A Garota De Bronte
25 XXIV
Notas iniciais
Nate estremeceu do meu lado.
Augustus cruzou as duas mãos em cima da mesa e fitou-nos misteriosamente.
- Que informações você acha que ele pode ter?
Nate pousou a mão em cima da minha perna por debaixo da mesa. Meus olhos voaram até Marietta que estava do outro lado do refeitório, discutindo com algum aluno. Eu gostava muito de Nate, mas não aceitaria esse tipo de tratamento precoce. Poderia morrer amanhã, mas não deixaria um garoto pegar na minha perna só porque deixei que me beijasse. Peguei a mão de Nate discretamente e a coloquei em cima do banco, no seu devido lugar. Vi Nate olhando para mim pela visão periférica. Ele sorriu discretamente.
- Ele disse para mim, no dia que o assassino colocou este bilhete nos meus livros... – enfiei a mão no bolso da saia e o bilhete estava lá, do jeito que deixei. Desdobrei e coloquei sobre a mesa. – Que eu me parecia muito com a minha mãe.
- Sobre este bilhete Jacey... – Augustus começou.
-... O bilhete não importa. – Interrompi. – Se ele conhecia a minha mãe, ele pode saber de alguma coisa que não sabemos.
Augustus assentiu, ele olhou para mim com aqueles olhos lindos e se levantou. Hoje ele vestia uma camiseta preta e calças um pouco folgadas, pronto para dar golpes mortais. Fiquei o imaginando em ação. Augustus me defenderia com todo o prazer se o agressor fosse Nate. Com certeza. – É... Jacey, o bilhete, bom...
- O bilhete é só alguma brincadeira idiota. – Eu disse, tentando ignorar.
- Na verdade, fui eu que coloquei dentro do seu caderno.
Senti uma pontada de raiva. Nate não pareceu surpreso.
- O quê? – Eu deveria estar com uma cara imensa de idiota. – Por quê?
- Eu precisava parar você, achei que aquilo poderia te deixar com medo.
- Sim, aquilo me deixou com medo.
- Desculpe.
Fechei os punhos com força e contei até 10. O professor de teatro me ensinara aquela técnica para quando ficarmos com raiva dos companheiros de cena. Eu queria voar no pescoço de Augustus. Se ele soubesse a quão irritada eu fiquei quando encontrei aquele papel dentro do meu livro... Fiquei pensando tantas coisas... Fiquei com tanto medo... – Era só me falar, que estava preocupado ou algo assim.
Ele riu. – Jacey, se eu falasse você diria que é besteira, ou iria dizer que eu sou preocupado demais.
- Claro que não!
- Sim, você iria. – Nate entrou na conversa. – Desta vez eu concordo com Augustus. Mas só desta vez.
- De que lado você está? – Eu me virei para Nate, irritada. Senti minhas orelhas esquentarem.
Augustus sorriu para Nate e balançou a cabeça.
- Aposto que iria dizer algo do tipo – Nate levantou as mãos na altura dos ombros e empinou a coluna, ele estava me imitando. Não estava dando muito certo, pelo menos no meu ponto de vista. – “Eu sei o que estou fazendo, para de cuidar da minha vida! Não se meta nos meus problemas” e blá-blá-blá...
Augustus gargalhou, Nate o acompanhou. Embora eu estivesse gostando de ver os dois rindo em conjunto, a ideia de que o alvo da piada fosse eu não me agradava em nada. Era uma imagem surreal vê-los se divertindo em conjunto. Por um momento, desejei que os dois fossem amigos, mas seria muito mais difícil ter que escolher um se isso acontecesse. – Pare de rir de mim. Isso só está piorando as coisas para o seu lado Augustus. – Virei-me para Nate. – E você, fique calado.
- Eu já pedi desculpas. – Disse com as mãos levantadas em sinal de rendição.
- Augustus, se você soubesse as coisas que eu estava pensando... Eu cheguei a pensar na ideia de trocar a fechadura do meu dormitório, com medo de que o assassino tivesse uma cópia da chave do meu quarto.
- As coisas estão ficando feias para o seu lado... – Nate provocou Augustus. Perguntei-me por que os dois não podiam viver em paz sem alfinetar um ao outro. Às vezes os garotos são tão infantis.
Apoiei a testa nas mãos e respirei fundo.
- Fique na sua, Glantz. – Responde Augustus, ríspido. Ele cruzou os braços e a pequena veia na sua testa ficou um pouquinho saltada.
Senti Nate se agitar no banco para falar e...
- Ai. Meu. Deus. – Libby surgiu ao lado de Augustus. Os óculos dela estavam tortos e ela estava com um sorriso bobo no rosto. – O Peter disse umas coisas tão fofas.
Revirei os olhos. Nate e Augustus se voltaram surpresos para Libby, pareciam ter esquecido que há cinco segundos queriam destruir um ao outro.
- O Peter, Libby? – Nate perguntou perplexo. – Você não pode estar realmente falando sério, né? – Ele olhou para ela e franziu as sobrancelhas.
Ela assentiu e sorriu mais ainda, seus cachos cor de cenoura pularam. – Sim, sim. Ele foi tão gentil e eu nunca pensei que ele pudesse gostar de alguém como eu. – Ela cruzou as mãos na altura das maçãs do rosto.
- Desculpe Libby, mas eu ainda acho que ele não é a pessoa certa para você. – Eu disse. Precisava proteger Libby de Peter, ele não era o tipo de garoto confiável. Que cuidaria da namorada com todo carinho. No fundo eu tinha medo de que Peter estivesse querendo tirar uma com a cara de Libby.
Ela entortou o rosto e o sorriso dela de repente morreu. – Eu pensei que você fosse me apoiar ou algo assim sabe? Coisas de amigas. – Ela juntou as pequenas mãos em frente a barriga e apertou os dedos.
Senti uma pontada de culpa e de arrependimento, de ter dito isso para Libby. Ela era sensível demais. Deveria ter sido mais indireta, mas as palavras saltam da minha boca antes que eu possa pensar duas vezes. – Desculpe Libby, faça o que quiser, eu não queria te chatear ou algo assim. Se você gosta dele, vá em frente. Mas eu acho que isso não vai acabar bem. Acho que você sabe do que eu estou falando.
Ela balançou a cabeça e sorriu um pouco tímida, depois apontou para os garotos e enrolou os dedos em um sinal de “depois conversamos sobre isso”.
Augustus e Nate reviraram os olhos.
- Garotas... – Disse Augustus.
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- Tem certeza de que não pode vir? – Eu perguntei pela quarta ou quinta vez para Libby.
- Absoluta, Jacey. Preciso visitar a Natalie. Alyss está se sentindo muito mal ainda e eu quero dar esse apoio a ela. Não acho que as pessoas gostam de se sentirem sozinhas nestas ocasiões... – Ela ajeitou os óculos e passou as mãos pelo cabelo curto. – Quer que eu mande um alô seu para as duas? Se quiser escrever um bilhete ou algo assim, Natalie gosta de cartas.
- Sim, eu adoraria mas agora estou sem tempo. Mande um alô para elas. – Queria ir com Libby visitar Natalie. Realmente, ela e Alyss precisavam do nosso apoio naquele momento. Mas eu tinha até amanhã para tentar salvar a minha própria pele e Alyss e Natalie poderiam esperar. – E diga a Natalie que eu não esqueci o que prometi a ela.
Libby inclinou a cabeça para a direita e me olhou confusa. Era a segunda vez que ela me lembrava um filhote de cachorro fofinho. – Do que você está falando?
- Não é nada. É coisa nossa. Depois conversamos sobre isso. – Me despedi com um aceno de mão.
- Ok. – Ela virou as costas sorrindo e saltitou até o guarda mais próximo.
Augustus e Nate se posicionaram um de cada lado, mantendo-se o mais longe um do outro possível, um do lado esquerdo e o outro do lado direito, respectivamente. Observamos Libby sumir junto com um guarda, uma cabeça e meia mais alto que ela, virando a esquina depois de um corredor árvores.
- Está bem. Onde o seu professor está? – Augustus perguntou a mim.
Eu não fazia a mínima ideia. Pensei em vários lugares que ele poderia estar. A diretora avisou que teria que fechar a escola então era provável que ele esteja arrumando os pertences da sala. Descartei logo a ideia. Ainda era cedo demais para encaixotar todas as coisas e vazar dali, por maior que seja a força de vontade. Ele poderia estar na sua sala, preparando projetos ou algo assim, coisas de professores.
- Acho que deveríamos procurá-lo no setor onde os professores dormem. – Nate respondeu por mim. – Eu sei onde fica. – Ele saiu andando a esmo.
Augustus olhou curioso para ele e depois o seguiu. O que será que ele estava pensando?
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O setor consistia em duas fileiras com casas simples de madeira e uma rua estreita de terra no meio. Era praticamente fora do internato, tivemos que andar em uma estrada de terra de aproximadamente meio quilômetro entre uma pequena floresta. Quando cheguei lá, eu estava com pequenas gotinhas de suor na nuca e as bochechas vermelhas. Nate e Augustus não estavam nem respirando ofegantes. O preparo físico dos dois era invejável. Talvez eu devesse parar de faltar às aulas de educação física. “Se eu não morrer, é claro, nunca mais faltarei.” Pensei. Ter uma sentença de morte é isso; dar valor às pequenas coisas, por mais insignificantes que elas possam parecer.
- Que lugar isolado. – Augustus observou. Ele colocou as mãos na cintura e olhou para cima, em direção as árvores. Seu pomo de adão subiu e desceu. Censurei-me por pensar no quanto ele era bonito... E forte...
- Acho que é melhor irmos logo. – Nate disse, me lembrando de que ele ainda estava lá.
- Faz todo sentido ser isolado. Nenhum professor iria querer dormir perto de onde os alunos dormem. Adolescentes costumam pichar carros de professores. – E era verdade. Eu fazia isso quase todos os semestres com uma professora irritante de matemática. Ainda sinto raiva dela quando me castigava com notas baixas por causa do meu mau comportamento. Como eu sentia saudades daquele tempo, quando meus problemas giravam em torno de discussões com professores e quebra de regulamento...
- Sim. – Augustus empurrou a minha cintura para que eu começasse a andar em direção às casinhas em cada lado da estrada. Nate estava olhando para o outro lado.
Andamos um bom pedaço até encontrar o professor sentado na varanda, lendo um jornal da semana passada. O cabelo preto e lustroso dele estava arrumado do mesmo jeito de sempre. Mas ele não usava o sobretudo preto e nem o lenço branco. Era estranho vê-lo de roupão lilás e chinelos felpudos.
- O que traz vocês aqui? – Ele disse, sua voz estava estranha, forçada.
- Eu tenho alguns assuntos a tratar com você... – Eu esfreguei as mãos atrás do corpo e subi um degrau da varanda. O professor se levantou, aquela imagem o fez parecer ter cinquenta anos, a idade que não aparentava dentro das salas de aula.
- Diga. – Ele disse, apenas. Nate estava estralando os dedos da mão, um de cada vez e Augustus observava tudo, ansioso para absorver todos os detalhes.
Subi outro degrau, agora estava longe do sol. Aquela casa tinha um cheiro de frutas silvestres e o ar estava fresco. Da onde eu estava, conseguia ver dentro da casa do professor Johnatan Richard. Era uma casa simples, com pouca mobília. A porta estava aberta e eu pude ver vários retratos em cima de uma mesa e vários outros colados nas paredes. Eram fotos antigas, dava para ver por causa do efeito do tempo no papel, algumas em preto e branco. Notei uma pequena boneca sentada em uma de um relógio de madeira maciça. Nunca pensei Richard sendo um pai ou tendo filhos. Provavelmente esta filha que ele teve, deve estar com seus vinte anos, na universidade ou até mesmo formada trabalhando em alguma coisa que orgulhasse o pai. Não me lembro também de ter visto aliança na mão do professor ou menção a uma esposa. Afastei os pensamentos e foquei no verdadeiro motivo de ter vindo.
Respirei fundo e as palavras escaparam da minha boca como se fossem ensaiadas. – Quero saber o que você sabe sobre a minha mãe e sobre os anos em que ela estudou aqui.
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