Notas iniciais
Espero que gostem

O professor se mexeu um pouco inquieto e fez menção para que Nate, Augustus e eu subíssemos e nos sentássemos nas amuradas em frente a ele.

- Conheci Rebecca no meu primeiro ano que comecei a dar aulas aqui. Naquela época a diretora Lotts não era tão criteriosa como era ano passado antes de cair enferma no hospital. – Ele cruzou os dedos em cima do colo. – A sua mãe era muito parecida com você, no sentido de ser curiosa e muito engenhosa para alguns assuntos, entretanto de longe a sua personalidade é totalmente diferente da dela. – O que ele queria dizer com isso? – A sua mãe era um doce com alguns colegas e professores, muito gentil. Mas odiava o internato do fundo do coração. Fiz o que pude para fazê-la se sentir daqui. No fim, acabou funcionando.

Isso ele já tinha me contado. Aquilo não me era diferente ou novo. Não me fazia pensar em nada que ela tenha feito de errado. Embora eu tenha feito amigos aqui, isso não muda o fato de que eu continuo odiando este internato com todas as minhas forças.

- Com os anos, ela foi fazendo mais amizades, criando mais laços com alguns colegas da sala, entende? Foi “crescendo” dentro da escola. – ele fez uma pausa. – Você sabia que ela chegou até a fazer parte do comitê de boas-vindas no terceiro ano?

Uau. Aquilo foi uma enorme surpresa pra mim. Pelo que Libby tinha dito no primeiro dia de aula, e pelo que observei no decorrer dos dias, para participar do comitê deve-se ter tantos méritos que só os melhores alunos conseguem estas posições. É quase uma missão impossível. Os alunos do comitê de boas-vindas são responsáveis por organizar a maioria das atividades extras da escola, como decorações no inicio do ano, designs para os uniformes de líder de torcida, produção de lembrancinhas e também são responsáveis para as organizações temáticas de eventos. Enfim são os gênios do internato. Eles são caracterizados pelo uniforme azul, e não vermelho. Conheço uma aluna do comitê de boas-vindas. Ela se chama Cecília, e é um doce na maior parte do tempo, mas é perfeccionista e muito orgulhosa.

- No meio do primeiro semestre do último ano, Rebecca virou amiga de Catelyn Cast e de Amélia Weightwood. As três se tornaram grandes amigas e não demorou muito para que se tornassem o auge da popularidade do internato. – Minha mãe era popular então eu ser também não era só por pura coincidência. Era genético, está no meu sangue. – Bom como vocês devem saber, Catelyn se apaixonou por Benjamin Turner, os alunos o chamavam apenas de Ben. Vocês jovens de hoje diriam que ele era o mais irado da escola. – Quem, em pleno século XXI, ainda fala “irado”? – E claro, ele tinha um amigo. Connor Allen. Como devem ter deduzido, Connor e Amélia ficaram juntos e se não me engano ela engravidou precocemente alguns meses depois de se formar. Não sei bem o que aconteceu depois, mas Catelyn e Bem terminaram um dia depois da formatura, por motivos que desconheço. Adolescentes são inconstantes, não há como prever o próximo passo.

- Amélia não é o nome da mãe da Penny? – Augustus perguntou. Até ali eu não sabia o nome dela.

- É, sim. – Nate confirmou.

- Uau eles namoram desde o colegial... Isso é que é amor verdadeiro. – disse em voz alta.

- Às vezes o tempo nos mostra quem as pessoas são. E acabamos nos cansando delas e elas de nós. – Richard disse, sua voz estava amarga. Ele levantou as sobrancelhas e continuou. – Bom, depois da formatura eu nunca mais vi sua mãe, nem seus amigos. Até o dia que Amélia veio até aqui para tentar pegar o corpo da filha.

- Você não sabe se eles fizeram alguma coisa estranha durantes estes anos? – Augustus perguntou.

Richard balançou a cabeça, ele desviou os olhos para o alto. – Não me lembro de nada detalhadamente, mas sei que não me orgulho muito da minha antiga turma. – A sua expressão ficou dura. Havia mais coisas escondidas ali que ele não queria falar, com certeza.

- Obrigada professor Richard. Vamos embora agora, se não se importa. – Eu agradeci e me levantei.

- Não há de quê. – Ele acenou com a cabeça e antes que me virasse, chamou-me. – Acho curioso... Por que você quer saber sobre isso, Jacey?

- Quero saber um pouco mais sobre a minha mãe. – Menti. – E sobre as coisas que ela andou aprontando quando estudei aqui.

Ele não pareceu acreditar. A minha desculpa servia perfeitamente para a ocasião, não havia por que questionar... A menos a pergunta brilhante que Augustus fez. Quis esmurrá-lo ali mesmo. Ele entregara o nosso plano. Por sorte, Richard não insistiu em nada, apenas balançou a cabeça e sorriu. Não importava se ele desconfiasse, pensei, ele não faria nada.
Despedimos-nos mais uma vez e seguimos reto para fora da estrada de terra.

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- Ele está escondendo algo. – Eu disse. – É claro que ele sabe de alguma coisa e não quis contar. E sei que é isso que precisamos saber para resolver esse maldito quebra-cabeça de uma vez por todas.

- Sim, ele mentiu algumas vezes também. – Augustus disse.

- Bom, se a sua mãe fez alguma coisa de errado, provavelmente deve estar na sua ficha escolar, não acha? – Nate falou. – Eles costumam anotar as coisas na ficha dos alunos e...

- Nate você é brilhante. – Quis beijá-lo ali mesmo. Era isso que eu gostava em Nate, a sua engenhosidade.

- Obrigado, mas eu sei disso. – Ele sorriu, aquele sorriso metidinho de lado que eu conhecia desde o meu primeiro dia de aula aqui. Aprendi a gostar dele com o tempo.

Augustus virou o rosto para o outro lado.
— Então faremos o que agora? Quer invadir os dados da escola para pegar a ficha da sua mãe? Bom, eu duvido que eles vão deixar você entrar.

Eu tive uma ideia de repente. – Eles não precisam deixar. Podemos entrar pelos túneis e sairemos no prédio da administração. – Só de pensar em entrar nos túneis já me deixava apreensiva. Eu não gostava da sensação de ficar metros abaixo da terra longe, da superfície. Mas era necessário e eu não corria risco algum, minha vida estava nas mãos de Nate até sábado ao pôr do sol. E Augustus tinha uma arma e era um ninja loiro sedutor, fora que Nate também parecia ser bom em lutas corpo a corpo.

- Não quero que você ande por lá. – Disse Nate. – É perigoso e você sabe muito bem o que aconteceu com a gente.

- Jacey, você é uma louca suicida. – Augustus colocou a mão no cabo da pistola presa ao seu cinto enquanto falava. – Tenho uma arma. Posso atirar caso alguém nos faça algum mal. – Ele se virou para Nate. – Está com medo, Nathan?

Primeiramente, vi Nate fuzilando Augustus com os olhos, depois ele sorriu e uma chama de desafio e aventura queimou pela sua íris. – Claro que não. – Ele colocou a s mãos nos bolsos da calça. – Está bem, mas como vamos entrar nos túneis?

Pensamos por alguns minutos e me lembrei de que os túneis existiam em todos os lugares abaixo da escola. Qualquer saída de esgoto ou de água cairia lá.

- Nate, qual é o prédio mais próximo?

- Acho que é o dormitório dos garotos. – Ele olhou para mim e eu dei um sorriso insano.

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- Por aqui. – Augustus abaixou para ajudar Nate a subir até o parapeito da janela do seu quarto. Ele se esticou a abriu a janela com um empurrão, depois entrou no dormitório e jogou uma corda. Onde ele havia arrumado aquilo? Não faço ideia, mas deduzi que Nate costumava sair sempre do seu dormitório de noite.
Nós dois subimos, Augustus na frente.
O quarto de Nate era exatamente igual ao meu, exceto pelas cuecas jogadas em cima da cama e algumas meias empilhadas com camisetas do uniforme no canto perto da cômoda. Um típico quarto de garoto. Augustus estava horrorizado com a bagunça, a sua face de repulsa era tão engraçada que tive que morder a língua para não rir. Será que Augustus era o tipo de garoto organizado que separava as camisetas por cor dentro do guarda-roupa?

- Pega isso. – Nate jogou uma bolsa velha com cheiro de mofo. – Acho que pode ser útil.

Peguei a bolsa carteiro vazia e pendurei no ombro.

Saímos pelo corredor e corremos para dentro do banheiro dos garotos do primeiro ano. Era tudo muito parecido com o dormitório das garotas, exceto pelo cheiro de perfume de menino impregnando o ar.
Ouvimos passos no corredor e vozes.

- Rápido, para dentro. – Nate me empurrou para dentro de uma das cabines de chuveiros. Augustus entrou na cabine ao lado.

- Quem está ai? – Era Peter falando. – Acho que vi alguma coisa. – ele disse mais baixo para o garoto que estava com ele.

- Sou eu, o Nate. – De repente, Nate me empurrou para a parte mais longe da porta e ligou o chuveiro.

A água começou a cair do meu lado e do lado de Nate. Eu não podia ficar perto da porta ou eles veriam os meus sapatos. Tive que ficar praticamente atrás do chuveiro. Em dez segundos, meus sapatos já estavam encharcados. Em trinta, a barra da minha saia também estaria.

- Quem toma banho a essa hora do dia? – Peter perguntou.

- Quando todos estão em outros lugares... – Andrew interveio.

- E quando não há ninguém para ouvir...

- Muito esperto Nate...

- Cale a boca vocês dois. – Nate disse, rindo.

- Não sabíamos que você sabia fazer esse tipo de coisa... – Peter começou.

- Não sabíamos, mas será que a sua namorada sabe? – Andrew continuou.

- Se estão tão preocupados se eu sei ou não fazer porque não vêm aqui fazer por mim? – Nate respondeu.

Se Nate não estivesse com a mão na minha boca, eu teria gargalhado ali mesmo. Nate sorria como um bobo para mim.

Ouço risadas dos garotos de fora, um barulho de água e depois Peter diz em voz alta. – Boa batida, Nathan! – e ouvimos a porta bater.

A porta de Augustus abre e ele diz – Já podem sair.

Saímos da cabine e Nate nos guia até um alçapão de ferro no canto do banheiro. A tampa já estava destrancada, ele apenas a puxa para fora e estende o braço.

- Primeiro as damas.

- Eu não vou ficar lá embaixo sozinha. – recusei de imediato.

- Eu vou primeiro. – Diz Augustus. Ele lança um olhar desconfiado para Nate e depois desce as escadas. Lá de baixo ele diz – Podem descer.

Eu coloquei uma das pernas dentro do alçapão e encontrei a escada com o pé, desci alguns degraus e pude ver Nate lá em cima, bem pequenininho, sorri para ele e o maldito sapato molhado do colégio escorregou da escada cheia de lodo. Senti um frio na barriga quando cai, mas Augustus conseguiu me segurar a tempo. Não exatamente porque cai em cima dele e acertei um dos cotovelos no seu ombro. Ele riu e me ajudou a ficar de pé.
Depois de dois minutos, Nate já tinha descido e estava ao nosso lado.

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Andamos alguns metros ou quilômetros embaixo do internato. Em alguns trechos, havia lâmpadas, em outros, um breu total. Tentamos seguir as placas, mas a maioria estava desgastada com o tempo e com a umidade ali debaixo. Augustus carregava uma lanterna na frente.
Os túneis eram frios e cheios de baratas e ratos. Em alguns lugares, o cheiro era só de terra, em outros fedia a mofo e a fezes de animais. Água pingava em pequenas poças, ecoando por toda a extensão. Quando chegamos a um trecho que conhecia, meu cérebro viveu um déjà vu. Na noite que Nate e eu quase morremos de terror aqui embaixo. Mais alguns passos e chegaríamos ao alçapão do depósito. Notei que as luzes, que antes estavam apagadas, voltaram a se acender. Fiquei com medo de que se apagassem, uma a uma, novamente. Enchi os pulmões com o cheiro úmido do túnel e segui em frente corajosamente. Encontrei a escada para o alçapão.

Augustus empurrou o alçapão e ele se abriu facilmente. Subimos na sala e começamos a procurar pelas caixas com arquivos.

- Ali! – Nate apontou para uma enorme pilha de caixas. Não foi difícil encontrar os arquivos. Aquela sala era um depósito para todos os tipos de coisa.
Eram muitos nomes e estavam separados em anos e em ordem alfabética. Algumas caixas estavam com as etiquetas apagadas e sofremos muito para decifrá-las. Augustus segurava a lanterna enquanto eu folheava as pastas de alguns alunos do ano de 1989, 1990 e 1991. Encontrei a pasta de Amélia Allen e sabia que estava na turma certa. Pensei duas vezes e peguei a pasta dela também.

- Segure. Vamos levar para comparar depois. – Eu entreguei a pasta na mão de Augustus.

Encontrei também a pasta de Benjamin, seguida pela de Catelyn e depois, a de Connor. A da minha mãe era uma das últimas. Eram aproximadamente oitenta pastas para cada série de cada ano. Peguei as pastas dos cinco alunos, enfiei todas dentro da bolsa carteiro.

- Vamos voltar antes que sintam a nossa falta. – Eu disse. – Podemos checar isso direito quando voltarmos.

Pegamos as pastas e voltamos para os túneis. Tentamos abrir a porta para sair pela sala da administração, mas estava trancada. A única saída era por onde entramos. Caminhamos pelos corredores subterrâneos e decidimos sair pela saída mais próxima que encontrássemos.

- Tem uma saída ali. – Augustus mirou a lanterna para um corredor sem lâmpadas.

- Não estou vendo nada. – Eu observei. Mas aquilo era mais que óbvio.

Augustus me puxou e me colocou na frente do corredor. – Está sentindo? É cheiro de comida. Provavelmente vai sair nas cozinhas.

Realmente, podia sentir o cheiro de frango. Lembrei-me da noite de ontem, provavelmente o assassino usara aquela saída.

- Não é uma boa ideia. – Nate disse.

- Porque não? – Augustus questionou.

- Já cumpri detenção na cozinha. – Ele fez uma pausa e olhou para mim. Seus olhos eram macabros no escuro. – Há uma tampa de ferro no meio da cozinha. As pessoas não vão achar nem um pouco estranho três adolescentes surgindo do esgoto no meio da cozinha.

- É verdade. Vamos procurar outra saída.

Andamos mais alguns minutos e senti uma breve corrente de ar. Avisei os garotos e subimos uma pequena escada em um corredor mais mal iluminado que o primeiro e saímos dentro do vestiário de uma das quadras poliesportivas do prédio de aulas.

Notas finais
Estamos chegando ao fim D: só mais 5 capítulos