A Gentleman and a Slut
4 Pegar ou largar
Alguém abriu a cortina. Consegui ouvir os ganchos metálicos correndo nos trilos de alumínio e o tecido oscilando com o vento.
Não era Alexia. Se fosse, eu teria sido acordada aos berros.
Teria sido melhor do que…
– Acorde queridaaaaaa! — a voz soprano e melosa de minha mãe ecoou nos meus ouvidos.
Escondi o rosto dentro da fronha do travesseiro através da abertura.
– Querida, Pietro está te esperando no corredor, não seja mal educada — ela tentou manter a paciência na voz, mas estava estalando os dedos.
– Caralho — soltei entredentes, irritada — sai mãe, sai!
Ela se assustou com minha explosão repentina logo de manhã e fez o que eu pedi, fechando a porta com o máximo de silêncio que conseguiu. O que não foi muita coisa.
Tirei a cabeça de dentro da fronha, o coloquei na frente do rosto e gritei o mais alto que consegui.
Logo, a porta foi aberta e um Pietro apareceu, pigarreou e se sentou na minha cama.
– Quer remédio? — ele perguntou parecendo nervoso.
Arqueio a sobrancelha.
“Desde quando esse bosta sabe das minhas enxaquecas?”, perguntei mentalmente.
– Seria muito gentil da sua parte trazer pra mim — respondi dando um sorriso cínico.
Pietro pacientemente retirou uma cartela de comprimidos do bolso e me entregou juntamente com a garrafinha de água que trazia em suas mãos.
– Como vou saber se isso é remédio mesmo? — perguntei desconfiada e irritada com o fato de ele achar que eu confiava nele.
Pietro deu de ombros.
– Não é como se você nunca tivesse tomado outra coisa além de remédio, Afrodite — ele respondeu.
Abri a boca para rebater, mas era verdade. Pietro percebeu e deu um sorriso galanteador de vencedor.
Engoli dois comprimidos de uma vez só juntamente com alguns goles de água e joguei a garrafinha nele.
– Vaza — resmunguei — vou tomar banho e me trocar.
– Acho que prefiro ficar aqui — ele disse com um sorriso safado e brincalhão no rosto.
Revirei os olhos. Eu não estava afim de brincadeiras, pietrices e palhaçadas.
– Tudo bem — respondi e quase ri da expressão confusa de Pietro.
Tirei o vestido ainda da entrevista do dia anterior e fiquei só de roupa íntima, escolhendo outro look no closet e indo tomar banho. Claro que antes, fiz questão de me virar para ver a expressão patética, babona e abobalhada de Pietro, que não esperava por essa.
Com a porta entreaberta, lancei-lhe um sorriso babaca e mostrei o dedo.
– Otário — resmunguei.
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– Não entendo qual é a paranóia dessas garotas — gemi enquanto rolava a timeline do twitter no macbook.
– Elas são ansiosas por uma referência na vida amorosa, Afrodite — Alexia deu de ombros — são carentes de alguém pra se espelhar.
– Se espelhem em Angelina Jolie e Brad Pitt — rebati e soquei o mouse com força, pois ele tinha falhado.
Alexia suspirou e bateu no meu braço para que eu parasse de agredir o computador.
– Pietro é muito famoso entre as garotas — ela começou a explicar.
Revirei os olhos.
– Blá blá blá — movi a boca sem som algum para não levar mais tapas.
– E você é a inspiração de moda das mesmas garotas, ou seja, a junção, a combinação perfeita dos tapetes vermelhos! — Alexia continuou, juntando as duas mãos e com um olhar sonhador.
Franzi o cenho.
– Tá — respondi antes que ouvisse mais alguma coisa e voltei minha atenção ao twitter.
Haviam centenas e centenas de perguntas sobre Pietro.
“Ele é cavalheiro?”.
“Ah, Afrodite… Daria tudo pra ser você!”.
“Tenho certeza de que vocês se darão muito bem. Pietro tem cara de ser fiél!”.
Caí na gargalhada com o ultimo tweet. Como um cara que trepa com outra na própria festa de noivado pode ser fiél?
Pensei em pronunciar o pensamento em voz alta, mas isso causaria revolta em Alexia. Ela passaria a monitorar Pietro para que ele não tivesse contato com outras garotas e isso definitivamente não era o que eu queria.
Queria mais era que Pietro se apaixonasse perdidamente por uma outra qualquer e sumisse da minha vida.
Agarrei os fios de cabelo da minha nuca e os puxei uma, duas, três vezes até os soltar e suspirar.
– EU NÃO NASCI PRA SER FAMOSA! — gritei a plenos pulmões.
Alexia se virou bruscamente para ralhar, mas foi interrompida pelo barulho da porta sendo aberta.
Adam adentrou meu escritório particular depois de dar uma leve batida no batente da porta.
Não que ele precisasse bater. Meu pai sabia que tinha total liberdade pra entrar nos meus aposentos quando quisesse.
– Oi pai — eu disse feliz em vê-lo, mas desconfiada.
– Olá querida — ele respondeu, dando-me um beijo na testa — mídia dando trabalho?
Ele encarou o twitter com desagrado. Odiava aquela rede social.
Soltei uma risada sem ânimo.
– É, garotas com falta de… — comecei.
– Não ouse terminar esta frase — Alexia disse do seu próprio computador.
Revirei os olhos e terminei de responder os tweets que não eram repetidos.
– O que o traz aqui, papai? — perguntei.
Ele se sentou num puff perto de mim e suspirou antes de começar a falar.
– Bom, você sabe que sua mãe e eu estamos nos divorciando — ele começou.
Assenti, ficando tensa de repente.
– Mas queremos manter um bom relacionamento de amizade — ele emendou rapidamente e eu revirei os olhos.
Como se desse pra manter um bom relacionamento com minha mãe.
– Ela vai lançar uma marca de roupas femininas e queria pedir seu apoio — ele continuou.
Soltei o ar pesadamente, cansada. Então era isso, ela queria me pedir algo de manhã e quando viu que não ia rolar, apelou para meu pai, sabendo que eu o ouviria.
– Sei que sua mãe é uma pessoa difícil de lidar, mas ela precisa de você ainda mais agora — ele disse quando viu que eu ia protestar — e eu vou estar nessa também.
Inclinei a cabeça, como incentivo para que ele continuasse.
– Vou ajudar com a divulgação da marca, com a parte financeira e tudo mais que precisar, eu vou estar lá querida — ele disse dando ênfase no “estar lá”.
Comprimi os lábios, indecisa. Não dava pra simplesmente sair caso eu odiasse o trabalho. Era pegar ou largar.
Além disso, era mais uma chance de suprir minha carência paterna. Eu queria muito ficar mais próxima do meu pai. Embora nos entendêssemos muito bem e nos conhecêssemos, não éramos amigos como pais e filhas que vejo por aí. Pais normais e filhas normais.
Inspirei profundamente e criei coragem para dizer:
– Tudo bem, papai — sorri — eu vou ajudar também.
Adam sorriu orgulhoso e me deu um abraço apertado. Abraços raros e preciosos.
– Pietro vai te ajudar nessa também — ele disse tentando me confortar.
Ah não. Droga.
Eu devia ter rejeitado.
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