A Garota Sem Passado

11 Uma Tentativa Arriscada


— Você o beijou, Sadie. — Sussurrei para mim mesma, sozinha, no banheiro.

Muitas coisas confusas vinham acontecendo, mas esta foi a maior delas. Minha forma de lidar com sentimentos ainda era distinta demais. Minha vida era distinta demais, para ser honesta.

Havia tido a primeira lembrança com a minha mãe e não havia sido nada como eu esperava. Ao menos, que fosse naturalmente, durante um sonho ou vindo de algo dela e não quando eu estivesse beijando o... Bem, meu namorado. Eu ao menos tinha ideia que aquilo pudesse vir a acontecer com aquele tipo de toque, pensava que apenas nossas mãos poderiam fazer isso, mas, na verdade, eu não tinha certeza de mais nada agora.

— Sadie. — Ouço Dr. Reiser do lado de fora do banheiro. — Está pronta?

Respiro fundo e abro a porta. Nos sentamos, mas ainda não estava realmente pronta para conversar. Se ao menos eu conseguisse agir como se nada tivesse acontecido, eu não teria de encará-lo.

— Tem algo que queira me perguntar, Sadie? — Dr. Reiser se inclina.

Abri meus lábios, mas nada saiu deles. Meus olhos rodaram toda a sala menos os olhos dele. Eu era uma péssima mentirosa.

— Se não se sentir confortável, pode continuar mentindo para mim como toda consulta. — Dr. Reiser arruma seus formulários enquanto diz com toda a tranquilidade do mundo que sabia que eu estava mentindo para ele todo esse tempo.

Suspiro, frustrada e envergonhada.

— Seria bom, mas não certo. — digo negando com a cabeça. Tiro meus óculos e calculo meticulosamente o que devo dizer. — Hipoteticamente falando, é possível que alguém possa ter... Tomado minhas lembranças.

— É uma suposição bem... Criativa. — Ele se coloca a ouvidos.

— Então, supondo desta forma, como eu poderia consegui-las de volta? — pergunto em um folego.

O silencio era constrangedor, provavelmente me medicaria um anti-alucinogeno antes de dizer qualquer coisa.

— Eu não posso lhe dizer, querida. — Dr. Reiser torce os lábios. — Eu não sou nenhum especialista no assunto, sabe?

(...)

No horário de almoço, me dirigi a uma mesa sob uma arvore mal visitada, o lado de fora não era mais tão convidativo quanto no começo das aulas, quando o verão ainda se despedia. Gorros, luvas e cachecóis eram bem vindos com a breve chegada da neve em Kennedy.

Recebi uma notificação em meu celular, era um email. Não precisei encontrar Gaten, ele fez isso por mim, disse que minha conta estava logada em seu laptop e que havia recebido o email pela manhã, assim que eu cheguei na escola.

— Você já leu? — Gaten perguntou afobado.

— Você sabe que não. — digo com um sorriso ansioso.

Nos juntamos como duas crianças prestes a andar em uma montanha russa pela primeira vez, agarramos ambos os nossos pulsos e começamos a ler.

"Boa tarde Sr. Matarazzo e Srta. Sink, espero trazer respostas úteis a vocês. À sua primeira pergunta, devo dizer que o motivo para fazerem isso é o mistério que eu pretendo nunca desvendar, algumas coisas são melhores mantidas em segredo, concordam? Já à segunda pergunta, há varias maneiras de uma cessão acontecer, às vezes por um abraço, às vezes por um beijo, às vezes por um toque, mas sempre um contato físico com algum parentesco próximo ou o protegido. Às vezes é possível que o Guardião consiga exercer seus poderes em outras pessoas, apenas quando ele ainda está em fase de desenvolvimento, sendo esta, na maioria das vezes, na adolescência com duração de três a seis meses. Acerca da reversão do processo, ele é sim possível, mas nunca foi testado ou visto. Caso se refira a um Guardião da Morte ou do Futuro, esteja convicta de que ela não aconteça, coisas ruins podem acontecer ao revelar a morte ou o futuro ao seu protegido. Já aos outros cenários, peço que seja cuidadosa e paciente ao tentar revertê-los. Espero vocês com uma resposta para este teste.

PRR."

— Sabrina. — Gaten suspira.

— Thomas. — Murmuro minha primeira experiência como Guardiã.

— Quando aconteceu o ocorrido com Thomas? — Gaten pergunta enquanto forma uma linha de raciocínio.

— Dois meses, aproximadamente. — Ainda era difícil me lembrar.

— Ou seja, você ainda está em fase de desenvolvimento.

— Gaten, não. — Nego decidida.

— Eu também sou um Guardião, eu quero dizer, isso não estaria certo. É apenas uma hipótese.

— Não posso arriscar, Gaten. Você é meu melhor amigo, eu sou uma Guardiã da Morte.

— Você não tem certeza disso. Como é que você pode tocar as mãos de Caleb e não ver a morte dele?

— Eu não sei, tenho medo de nunca descobrir. — Suspiro frustrada.

— O que houve na festa? Noah disse que você estava com a mesma feição que na noite da trilha. — Era claro, aquela expressão.

— Eu o beijei. — Gaten deu um sorrisinho que pedia por mais detalhes. — É claro que tudo o que eu senti foi bom, até acontecer de novo. — Seu sorriso havia desaparecido. — Primeiro eu senti algo... Muito forte, era como se estivesse caindo de muito alto e percebesse que atingiria o chão logo. — Tentei descrever fielmente a sensação.

— Morte. — Ele sussurrou.

— Sim. — Murmurei com o ar descompassado que entrava e saia de meu peito.

Por que aquela sensação de morte vinha daquela lembrança? Por que era a mesma que na noite em que Caleb me salvou de cair do penhasco? Quando estava completamente ensanguentado e me implorando para ficar? O sinal tocou e eu ainda mal havia me recuperado da ultima palavra.

— Sexta, minha família vai visitar meu tio avô, direi que preciso estudar para uma prova, podemos terminar de uma vez por todas esta bagunça, eu prometo que nós vamos. — Ele me abraça com seu casaco espesso e acaricia minhas bochechas com as luvas.

(...)

Já era madrugada, a neve ainda caía densa do lado de fora. Não conseguia parar de pensar em como aquilo funcionava. Eu talvez não fosse uma Guardiã da Morte, como Gaten disse. Caleb tocava as minhas mãos e eu recuperava uma memoria, eu tocava as dele e o mesmo acontecia. Me lembro da noite em que ele quase me atropelou, quando tive de segurar sua mão enquanto sua mãe cuidava de meu ferimento. A sensação do calor, as flores ao redor de nossos corpos como um cobertor, e de olhar em seus olhos iluminados pelos últimos raios de sol daquele dia. Ainda não estava certa de que era uma lembrança, porque no fundo algo me dizia ser um presságio.

Sabia que seria arriscado, e que eu levaria o peso de uma morte pelo resto de minha vida caso estivesse errada. Bom, ou eu carregaria a culpa desta ou da minha própria sanidade.

Me enrolei em meu robe, e segui até o quarto de Noah silenciosamente. Teria de ser cautelosa, Noah era do tipo noturno, seu sono era extremamente desregulado, mas a esta altura, ele já deveria ter desistido, eram 3 da manhã. Chequei-o pelo vão da porta, e adentrei o quarto tão leve quanto uma pena.

Me ajoelhei ao lado de sua cama e agradeci por ele estar abraçando um dos travesseiros, infelizmente molhado com sua saliva. Me joguei no chão com uma mão contra a boca em um susto, mas ele estava apenas roncando. Me xinguei mentalmente e suspirei. Encarei seu rosto mais uma vez, com medo de que fosse me arrepender daquilo, mas fiz. Puxei sua mão cuidadosamente para que pudesse tocar nossas palmas e fechei meus olhos.

Eu estava tremendo por dentro, esperando que aquela sensação me arrebatasse novamente, mas não foi isso que aconteceu. Abri meus olhos e lá estavam Millie e Noah, na cachoeira Hartley. Estavam no lago, sozinhos. Tinha a sensação de companhia ao redor, mas muito longe. Eles brincavam como se ainda tivessem doze anos e em um gesto bobo e rápido eles ficam cara a cara, Noah agarra a cintura de Millie e começa a girar na agua, estava envergonhado com a situação e só a fez ficar mais constrangedora quando parou de girar e seus lábios se colidiram. Os dois se afastam ruborizados, mas Noah ainda não havia soltado Millie e ela o beijou, desta vez, por vontade própria e apaixonadamente.

Abro meus olhos, a escuridão do quarto me traz de volta a realidade. Noah tem um sorriso sereno no rosto, como se eu houvesse trazido aquilo aos seus sonhos. Um sorriso reflete em meu rosto também, eu não era uma Guardiã da Morte.