A Guerra Negra
2 O acordar
Ágata acorda numa cama, ao abrir os olhos inicialmente não se lembra de nada, mas no instante seguinte percebe que não reconhece o local a onde está e se levanta bruscamente procurando com os olhos alguém no quarto, quando percebe que está sozinha corre para a porta abrindo-a lentamente fazendo o típico ranger de madeira, com apenas uma fresta aberta ela enxerga um corredor vazio e empoeirado assim como o quarto, fecha a porta e procura por algo que a faça lembrar-se de alguma coisa, percebe também que não há janelas, mas chega a conclusão de que não pode estar presa, se não a porta estaria fechada ou ela estaria amarrada e amordaçada, alem do mais o local está sujo, parece que ninguém vai ali a anos. Alguns segundos analisando o quarto começa a ter flashes dos últimos momentos antes de apagar, consegue enxergar a poderosa magia acertando-a e a seus aliados, lembra-se da guerra, e então se lembra de seu Mike, começa a chorar brevemente sentindo a dor de perder a pessoa amada, se lembra do rosto do maldito soldado que acabará com a sua felicidade, e se lembra também de ter o feito pagar com a vida, enxuga sua lagrimas e se lembra vagamente de estar sendo levada por um desconhecido para longe da batalha e que durante esse percurso havia visto cinco criaturas perversas revestidas com aura negra e grande ferocidade. Enquanto tentava se lembrar das características físicas e formas dessas criaturas, ouve um barulho vindo de dentro da casa, por ser de madeira qualquer caminhar é perceptível pelo barulho de madeira velha, o barulho vem do andar de cima ela acompanha com os olhos por um segundo, assustada Ágata põe-se diante da porta, se concentra fechando os olhos e com os braços esticados faz um meio circulo levando o braço da direita para a esquerda pelo alto e o da esquerda para direita por baixo, depois faz o movimento contrario completando o circulo, no fim juntado as mãos próximas ao peito, abre os olhos expressando foco e concentração, mas percebe que nada aconteceu, tenta novamente que para sua frustração nada acontece, pragueja e começa a pensar, escuta novamente os passos descendo as escadas para o nível abaixo, o medo começa a bater na sua espinha então ela estica o braço direito para seu lado e começa a gira-lo com a mão fechada e o que antes era só um movimento no pulso passa para a dobra do cotovelo aumentando a velocidade e a circunferência do movimento, quando o movimento chega ao ombro ela dá um giro maior no braço e faz como se estivesse lançando algo em direção da porta, mas nada acontece novamente, agora os passos estão no corredor chegando a porta, ela afasta um pouco as mãos e rapidamente as aproxima como se fosse bater palma, mas aproxima somente o suficiente para que as pontas dos dedos se encostem, entre as palmas das a mãos uma bola de água se forma, ela deixa escapar um sorriso e logo volta a concentração, afasta as mãos devagar aumentando a bola e logo em seguida dividindo-a em duas, uma em cada mão, assume uma posição de arremesso, com a mão esquerda na frente do corpo baixa e a outra atrás no alto e aguarda o momento certo. Os passos chegam à porta, como não tem trinco ele apenas a empurra, Ágata, sem hesitar lança a bola da direita, com o impulso gira e lança a segunda logo em seguida, desprevenido o homem é acertado no meio do peito arremessando-o para o fim do corredor acertando com força a parece no final, em seguida a segunda bola o alcança e afunda-o na parede de madeira sem atravessar, aparentemente desacordado. A magia foi executada com sucesso, mas estava intrigada do motivo pelo qual não tinha conseguido executar as anteriores, magias embora poderosas ela já tinha o domínio, não tinha mas problema em conjura-las, ao ver que o homem está atordoado, segue em frente no corredor para alcança-lo, assim que sai pela porta, encontra alguns livros caídos no chão, livros que o homem havia trazido, reconhece alguns símbolos nas capas, se abaixa e pega um que reconhece, é um livro de magia, mais precisamente dos magos da água, jamais esqueceria este símbolo, jurou fidelidade a ele, mas o que aquele homem fazia trazendo este livro pra cá? Certamente era um mago, se não por que traria os livros consigo? Mas se é um mago, por que não se defendeu ou ao menos evadiu ao ataque? Talvez não soubesse que teria alguém aqui... Ou talvez soubesse, mas que não representasse perigo... Como eu não representaria perigo? Uma dos seis magos mais poderosos de todos os tempos, maga da ordem da água com poderes quase ilimitados, adormecida, sem saber aonde me encontro e com últimos momentos muito intensos, Como não representaria perigo? A não ser que fosse aliado... O homem, aquele homem que me tirou da batalha pode ser ele, meu deus o que eu fiz? Ela então corre pelo corredor e ao chegar próximo ao corpo para mais uma vez e pensa e se não for aliado? Volta para o quarto, pega o lençol e retirando o homem da parede o amarra com as mãos nas costas, depois o arrasta para o quarto.
Com o prisioneiro amarrado numa cadeira e amordaçado ela começa a olhar os muitos livros que há no quarto. Percebe que todos os livros são de magos de todos os paradigmas, claro que se interessa mais pelos livros da sua ordem, ao lê-los identifica as magias e sabe que já havia lido estes mesmos livros há anos atrás, mesmo assim não para de ler unicamente por já ter o feito, afinal sempre é bom ter mais conhecimento assim como melhorar o conhecimento já obtido. Quanto mais ela lê, mais fica frustrada por não ter conseguido executar as magias antecedentes as bolas de água, magias como bolas de água são de aprendizes, iniciantes não para mestres supremos e anciões de paradigmas, isso chega a ser motivo de vergonha para ela.
Merlin começa a recobrar a consciência, ao abrir os olhos com a visão embaçada enxerga a silhueta de uma pessoa a sua frente, em seguida percebe que está amarrado, mas não se apavora, mantém a calma e levanta a cabeça lentamente ate que sua visão tenha foco, a mulher a sua frente está pronta para outro ataque como o ultimo e isso é o que ele menos quer, infelizmente amordaçado não pode fazer nada então a encara.
- Vou lhe falar e espero que responda de forma curta, direta e verdadeira ou eu farei com que esse seja o ultimo local que verá, compreendeu?
O homem apenas balança a cabeça afirmativamente.
- Você sabe quem eu sou? Sabe o que posso fazer?
Novamente o homem afirma com a cabeça.
- Então vou permitir que fale, mas a qualquer movimento diferente, brusco ou que tente alertar alguém eu o mato sem hesitar.
Ágata deixa sua posição de ataque relaxando os braços e com isso as bolas de água em sua mão vão desaparecendo conforme ela as abaixa depois remove a mordaça da boca de Merlin.
-Agora me diga, quem é você?
-Merlin. – Curto e direto como lhe havia sido pedido.
-A onde estou?
-Numa casa abandonada no meio do que sobrou da floresta de GreenWood.
- Como assim do que sobrou? Essa mata é gigante, os homens ainda não conseguiram calcular sua área. – Sem acreditar no que o tal Merlin falava.
-Sim, mas não foram homens que a destruíram, foi a senhora da escuridão que o fez.
-Então... Nós realmente falhamos... — Sussurra. – Por que está aqui?
- Eu a mantive viva por todos esses anos para...
- Anos??? – Interrompendo o homem, quase gritando. – Como assim anos? Quantos?
-Ágata, você esteve adormecida por 10 anos, durante esse tempo a escuridão vem consumindo tudo na terra, qualquer que seja a energia a escuridão toma para si aumentado sua força.
- E os outros anciões?
- Não os encontrei durante todos esses anos, procurei em todos os lugares, claro, de forma sorrateira, sem ser percebido pelas forças das trevas e por isso minha busca acaba por ser pouco eficaz, eu diferente de você não sou um mago supremo, na verdade, nem fui ensinado por algum mago, depois que as trevas vieram para cá os magos foram mortos, guerreando contra as trevas o Maximo que puderam, mas sem sucesso, os restantes então se esconderam e a maioria foi caçada em seus aposentos, sem chance de defesa, exterminados, se os anciões ainda estiverem vivos, estão escondidos em alguma caverna ou cabana no meio da mata ao redor do mundo temendo pelas suas vidas, amedrontados pelas trevas – Fala com raiva e ate mesmo nojo dos magos.
- Não! Não meus irmãos, todos eles são corajosos e se houver uma chance por mais que mínima vou encontra-los.
- Eles estão mortos ou você terá de se acostumas com o fato de serem covardes.
Ela o olha com raiva, mas no fundo sabe que está certo. Porem, seus irmãos da arte da magia não podem estar mortos, se estivessem, não haveria esperança ela precisa continuar a acreditar que estão por ai em algum lugar.
- Por que não tenho todos os meus poderes?
- Quando a escuridão chegou na terra, o impacto foi direto nos anciões, sugando assim quase toda as suas energias, alem disso, você ficou adormecida por anos, sem praticar nenhuma magia e assim o resto de suas forças foram deixando seu corpo gradativamente, por mais que eu tenta-se não conseguia fazer com que uma magia de transferência de energia funcionasse com eficácia, então por mais que eu tentasse passar minha energia adquirida para você por mais que fosse pouca não conseguia grandes resultados e assim somente transferia pouquíssimas quantidades diárias não o suficiente para aumentar suas forças mas suficiente para dar mais tempo a você.
- Não me admira, você não teve um mestre...
- Sim, não tive. Tudo que aprendi foi depois da grande guerra, quando os magos caíram, decidi que tinha que fazer algo nem que seja aprender magia por conta própria para defender a terra da escuridão... Mas o Maximo que consegui foi te passar um pouco de energia para que um dia você viesse a acordar e salvar a terra.
- Uma tentativa tola, levaria anos para aprender magia e se aperfeiçoar bem o suficiente para entrar numa guerra, isso com um mestre, sem um levaria uma vida inteira, SE conseguisse. Uma decisão fútil... Nobre... Mas fútil. – Com ar de superioridade.
- Eu não sabia na época, quando percebi, comecei a me empenhar em aumentar suas energias, mas também não obtive grande sucesso. – Responde desapontado.
-Não fique assim, cometer erros é normal, mas temos que aprender com eles. Como saberei se o que diz é verdade?
- Se não acredita, fique a vontade para sair dessa casa e nunca mais voltar. Entenderei se fizer isso, mas se ainda quer salvar este mundo, peço que saia por aquela porta e siga para o sul alguns quilômetros, você chegara a uma cidadezinha tomada pela escuridão, vá com cautela, a escuridão a tudo vê e ouve, não quero que todo o trabalho de anos acabe aqui.
- Muito bem... – Ela o amordaça novamente e cobre seu rosto.
Ágata abre a porta e ao sair olha suas vestes, está com uma espécie de manta cinza que cobre todo seu corpo como um macacão, muito velho, então volta pro quarto.
- Quem me trocou ou deu banho esses anos?
Ele não responde, mas só tem uma resposta para aquela pergunta.
- Ora seu... – E dá um tapa no rosto de Merlin que só deixa escapar um gemido de dor.
Ela começa revirar a cama, procurar debaixo dela nos cantos para encontrar algo mais confortável para sair, caso precise correr ou sei lá.
Ao perceber o barulho no quarto, Merlin começa a tentar falar algo, mas com a mordaça nada sai direito, então Ágata retira o capuz e a mordaça.
- Diga homem, fale de uma vez. – Já irritada.
- Trouxe roupas pra você quando acordasse, são velhas, mas devem servir.
-A onde estão?
- Embaixo da mesa, dentro de um balde.
Ela as procura, e encontra uma calça de couro, uma camisa branca, um corpete de couro e uma sandália.
- Você quer que eu me vista assim? Parecendo uma vadia?
-Foi só o que pude encontrar... Desculpe.
- Tudo bem. – E começa a levantar a manta.
Merlin olha atentamente, não que não tivesse visto o corpo dela antes, mas nunca sem ter que se preocupar mais com ter que levanta-la do que apreciar o corpo nu, alem de ser digno suficiente para não se aproveitar de uma pessoa em tais condições, sem contar que se ela descobrisse nem imaginaria o que aconteceria com ele por se tratar de uma maga tão poderosa.
Ágata percebe que está sendo observada no ultimo instante então solta a manta, da um sorrisinho sem graça e cobre a cabeça de Merlin. Se troca com dificuldade com o corpete, mas consegue. Antes de sair lembra-se de amordaçar o prisioneiro e retira o capuz.
- Nossa mais ficou linda com essa...
Ela o amordaça entes que terminasse, deixando simplesmente barulhos sem sentido sair de sua boca e novamente o cobre.
- Volto em algumas horas. — E sai fechando a porta.
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