― ATRÁS, REZENDE! ― Gritou Agatha. Pulei dando um mortal para trás e finquei storm na cabeça do cão infernal que restou.

― Uffa... Valeu. ­― Agradeci a garota que se não fosse por ela, eu provavelmente estaria com grande furos no corpo agora. ― Parece que agora acabou. ­― Falei tentando enxergar em volta na escuridão.

― Espera... ­― Falou Lelo tentando se concentrar. O filho de Hades tinha uma sensibilidade maior para sentir a presença monstruosa.

Nós três estávamos em um galpão abandonado no extremo da asa sul em Brasília, no qual fomos atraídos para uma armadilha. A presença monstruosa nessa cidade estava muito acima da média do que em qualquer outra cidade do mundo. Então Dionísio se viu na obrigação de mandar quase a metade de seus guerreiros para cuidar da cidade de perto. Nicholas, Agatha e Christopher estavam encarregados pelo comando de todos os semideuses e de todas as missões na cidade.

― Não acabou não... Mas eu não entendo. Eles parecem estar em todos os lugares! ― O filho de Hades já estava demonstrando ansiedade, pois já tínhamos revistado aquele galpão antes daquele cão infernal aparecer.

― Vamos embora. Já escureceu e só você aqui enxerga no escuro. ­― Falei para Lelo. ― Amanhã nós podemos voltar com a aparelhagem para o escuro e passar a noite se for preciso.

Deixamos o galpão, mas Lelo parecia continuar a sentir presença monstruosa.

― Ainda está sentindo? ― Perguntei.

― Em todo canto! ― Respondeu o garoto. ― E está cada vez mais forte, mas não sei exatamente de onde vem.

― Lelo, tenta se distrair. Chegando no alojamento nós vamos reportar isso à todos e tomar alguma posição.

Ao chegar no alojamento, só mais 2 semideuses e Nicholas restaram naquela noite. Estamos aqui há mais de um mês e meu meio irmão estava fazendo um ótimo trabalho do jeito atrapalhado dele. Tenho que admitir que conhecer esse lado comprometido dele despertou uma ponta de simpatia pelo garoto.

― Foi uma armadilha, Nicholas. ― Falou Agatha se sentando em uma das três cadeiras do comandates.

― Como assim uma armadilha? ­― Se espantou o garoto.

― Eles já estavam esperando por nós em grande quantidade. As pessoas que eles atacaram foram só para chamar atenção. ― Informou a filha de Atena.

A porta do escritório onde também ficava a enfermaria se abriu abruptamente e por ela entrou Christopher com um filha de Ares novata nos braços. Essa era a primeira missão em campo da garota de 17 anos.

― ALGUM CURANDEIRO, POR FAVOR! ― Gritava o filho de Hefesto ao entrar na sala. Rapidamente ele a colocou na maca mas não sabia o que fazer a não ser gritar por ajuda.

A garota estava de cima a baixo dilacerada pelo o que me parecia arranhões.

― NICHOLHAS, CADÊ O CURANDEIRO? ― Gritava o garoto para o encarregado do alojamento.

Nicholas estava completamente paralisado olhando para a garota. Agatha percebeu que o garoto havia entrado em choque e o estapeou com força na cara. Ele voltou o rosto olhando para Christopher.

― O curandeiro está em missão. ― A voz dele mal saiu.

Todos ali naquela sala mal acreditavam no que tinham ouvido.

― Nicholas, olha pra mim! ― Ordenei com a voz saindo entre os dentes. O garoto obedeceu.

― Como assim o curandeiro está em missão? O curandeiro deveria estar na enfermaria! ― Por fora eu parecia calmo, mas por dentro eu estava explodindo.

― Não tinha outro veterano no alojamento. Recebemos um chamado de um ataque em massa em um show em uma das cidade satélites. Eu não tive outra escolha! ― Explicou ele com pesar na voz ainda olhando para o corpo dilacerado da garota.

Christopher num movimento muito veloz avançou em cima do nosso capitão. Ninguém teve tempo para parar o soco que o filho de Hefesto mirava no rosto de Nicholas. E em uma fração de segundo a cena que vimos foi o punho do garoto perfurar a parede de alvenaria nas costas de Nicholas e ao lado de sua cabeça.

Nicholas não expressou nada, ele apenas olhava nos olhos de Christopher mas parecia completamente perdido. O filho de Hefesto teve trabalho para tirar seu punho da parede, mas quando o fez saiu rapidamente da sala. Nicholas escorregou pela parede até chegar no chão.

Fui em direção à garota e pousei dois dedos em seu pescoço. Pulso inexistente. Peguei um pano branco e joguei sobre o corpo da garota.

O silêncio dentro do escritório foi interrompido por um grito feminino do lado de fora. Todos saímos correndo da sala com as armas nas mãos. Quando chegamos ao campo treinamento do alojamento, a cena que nos esperava era inacreditável. Cinco corpos no chão ao redor de Ariana, veterena filha de Hades. A garota chorava desconsoladamente em cima do corpo da melhor amiga, Adriana veterana também filha de Deméter.

― O que aconteceu? ― Perguntei para a garota que também estava muito ferida.

― Nós fomos cercados, Rezende. Não tivemos tempo de reação. A única coisa que puder fazer foi voar nas sombras para tirá-los de cima deles e sairmos de lá. ― Ela mal conseguia falar pois estava em crise. ― Não sei nem como consegui viajar nas sombras com todos eles até aqui.

Minha cabeça deu branco total, eu não sabia o que fazer com aqueles cinco corpos ali no chão.

― Rezende. ― Gritou Agatha ― Ajuda aqui. ― Cada um pegou o corpo de um semideus e levou para dentro.

A partir daquele momento, a noite se arrastou até as 4 da manhã. Hora que todos os semideuses voltaram ao alojamento, vivos ou mortos. Ao total foram 17 mortos e 10 gravemente feridos. Agora estávamos em apenas 25 guerreiros.

Nicholas mal ajudou a reorganizar o alojamento pois ainda estava em choque. Aquela tinha sido a primeira missão sendo capitão em que ele perdia alguns de seus companheiros. Eu podia compreendê-lo. Então eu o substitui ao lado de Agatha e Christopher. A decisão que tomamos foi que nós três retornaríamos ao acampamento meio sangue para buscar reforços e tentar arrumar alguma maneira de contornarmos a situação.

Eu, Nicholas, Christopher, Agatha e Lelo protegemos a entrada do alojamento. Ali éramos os mais velhos e mais experientes em batalha, nosso dever era proteger os mais novos.

As 7 da manhã todos já estavam de pé novamente para que então pudéssemos voltar ao acampamento. Nicholas e Lelo ficaram no comando. E o que ficou combinado seria que ninguém sairia do alojamento para nada e em caso de ataque em massa, a ordem era deixar tudo para trás e fugir pela tubulação desativada da cidade.

Com pouquíssima energia no corpo, eu, Agatha e Christopher entramos no carro do acampamento e partimos em direção ao planalto central. Lá era a área onde conseguiríamos fazer a transição.

O caminho até nosso destino não foi nada tranquilo; diversos cães infernais tentaram nos alcançar, mas com a vias livres e a velocidade daquele carro, eles não conseguiram nos acompanhar.

Chegando no planalto, deixamos o carro na área de estacionamento público mais próxima que achamos, que ficava a 30 minutos do destino. Brasília é uma cidade monumental projetada para carros. Qualquer caminhada se torna uma maratona nessa aqui. Achar o ponto exato de transição não era nada fácil, pois como o campo é gigante, ele se movia a todo instante. Levamos mais de 20 minutos para achá-lo, mas logo depois já estávamos na base da colina na entrada do acampamento.