A Guerra Do Amor
18 Um cinto por uma aposta
Notas iniciais
Capítulo 18 – Um cinto por uma aposta
Eu não podia acreditar. Dimitri estava na minha frente, e devo dizer que se olhar matasse seu pai já estaria a sete palmos do chão.
Seus olhos formavam uma fenda e apontavam o tempo todo para Victor. Eu também percebi que sua mandíbula estava tensa, o que só acontecia quando ele estava preocupado ou no caso, com muita raiva.
– O que pensa que está fazendo? – Dimitri rosnou furioso para o seu pai, que no mesmo instante enxotou a loira para fora da tenda. Eu permaneci encolhida no meu canto.
– Nenhum abraço no seu velho pai? – Victor não tinha mesmo noção do perigo, eu ponderei.
– O que pensa que está fazendo? – Dimitri repetiu, dessa vez mais alto e ameaçador. Sua voz estava completamente diferente da doce e suave que eu estava acostumada.
– Sobre o quê estamos nos referindo exatamente? – Victor perguntou derramando um pouco mais de bebida transparente em sua taça de prata.
– Sobre o quê? – Dimitri soltou uma risada forçada. – Talvez eu esteja me referindo a essa guerra impensável, ou talvez o fato de você mandar mil homens para a morte essa manhã, ou ainda quem sabe o fato de você raptar a filha do rei Mazur. São motivos suficientes para você? – Dimitri ainda não tinha olhado na minha direção, mas eu sabia que ele já tinha me percebido ali.
– Ah! É sobre isso que estamos falando, eu jurava que você estivesse todo nervosinho assim por conta da presença da Irina. – Victor bebia a sua taça como se nada estivesse acontecendo e parecia totalmente despreocupado com a presença do filho zangado nem a três metros dele. – E, por favor, meu filho, comporte-se, pois temos uma bela convidada presente. – ele apontou na minha direção. Pela primeira vez desde que esteve ali meu russo olhou na minha direção, seus olhos se suavizaram instantaneamente quando encontraram com os meus, refletindo alívio e amor.
– Você me agradecerá quando conhecê-la melhor. Sir Vanig disse que ela tem qualidades...inesperadas para uma princesa, uma mulher atraente e muito bem dotada. E eu concordo plenamente com ele. – Victor escolheu o pior momento para proferir tais palavras.
Eu não pensei que veria Dimitri perder o controle da forma que ele fez, como um raio ele atravessou a distância entre ele e Victor, pegando-o pela gola da túnica e o erguendo até que estivessem se olhando olho no olho. Eu vi medo faiscaram nos olhos do rei pela primeira vez.
– Não estou com paciência para sua atitude sínica. Faça isso tudo parar agora mesmo. – ele sacudia Victor como um boneco de pano. – Acabe com isso agora mesmo. – ele gritou.
Guardas do rei entraram naquele momento, tornando a tenda totalmente apertada. Foram precisos quatro deles para conseguir afastar Dimitri do pai e contê-lo. Ele se debatia tentando chegar até Victor, que tinha se escondido atrás dos seus homens. Onde estava toda a coragem dele agora, eu pensei.
Eu tentei me aproximar para tentar acalmá-lo, mas quando seus olhos se encontraram com os meus novamente eu vi um pedido silencioso. Apenas ele conseguia se comunicar dessa forma comigo. Ninguém podia saber que nos conhecíamos, especialmente Victor, que poderia usar isso contra Dimitri. Definitivamente uma má ideia.
Foi difícil controlar o impulso quando os guardas o prenderam com uma algema de metal.
– Eu não queria que algo assim acontecesse Dimitri, você seria muito útil nos meus planos futuros. Quem sabe algumas noites na prisão o faça enxergar seu devido lugar. – Dimitri rosnou com os olhos negros de raiva. – Levem-no para uma das celas. E o deixem sem água ou comida até segunda ordem.
Os guardas arrastaram Dimitri para fora. Eu queria tanto dizer alguma coisa imprudente ou acertar alguns socos no rei Victor, mas os olhos do meu russo me convenciam do contrario o tempo todo.
Eu tomei respirações calmantes e relaxei meus músculos. Meus punhos estavam fechados ao lado do meu corpo inconscientemente, e minha unha tinha machucado minha palma da mão no momento de raiva.
Eu queria matar Victor, mas também queria matar Dimitri por ter sido tão impulsivo e irresponsável.
Victor saiu às pressas da tenda acompanhado de alguns guardas logo depois. Eu precisava fazer alguma coisa.
Abrindo os panos da tenda e pisando na neve do lado de fora, aconteceu o que eu esperava, lanças foram apontadas na minha cabeça.
– Princesa, se tentar sair nós iremos amarrar...
– Sim, eu sei muito bem disso. Eu quero ver alguém.
– Vossa majestade mandou que mantivéssemos a senhorita aqui. – o guarda tinha olhos culpados.
– O rei não disse nada sobre eu receber visitas não é? – cruzei os braços o encarando. Isso tinha que funcionar.
Os guardas se olharam confusos e murmuraram algumas frases em russo.
– O rei disse que eu deveria receber um tratamento de realeza, e eu quero ver alguém agora. Estou entediada, se é que me entendem. – arregalando os olhos em entendimento os homens pareciam desconfortáveis.
– Acho que não a problema nisso. – outro guarda respondeu. Guardas estúpidos.
– Eu pensava assim. – Depois que eu dei as ordens sobre quem eu queria ver, dois deles partiram em busca do meu convidado.
Enquanto eu esperava uma mulher apareceu dizendo ser umas das serviçais do rei. Ela me guiou para uma segunda antessala onde havia um segundo quarto.
– O rei mandou a senhorita descansar nesses aposentos. – a mulher morena falou de cabeça baixa.
Uma sala aconchegante, com uma cama pequena, banheira de madeira e aquecedor. Para uma refém eu estava sendo muito bem tratada.
Depois que a mulher me deixou sozinha prometendo voltar na manhã seguinte eu me vi totalmente impaciente.
Eu precisava fazer algo para ajudar Dimitri. Como Victor foi capaz de mandar o próprio filho para a prisão? Era muita crueldade, mas então eu não deveria esperar menos vindo dele.
– Princesa, o seu convidado está aqui. – um guarda me informou aparecendo na porta do meu quarto provisório.
– Peça que ele entre e nos deem um pouco de privacidade. – o soldado ficou vermelho antes de se retirar. Ele parecia jovem e inocente. Dimitri ia me pagar mais tarde por todo esse constrangimento, eu pensei divertida.
– Princesa, foi uma surpresa ter guardas atrás de mim em seu nome.
– Eu preciso de um favor, a sua dívida ainda está de pé?- perguntei relutante.
–Será uma honra ajudá-la. – ele se curvou em respeito.
POV Dimitri
Eu tinha perdido completamente o controle, mas essa não era a primeira vez que Victor me despertava essa reação.
Depois que nossa missão de encontrar Rose antes que ela chegasse ao acampamento falhou, uma fúria me subiu a cabeça e eu só queria que Victor pagasse por tudo.
A ideia inicial seria que eu deveria encontrar Rose e fingir que lutaria ao lado do meu pai, assim eu conseguiria me aproximar e levá-la para as proximidades do acampamento onde Eddie, Yuri e Celeste a estariam esperando. Depois eu me encontraria com eles e levaria Rose para casa em segurança.
O plano foi por água a baixo quando um dos soldados real, que também era um amigo, me contou sobre a façanha do meu pai de mandar mil homens para a morte em pró da sua ambição. Isso tinha ido longe demais, e eu precisa fazer algo para pará-lo.
E quando ele se referiu a Rose de forma desrespeitosa eu me perdi completamente. Uma pena que eu não tive a chance de acertar minhas contas atrasadas com ele, seus guardas sempre foram muito fiéis ao seu rei e me impediram de terminar o que eu havia começado.
Antes que me levassem para as celas, eu mandei uma mensagem silenciosa para Rose. Minha Roza era esperta e pegou rápido, ninguém aqui podia saber sobre nós. Eu também aproveitei para dar uma boa olhada nela, eu precisava saber se ela havia sido ferida. Eu respirei mais aliviado quando vi que ela parecia bem, pelo menos fisicamente.
Agora eu estava em uma cela de metal. A prisão estava localizada no lado sul do acampamento, e permanecia no tempo. A neve invadia as grades deixando o ambiente completamente gelado, a única coisa que me matinha aquecido eram as tochas usadas para iluminação. Vários guardas faziam sentinela, mesmo eu sendo o único preso ali. Eles sabiam do que eu era capaz, e eu também faria tudo ao meu alcance para reverter a situação e ajudar a Rose.
Os homens do seu pai nunca conseguiriam pegá-la de volta uma vez que ela estava completamente cercada por inimigos. A menos que um acordo fosse feito, e conhecendo Victor eu sabia que ele não seria modesto com seu pedido.
Sem opções para o momento eu encostei minha cabeça e me deixei levar pelos sonhos, rezando para que certa morena aparecesse neles, só assim para melhorar o meu dia.
...
Eu acordei com alguém batendo na grade de metal. Eu tinha certeza que não muito tempo depois que eu tinha finalmente conseguido dormir.
– Príncipe Belikov? – ouvi alguém me chamando e fiquei alerta.
Eu reconheci o homem no mesmo instante. Lorde Badica era um dos senhores nobres de maior confiança do meu pai, e fazia parte do conselho de guerra. Isso não poderia ser uma coisa boa.
– A que devo a honra? – disse me levantando e me aproximando das grades, isso fez o homem se afastar dois passos. A luz ali era mais intensa e eu observei que ele tinha muitos curativos e hematomas pelo corpo. Ele deveria estar na posição de comandante geral na batalha de Alsydeon, o que significa que ele concordou com o plano desumano do seu rei.
– Eu venho em nome da princesa Rose. – eu estaquei por um momento. O que Rose estava fazendo? Eu tinha certeza que ela entendeu que ninguém deveria saber que nos conhecíamos.
– Eu não acredito em você. – o olhei desconfiado.
– A princesa disse que você diria algo parecido. – ele sorria. – por isso ela me mandou trazer isso, disse que você sabia o que significava. — ele me deu o cinto de couro que eu havia dado a ela alguns dias a trás. Voltei meus pensamentos para aquele dia, eu havia apostado com ela, quem acertasse a flecha na maça primeiro ganharia. Ela pediu um cinto para colocar sua espada Excalibur e eu pedi um beijo. Mesmo que ela tenha ganhado eu ainda recebi meu prêmio, sorri com a lembrança dos seus lábios ansiosos na minha pele.
– Por que você faria isso por ela? – se eles tivessem feito algo com a Rose eu juro que eu derramaria sangue essa noite.
– É uma longa história, mas digamos que ela salvou a minha vida quando todos me viraram as costas. Eu devo isso a ela. – eu ainda estava desconfiado, mas resolvi dar uma chance para o lorde.
– Ela precisa de alguma coisa? Foi por isso que ela mandou você? Eu sou um idiota por ter agido sem pensar. – eu não pensei nas consequências que minhas atitudes teriam e agora Rose estava dependente da boa vontade do meu pai.
– Ela esta bem. Na verdade eu estou aqui porque ela está preocupada com você. – Oh Roza! Eu me senti tão culpado nesse momento. Ela sempre pensava nos outros antes dela, esse era um dos motivos para eu amá-la tanto. – Eu sei o que você está pensado. Ela é uma prisioneira ajudando outro, afinal de contas. – o lorde ria. Todos que conheciam Rose se admiravam por ela.
– Diga a ela que eu ficarei bem, meu pai precisa de mim vivo.
– Eu vou dizer, mas ela também disse que você diria algo assim. – ele sorria para mim. – então ela mandou trazer isso.
Através da grade o lorde me passou uma garrafa de couro com água e pães enrolados em uma toalha de algodão.
– Obrigada. – sorri agradecido. Eu estava realmente com fome e sede.
– Agradeça a princesa quando vocês se encontrarem novamente.
– O senhor não terá problemas por burlar a segurança? – perguntei enquanto comia um pedaço do pão.
– Não quando algumas moedas de ouro estão envolvidas. – ele havia subornado os guardas de plantão. Isso me fez questionar o que Rose havia feito por ele.
– Como Rose salvou a sua vida? – o homem se sentou na minha frente, não me considerando mais uma ameaça, mas eu percebi uma careta de dor vinda dele no processo. Eu também me sentei, aproveitando minha humilde refeição.
– Eu quase não escapei com vida dos campos de Alsydeon. Eu sabia da nossa desvantagem e digo que é a coisa que eu mais me arrependo de ter feito, mas eram ordens do rei e não havia o que questionar.
– Foi a coisa mais desumana que eu já presenciei. – eu disse meus pensamentos sem querer. O lorde suspirou em derrota e uma lágrima caiu pela sua bochecha machucada.
– Eu sei, e eu paguei com a vida do meu filho mais novo.
– Sinto muito por sua perda. – ele acenou limpando a lágrima.
– Quando eu voltei para o acampamento Victor exigiu minha presença, ele queria ser atualizado sobre os planos do inimigo. Não havia muito a ser dito e isso o enfureceu. Ele me deixaria morrer na sua frente se Rose não tivesse me levado para as salas de cura. – eu escutava sua historia pacientemente, orgulhoso das atitudes da minha Roza.
– A sala de cura estava um caos, havia muitos homens precisando de cuidados e poucos curandeiros. Eu teria morrido se a própria princesa não tivesse cuidado de mim.
– Rose ajudou com seus ferimentos? – eu me surpreendia com ela cada vez mais.
– Não só com os meus, ela ficou e salvou a vida de muitos homens essa noite. E segundo o curandeiro Gregori ela tem mãos habilidosas e recebeu um convite para voltar para as salas de cura mais vezes.
– Ela é a mulher mais incrível que eu já conheci. – e a única que eu não poderia ter, meu subconsciente me avisou.
– Sim, ela realmente é. O noivo dela é um homem de sorte. – o lorde refletiu. Sim, Adrian é um maldito bastardo sortudo. – Mas sabe quem é ainda mais sortudo? – ele perguntou me olhando nos olhos.
– Quem?
– Você. – eu franzi a testa e ele continuou. – Você tem a coisa mais importante que ela poderia dar a alguém, seu coração.
Uma onda de felicidade me invadiu e um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. Eu era o maldito bastardo mais sortudo.
– Ela disse a você? – eu perguntei, tentando acalmar meu coração disparado.
– Ela não precisou, eu vi nos seus olhos. Eu quero ajudá-los Belikov, mas eu não posso libertar a princesa sem um plano, isso será a minha morte.
– Eu vou dar um jeito nisso tudo. – prometi a mim mesmo.
– É melhor você se apressar, eu não acho que o rei tenha os melhores planos para o futuro da princesa. Eu posso dar subsídios para ajudá-lo, eu sinto muito, mas é o máximo que eu posso fazer. – eu acenei agradecido. Eu achei que um inimigo se aproximava e agora eu tinha um aliado.
– Tem mais alguém de confiança que pode nos ajudar? – perguntei.
– Eu vou falar com a princesa. Mas temos que ser discretos para que o rei não desconfie. Ela está sendo mantida debaixo das asas dele o tempo todo.
– Ele a está tratando bem? – uma fúria repentina tomou conta de mim.
– Sim, o rei a está tratando como sua convidada de honra. – isso me fez acalmar, um pouco.
– Lorde Badica, quando Rose estiver livre e em segurança eu quero derrubar o meu pai. Essa guerra está indo longe demais.
– Você tem o meu apoio jovem rei. – jovem rei. Era a primeira vez que alguém se dirigia a mim assim. Agora mais do que nunca eu desejava essa coroa, eu poderia mudar tudo o que estava acontecendo e acima de tudo, Rose e eu poderíamos finalmente ter um futuro juntos.
– Mas para isso temos que descobrir o que realmente aconteceu com meu tio Robert. Eu não acho que a sede de vingança do meu pai acabará junto com a guerra.
– Seu pai está cego na certeza de que os reis do oeste querem tomar a coroa dele. Foi assim que ele nos convenceu a apoiá-lo, mas agora eu não tenho tanta certeza.
– A morte da família Dragomir será outra pedra no nosso caminho. Os reis do oeste sabem o que aconteceu e foi isso que provocou a ira deles.
– Temos muito que fazer jovem rei. – o lorde coçou a testa em sinal de preocupação.
– Nós temos, mas primeiro vamos deixar a princesa em segurança. — Um passo de cada vez e colocaremos um fim a essa guerra, eu só esperava que antes que fosse tarde demais para mim e para Rose
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