A Gentleman and a Slut

10 Entrando numa fria


Notas iniciais
Capítulo curtinho, perdoem a minha demora.

A pressão que o braço dele fazia contra o meu era eletrizante.

Com certeza, era isso que você, leitor, gostaria que eu dissesse.

Mas Pietro estava tão lindo que eu sentia náuseas e vontade de manter distância, caso contrário, eu furaria seu olho com as unhas postiças e pontudas que a manicure me fizera usar.

Sua beleza era irritante, assim como os risinhos das garotas pelas quais passávamos perto.

Revirei os olhos pela milésima vez naquela noite e enfiei uma folha de rúcula na boca, sem cerimônia alguma.

– Você também está — Pietro disse, sorrindo de lado.

Encarei o piercing na ponte do seu nariz.

Pietro sempre tirava os piercings para jantares e formalidades.

Por que manteve aquele?

– Estou o quê? — perguntei, desviando o olhar.

– Bonita — ele disse.

O encarei ultrajada.

Ultrajada porque ele leu meus pensamentos e ainda por cima, riu cinicamente.

– Ogro — grunhi, de boca cheia.

Alexia me encarava com os olhos perspicazes, que nada deixava passar. Não me repreendia, me fuzilava ou me batia como fazia sempre, apenas observava. O que era ainda mais estranho e assustador.

Ela estava estonteante com aquele vestido carmin que lhe apertava a cintura fina e descia abrindo como uma cauda no chão, seus cabelos negros contrastavam perfeitamente.

Meu pai sorria ao lado dela, como se nada de ruim tivesse acontecido.

Senti a mágoa novamente se apoderar de mim e tive que desviar o olhar.

Como alguém que tinha destruído a vida da filha com apenas poucas palavras podia simplesmente fingir que estava tudo bem?

– Você está bem? — Pietro perguntou e apertou minha mão.

Senti um arrepio e me soltei dele.

– Estou — respondi.

Passei a mão pelo rosto com cuidado para não borrar a maquiagem elaborada por Alexia.

– Sua mãe disse que anda se sentindo mal — ele insistiu.

– Não importa o que minha mãe diz, tá legal? — me irritei.

Pietro removeu a expressão de preocupação que portava e me encarou friamente.

– Vem — ele me puxou com força — vamos dançar.

– O quê? — pisquei e teria caído se ele não estivesse me segurando — eu não quero dançar com você.

– Não rejeite um cara apaixonado — ele disse ameaçadoramente.

Arregalei os olhos.

Seu tom de voz era diferente de qualquer outro que ele tinha usado comigo.

Pietro relaxou e soltou uma risada divertida, fazendo com que eu relaxasse imediatamente também.

– Desculpe — ele pediu — eu só estou preocupado e você não ajuda.

– E por que eu deveria ajudar? — perguntei, cansada.

Chegamos à pista de dança. Pietro passou um braço pela minha cintura e com a outra mão segurou a minha.

Tentei nos ver como uma terceira pessoa.

Realmente, um casal bonito, mas a personalidade podre de Pietro e a minha idiotice eram como venenos um pro outro.

Além disso… Eu não queria ser o par dele.

– No que está pensando? — perguntou, acariciando minha bochecha.

Me surpreendi com o gesto e me afastei por instinto. Pietro se manteve firme, não me deixando sair.

– Pensando em quando essa farsa vai acabar — respondi.

Ele trincou o maxilar e respirou fundo.

– Não é farsa pra mim — rebateu.

– Pietro, você não está apaixonado por mim — disse eu, cansada — só está conformado com a situação e acha que sim, mas na verdade você vai enjoar de mim como meu pai enjoôu da minha mãe.

– Seu pai não enjoôu da sua mãe — ele resmungou.

– Tem razão, ele nunca a quis — reclamei — foi tudo um contrato, assim como nós.

Pietro bufou.

– Deixa disso — disse, autoritário.

Assenti. Eu não queria ficar irritada ali, ao menos a comida era boa mesmo.

Distraída, passei os dedos sobre o piercing sem notar.

Pietro sorriu, vitorioso e tive que retrair a mão e revirar os olhos.

– Sabia que você gostava desse — ele disse.

– Não gosto — rebati, me soltando e saindo da dança — não gosto de nada que venha de você.

Ouvi Pietro bufar furioso e seus passos atras de mim.

Abri as portas do salão e dei de cara com o asfalto.

Bufei.

Ótimo.

– Afrodite, não disse que iríamos tentar? — ele insistiu — nós combinamos isso.

– Eu não sei se quero tentar algo com você — confessei.

– E por que não? — perguntou, como se aquilo fosse absurdo.

– Porque você é um babaca ciumento e sei lá quantos mais defeitos esconde de mim — explodi — e sei que tem algo de estranho em você, algo que esconde dos outros.

Pietro revirou os olhos.

– Deixa de paranóia, Afrodite, o que poderia ser? — ele zombou.

– Vindo de você? Eu não sei — mordi o lábio inferior — talvez seja o líder da máfia italiana e esteja aí, bancando o tennager rebelde, tatuado e cheio de piercings.

Ri sozinha com a minha suposição, mas vi Pietro ficar tenso.

– Vamos voltar pra mesa — ele soltou o ar que segurava.

– Ei, foi só uma brincadeira — reclamei quando ele pegou meu braço com força — as pessoas vão ver isso, Pietro!

Pude ouvir ele soltar alguns palavrões em italiano, mas não pude traduzir nenhum.

Pietro me acompanhou educadamente — na medida do possível — até a mesa, e durante o caminho senti a fúria tomar conta de mim de forma atrasada.

Me desvencilhei de seu braço e me sentei ao lado de Alexia, ignorando os olhares interrogadores de Adam.

Senti um salto perfurar minha perna e vi Alexia sorrir de forma deslumbrante para mim.

Assim como as balas iluminadas saindo de uma metralhadora em um filme de ação.

Ótimo.

Eu estava ferrada.

Fodida, Afrodite.