las sabiamente!) ― Esbravejou Hermes.
― I don't understand... (Eu não entendo) ― Ele foi interrompido pelo deus.
― I can't stay long. I brought you here so you can make justice. You'll know what to do. (Eu não posso ficar muito tempo. Eu o trouxe aqui para que você faça justiça. Você saberá o que fazer.) ― Então o deus desapareceu em outro raio deixando no chão uma pequena bolsa de lado. O garoto pegou a bolsa e viu que nela havia dinheiro, uma câmera fotográfica, alguns clips e grampos de cabelo.
De repente uma luz se acendeu na casa. Rapidamente ele se escondeu no meio dos arbustos do pequeno jardim. Espiou pela janela da sala e viu que a luz acesa era da cozinha. Sorrateiramente ele foi até a porta de entrada, e pegou um dos grampos que tinha em sua bolsa. Perfeito para quem sabe o que está fazendo. Em poucos segundos a porta estava destrancada.
Rapidamente ele entrou na casa e foi se arrastando pela parede até ver dentro da cozinha. Lá ele viu e reviveu o que havia acontecido com ele. O homem que abusou dele estava passando a mão pelo corpo de uma menina de no máximo 10 anos. Ele teve vontade de interromper, mas o que ele poderia fazer contra um homem daquele tamanho? Então ele tirou a câmera da mochila e tirou algumas fotos. A câmera era daquelas que imprimia a foto na hora. No momento que o homem percebeu outra presença o garoto saiu rapidamente da casa não dando tempo do homem ver quem era.
Ele passou pela mesma delegacia qual ele foi levado e deixou as fotos com o endereço no balcão de atendimento enquanto a policial que estava ali atendia um telefonema de cabeça baixa. De longe, atrás de um carro ele observou a policial pegar as fotos e levá-las para dentro. Em poucos minutos quatro policias saíram da delegacia apressados, entraram em duas viaturas e saíram. Uma hora depois eles voltaram. De uma viatura saiu o homem que o havia abusado algemado e na outra a garota que ele estava abusando.
Mike¹ nunca tinha se sentido tão bem. Por mais que ainda estivesse confuso com essa coisa de deus e benção, ele se sentia pronto para tentar achar uma família que realmente o quisesse adotar. Mas acima de tudo, ele se sentia protegido.
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