A Garota Sem Passado
12 Apenas Dar Uma Chance
As respostas começavam a aparecer vagarosamente. Nunca se resumia a uma palavra, sempre a um livro. Desde que toquei a mão de Noah, escondida em seu quarto, não fui mais capaz de ver o futuro ou lembranças de mais ninguém. Gaten, é claro, estava ciente de tudo embora tão confuso quanto eu, porque também não conseguia mais ter os sentimentos de outros. Era possível que nosso ciclo de desenvolvimento tivesse terminado, mas ainda existiria uma pergunta cuja única resposta seria alguém: quem eram os nossos protegidos?
Eu não queria ter de depender de um anônimo, mais uma vez para que eu pudesse ter o que era meu por direito. Além do mais, tinham coisas que ele nunca poderia me responder, apenas uma pessoa. Desde que Randy havia tirado sua licença, Caleb fingia que eu não existia e que nada havia acontecido. Se este era o jogo dele, eu não iria apostar.
Logo que ele fechou seu armário, prendeu o folego ao me ver parada bem ao lado dele.
— Não precisa dizer nada. Eu sei que estou encrencado. — Ele suspira, rendido.
— Por que acha isso? — Pergunto ironicamente.
— Posso te levar pra um lugar depois da aula? — Caleb se encosta no armário. — Quero dizer, para podermos conversar melhor sobre... Isso. — Ele dá ênfase a palavra. — Às seis, está bem por você?
— Eu... — Não tenho tempo de pensar bem, apenas concordo.
— Combinado então. — Caleb sai apressado.
Fico parada no corredor, pensando porque eu congelo toda vez.
Passei o dia todo pensando sobre aquilo. Eu nunca havia parado para ver de seu ponto. Será que ele sabia o mesmo que eu? Tinha ideia sobre o que acontecia toda vez que nossas mãos se tocavam? Será que via o mesmo que eu? Sentia o mesmo que eu? E se não entendesse? Com certeza me chamaria de louca, e eu era.
Mas eu precisava, de fato, contar tudo a ele e esperar que ele faça o mesmo.
A campainha toca e desço as escadas nas pontas das botas enquanto colocava meus protetores de ouvido. Noah havia saído com Millie e Gaten, e claro, eu já havia avisado Tio Mitchell, mas como todo bom responsável ele quis conversar com Caleb antes que fossemos.
— Podemos pular essa parte? — Imploro enquanto ele se aproxima para abrir a porta.
— De forma algu... Boa noite! — Tio Mitchell interrompe a si mesmo ao ver Caleb.
— Boa noite, Sr. Schnapp. — Caleb estende a mão.
— Nos conhecemos antes mesmo dessa mocinha ser minha responsabilidade, mas agora ela é. — Tio Mitchell coloca a mão sobre meu ombro. — Quero endereço e ela de volta antes das 11h, estamos entendidos? — Ele me dá caminho para a varanda.
— Com certeza, senhor. Do Rusty's de volta para cá. — Caleb finge que seu gorro é um chapéu e o abaixa.
— Até logo, Tio Mitch. — Dou um ultimo sorriso e puxo Caleb pra longe o quanto antes possível. — Rusty's?
— Você vai ver. — Ele sorri convencido.
Rusty's era um lugarzinho confortável, a moda americana. Era quente e o aroma de padarias frescas inundava todo o local. Assim que nos sentamos perto da janela, eu pude notar. Foi exatamente ali onde eu tirei aquela foto de Caleb. Me manti em silencio.
— Boa noite, posso anotar seu pedido? — O garçom perguntou.
— Claro, eu vou querer um Milkmento. — Caleb diz com naturalidade.
Eu não me lembrava ao menos de como fazer aquilo, Caleb olhou pra mim e disse:
— O mesmo pra ela. — Logo o garçom se foi. — Prometo que vai gostar.
— Obrigado por me salvar. — digo sorrindo.
— Não seria a primeira vez. — Caleb ri, e embora eu também tente, não consigo. — Olha, eu não quero que nada do que digamos aqui hoje, deixe as coisas estranhas entre nós, só pra constar.
— Eu não posso te garantir isso. — Me lembro de toda a baboseira que estou prestes a jogar sobre ele. — Eu descobri algo, há pouco tempo. E eu sei que pode parecer a maior loucura pra você, mas é a resposta mais viável que eu encontrei. Não vou te culpar se pensar que eu sou insana ou...
— Sadie, — Caleb toca minhas mãos tremulas sobre a mesa. — nada do que for dito aqui, sairá daqui.
Tomei um profundo fôlego.
— Quando eu estava na clinica, algo terrível aconteceu. Ele era apenas uma criança, minha melhor e única companhia, costumávamos brincar todas as tardes, e um dia, eu esperava que como qualquer outro, ele tocou minha mão e eu... Eu pensei o ter visto morrer, mas quando abri meus olhos ele continuava ali tão real quanto tudo aquilo. Eu passava as noites como vigia em seu quarto, apenas para me certificar que tudo aquilo não passava de uma ilusão minha. — Suspirei e engoli o choro. — Uma semana mais tarde ele morreu, exatamente na hora, lugar e como eu havia visto. Desde então eu vinha pensando estar amaldiçoada, até você tocar minha mão quando me salvou de cair do penhasco. Eu me lembrei do seu nome. Não porque eu o vi de relance em alguma lista de alunos, ou porque alguém disse sem que eu percebesse, mas sim porque nos tocamos. E novamente, enquanto estive apagada, tive este sonho onde você me encontrava completamente ensanguentada e me implorava para não morrer. — Ele abaixou a cabeça, como se soubesse de algo que eu não. — Venho tendo estas lembranças, sempre que eu especificamente tocava suas mãos. Então decidi procurar sobre isso. Era um site escrito por um anônimo, ele falava sobre alguma descendência angelical que algumas pessoas possuíam e por isso podiam fazer tal ato de guardar sentimentos, morte, futuro e... Passado. — Caleb não parecia descrente de tudo aquilo, na verdade, bem acostumado.
— Então você pensa que eu posso ser um destes "guardiões"? — Ele começa a brincar com suas luvas.
— Tudo bem, vá em frente e me chame de lou... — O pego me encarando, rindo ao mesmo tempo. — Escute aqui, você...
— Já sabia de tudo isso. — Caleb continua com o olhar cravado em mim enquanto tomava um gole do milkshake, desta vez, apenas passivo. — Quero dizer, uma parte sobre Thomas, e sobre os guardiões, e que eu sou o seu...
— Você o que? — Pergunto atordoada.
— Acho que você sabe bem que isso deve ser mantido em segredo para o nosso bem, certo? — Eu deduzia que sim.
— E como pode estar tão certo sobre isso? — Pergunto em um sussurro.
— Porque eu tenho uma fonte bem dentro da minha casa. — Caleb abaixa o tom na mesma medida que eu. — Minha mãe é uma Guardiã, Sadie.
— É claro, é hereditário. — Me jogo contra o assento. — Mas como sabe que eu sou a sua...
— Protegida? — Ele completa. — Eu não sei. Não toquei as mãos de mais ninguém depois de...
— Eu imagino que não deva ser... Confortável fazer isso. — Meus ombros estavam encolhidos.
— Assim como deve ser não se lembrar de nada. — Caleb baixa seu olhar.
— Eu sei que nada disso foi sua culpa.
— Na verdade, a cada dia que passa sem que eu te diga a verdade é uma culpa. Uma tormenta, Sadie. — Ele estava prestes a desabar ali mesmo, toquei sua mão cuidadosamente.
— Nós vamos encontrar um jeito de fazer isso, tudo bem? — digo me aproximando.
Eu mal podia imaginar quantas milhões de coisas se passavam pela sua mente agora. Mas principalmente a culpa, quão grande ela era.
— Eu não posso simplesmente jogar tudo isso em cima de você, assim, de uma só vez. — Ele diz como se não houvesse saída.
Mas não era verdade. Seria difícil dominar a pratica e poderia levar um tempo considerável, mas havia uma saída.
— Ei, — Levanto seu rosto com a ponta dos meus dedos. — eu não me importaria se nós tentássemos. Sabe, aos poucos.
— Eu não tenho controle sobre isso, Sadie. Pode ser perigoso. — Caleb me alerta.
— Vamos apenas dar uma chance, tudo bem?
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