Derek melhorou em alguns dias e resolveu ligar para Laura, ela merecia saber que estava tudo bem, que ele não iria mais remoer sua relação com Talia Hale, não depois do que ela disse.

– Hey Laura, tudo bem? — ele começou enquanto arrumava algumas roupas no armário.

– Sim, claro. — seu tom era baixo e comedido, não combinava com ela.

– Vai mentir para mim agora? — Derek pressionou.

– Estive preocupada com você, não quis ligar e forçar as coisas, mas... eu só não quis te deixar pior. — ela suspirou, o jeito retraído de Laura era muito incomum e incomodava Derek.

– Eu estou bem, deixe Talia de fora. Liguei para saber do meu sobrinho e do casamento, ainda sou o padrinho lembra? — eles riram e Laura pareceu se animar.

Horas mais tarde Derek estava enfurnado na frente do notebook olhando diversos negócios ligado aos Argent e uma pasta ao seu lado tomada de laudos médicos, ele sabia que precisava fazer alguma coisa à respeito, por mais que Talia não quisesse, ele tinha que agir.

A decisão mais difícil de todas foi entrar na delegacia e encarar Rafael McCall, o presunçoso e insuportável agente federal que nunca pensava nas vítimas e odiava com todas as forças o mundo em que Derek vivia, por culpa disso, ele e Scott eram tão afastados.

– O que quer aqui Hale? — Derek engoliu em seco e procurou ao redor outra pessoa que pudesse atendê-lo.

– Eu vim prestar uma queixa. — Rafael o mediu dos pés a cabeça.

– Que tipo de queixa? — o lobisomem se manteve em silêncio antes de encarar o agente impaciente.

– Crime de ódio e sexual. — ele respondeu tentando não demonstrar sua própria vergonha.

– O que temos aqui? — uma mulher negra e muito bonita irrompeu ao lado dos dois, McCall manteve para si um comentário maldoso e Derek franziu o cenho ao ver a garganta da mulher e parte de seu rosto tomado por longas cicatrizes de lobisomem.

– Derek Hale quer prestar queixa contra crime sexual. — a mulher encarou Derek por meio minuto, não era de um jeito ruim, ele quase gostou dela.

– Eu fico com essa Ref. — ele hesitou e então sorriu malicioso.

– Boa sorte, ele é um shifter submisso. — Derek quis rosnar, mas se conteve.

A sala da agente era limpa, organizada e bonita. Derek se sentiu confortável com o cheiro de lavanda fraquinho que emanava no ar e ela parecia uma boa mulher, alguém confiável.

– Eu não me apresentei antes, — ela entrou na sala com alguns papéis e foi para o seu lado da mesa remexendo em alguma gaveta. — sou Braeden. — ela estendeu a mão e ele a apertou. — Trabalho exclusivamente na divisão de crimes sexuais. — Derek assentiu.

– Obrigado por pegar meu depoimento, eu pensei que Rafael me mandaria embora. — o lobisomem encolheu os ombros.

– Ele é um idiota, mas eu não gosto de shifters. — ela foi sincera.

– Um lobisomem fez isso em você, posso compreender. — ao invés de esconder suas marcas, ela as expôs mais.

– Não foi em serviço, eu fui vítima de violência sexual não no circuito BDSM, mas por um namorado da adolescência. Eu não tenho raiva de vocês, apenas não gosto de me sentir mais fraca. — Derek sentiu seu estômago revirar.

– Eu posso lidar com isso.

– Conte-me o que aconteceu.

Braeden não parecia confortável em digitar toda a história e ficou extremamente chocada com a quantidade de provas que Kate era capaz de deixar, muito mais a lista de possíveis vítimas e o caso de Evan incluso nisso tudo.

– Por que denunciar só agora? — ela perguntou enquanto fechava alguns arquivos.

– Eu preciso seguir em frente e ela fica rondando. Não posso lidar com um passado que não se mantém longe.

– Eu posso entender.

– Obrigado por me ouvir. — Derek se levantou.

– Não acabamos. — ela o viu sentar novamente. — Preciso dizer que não posso cuidar do seu caso se isso for um problema. — ela apontou para a aliança pendurada em seu pescoço como um pingente.

– Eu teria quais problemas em você ser casada? — Derek não entendia.

– Aaron Hale é meu marido. — Derek sentiu seu estômago revirar.

– Não é um problema. — era mentira.

– Eu não posso discutir meus casos com ele se isso o preocupa.

– Não importa, ele saiu da minha vida tem muitos anos, ele não ligaria para o que aconteceu de qualquer forma.

– Se você diz. — ela deu de ombros.

– Acabamos? — Derek se sentia um pouco enjoado agora.

– Eu ligo quando tiver novidades, aconselho que arrume um advogado.

– Obrigado. — ele se levantou e saiu.

Quando Stiles chegou em casa, Derek estava enrolado como um filhote de cachorro em sua cama, ele parecia amuado, triste. O humano se preocupou, mas tentou manter a calma e a distância, talvez a conversa com Laura não tenha sido tão boa.

– Eu sei que você chegou. — Derek murmurou.

– Você parece triste. — Stiles foi direto ao ponto.

– Meu pai está na cidade. — Derek se remexeu na cama e encarou o namorado.

– Isso foi inusitado. — Stiles estava bastante surpreso.

– Ele me odeia. — Derek bufou.

– Como você soube?

– Eu fui a delegacia e então a mulher dele me atendeu.

– Que azar! Não, espere um minuto. — Stiles o encarou com seriedade. — O que você foi fazer em uma delegacia? — as sobrancelhas arqueadas demonstravam a curiosidade do garoto.

– Eu prestei queixa contra os Argent. — Stiles sentiu o queixo cair.

– Isso é.... novo?

– Sinto muito fazer isso sem te contar primeiro, mas eu percebi que preciso disso para seguir em frente.

– Tudo bem, eu acho. Estou surpreso, não chateado. — Stiles deu de ombros, ainda precisava digerir isso. — Quer me contar como foi tudo isso? — Derek fez que não.

– Prefiro dormir um pouco, me sinto enjoado. — ele fez beicinho.

– Chegue para lá, vou cuidar de você. — Derek sorriu e permitiu ser abraçado.

Mais tarde naquele mesmo dia, Derek explicou tudo o que tinha acontecido para Stiles, mas ainda restava uma dúvida no humano. Ele a manteve para si até depois do jantar, algo o dizia que tinha a ver com Talia, mas ele não tinha certeza.

– Derek, algum dia você vai me explicar o que aconteceu em Beacon Hills? — ele pediu enquanto tirava a mesa.

– Você quer mesmo ouvir isso? — o olhar cansado de Derek sempre deixava o coração de Stiles em pedaços.

– Sim.

– Tudo bem, talvez você queira sentar e me deixar amarrá-lo para não pegar o próximo voo e espancá-la.

– Tão ruim assim?

– Pior. — Stiles engoliu em seco e deixou a louça para o dia seguinte, Derek era bem mais importante.

Eles sentaram na sala, Derek manteve o olhar distante, ele parecia envergonhado de tudo aquilo e frustrado de uma maneira incontável. Stiles queria segurá-lo, dizer que não precisava falar mais nada, mas seria bom saber, entender o que andava fazendo de Derek alguém diferente, mais ríspido, sério.

– Eu saí da sua casa e fui correr na floresta, encontrei Laura de noite e contei o que tinha acontecido, ela me aconselhou a dizer ao bando, disse que você estava certo, que não era justo eu sofrer por algo que Kate era responsável. — Derek tomou algum fôlego e encarou Stiles. — Eu contei a Talia, ela ouviu atentamente e chamou todo o bando, eu sabia que algo estava errado, ela nunca compartilhou conversas antes de pensar à respeito, mas ela odiou o que viu naqueles arquivos de Kate, mais ainda que eu era o motivo de Evan ter sido ferido.

– O que ela fez? — Stiles interrompeu, querendo tocar Derek, confortá-lo.

– Contou à todos o que Kate me fez. O que eu permiti que ela me fizesse. Disse que se eu queria fazer parte daquele bando, tudo bem. Mas que para ser família eu precisava respeitar a mim mesmo, que eu precisava ser um bom exemplo e eu nem ao menos me permiti dar valor ao meu corpo. Ela me comparou a uma prostituta e deixou minha avó dizer o que quisesse. Mesmo Laura pedindo por mim, ela apenas deixou claro que na casa dela eu nunca seria bem vindo, que minhas batalhas a levou a guerra e que ela se sentia estúpida por ter sofrido tanto tempo pela minha ausência. Eu destruí seu casamento, meu pai estava certo... — Derek estava chorando.

– Pare, ela está errada. — Stiles agachou na frente de Derek e segurou seu rosto entre as mãos. — Talia não sabe o que faz, ela é estupidamente influenciável e se sentiu ameaçada. Eu não vou justificar suas ações, mas Derek tudo isso é demais para você, ela não merece tê-lo como filho, nenhum deles merecem estar perto de você.

– Laura e Cora abandonaram o bando, minhas irmãs estão sozinhas por minha culpa.

– Não, culpa de Talia. Olhe para mim. — o lobo o fez. — Eu te amo, estou com você e elas também. Encha minha casa com elas e Peter, eles são seu bando, eles merecem você. — Derek engoliu com dificuldade e deixou as lágrimas serem limpas por Stiles. — Minha casa está aberta para eles, nós somos melhores que tudo isso, esqueça Talia. — Derek arfou sem fôlego. — Eu sinto muito por Evan, mas ele ainda é muito novo para decidir, se um dia qualquer um deles quiser sair, eu vou apoiar e estar com você aqui para recebê-los. — Derek abraçou Stiles.

Quando Derek adormeceu naquela noite, Stiles pegou cada arquivo que foi apresentado na queixa e analisou, mandou alguns e-mails e contratou uma advogada. Ele queria Kate na cadeia e quem mais tivesse feito Derek sofrer afundando. A noite foi longa e cheia de dores de cabeça, tudo o que o garoto queria era ligar para seu pai e perguntar o que fazer, mas ele não podia, não sabendo que John estava feliz planejando uma viagem com Melissa, não querendo tanto que ambos ficassem bem juntos, eles mereciam.

– Stiles? Está tudo bem, bro? — Scott atendeu o telefone preocupado, eram mais de duas da madrugada.

– Eu não sei. — Stiles arfou e encarou a pilha de papéis ao seu redor. — Acho que meu TDAH voltou. — ele riu sem humor.

– Quer que eu vá ai? — Stiles considerou a oferta.

– Eu tenho uísque. — ele respondeu.

Em quarenta minutos Scott estava lá e com mais meia hora eles estavam bêbados, quer dizer, Stiles estava. Ele não quis contar nada que pertencia a Derek para seu melhor amigo, mas deixou sua frustração e raiva vir a superfície em engasgos e reclamações desconexas. Scott ouviu, opinou e deu apoio para que o garoto procurasse um médico, alguém que pudesse ajudá-lo com o TDAH de novo.

Derek acordou sozinho em casa. Não tinha nenhum bilhete ou aviso, mas ele sabia que provavelmente Stiles estava no trabalho. Eram mais de nove e ele se arrumou para providenciar a abertura do seu próprio negócio, era hora de seguir com a vida, estava cansado de tentar colar os cacos, ele queria viver.

Braeden estava em sua porta quando ele terminou de preparar seu café da manhã, ela parecia animada mesmo que isso soasse assustador. Derek a convidou para entrar e lhe serviu um chá, ela aparentemente tinha esse gosto em comum e no fundo a agente não parecia uma pessoa ruim, dessa vez, Aaron parecia ter feito uma boa escolha.

– Sua moção foi aceita, um mandado de prisão contra Kate Argent foi expedido e uma ordem de restrição contra Gerard Argent e Victória Argent também. Outras pessoas nos vídeos precisam de identificação e minha equipe tem contactado algumas das outras vítimas listadas no material que você me entregou. — ela foi direto ao assunto.

– O que eu posso fazer por você?

– Colocar seu advogado em contato comigo para eu atualizá-lo melhor dos meios jurídicos e me dar pistas de onde procurar Kate?

– Allison pode saber de alguma coisa, ela é uma garota legal, mas ainda é sobrinha de Kate.

– Preciso de endereços, telefones, qualquer coisa.

– Vou anotar para você.

A manhã acabou tomada por conversas sobre o caso, Stiles foi atualizado assim que Braeden saiu e Derek seguiu para continuar com seus planos. Talvez as coisas começassem a se encaixar e ele pudesse ser feliz.