A Guerra Do Amor
19 Nada é invencível
Notas iniciais
Capítulo 19 – Nada é invencível
– Depois que viu o cinto ele acreditou em você? – perguntei para o lorde Badica. Era manhã do outro dia, e aproveitando a cavalgada matinal do rei o lorde havia vindo me atualizar sobre sua visita noturna.
– Sim. Eu acredito que ele tenha tido boas lembranças a partir do objeto, posso dizer isso pelo sorriso que ele abriu. – eu abri meu próprio sorriso ao imaginar a cena.
– E como eles o estão tratando? – perguntei relutante. Eu não esperava que o rei tivesse mandado açoitá-lo ou prendê-lo em algum objeto de tortura. Mas eu nunca sabia o que esperar do homem.
– Como qualquer prisioneiro comum. Ele está sendo mantido em uma cela e sendo vigiado constantemente. E a comida que você me mandou levar foi muito útil, meus empregados estão encarregados de mantê-lo alimentado a partir de agora.
– Obrigada Lorde Badica, eu não sei como agradecê-lo o suficiente.
– Você não tem o que agradecer princesa, se tem alguém que está em dívida esse alguém sou eu.
– Considere sua dívida paga senhor, só de saber que Dimitri está bem eu já estou completamente agradecida.
– Eu já tive um amor como o de vocês dois um dia. – eu me surpreendi com suas palavras, eu não tinha especificado qual era o tipo de relacionamento que eu tinha com Dimitri. Ele percebeu minha reação. – Ele não me falou nada também, mas eu não sou cego e vejo o brilho que se acende nos olhos dos dois quando falam um do outro.
– Eu pensei que estávamos sendo discretos. – se um homem desconhecido percebeu isso tão rápido, nós estamos perdidos.
– Vocês estão, mas é fácil perceber quando se tem uma dica.
– E qual foi a dica que você recebeu?
– A preocupação que vocês tiveram um pelo outro ontem a noite pode ter ajudado. – ele sorriu gentil.
– Eu tenho que trabalhar nisso então. Mas me fale sobre o seu antigo amor.
– Eu a conheci quando eu era mais jovem, ela era uma das cozinheiras do meu pai na verdade. Eu até cheguei a ganhar uns quilos a mais apenas por visitar a cozinha com desculpa de estar com fome. – eu gargalhei imaginado o lorde empurrando a comida apenas para ter uma boa olhada na moça. Era algo que eu faria facilmente.
– O que aconteceu?
– Aconteceu que eu era um lorde e ela uma simples serviçal. Meu pai tinha outros planos para mim, eu me deixei ouvi-lo e perdi a mulher que eu mais amei. – eu me senti na mesma posição, mas a vitória de uma guerra não estava dependente das escolhas do lorde.
– Eu me lembro de ouvi-lo falar que tinha filhos, você se casou com outra então?
– Eu me casei. Eu amo a minha esposa e não tenho nada a reclamar dela, mas a jovem Anya nunca saiu da minha cabeça.
– E o que aconteceu com ela?
– Quando meu pai descobriu que tínhamos um caso ele a despediu. Eu não a vi desde então.
– É uma história e tanto. – refleti.
– Assim como a sua, eu só espero que a senhorita possa ter um final feliz. – eu apenas sorri. Meu final feliz fora comprometido quando bastardo do rei Victor declarou guerra contra meu povo.
– É melhor eu deixá-la agora, o rei estará de volta a qualquer momento.
– Obrigada por tudo o que está fazendo por mim Lorde Badica. – eu realmente estava muito agradecida.
– É uma honra princesa.
Uma vez sozinha novamente, a morena que se dizia serviçal do rei apareceu com minha refeição e eu pedi para ter um banho, um descente dessa vez.
A mulher encheu a banheira de madeira com água morna e óleos de banho. Um cheiro suave e adocicado tomou conta do ambiente. Ela me ajudou a lavar os cabelos e as costas e assim que eu terminei ela me deu um vestido vermelho com um corpete apertado e mangas longas e amplas que quase chegavam ao chão. Eu também pedi que ela lavasse minhas próprias roupas, minhas calças poderiam ser úteis no futuro. Eu não via uma forma de cavalgar com esse vestido.
Era ótimo se sentir limpa novamente, até a minha refeição parecia ter um sabor mais refinado.
– Vejo que tem aproveitado muito bem as mordomias que eu ofereci. – Victor entrou na tenda trajando suas roupas de montaria.
– É, elas até que servem. – falei com desdém. Eu nunca admitira o quanto o banho tinha sido agradável.
– Deixe os espinhos de lado ao menos essa manhã minha flor. – eu fiz uma careta para o apelido e estreitei os olhos. – Haverá um torneio de espadas daqui a pouco, se você se comportar eu posso pensar em levá-la para assistir.
– Eu aceito desde que eu fiquei longe de você.
– Eu acho que isso é o melhor que eu vou conseguir por hoje, não é Rosemarie?
– Eu só estou me aquecendo na verdade. – disse com um sorriso falso.
...
Algumas horas mais tarde eu me vi sobre um pavilhão de madeira coberto por tendas verdes, assistindo ao torneio. Victor estava sentado ao meu lado, com a loira vadia a tiracolo.
Seus soldados pareciam empolgados com o evento, afinal era a melhor forma de diversão que eles encontrariam ali.
Entre os competidores eu reconheci Mikhail e Rurik. O grandão tinha vencido todas até agora e sempre que isso acontecia gritava um grito de guerra sobre como ele era invencível, isso me fez revirar os olhos todas as vezes. Mikhail também estava invicto, eu tinha subestimado suas habilidades.
Meus olhos atentos se encontraram com os do Dimitri em um momento. Ele estava do outro lado acompanhado dos seus guardas e ainda preso com as algemas. Victor não teria permitido isso e eu imaginei que fosse culpa dos guardas que não queriam perder o espetáculo tendo que vigiar um único prisioneiro. Ele me deu um sorriso discreto, mas o suficiente para fazer meu coração disparar. O que esse homem fazia comigo era fora de base.
Depois de muito suor e sangue os finalistas foram anunciados. Rurik contra Mikhail, isso seria interessante.
Os dois se posicionaram no centro do campo e passaram a se rodearem esperando pelo melhor momento para atacar. Mikhail foi o primeiro a entrar em ação e com um movimento rápido acabou deixando um corte na perna do concorrente, eu gritei em comemoração.
Os dois permaneceram muito tempo apenas tentando atacar, mas foram ataques sem efeito, apenas alguns cortes superficiais. Em um momento de distração de Mikhail, Rurik aproveitou a oportunidade e jogou um punhado de terra em seus olhos o deixando totalmente desorientado, depois passou a espada pela panturrilha do adversário o fazendo cair de joelhos, com o pé ele o empurrou pelas costas. Mikhail aterrissou de cara e antes que pudesse reagir a espada estava sendo colocada no seu pescoço.
Eu vi nos olhos de Rurik que ele acabaria com a vida de Mikhail naquele momento, mesmo sendo contra as regras do torneio. Meus olhos se arregraram, mas por sorte os soldados próximos pareceram perceber o mesmo que eu.
Eles impediram Rurik antes que a espada descesse em um golpe fatal. Ainda limpando os olhos Mikhail se levantou.
– Jogar limpo é demais para você não é. – ele se dirigiu para Rurik furioso.
– Se quer chorar nos ombros de alguém pela derrota, vá atrás de sua amada morta. – ele respondeu com um sorriso sádico. Ele sabia que aquilo machucava Mikhail, e pelo olhar em seu rosto realmente funcionou.
Mikhail tentou avançar sobre o grandão, mas os guardas o contiveram e o levaram para fora da arena.
Depois de acalmar a multidão, Rurik foi eleito o vencedor.
– Eis o nosso campeão. – um soldado gritou levantando os braços do vencedor. Um belo ladrão a meu ver. – Como prometido ele estará recebendo quinze moedas de ouro e a espada do concorrente. – a multidão gritava e assoviava.
Rurik vibrava e continuava a gritar seu fracassado grito de guerra. Mas então minha atenção foi para a espada que ele estava recebendo, era Excalibur. Eu me lembrei do momento em que Mikhail a pegou de mim no bosque. Não, esse bastardo não podia ficar com a minha espada.
– Victor, qualquer um pode participar do torneio?– eu perguntei interrompendo seu amasso com a loira, que como sempre me olhou com ódio.
– Qualquer um que tenha uma espada. – ele respondeu para logo depois continuar de onde tinha parado.
Aproveitando sua distração eu desci do pavilhão para encontrar Mikhail que estava bem ali do lado tratando sua perna sangrando. Eu não pude deixar de notar os olhos atentos dos guardas de plantão em mim.
– Preciso de uma espada. – fui direta. Ele me olhou por um longo tempo antes de responder.
– Eu sei o que você quer fazer. Esqueça. – ele voltou sua atenção para as mãos de Gregori que trabalhavam habilmente com o curativo.
– Você roubou a minha e a perdeu. Eu só quero o que é meu por direito. – cruzei os braços o encarando.
– Princesa, desista a menos que quer ter uma morte rápida. – ele nem se deu ao trabalho de me olhar de novo.
Mas ele provavelmente tinha se esquecido sobre suas espadas e armaduras colocadas a poucos metros dele, e principalmente ele tinha se esquecido de que eu era Rose Hathaway e não desistia facilmente.
Eu peguei uma das suas muitas espadas, com certeza ele não sentiria falta. Rurik já estava saindo da arena quando eu parei de frente a ele. Eu tive que olhar para cima para olhá-lo nos olhos, tinha me esquecido de como ele era alto. Sem falar nos braços que me lembravam de toras de árvores.
– Eu sabia que um dia você iria correr atrás de mim para implorar por prazer. – ele sorria torto tendo uma boa visão do meu decote devido a sua altura.
– Eu o desafio. – disse ignorando suas palavras anteriores, ele nem se quer merecia uma resposta.
– Como é? – ele levantou a sobrancelha.
– Eu estou desafiando o campeão. É muito difícil entender isso senhor ladrão? – agora tínhamos conseguido a atenção de todos. Victor tinha se levantando, e quando seus guardas já estavam vindo para me recuperar de volta ele os impediu e me olhava divertido com uma sobrancelha erguida.
– Por acaso você bateu com a cabeça e começou a desejar a sua própria morte?
– Você está com medo e é um covarde. – ele não resistiria a isso. Principalmente depois que os homens o vaiaram.
– O que você está fazendo? – Mikhail apareceu furioso – Ela não tem uma espada, não pode participar. – ele tentou argumentar.
– Isso não é bem verdade. – eu disse levantando a espada que eu tinha pegado emprestado. Roubado, meu subconsciente disse.
Mikhail provavelmente queria me matar naquele momento, ainda mais que Rurik. E eu nem me atrevi a olhar na direção em que Dimitri estava.
– Você pode ficar com essa espada se esse é o problema, mas pare com essa loucura princesa. – eu balancei a cabeça, discordando das opções que Mikhail apresentava.
– Eu já desafiei o campeão na presença de testemunhas, se ele não aceitar perde o primeiro lugar. – ninguém podia se opor a isso.
– Eu vou adorar machucar esse rostinho bonito. – Rurik grasnou fazendo os homens ao redor gritarem em entusiasmo.
– Pena que eu não posso dizer o mesmo de você. – seus olhos faiscaram.
– Rose, você não precisa disso. – Mikhail tentou argumentar uma última vez e percebi que usou meu nome, mas não adiantaria.
– Assim que eu conseguir minha espada de volta, eu devolvo a sua. – pisquei para ele e levantando minhas saias segui para dentro da arena.
Rurik me seguiu e nos posicionamos no centro. Os homens gritavam e faziam suas torcidas e apostas. Como um imã meus olhos acharam Dimitri, que agora estava na entrada da arena argumentando com alguns homens, os organizadores do evento eu observei. Quando ele me olhou eu vi que ele estava furioso, eu não sabia se essa fúria era dirigida para mim ou para Rurik, mas eu apostava que era para ambos.
Eu voltei minha atenção para meu concorrente que esperava por um momento para me atacar, fiquei na posição de defesa, apenas esperando.
Quando ele viu que eu estava totalmente concentrada ao momento e que eu não daria brechas, avançou para cima de mim, sua espada teria ido direto para o meu pescoço em um golpe vertical, mas dando um passo para trás eu o bloquei com minha espada usando toda a força que eu tinha. Eu ouvia suspiros vindos da multidão.
Resmungando em frustação ele tentou mais algumas series de golpes, para ter todos bloqueados novamente. E eu percebi que ele estava ficando impaciente.
O observando atentamente vi que seu braço esquerdo estava sangrando, resultado de alguma de suas lutas anteriores. Se ele podia jogar sujo, eu também podia.
No seu próximo ataque eu me antecipei e acertei a espada bem no machucado, aumentando ainda mais o corte. Ele gritou e levou as mãos até o local sangrando, gritando maldições. Isso elevou sua raiva, e quando ele me atacou novamente me surpreendeu quando ao invés do golpe de espada eu recebi um soco na boca do estômago. Eu perdi o ar por um momento e ele aproveitou a oportunidade para me acertar com um forte tapa no rosto, me fazendo cair na neve suja e dura. Eu senti gosto de sangue na boca.
O silencio caiu. A multidão havia se calado, apenas esperando pelo golpe final do grandão. Do outro lado eu vi Dimitri desesperado tentando passar pelos guardas e me alcançar. Rurik vinha na minha direção com passadas lentas e tinha um sorriso no rosto. Eu me levantei, apenas esperando. Quando seu golpe veio, eu usei o que eu tinha treinado por dias. Eu usei seu peso e tamanho ao meu favor, bloqueando o ataque com um braço eu descoloquei meu corpo para o lado apenas para afundar a espada em seu abdômen. Eu não queria um golpe fatal, eu só queria minha espada de volta.
Quando ele gemeu, eu tirei minha espada ensanguentada do seu corpo o deixando cair duro no chão. A multidão aplaudia e eu até ouvi algum dos guardas que eu ajudei na sala de cura gritando salvas para a pequena flor.
– Acho que isso me pertence. – eu tirei Excalibur das mãos moles de Rurik e segui em direção à saída com a cabeça erguida.
Dimitri parecia mais calmo e o máximo que ele poderia fazer era me dar seu melhor sorriso orgulhoso, e a mensagem de que falaríamos sobre isso depois. Eu sorri e pisquei para ele.
– Sua espada, como eu prometi. – disse devolvendo a espada para um Mikhail totalmente atordoado. Assim como todos os homens que assistiram a derrota de Rurik, o invencível. Bem, ele ainda não conhecia Rose Hathaway quando ganhou esse nome.
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