A Guardiã do Sol
5 Desvantagem — Parte I
Notas iniciais
Passaram a noite inteira cavalgando em direção à Pontegrossa, o local escolhido para os exércitos do Reinado, sem interrupções ou pausas para descanso. Os guerreiros que a pé iam chegaram extremamente fatigados, e ainda tiveram que montar suas próprias cabanas. O segundo grupo, de cavaleiros e arqueiros, tinha previsão de chegar um dia depois. A primeira batalha da guerra seria feita, provavelmente, sem a participação dos arqueiros e parte da cavalaria. Mas isto estava longe de ser uma desvantagem, pois Pontegrossa estava preenchida com o exército de Moeda Branca e Pontabaixa, cerca de dez mil homens somados, todos vestindo as cores que identificavam a aliança do Reinado; Cinza e dourado. O dourado da família real da Capital e o cinza que representava neutralidade entre os povos. Mas hoje não estariam tão neutros assim.
Pontegrossa era assim chamada pois unia dois vales separados por um grande rio. Era uma grande estrutura de pedra, construída pelos ventanos antes da Capital existir, com pilastras pedregosas de quase cinco metros de altura que tinham formato semelhante a um portão. Aquela ponte era uma das mais belas estruturas que alguém poderia ver, com uma arquitetura e engenharia quase misteriosas. A mesma face que Sange fizera ao visitar o Santuário pela primeira vez, utilizava agora, enquanto desmontava do cavalo malhado. O acampamento ocupava quase dois terços do vale inteiro, com tendas e cabanas espalhadas por onde sua visão alcançasse. Homens bem armados caminhavam aos pares ou aos grupos ao seu redor, fazendo suas devidas atividades. Alguns que avistavam o príncipe o cumprimentavam com uma reverência.
— Devo ir ter com os lordes de Moeda Branca e Pontabaixa. Desejam vir comigo? — Indagou o príncipe, desmontando do cavalo negro. Cyana concordou com a cabeça, sem mencionar uma única palavra. Sange, por sua vez, teve de pensar alguns segundos antes de responder.
— Eu vou. — Disse finalmente, temendo ficar sozinha e perdida em meio ao acampamento.
Ao invés de seguirem em direção aos lordes, ocorreu do capitão de Moeda Branca aproximar-se, seguido por dois guardas. Vestia uma armadura pesada e cinzenta com o símbolo de uma moeda cruzada por dois machados na placa do peitoral, e havia uma faixa dourada que identificava sua alta patente. Era um homem baixo, de ombros largos e muito musculoso, quase não cabendo na própria armadura. Levava o elmo debaixo do braço, deixando a mostra seus cabelos calvos e esbranquiçados pela idade. O capitão reverenciou o príncipe e apoiou-se em seu machado, saindo da posição ereta de um militar. Os dois guardas que o acompanhavam permaneceram parados como muralhas.
— Meu príncipe. Chegou cedo como prometera. — Sorriu rígido, mostrando um sorriso cheio de dentes de ouro. — O Chato-baixo está nos esperando na cabana separada para você, meu senhor.
— Não o chame assim, Montanha. — Pediu Feril em tom brincalhão.
— Por que não? Acaso ele não é chato?
— Só um pouco. Mas ainda assim, nosso aliado e importante peça para nossa vitória.
— Então manteremos o apelido. — Respondeu, sem timidez. Passou a olhar para as Guardiãs. — São suas esposas, meu príncipe? Belas damas, as armaduras combinam bem.
— Acaso Moeda Branca não é mais devota aos Celestes? São minhas Guardiãs.
O rosto de Montanha foi ao chão, incrédulo. Em Moeda Branca não se via a mesma devoção que na Capital ou nos demais reinos, contudo, sua principal religião também era o Celeste.
— Desculpe minha língua solta, Guardiãs. — Se recompôs, voltando a manter a pose de um capitão. — Não sabia eu que eram de tão alta sabedoria. Abençoem meu machado de batalha, por favor.
O velho Montanha ajoelhou-se, erguendo o machado com ambas as mãos acima da cabeça. Sange não soube o que fazer; Ninguém antes pedira-lhe uma benção. Cyana, por sua vez, aproximou-se e beijou a lâmina do machado do capitão.
— Que a Lua ilumine seus passos. — Recitou, em seu porte superior aos simples mortais.
O Montanha ergueu o olhar levemente, encarando Sange com olhinhos de súplica, ainda ajoelhado. A Guardiã, sem graça, repetiu o gesto de Cyana.
— Que o Sol ilumine seus passos.
E finalmente o capitão se levantou, gargalhando de felicidade. Seus dentes de ouro brilharam com a luz solar.
— Não haverá escuridão que derrube esse capitão aqui. — E bateu no peito, fazendo uma sonoridade metálica ecoar.
— E alguma vez houve? — Indagou retórico Feril, dando um tapa de leve mas costas do amigo. — Vamos, chato-baixo nos espera.
XxX
Havia no meio do acampamento uma grande tenda dourada, preparada unicamente para o príncipe. Os dois guardas que acompanhavam o capitão de Moeda Branca pararam na porta, sem ousar adentrar o local, ficando de vigia. Tinha no interior da cabana uma mesa de madeira, com algumas cabeceiras espalhadas e uma cama. Um tapete negro forrava o chão. Em pé de frente para a mesa estava o capitão de Pontabaixa, vestido com uma armadura leve cinzenta cujo símbolo era um tubarão carregando um tridente entre os dentes. Também possuía a faixa dourada de identificação de alta patente. Chato-baixo, ou Rowan, como era seu real nome, era um homem tão velho quanto Montanha, porém alto e esguio. Seus cabelos ocupavam toda a cabeça, brancos como a neve, e costeletas cresciam descontroladas ao lado de sua face. Um queixo pontudo marcava sua expressão rígida. Rowan estava tirando a pele de um cervo quando o príncipe entrou. Fincou a adaga na mesa e enxugou as mãos ensebadas e ensanguentadas em uma toalha que mantinha próxima.
— Príncipe Feril, perdoe a ausência de minha etiqueta. — Pediu, colocando a toalha por sobre o ombro. — Estava preparando um desjejum agradável para Vossa Majestade.
— Ainda não sou Sua Graça, capitão. E espero não ser tão cedo. Gosto de meu pai saudável como está.
— O Rei é o mais sadio dos homens. Não há dúvidas disto.
Ambos se abraçaram, alegres. Pareciam ser bons amigos que não se viam há muito tempo. Cyana aproximou-se do cervo e o analisou em silêncio, enquanto Sange ficava ao lado de Montanha, perto da entrada.
— Esta é a famosa filha do inverno? — Indagou Rowan, afastando-se do príncipe. — Sua fama ecoa até por Pontabaixa, minha senhorita Guardiã.
— Agradeço-lhe o cuidado que possui em me reconhecer. — E tirou a adaga da mesa. — Este era um belo cervo, quem o abateu?
— Meu filho, senhorita.
— Você tem filhos? — Perguntou Sange, em tom realmente duvidoso.
Montanha caiu na gargalhada.
— Perguntei a mesma coisa para ele no dia em que o conheci. Que tipo de mulher abriria as pernas para ele? HAHA.
— Não quis ofender, capitão. — Disse Sange, sorrindo sem graça. Montanha continuava com suas risadas altas, enquanto o príncipe disfarçava um singelo sorriso. Chato-baixo pigarreou.
— Sim, senhorita. Possuo um casal de gêmeos: Raven e Riven.
— A garota teve sorte de puxar a mãe. — Complementou Montanha.
— Você deve ser a Guardiã do Sol. — Palpitou o capitão de Pontabaixa. — Aquela que não é capitana.
— Ainda não sei como lidar muito bem com isso, mas sim, sou.
— És de onde? — Indagou Rowan, curioso. Sange olhou para os cantos, como se estivesse procurando uma saída. A última vez em que dissera sua origem, o clima de tensão dominou.
— Creio que deveríamos resolver as frontes de batalha. — Interveio Cyana. — Assuntos assim podem ficar para depois.
— Pois bem. — Disse o príncipe. — A filha do inverno tem razão.
Sange deu um suspiro profundo de alívio e agradecimento, enquanto os demais assumiam um porte mais sério. O clima mudou, voltando a ser algo pré-guerra. Feril aproximou-se da mesa, apoiando-se na mesma.
— Enviaram algum espião para Ventobravo? — Perguntou o príncipe.
— Os que mandamos não retornaram... Acredita-se que Ventobravo reuniu sua tropa especializada e ainda está recebendo apoio de fora.
— De fora do continente? — O príncipe se assustou. — Como eles conseguiram? Nunca antes formou-se uma aliança entre o Reinado e os outros continentes.
— Este deve ser um dos motivos para terem rompido com o tratado. — Disse Cyana, de braços cruzados. — Eles já locomoveram o exército?
— Se moveram, estão conseguindo se omitir no mapa. Talvez tenham algum feiticeiro ou mago com eles. — Comentou Chato-baixo.
— Como um simples mago pode apagar rastros de um exército inteiro?! — Esbravejou o príncipe, com uma nítida preocupação na face.
— Pode... — Disse Sange, com uma hesitação na voz. — Pode ser este o maior problema. Talvez eles não tenham um simples mago, mas alguém com uma capacidade mágica absurda.
— De toda forma, nos atacarão. Podemos ir até lá e esmagá-los enquanto estão em menor número... — Começou Montanha. — Ou esperamos sentados.
— Sou a favor da fala de Montanha. — Concordou Rowan. — Em questão de dias conseguiram reunir o suficiente para nos dar uma boa guerra. Quanto conseguirão se os dermos mais tempo?
O príncipe fez um gesto com a cabeça, mostrando concordância para com os capitães. Estalou o pescoço.
— Mal pude sair de uma marcha e comandarei outra. Preparem os exércitos, sairemos daqui ag—
— SENHORES! — Gritou um homem enquanto adentrava a tenda as pressas. Vestia-se como um soldado comum, tinha cabelos castanhos e olhos verdes, e uma barba espessa escondia um queixo talhado e pontudo. Seu rosto era parecido com o de Rowan. — O espião voltou! Está extremamente ferido! VENHAM!
O homem saiu da tenda assim que terminou de falar, ainda mais apressado.
— Aquele não era teu filho? — Indagou Montanha, apontando para a entrada.
— Sim, era ele. — Lançou um olhar apressado para seu príncipe, e então retirou-se dali, indo acompanhar o filho.
— O que faremos? — Questionou Sange, olhando para os rostos amigos.
— O acompanharemos. Vamos. — Ordenou o príncipe.
XxX
Ajuntaram-se em uma grande cabana improvisada onde ficariam todos os soldados feridos em batalha, que naquele momento, se resumia ao espião. O homem estava deitado em um pano no chão, com as vestes rasgadas e sofrendo de hemorragia devido aos ferimentos da perna, tórax e braços. Não era possível identificar seu rosto, que estava desfigurado e enxarcado de sangue. Um soldado especializado estava tentando estancar o sangramento, mas era notório que ele não sobreviveria por muito tempo. Feril foi o primeiro a entrar na cabana e o primeiro a ir prestar ajuda para com o ferido. Ajoelhou-se ao seu lado e tomou sua mão. Sange percebeu por quê o príncipe era tão amado; Ele daria sua vida por seu povo, e era isto que os dava coragem para lutar pelo reino.
— Diga-me seu nome, soldado.
— P-príncipe F-Feril? É... V-você? — Perguntou o ferido, tocando no rosto do príncipe, manchando sua bochecha de sangue. O Herdeiro não pareceu se incomodar.
— Não toque no príncipe. — Pediu o soldado que cuidava do espião, com certa grosseria. — É perigoso, se nossos inimigos tiverem te contaminado com algo, você pode estar passando para nosso futuro rei!
— Deixe-o, soldado. Ele está em seus últimos momentos. — Pediu Feril, em tom de absoluta lei. Voltou-se novamente para o ferido. — Sim, sou eu. Diga-me seu nome, soldado.
— Ártrorix, m-meu senhor. — Disse o ferido, antes de tossir sangue. — E-eu... T-tenho que a-avisá-lo...
— O que encontrou em solo inimigo?
Uma crise de tosse sangrenta agravou-se em Ártrorix. Raven, o filho de Rowan, aproximou-se para prestar auxilio, pois sozinho o soldado especializado não faria muita coisa. Raven segurou o corpo enquanto o soldado iniciava um procedimento. Os olhos afiados de Sange notaram como o príncipe encontrava-se nervoso ao observar tudo aquilo.
— Ele sobreviverá? — Indagou Sange para Cyana, que estava ao seu lado. A filha do inverno deu de ombros.
— É mais provável que morra antes de conseguir dizer qualquer coisa. — A Guardiã do Sol percebera que Cyana também estava, de certo modo, nervosa.
— Você não parece bem. — Sussurrou Sange, aproximando-se da Guardiã da Lua. Cyana deu-lhe um olhar nitidamente preocupado.
— Olhe para os ferimentos do espião. — Disse Cyana, e assim Sange o fez.
Quando Ártrorix finalmente se recuperou, Sange conseguiu visualizar seu corpo com maior clareza. Os ferimentos que lhe causavam a hemorragia não pareciam ter sido produzidos por alguma arma de perfuração ou contusão, mas por algum animal selvagem com grandes garras e presas. Não havia animais daquele porte em Ventrobravo.
— Agora entendo. — Afirmou a Guardiã do Sol, mais alto do que desejou.
— O que? — Perguntou Montanha.
— Ãhn, nada. Eu estava falando sozinha. — Desconversou Sange. O capitão de Moeda Branca assentiu com a cabeça, desviando o olhar.
Ártrorix voltou sua face em direção ao príncipe, mesmo que seus olhos estivessem inchados demais para que fossem capazes de lhe dar alguma visão.
— Os v-vent-ventanos... E-eles n-não estão lu-lutando c-com nossa gente... — Disse, enfatizando as últimas palavras. Sua pupila dilatou. — S-são... Mons... — E suspirou pela última vez.
— Ártrorix...? Soldado?! O QUE SÃO? — Gritou o príncipe, em uma esperança de acordar o espião do silêncio eterno. Começou a sacudir o corpo. — SOLDADO!
— Meu príncipe, não adianta mais! — Disse Rowan, puxando o príncipe pelo braço, afastando-o do morto. — Infelizmente foi tudo o que ele podia dizer.
— Mas... Ele não disse nada! Como lutaremos assim?
— Lutaremos de qualquer forma. — Falou Montanha, aproximando-se do morto. — Com ou sem informações sigilosas, a guerra nos aguarda. Tem de ser forte, meu príncipe.
Feril rangeu os dentes, nitidamente estressado com a situação. Raven aproximou-se e se ajoelhou, com apenas a face erguida para o príncipe.
— Senhor, o soldado responsável pelo espião fará uma autópsia. Saberemos ao menos o que o matou. — Quando o príncipe abriu a boca para responder, a voz de Cyana ecoou.
— Mas é nítido que não foi obra de um humano. — Afirmou a Guardiã da Lua, sem sair de seu lugar. — E seus ferimentos não foram em áreas fatais, como pode perceber. Ele morreu por perda de sangue, não pela área afetada. Eles queriam que ele viesse até nós. Queriam que tentássemos salvá-lo. Isto é um aviso, príncipe.
—... Vejo que eles querem testar nossas forças. — Concluiu o príncipe, ainda com o semblante anterior. Olhou uma última vez para o corpo do espião, como se estivesse gravando seus traços. — Os darei como resposta a minha fúria.
O príncipe repousou a mão no cabo da espada e caminhou até a porta da cabana, abrindo-a devagar.
— Peguem o corpo e levem até a fogueira do acampamento. — Ordenou. — Iremos marcar a nossa marcha com seu velório. — E saiu do local.
— Sim, meu príncipe. — Disseram Rowan, Raven, Montanha e o soldado ao mesmo tempo.
As Guardiãs trocaram olhares. O azul encontrou-se com o castanho, faiscantes.
— Eles demorarão um tempo até terminar a autópsia e enfaixar o corpo. — Comentou Sange, com grande certeza. — O que faremos enquanto isso? Acompanharemos o príncipe?
— Deixe-o sozinho por um tempo. Ele precisa pensar nos próximos passos que daremos. Aconselho irmos para a tenda preparada para nós.
— “Nós”? Montaram uma tenda para os Guardiões? — Sange arqueou as sobrancelhas. Acaso algum soldado havia perdido seu tempo para montar este tipo de coisa? Achou um desperdício. Tinham mãos e pernas, poderiam fazer isto por si só. Ser Guardião trazia responsabilidades, mas também vinha com uma acomodação que não era saudável.
A Guardiã da Lua apenas assentiu com a cabeça e começou a sair da cabana, como se esperasse que a outra a seguisse. Sange a segurou pelo pulso, impedindo sua ida.
— Espere Cyana. Isto não é certo. — Sussurrou, evitando chamar atenção dos outros quatro que trabalhavam analisando o cadáver. — Somos Guardiãs. Nosso chamado é para proteger os necessitados, não ficarmos paradas enquanto o mundo cai em nossa frente. Fique aqui comigo e venha ajudar os outros. — Deu uma pequena pausa, soltando o pulso da mesma. — Por favor.
A filha do inverno pareceu desmanchar por um instante, tornando sua expressão mansa, demonstrando que as palavras de Sange haviam sido escutadas. Segurou o próprio pulso, como se estivesse tentando tirar a mão da Guardiã do Sol que já não lhe prendia mais.
— Desculpe minha imprudência. — Pediu Cyana. — De fato, devemos ajudá-los. É nossa missão.
— Sim, sim. — Sange sorriu, com alegria. Então lançou para a amiga um olhar brincalhão. — Quem diria que você sabe pedir desculpas.
Esperou uma resposta rígida, ou um daqueles olhares gélidos, mas Cyana soltou um risinho baixo. Aquele dia foi escolhido para impressionar a Guardiã do Sol.
— Você me lembra uma pessoa muito importante para mim. — Deu meia volta, indo auxiliar os outros. Sange ficou sem palavras.
XxX
A fogueira marcava o centro do acampamento, e era um local montado para ocasiões especiais, como discursos de guerra ou preparação para uma marcha; Mas o príncipe o utilizaria para o velório do único espião a retornar de Ventobravo. A maioria dos soldados se reunia ao redor da fogueira, atentos as palavras de Feril, dando um espaço para ele e as Guardiãs que vigiavam o corpo enfaixado do morto. Era início de tarde, o sol brilhava forte e quente no dia desanuviado. Quilômetros de acampamento encontravam-se em silêncio, de luto pelo companheiro falecido. Feril encheu os pulmão de ar e, como estava acostumado a fazer, iniciou um pequeno discurso.
— Homens, o Celeste nesta manhã levou um dos nossos, descansando-o nas alturas. Ártrorix, um soldado espião de Pontabaixa, o único a retornar da missão que lhe foi dada e responsável por carregar o pesado fardo dos golpes inimigos, hoje cantará com o Sol, a Lua, as Estrelas e o Céu. — Fez uma pausa, envolvendo o cabo da espada com a mão esquerda. — Mas ele não foi levado em vão, irmãos, pois tomaremos nossas dores e nosso luto para transformarmos em sentimento de vingança. Vingança por sua vida, vingança pela aliança, VINGANÇA CONTRA NOSSOS INIMIGOS! URREM SOLDADOS, PARA QUE ÁRTRORIX NOS OUÇA DO CELESTE!
O príncipe desembainhou a espada, apontando para o céu, e todos os soldados repetiram o gesto, brandindo suas armas e berrando gritos de guerra. Os contagiantes gritos ecoaram por todo o vale, fazendo a própria Pontegrossa vibrar. Os corações guerreiros, a cada segundo, uniam-se mais e mais, como um verdadeiro exército e como uma única nação. Ao fim de todos os gritos, Cyana e Sange tomaram o corpo de Ártrorix e colocaram em cima da fogueira. Fora Sange quem a acendera, desembainhando Alvorada e ateando fogo as toras de madeira. Uma fumaça branca subiu aos céus, e todos tomaram aquilo como um presságio de que o espião olhava pelo Reinado. O corpo, durante a autópsia, fora untado para que neste momento a carne não emitisse um cheiro de queimado, mas de puro perfume.
Sange voltou a embainhar Alvorada. Feril finalmente abaixou sua espada, apontando-a para a ponte. Todos os olhares se dirigiram naquela direção.
— É chegada a hora! MARCHEM CONTRA NOSSOS INIMIGOS!
Outra onda de gritos inundou o local.
Mais de dez mil homens marcharam em direção a Ventobravo.
Era o inicio de uma guerra.
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