Notas iniciais
A pedido de uma pessoa LINDA E MARAVILHOSA, sim, continuarei com esta fic! Obrigada pelo grande incentivo

– Pode me passar o sal, querida? — minha mãe pediu hesitante.

Atendi ao seu pedido sem olhar para ela. Não gostava da situação, mas cara, ela merecia.

Pietro me encarou sugestivamente e empurrei a salada para ele, que murmurou um "obrigado" quase inaldível.

Depois daquela conversa do "vamos fazer dar certo", não conseguimos mais nos comunicar normalmente. Era simplesmente impossível, como se o ar a nossa volta ficasse mais denso e tornasse o ato de respirar mais difícil.

– Você tem uma entrevista marcada para hoje a noite, Afrodite — Alexia comentou como se fosse normal.

– Entrevista marcada pra hoje a noite? — repeti feito retardada.

– Sim — ela respondeu pacientemente e alisou a toalha da mesa.

– Onde? Com quem e pra quê? — perguntei com o garfo fincado no alface.

– Para uma revista voltada ao público adolescente chamada Vip! — ela respondeu — com a Bernadette e para falar sobre seu recém descoberto noivado.

– Por que eu tenho que falar do meu noivado pra esses trouxas? — murmurei.

Um chute veio debaixo da mesa e dei graças por estar de botas over knee.

– Porque as garotas lá fora estão doidas pra saber — ela respondeu como se o chute não fosse dela — e a Bernadette é um amor, não vai perguntar nada indecente ou inconveniente.

Dei umas cinco garfadas no alface e no tomate. Imaginei que Alexia era o tomate e a Bernadette era o alface.

– Não tem nada pra falar — soltei dando um gole de suco de laranja.

Alexia arqueou a sobrancelha em uma pergunta retórica silenciosa.

"Não iam fazer dar certo?".

– Você devia tentar — Pietro interveio hesitante — parece importante.

– O que garotas de 16 anos gostariam de ler numa revista barata sobre o relacionamento alheio que é tão importante? — explodi.

– Querida, tente — Adam ordenou com sua voz calma e grave.

Aquilo foi o suficiente para que eu me acalmasse e assentisse. Pietro me encarou confuso e surpreso.

Só permitia que meu pai mandasse em mim. Era meu único familiar com moral o suficiente para tal.

– Bom, quem sabe não é divertido? — minha mãe bateu palmas animadas.

– É só uma entrevista — resmunguei inconformada.

Quatro olhares fuzilantes me encararam na mesa e calada, terminei de comer.

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Minha mão estava suando horrores. Por que eu estava tão nervosa pra uma droga de entrevista? Provavelmente só iam perguntar coisas idiotas e irrelevantes sobre Pietro. Era o que eu esperava.

– Sabe — Pietro começou — vão perguntar se nos beijamos.

Revirei os olhos. Claro que iriam. Só não entendia porque ele estava ali no carro e porque queria assistir ao vivo a tal entrevista.

– Vão sim, e daí? — respondi e fiz outra pergunta.

– O que vai responder? — ele perguntou curioso.

Dei de ombros.

– Por que isso é relevante? — perguntei irritada.

– Porque somos noivos — ele respondeu irritado também — nem passamos pela fase de namoro e estamos noivos. As pessoas sabem disso e vão perguntar por mais.

Quando parei para pensar se isso fazia sentido ou não, Pietro me beijou rápido demais para que eu percebesse. Também terminou rápido demais para que eu notasse na hora que aquilo era um beijo.

– Agora você pode dizer que sim — ele disse desviando o olhar e antes que eu pudesse dizer algo protestante, a porta do carro se abriu e alguém estendeu a mão para mim.

– Senhorita LeBlanc — o motorista me chamou e eu atendi.

A droga do meu vestido plissado teria rasgado por ter enroscado no cinto de segurança, mas Pietro mais uma vez salvou o dia e me ajudou.

Ia agradecer, mas me lembrei do que ele fizera antes e senti minha bochechas esquentarem.

Logo meu braço estava envolto pelo dele e entramos no prédio decorado com vidraçaria e inox. Não antes de flashes serem disparados na minha cara, claro.

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– Então, como anda o relacionamento de vocês? Soube que você ficou ciente do noivado antes mesmo de saber que tinha sido prometida... — a gorda disparou.

Se não estivéssemos na frente das câmeras e ao vivo, eis o que eu responderia:

– Bem ruim — pausa para respirar e sorrir de forma meiga — mas definitivamente melhor do que o relacionamento entre você e seu suposto marido que pediu sua mão pelo dinheiro tão gordo quanto a dona.

Mas infelizmente, as luzes vermelhas das câmeras não paravam de piscar e Pietro estava tenso na cadeira do auditório.

– Ah, bem — respondi — Pietro é compreensivo e não há desentendimentos entre nós.

Não era uma mentira.

– E ele beija tão bem quanto é compreensivo? — ela perguntou balançando as sobrancelhas.

Me esforcei para não fazer uma cara que demonstrava o quão estranha essa gorda era. Minhas bochechas esquentaram quando me dei conta de que pergunta ela fizera.

– Claro — respondi sorrindo.

Ela ficou confusa com a facilidade que respondi aquilo e partiu para outra chuva de perguntas infindáveis, até que alguém fez sinal indicando que o tempo do programa acabou.

– Infelizmente, nosso tempo é curto demais para saciar as perguntas e curiosidades que temos sobre o novo casal do momento — ela disse animada em frente à câmera — espero que possamos ter outra oportunidade como essa, certo, Afrodite?

Sorri amigavelmente. Ou pelo menos tentei.

– Claro, Berna! — respondi olhando para a câmera também.

– Incrível! E esta foi a entrevista sobre o casal recém noivo Afrodite e Pietro! — ela voltou à câmera — enviem suas perguntas ao nosso perfil do Twitter aqui embaixo ou envie um email! Afrodite em outra oportunidade irá respondê-las para nós.

Assenti e sorri. “Vadia”, era o que eu tinha vontade de dizer.

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– Você foi bem — Pietro disse surpreso quando já estávamos em casa.

Finalmente ele tinha relaxado a postura.

– O que você pensou que eu diria? Que você beija feito um réptil? — perguntei indignada.

– Eu beijo? — ele perguntou ofendido.

– É claro que não! — gritei exasperada — você é idiota?!

– O que está acontecendo aqui? — minha mãe apareceu na sala de estar com os cabelos ainda envoltos em bobes.

Ridícula.

– Nada — Pietro e eu respondemos em uníssono.

Ela nos olha pelo canto dos olhos, desconfiada e volta para o quarto. Um barulho de jornal sendo aberto/fechado chama a nossa atenção e eu pulei de susto. Não tinha notado meu pai ali, muito menos Pietro.

Adam pigarreia e coloca o jornal sobre a mesa de centro, para depois cruzar o seu olhar com o meu com um ar indagador.

– Já estão entendidos? — ele perguntou sarcasticamente.

Pietro e eu assentimos freneticamente.

– Então já podem ir dormir — ele finalizou se levantando e indo para o seu próprio quarto, já que mamãe e ele não dividiam a mesma cama haviam anos.

Inspirei profundamente e abri a boca para dizer “boa noite”, mas Pietro não estava mais ali. Subia os degraus da escada de madeira lustrosa a passos pesados e cansados.

Soltei a respiração pesadamente e revirei os olhos.

Estava prestes a ir para o meu quarto quando reparei que ao invés de entrar no quarto dele, Pietro entrou no escritório do meu pai, cuja luz estava acesa.

Me aproximei da porta e ouvi os dois conversarem. Não consegui entender muita coisa, mas parecia algo sério.

– As negociações vão bem — Pietro disse.

– Claro que vão — ouvi meu pai concordar — sempre foram.

Eu podia imaginar ele girando o copo suado de whisky e observando o líquido girar. Ele sempre fazia aquilo quando estava entediado.

Ouvi um barulho de couro velho sendo esfregado e pensei que provavelmente era meu pai se reclinando em sua poltrona confortável. Cara, eu conhecia meu pai como a palma da minha mão.

Eles conversaram ainda mais baixinho, num tom sério e profissional.

Muito. Suspeito.

Franzi as sobrancelhas e encostei meu ouvido mais perto da porta com a intenção de ouvir melhor, mas apesar de eu saber ser sorrateira e silenciosa quando necessário, a porta estava completamente aberta, o que não era muito favorável para mim.

Desisti de ouvir os cochicos entre os dois e fui para o meu quarto. Me joguei na cama com a mesma maldita roupa formal da entrevista e desabei.

Eu iria acordar feito um panda.