A Gentleman and a Slut
11 Fica pior
Notas iniciais
Assim que o jantar terminou Alexia me enviou uma mensagem perguntando sobre o que diabos tinha acontecido ali.
Ignorei, já que estava cansada e me encontrava ao lado do motivo de todo o meu estresse.
Pietro insistiu que eu usasse o cinto de segurança e precisei obedecer, caso contrário ele mesmo o colocaria.
Eu definitivamente não queria contato físico com aquele cara.
— Eu não sou ruim Afrodite — ele suspirou quebrando o silêncio — você me altera.
Não respondi.
Se respondesse, o diálogo se prolongaria e eu não precisava disso.
Já teria uma prosa com Alexia mais tarde, de qualquer forma.
Encostei a cabeça na janela do carro e fechei os olhos.
Em algum momento, não me lembro qual, adormeci.
Sentia meu corpo sendo embalado pelas ruas esburacadas em que passávamos e uma lufada de ar frio no meu rosto quando a janela foi aberta.
Pisquei, sonolenta e irritada, já proonta pra amaldiçoar Pietro.
Notei que eu mesma abaixara o vidro com o cotovelo.
Pietro o ergueu novamente e tentou me puxar pra que eu deitasse em seu colo, mas mesmo quase dormindo protestei.
Eu mantinha minha sanidade até desligada afinal.
O carro parou e dei uma espiada à nossa frente.
O farol alto iluminava os portões da Mansão LeBlanc e tentei me consolar com a imagem da minha cama cheia de edredons.
Estacionamos e desci sem esperar a ajuda do meu suposto noivo e, claro, arranquei o salto assim que coloquei os pés na grama.
— Vai pegar um resfriado — Pietro interveio.
— Um resfriado seria a menor das minhas preocupações — bocejei — talvez eu possa fugir dos deveres se pegar um.
Pietro franziu o cenho e, sem esforço algum, me pegou no colo.
Sabia que mesmo que protestasse ele não me soltaria, então apenas bufei e encarei o caminho a nossa frente.
Ia agradecer a carona indesejada quando chegamos no primeiro degrau da escada, mas ele não parou de andar.
Pigarreei.
— Sabe, eu posso caminhar a partir daqui — tentei corrigir minha voz trêmula com um sorriso amarelo totalmente nervoso.
— Sei que pode — ele sorriu de volta, mas despreocupado.
Ele continuava subindo os degraus e eu sentia meu corpo cada vez mais tenso.
Ninguém pode me culpar por ter medo de altura.
Dizem que tais medos bobos de adultos são originados na infância, mas é bobagem.
Não é preciso um real motivo pra ter medo de algo.
Eu sempre tive medo de altura, mesmo antes de ver uma das empregadas da casa cair do segundo andar e morrer bem à minha frente aos 6 anos de idade.
Desde então, eu nunca mais corria pro meu quarto sem me agarrar no corrimão.
Tinha insistido em morar em uma casa de apenas um andar, mas papai me convenceu de que existem perigos maiores pelo mundo além de cair uns cinco metros de altura.
Mas ainda assim, não podia evitar o receio.
Minha respiração ficava presa até.
E aconteceu isso quando chegamos no meio do caminho e não, não pense que era uma mera escada. Era alta e por mim tudo bem eu subir sozinha, mas no colo de alguém era altura demais pra suportar.
E se Pietro, por pura sacanagem, me soltasse?
Ele já aparentava estar bem zangado comigo.
Tentava dizer ao meu corpo pra nunca, em hipótese alguma, me aproximar mais de Pietro ou me agarrar a ele, mas a batalha interna já era caso perdido.
Passei os braços ao redor do pescoço dele e fechei os olhos com força.
— Afrodite, você realmente tem medo de altura? — ele perguntou surpreso.
Não respondi.
Ele terminou de subir a escada e sem dificuldade alguma abriu a porta do meu quarto.
Fui depositada na cama e contendo a náusea que sentia, me enfiei debaixo dos edredons e cobri a cabeça.
— Pensei que fosse algum exagero — ele confessou, com arrependimento na voz.
— Me deixa em paz — grunhi.
Pensei que ele deixaria mais algumas palavras de babaquice, mas ouvi a porta sendo fechada.
Coloquei a cabeça pra fora pra confirmar minha liberdade e suspirei, aliviada.
Me levantei da cama e tirei toda a maquiagem, acessórios e desfiz o cabelo arrumado por Alexia.
Pensei em tomar um banho, mas estava sonolenta e talvez o sono se fosse caso o fizesse, então apenas me enfiei novamente debaixo dos edredons e adormeci imediatamente.
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Na manhã seguinte ninguém foi me acordar.
O que era estranho, muito estranho.
Chequei a hora no meu celular.
08:00.
Coloquei os pés descalços no chão gelado e me lembrei que estava nua.
Corri para o banheiro antes que alguém invadisse o quarto à minha procura e tomei um banho rápido.
Tinha que confessar que era um saco escolher roupas sozinha.
Quero dizer, não que fosse algo que me despertasse preguiça.
Alexia simplesmente fazia falta.
Escolhi um vestido branco com a saia plissada e calcei coturnos.
Temia colocar a cabeça pra fora e ser decapitada, mas o fiz mesmo assim.
A casa estava barulhenta como sempre.
Ou melhor dizendo, era possível ouvir a voz de Suzan em todos os cômodos.
Ecoava como se fosse uma tortura do Hades e um lembrete de que tudo estava normal, embora eu não tivesse sido acordada da maneira habitual.
Ajeitei os cabelos e desci.
Suzan estava discutindo com uma cozinheira sobre a quantidade de sódio presente nos alimentos da mesa e não pude me conter: revirei os olhos.
Me joguei na primeira cadeira vazia que vi.
Era a de Adam.
— Onde está Alexia? — perguntei sem encarar minha mãe.
— Bom dia querida — Suzan sorriu.
Ignorei o beijo que foi depositado em minha bochecha e enchi a boca de peito de peru.
— Ela precisou ir pra Roma afinal — respondeu ela finalmente — certas situações só ela pode corrigir.
— E que situações seriam essas? — franzi o cenho.
Embora eu soubesse que Alexia conseguia abafar qualquer caso e corrigir qualquer ser vivo — bom, quase qualquer -, tinha certeza de que meu pai contava com mais pessoas habilidosas e aptas para tal função.
Suzan sorriu e me deu tapinhas no ombro.
— Não se preocupe, ela voltará logo — disse e se sentou ao meu lado.
Claro que ia.
Sorri com uma lembrança.
~Flashback
Segurei o telefone com força, chateada.
Finalmente tínhamos ficado próximas e eu não odiava a garota mais.
Pelo menos não tanto.
Apertei o botão verde e andei em círculos pelo quarto enquanto ouvia o som irritante da discagem.
Ela atendeu.
— Afrodite, o que você quer? — disse a garota de 10 anos de idade com voz fria.
Fria demais pra uma criança aliás.
— Volte — pedi.
Me senti muito menor que ela naquele momento.
Sempre me sentia.
Alexia suspirou.
— Olha, pirralha — ouvi o som de carros no fundo — eu sou paga pra isso, não confunda com amizade.
Fiquei quieta esperando que ela dissesse algo mais.
— Aliás, nunca espere amizade de verdade — continuou — no seu mundo o dinheiro é deus.
E desligou.
Mas eu também tinha uma carta na manga.
Se Alexia era a única garota que sabia como eu realmente era e não tinha fugido de primeira, eu precisava mantê-la por perto de mim.
Além disso, eu era uma péssima mentirosa.
E não sabia encobrir as coisas erradas que fazia (embora quando criança o máximo fosse pintar o carro dos funcionários com tinta óleo).
Suspirei, mas deixei escapar um riso maldoso.
Tirei foto da coleção de cards que Alexia guardava com todo cuidado e mas sequer imaginava que eu os tinha pego.
Posicionei eles em cima da minha cama de forma que ficasse evidente do que se tratava e enviei uma foto à ela.
“Eu tenho um amigo que pagaria muito por todas elas. São raras, não são?” era a legenda.
Enviei a mensagem para Alexia e esperei que a mesma respondesse.
Ela não respondeu.
Mas na mesma noite, apareceu atônita e com a respiração acelerada.
— Onde eles estão? — perguntou enraivecida.
Fora uma chantagem boba de crianças.
Claro que eu não faria novamente.
Mas nem mesmo eu tinha certeza de se Alexia sempre voltaria.
Principalmente depois de saber que ela estava por trás, juntamente com meus pais, na armação do meu noivado.
Suspirei ao lembrar de Pietro.
Não um suspiro apaixonado.
Daqueles que você dá quando lembra o quão fodida a vida é.
Mas acredite, ela pode ficar pior.
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