A Guardiã do Sol
4 A marcha
Notas iniciais
O castelo do Rei se localizava ao centro da Capital, sendo no mínimo duas vezes maior do que o Santuário e três vezes com mais resistência de cerco. Estruturado em formato retangular, suas pedras tinham uma cor esfumaçada, e as duas torres que sustentavam a bandeira da família real eram completamente negras. A comitiva tinha chegado um pouco antes do previsto, tendo por volta de vinte sacerdotes e cem Protetanos. Ao sair da carruagem e olhar para a grandeza que era aquele castelo, Sange permitiu-se ficar boquiaberta, esquecendo-se da fome e do peso de sua armadura por um segundo. Ao seu lado posicionavam-se Joan e Cyana, com um semblante sério. Os grandes portões do castelo se abriram e quatro guardas Atrorianos surgiram, dando espaço para que o intendente do Rei se aproximasse. Sange estreitou o olhar em direção ao intendente. Uma chama de ódio ardeu em seu peito.
— Eimes Highonnor. — Sussurrou entre dentes, cerrando os punhos. O maldito burguês que estava encrencado com o Mercado Negro e que tentara salvar era intendente do Rei.
Seus olhares haviam se encontrado, mas ele desviou como se não a reconhecesse. O intendente deu um pigarro para silenciar o local. Todos voltaram as atenções para ele.
— O Grande Rei da Capital convida os Guardiões... — Fez uma pausa, olhando para a comitiva. — ... E seus acompanhantes para o desjejum. Também envia seus agradecimentos pela presença de todos.
— A honra é toda nossa, Lorde Eimes. — Disse Joan, realizando uma educada reverência, que Sange acompanhou, mesmo sem desejar. Cyana se manteve estática.
— Toda vez que o vejo fica mais novo, senhor Guardião das Estrelas. — Comentou Eimes, fazendo um gesto com a mão para que eles o acompanhassem. — Sigam-me, por favor.
— Deixo-o me chamar de ex-general, se quiser. — Permitiu Joan com um sorriso alegre, enquanto Cyana passava em sua frente e se tornava a primeira a entrar no castelo. O Guardião partiu logo atrás, e ao aproximar-se de Eimes, Sange reparou que o intendente não se sentia a vontade de estar perto dele, mesmo que Joan tenha demonstrado tamanha intimidade.
XxX
Respirou profundamente. Estava com fome demais para reparar em pessoas suspeitas, e misturar isto com curiosidade pioraria ainda mais a situação. Seguiu os Guardiões e o intendente do Rei para dentro do castelo, sendo seguida, logo após, pelos Protetanos e sacerdotes. O castelo tinha corredores largos, decorado com caríssimos tapetes coloridos, paredes onde eram penduradas cabeças de animais emolduradas e um teto desnecessariamente alto. Poderiam caminhar cinco cavaleiros montados lado a lado que ainda assim sobraria espaço. O grupo atravessou o corredor e subiu grandes escadarias, que deram acesso à sala do trono. O tapete pelo qual pisavam se expandia até chegar no trono de ouro onde o Grande Rei se assentava, as cabeças de animais passaram a decorar as pilastras do local e nas paredes do fundo haviam quadros milenares retratando famílias que, provavelmente, assentaram-se no trono. Uma grande mesa de madeira fora posta ao longo do salão exibindo um maravilhoso banquete, com cadeiras o bastante para todos se sentarem e ainda sobrar lugares. O Rei se levantou, aproximando-se dos três Guardiões. Os três fizeram uma reverência, e os que vinham atrás ajoelharam-se.
— Vossa Graça. — Falou Joan, em fala mansa. — Agradeço-lhe por compartilhar o desjejum conosco. É uma grande honra.
— Sem decoro, Joan. Você pode não possuir mais o título, mas ainda considero-lhe meu general. O desjejum ficará para mais tarde. Deixe que sua comitiva fique aqui e se banqueteie. Os Guardiões seguirão comigo para a sala de reunião.
Ouvindo as palavras do Rei, Sange assumiu uma feição insatisfeita, e os que antes estavam ajoelhados ergueram-se e assentaram-se a grande mesa de madeira. O cheiro do alimento era provocante, capaz de fazer salivar até o mais resistentes dos homens. Um grande javali acompanhado de mel e cebolas fritas jazia como prato principal, enquanto diversas outras carnes suculentas e assadas em gordura enfeitavam em volta. Servos iam e vinham trazendo vinho e sucos exóticos.
— Vamos. — Chamou Cyana, cortante como vidro. Sange saiu dos devaneios e olhou para o lado, vendo que o Rei e os dois Guardiões aguardavam por ela. Envergonhada, os seguiu.
O silêncio era mortal e quase obrigatório, ecoando pelos corredores apenas os passos metálicos de suas botas em conjunto de suas armaduras. Sange observava atenta as paredes, ainda incrédula quanto ao amor do Rei para com a caça, fazendo questão de empalhar a cabeça dos pobres animais e colocá-los nas paredes como decoração. Lembrou-se de quando era uma criança e brincava em Véu da Noiva com seu irmão, caçando pequenos coelhos de mãos nuas, pois não desejavam feri-los. Seu pai poderia ser um herói, e amava-o, mas foi o mais velho quem a ensinara a usar as devidas armas. Onde será que estaria agora? Gostaria de retornar para sua cidade natal e vê-lo mais uma vez. Quem sabe o fizesse em breve.
Entraram em uma pequena cúpula que deveria ser a sala de reuniões. Tinha três janelas paralelas que, juntamente de duas grandes lamparinas, iluminavam todo o salão. Havia uma grande mesa de madeira ao centro, onde repousava um mapa e bonecos que representavam os exércitos em batalha. Seis cadeiras contornavam a mesa, e na maior delas, cujo estofado era dourado, o Rei assentou-se. Sange reparou em uma alma diferente no local, ao lado da cadeira do Grande Rei. Os dois Guardiões veteranos aproximaram-se e dirigiram palavras para aquele que Sange não conhecia.
— Príncipe Feril. — Cyana reverenciou-o.
— Príncipe. — Joan cumprimentou, com um meneio leve de cabeça.
— Olá, general. — Sorriu-lhe o príncipe que, tal como o pai, tinha olhos amendoados de cor ciano, de cabelos grandes e ruivos, com algumas madeixas castanhas. Vestia uma armadura dourada em preto. Era um homem de ombros largos e expressão suave. — E Cyana. Faz tempo que não a vejo. Continuas bela, filha do inverno.
Sange estranhou a expressão utilizada pelo príncipe. Filha do inverno? Que seria isto?
— Creio que sejas a nova Guardiã, jovem dama. — Continuou a dizer o príncipe, dirigindo um olhar tranquilo para Sange, que notara que não havia realizado uma reverência até então. O fez apressadamente, mas o príncipe fingiu não reparar na falta de educação. Sorriu para ela, e a Guardiã do Sol não notara nenhum tipo de malícia no mesmo. — Sou o Herdeiro. Príncipe Feril.
— Sinto dizer que não temos tempo para apresentações. — Interrompeu o Rei. — Permita-me esclarecer a situação.
Os Guardiões sentaram-se nas cadeiras opostas ao Rei e príncipe, dirigindo-lhe as atenções. O velho Rei inclinou-se na mesa de madeira, movendo as peças por cima do mapa.
— ... Por onde devo começar? — Questionou-se o Rei. — Talvez pela origem do problema. Ventobravo, principal líder econômico da região dos Quatro Ventos, enviou um mensageiro à Capital declarando desligamento do Reinado. Como sabemos, os Quatro Ventos são uma das nossas principais fontes de matéria prima e rotas comerciais marítimas, sendo eles o limite do continente e o oceano. Seu território é muito maior do que o da Capital, e sua guarda disponível para guerras especializada. Mas nós temos o dinheiro.
Nós temos o dinheiro, pensou Sange, lembrando do dia da morte de seu pai. Heroísmo podia dar fama, mas não livrava ninguém de dívidas. E nem impede alguém de viver nas ruas. Continuou prestando atenção as palavras do Rei.
— Também temos a vantagem de receber apoio das províncias aliadas, Pontabaixa e Moeda Branca. Espera-se que tudo isto seja o bastante para ganhar esta guerra e tomar novamente o controle... Ou melhor, a administração dos Quatro Ventos. — Calou-se por um momento, recuperando o fôlego. — Gostaria de ouvir suas opiniões a respeito. E, como dita o costume, saber quem irá e quem ficará.
— Quero dizer as primeiras palavras, Vossa Graça. — Pediu Joan, como já era de se esperar. O Rei gesticulou para que prosseguisse. — Suas ordens são claras, anular as forças adversárias e tomar o controle. Temos neste momento investimentos o bastante para contratar mercenários e abastecer os mantimentos de nosso exército. Sugiro mantermos os Protetanos e Atrorianos aqui, guardando a cidade, para caso de outro reino tentar se desanexar dos tratados. Precisamos de números, não capacitados. Supra o resto com mercenários e aldeões.
— Isto não seria prudente. — Interveio Cyana, fitando o Rei. — Para que mandarmos nossos civis? Os Atrorianos são soldados treinados para a guerra, tal como os Protetanos. Devemos levá-los. Ventobravo não atacaria a Capital se não tivesse um planejamento prévio.
— Devo lembrá-la, Cy, que temos o apoio de dois outros reinos. E atualmente os mercenários são forma mais prática e barata de se obter soldados capacitados. Com nossos investimentos poderemos quadruplicar nossos números se comparados aos nossos adversários. E em épocas de guerra não podemos deixar nossa amada Capital desprotegida. — Joan sorriu. — Prevenção é o caminho.
— Precaução é o caminho. — Alfinetou Cyana, lançando a ele um olhar gélido. Talvez fizesse um pouco de sentido ser chamada de filha do inverno.
— Podemos confiar nas intuições de Joan. — Complementou o Rei, pensativo. — Antes de ascender como Guardião, fora meu general... E nunca falhara. Ventobravo pode possuir mais soldados especializados, mas não há muralha que se mantenha diante de mil marretas. A menos que possuam uma arma secreta desconhecida, podemos vencê-los em número.
Cyana mordeu o lábio, tensa. Seus olhos estavam inquietos, parecendo querer traduzir algo em seus movimentos, mas ninguém além de Sange percebeu sua hesitação. Feril foi quem quebrou com a tensão.
— Seguiremos os planos de Joan. Manteremos nossos guardas aqui e levaremos mercenários e aldeões ao campo de batalha. A ideia não me agrada, pai, mas se o senhor diz que podemos confiar... — Suspirou. — Então confio em você.
— Há algo que eu gostaria de tratar. — Pediu Sange, saindo de sua posição silenciosa. — É sobre algo que domina a economia interna da Capital. O Mercado Negro.
A simples menção do mercado fez com que Joan virasse seu rosto para a Guardiã do Sol, com uma expressão desgostosa.
— Quer mesmo discutir isto, em plena situação de guerra? — Entrelaçou os dedos. — Podemos ter espaço para discussão, claro, mas priorizar as táticas de guerra é essencial.
— Guardiã do Sol, peço que deixe isto em aberto e retornaremos a discutir sobre quando a guerra acabar. — Sugeriu o príncipe, educadamente. Sange ajeitou-se na cadeira, voltando ao silêncio. — Gostaria de declarar minha ida à guerra. Meu pai encontra-se velho e enfraquecido. Quem lutará pelo reino em campo serei eu.
— Declaro que permanecerei na Capital para garantir a defesa do Rei em piores situações. — Afirmou Joan, voltando o rosto ao Rei.
— Declaro minha ida à guerra, junto do príncipe. — Cyana.
Os olhares voltaram-se para Sange, como se esperassem dela alguma fala. A Guardiã do Sol ainda estava constrangida por ter o assunto vetado, e as coisas ainda não haviam se endireitado em sua mente. Respirou profundamente, enquanto observava a situação em que se encontrava. Entre o Rei e Joan, e Cyana e o príncipe... A escolha talvez fosse fácil.
— Declaro que irei à guerra, junto do príncipe Feril e a Guardiã da Lua.
Joan deu um risinho.
— Irei em busca dos mercenários e marcharemos ao fim do crepúsculo. Nos encontraremos com os acampamentos aliados o mais rápido possível. — Afirmou Feril, levantando-se da cadeira. — Guardiã do Sol e Lua, encontrem-me nos portões da Capital ao entardecer. Não se atrasem, por favor.
— Estaremos lá o mais cedo possível. — Afirmou Cyana, também levantando-se.
Foi a partir dali que os Guardiões se separaram. Joan permanecera na sala de reuniões debatendo com o Rei, enquanto Cyana dispersou-se para algum lugar entre as sombras, sobrando apenas Sange, que foi diretamente à sala do trono, onde os demais se alimentavam. Quando chegou, notara que todos ainda estavam desfrutando do alimento, e a medida que iam se saciando chegavam mais e mais maravilhas. Apoiou a bainha da espada na cadeira onde se sentou, próxima de Leih e Folan, que comiam parte de um cervo com amêndoas e bebiam um vinho exótico. Os dois conversavam entre si e não chegaram a dar-lhe atenção. Suspirou.
— Tome, experimente este. — Sugeriu Maed, colocando um prato a frente de Sange. Ela não o havia percebido. — Estão deliciosos.
— Maed, eu não tinha te visto. — Afirmou Sange, enquanto olhava para o prato. Era uma salada tropical com frutas frescas que tinha um cheiro doce. Salivou. — Pensei que quando se tornavam sacerdotes abandonavam a escravidão do Santuário.
— Escravidão. — Brincou com a palavra, abrindo um sorriso. Era a primeira vez que Sange o via sorrir. Maed colocou um caneco ao lado de seu prato. — Ao sermos nomeados, podemos escolher onde desejamos trabalhar e... — O sacerdote corou levemente, desviando o olhar para um prato qualquer. — ... Eu realmente queria continuar a servi-la, senhorita. E aos outros Guardiões.
Sange devorou a salada e bebeu todo o conteúdo da caneca. A bebida era espessa, um tanto quanto ardente e salgada, mas seu verdadeiro sabor vinha ao descer pela garganta, lento e adocicado. Uma sensação maravilhosa.
— O que é isto? — Indagou, balançando a caneca.
— Chamam de água-da-terra. — Respondeu-lhe Leih, finalmente dando atenção para a Guardiã. — Uma bebida típica daqui.
— Você é capitana, Leih? — Perguntou Sange.
— Todos nós somos. — Respondeu-lhe Folan, inclinando-se na mesa para poder ver o rosto de Sange. — Apenas capitanos legítimos podem se afiliar aos sacerdotes ou Protetanos. É uma política interna.
— “Legítimos”?
— Nascido aqui e filho de pai e mãe capitano. — Explicou a acólita. — Os ilegítimos apenas nasceram na Capital, ou possuem pais capitanos mas não nasceram aqui.
Sange pegou uma jarra de água-da-terra e encheu sua caneca.
— Para que restringir tanto os que são ou não capitanos?
— Para que menos pessoas tenham acesso ao poder. — Disse Maed, sem precisar pensar muito sobre. Agia como quem estivesse acostumado a limitar as chances de uns para o crescimento de outros. Sange engoliu em seco. O sacerdote levou um copo ao ar. — Honra à pátria.
— Honra à pátria. — Repetiram Folam e Leih, imitando o gesto.
— Vocês capitanos possuem costumes estranhos. — Comentou baixo, quase que para si mesma. Continuou a petiscar as coisas que haviam na mesa.
— Veio de onde, senhorita Guardiã do Sol? — Perguntou Maed. Sange respirou profundamente antes de responder.
— Véu da Noiva.
— ... — Os três ouvintes silenciaram-se instantaneamente, entreolhando-se com suspeita e lançando-a um olhar julgador.
Sange largou os talheres que utilizava para comer, incomodada com o modo que a encaravam e assumiu um semblante pesado. Foi como se alguém tivesse morrido no instante em que as palavras foram pronunciadas. De repente, deixou de ser Guardiã e voltou a ser uma garota de rua, que tinha de roubar alimentos para sobreviver enquanto seu irmão trabalhava como mercenário para ganhar algum dinheiro. Sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Maed, Folan e Leih aquietaram-se e voltaram a prestar atenção no que comiam, enquanto a Guardiã do Sol virava-se para trás.
— Pegue sua espada. — Ordenou Cyana. — Você não precisa se justificar. Capitana ou não, ainda é uma Guardiã.
XxX
A praça central havia sido esvaziada para distribuição de armamentos entre os militares que partiriam para a guerra contra Ventobravo. Eram cerca de quatro mil homens com mais de vinte anos, sendo em sua maioria fazendeiros e mercadores pobres, sem muito luxo na vida. A menor porcentagem era de mercenários e voluntários. Atrorianos dividiam entre os camponeses armas e armaduras, enquanto os mercenários, já armados, recebiam instruções diretas do príncipe. O sol estava quase descendo no horizonte, indicando que logo seria o início do crepúsculo, e o horário escolhido para que o exército saísse da cidade. Cyana e Sange chegaram em tempo de ouvir as últimas ordens de Feril, e aguardaram antes de se aproximar do mesmo, respeitando sua autoridade.
— Príncipe. — Chamou Cyana, parando ao lado direito do mesmo. — Os separou por ofício? Precisamos de arqueiros, cavalei--
— Não se preocupe, filha do inverno. — Interrompeu o príncipe, em tom cansado. — Tudo já está organizado. Basta aguardarmos o horário e partiremos.
— Compreendo. — Disse, sem demonstrar sinais de irritação. Sange estava pasma e assustada com a maneira corajosa do príncipe de interrompê-la.
— FORMAÇÃO! — Berrou Feril, em alto e bom tom.
O exército, anteriormente separados entre mercenários e camponeses, alinharam-se como um só, em uma formação militar. Empunhavam lanças, espadas e arcos, montavam em cavalos ou iam com as próprias pernas; Mas de todas as formas, pareciam preparados para o que estava por vir e para receber quaisquer ordens. Talvez fosse isso o que chamavam de “amor pela guerra”. Sange permaneceu quieta, apenas observando a situação. O príncipe tomou a linha de frente e começou a caminhar, observando cada um de seus homens, sendo acompanhado por Cyana. Parecia estar pensativo, como se estivesse meticulosamente escolhendo palavras. Parou repentinamente em frente a fileira central, tomando as rédeas de um cavalo de guerra que um Atroriano trazia, e montou no grande alazão negro. Desembainhou uma espada e a ergueu aos céus.
— Hoje, vocês foram convocados para ir à guerra por suas famílias. Hoje, vocês foram chamados para derrotar seus inimigos por suas terras. Hoje, suas espadas se empunharão pelo reino. Hoje, vocês provam-se verdadeiros capitanos. Hoje, levaremos honra à pátria!
— HONRA À PÁTRIA! — Berraram os militares, quase ao mesmo tempo, produzindo grandes barulheiras com suas armas e gritos. O chão da cidade inteira estremeceu, fazendo com que Sange pensasse que talvez a ideia de Joan não fosse tão estúpida quanto aparentava. Aqueles homens, mesmo que não fossem treinados para isso, pareciam estar dispostos a lutar com muito mais do que a própria vida. Um gesto feito por Feril fez com que a barulheira cessasse.
— Marchem comigo, capitanos, em direção ao campo de batalha!
O mesmo Atroriano que dera o cavalo para o príncipe trouxera outras duas montarias para as Guardiãs. Para Cyana foi entregue uma égua branca, e para Sange um malhado. Ambas esporearam os cavalos para alcançar o príncipe que, a esta altura, já começava sua marcha. Enquanto a Guardiã da Lua seguia a direita do príncipe, a Guardiã do Sol ia por sua esquerda. O exército, enfileirado e com o ardor de batalha, foi seguindo-os atrás em um ritmo mais lento, mas nem por isto menos feroz. Marcharam por toda a cidade, recebendo aplausos e urros vindos dos outros aldeões e dos próprios lordes que assistiam a marcha de seus grandes castelos e estabelecimentos. Quando finalmente saíram da Capital, ficando fora de seus muros, fizeram um reajuste tático. Os cavaleiros dividiram-se em dois grupos, o primeiro seguiria veloz junto dos guerreiros, e o segundo manteria um ritmo mais demorado, acompanhando os arqueiros. Tanto o príncipe quanto as Guardiãs iriam junto do primeiro grupo.
Ao olhar para trás, Sange viu toda sua nova vida afastando-se lentamente. Num momento era plebéia, no outro, Guardiã. E agora, companheira de batalha de um príncipe. Um medo do novo dominou-a quase por completo, quase permitindo-se galopar com o cavalo para fora da formação e esconder-se por entre as árvores que haviam ao redor da estrada de terra batida. Será que seu pai se sentiu da mesma forma, em seus tempos de herói? Poderia Sange intitular-se assim? Lembrou-se da morte do mesmo, então um sentimento infeliz abateu-a, e ficou cabisbaixa. O heroísmo nem sempre traz coisas boas, como no caso de seu pai, que trouxe-lhe cinco adagas.
Enquanto pensava, uma égua alva aproximou-se de si, quase esbarrando em sua montaria. Era Cyana. Os olhos da Guardiã repousaram nos seus, carregando algo diferente do comum, passando uma espécie de tranquilidade e empatia para si. A Guardiã da Lua mantinha uma compostura digna de quem dominava a arte equestre, levando sua espada bastarda na cintura. Como sempre, uma postura de quem é superior ao próximo. Contudo, Sange percebera, desta vez não parecia ser algo intencional.
— A bandeira que a Capital sustenta é semelhante a bandeira dos extintos elfos do norte. — Afirmou, apontando para os cavaleiros que portavam as bandeiras, localizados nos extremos cantos do grupo que viajava junto deles. Nas cores da família real, a bandeira da Capital era uma espada dourada e solitária sobre um fundo negro. — Mas seu lema completamente diferente.
— “Honra à pátria”?
— A bandeira dos elfos era uma flecha solitária, branca em um fundo azul claro. Seu lema era “A última esperança”. — Deu uma pequena pausa, olhando para o horizonte como se todo aquele diálogo tivesse sido para si própria. Como alguém que diz algo em voz alta para não esquecer. Os olhos azuis faiscaram. — Agora somos companheiras de guerra, Guardiã do Sol. Espera-se que você seja muito mais hábil que qualquer um deste exército. Eu também tenho esta expectativa.
Sange engoliu em seco.
— Não sou tão boa em batalhas como meu irmão ou pai, mas farei o que puder.
— Não os conheço, mas creio que nenhum deles enfrentaram diretamente o Mercado Negro da Capital e saíram vivos. — Palpitou Cyana. Sange abriu um sorriso. — Não se subestime tanto, e se tiver dúvidas, indague ao sol. Você o representa, afinal.
— Meu pai... Gostaria que você o conhecesse. Mas ele está morto faz oito anos. — Comentou, transformando o sorriso brincalhão em algo infeliz. Pensando em suas palavras, ergueu a cabeça para o céu, tentando encarar o sol. Semicerrou os olhos, colocou uma mão em cima dos mesmos, e ainda assim não foi capaz. Questionou. — ... Por que eu, sol?
Ao abaixar o olhar do céu, Cyana não estava mais lá. Provavelmente havia se retirado durante o diálogo explicativo de Sange. A Guardiã do Sol bufou. Mesmo tentando ser legal, a filha do inverno continuava sendo insensível e ignorante.
— Pelo menos, agora você não ignora minha existência. — E voltou a sorrir, sem notar que havia perdido o medo que antes a assolava.
O sol finalmente se pôs.
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