A Garota De Bronte
22 XXI
Notas iniciais
As arquibancadas viraram um pandemônio. Todos os alunos resolveram correr para a mesma saída ao mesmo tempo. Augustus me empurrou para cima, junto com Libby. Ele sacou a arma e a mesma já estava pronta para atirar em quem quer que fosse. Pude ouvir alunos chorando e gritando desesperadamente, o que não me ajudava em nada. Entre uma fresta de banco ou outra, vi alunos sendo pisoteados, alguns desmaiados e com ferimentos, outros mais infelizes com os membros retorcidos em ângulos estranhos. Afastei o pensamento de que poderiam estar mortos.
Eu sabia que não era uma boa ideia realizar um jogo em uma escola que estava acontecendo assassinatos em série. Ainda não faço ideia de como o diretor do outro colégio permitiu que seus alunos viessem jogar aqui. De fato, estava mais preocupada com a minha vida do que com os estudantes da Stoneclock do outro lado da arquibancada. Que pareciam ainda mais desesperados que nós.
Augustus pediu para que andássemos abaixadas. Assim dificultaria para que fossemos vistas. Alunas corriam desesperadamente, gritando e chorando. Alguns alunos ainda se mantinham aglomerados no centro do campo tentando ajudar a retirar o corpo baleado da frente. Os alunos estavam em estado de pânico. Ouvi mais um disparo, que fez aumentar mais ainda a confusão. Os que paravam para olhar, foram levados pela multidão.
Eu tentei me levantar, mas Augustus me empurrou gentilmente. – Fique abaixada. Já vamos sair daqui. – Eu havia visto Nate correndo na mesma direção do disparo. Será que foi ele quem atirou? Embora eu não tenha visto quem foi baleado, tinha noventa por cento de certeza de ter sido Jacob. Mas... Será que ele morrera? Eu não podia levantar e ir lá checar. Mesmo que sobrevivesse sem ser pisoteada, arrastada e empurrada até chegar ao campo. Outras pessoas fariam isso por mim, não compre uma briga que não pode ganhar. Essa, com certeza, era uma delas.
Libby tremia de medo na minha frente.
– Libby, fica calma. – Eu segurei sua mão fria. – Eu to aqui. Augustus também. Vamos ficar bem. – Eu não estava muito confiante disso porque me controlava por dentro para não chorar. E cá entre nós, eu tinha mais chances de morrer do que ela.
– Eu... – Ela fechou os olhos com força. – Eu quero sair daqui. – Libby apertou a minha mão como se fosse o ultimo resquício de esperança. Os cachos dela caiam-lhe pelo rosto. A visão era fantasmagórica.
– Nós vamos sair daqui. – Eu me virei para olhar para Augustus. Ele estendeu a mão.
– Vamos.
Libby, Augustus e eu corremos para a porta de incêndio que ficava mais próxima. Alguns alunos ainda corriam desesperados com sangue e ferimentos leves. Uma preocupação com relação à Alyss e Natalie passou rapidamente por mim. Libby chorava em silêncio, ainda apertando forte a minha mão. Augustus ia à frente com a arma. Algumas pessoas olhavam com cautela para a arma e saiam de perto gritando, achando que ele fora o culpado do disparo. O que nos fazia descer as escadarias ainda mais depressa.
Quando terminamos de descer as escadas, Augustus chutou a porta de saída e caímos no jardim de frente para as quadras onde havíamos estado na noite anterior.
Nate esperava em cima de uma árvore.
Augustus correu até ele, puxou-o pela gola da camisa e colocou a arma no seu queixo. Eu gritei o mais alto que pude para que parassem. Libby ao meu lado gritou também e caiu de joelhos.
– Augustus! Para! Solta ele! – Eu puxava o seu braço para longe da gola da camiseta de Nate. Entretanto, ele era firme como uma rocha. Ou eu que era fraca demais. – Por favor! Nós podemos conversar! – Augustus me empurrou para trás de si.
– Fique longe dele Jacey. – Ele cuspiu a palavra “dele” como se fosse “câncer” ou “pedófilo”.
Nate não disse nada por alguns segundos que pareciam décadas, o que piorava as minhas suspeitas. Ele apenas encarava os olhos azuis de Augustus. – Você sabe que não fui eu. Pare com este teatrinho idiota.
Augustus pressionou a pistola mais fundo no maxilar de Nate. – Aé? Veremos... O que você estava fazendo correndo lá em cima?
– Correndo para a saída. – Nate dissera. Seus olhos ainda fixos nos de Augustus.
– Sim, claro. – Augustus disse, sarcástico. – Onde escondeu a arma? O que era? Pelo som diria que foi um rifle dos bons.
– Augustus! Chega! – Eu comecei a dar socos nas costas dele. – Solta ele! – Eu gritava e chorava ao mesmo tempo. Sentia-me como uma criança birrenta esmurrando uma parede.
Nate manteve silêncio. Na verdade os dois estavam quietos. Um encarava o outro como se ambos estivessem tentando encontrar uma falha. Medindo forças. Como quem seria o primeiro a desviar o olhar. Coisas de garotos metidos a machão.
– Mas que diabos está acontecendo aqui!? – Era o professor Richard. Ele estava com os cabelos bagunçados e o seu lenço branco estava sujo de coca-cola. Havia chocolate na face dele e o sobretudo estava sujo. Pela sua cara de desespero, deduzi que acabara de sair pela saída de incêndio. – Solte logo esse garoto!
Augustus soltou Nate e o empurrou, ele bateu as costas na árvore e soltou um gemido de dor. A sua ferida. Corri para abraçá-lo. Não me virei para ver a reação de Augustus porque já tinha uma ideia da expressão de desgosto.
– Por favor, diga que não foi você que atirou. – Minha voz saiu abafada rente a sua camisa. Nate tinha cheiro de algo parecido como serragem e pinho. Como se ele passasse horas em uma floresta. – Por favor.
– Não fui eu. Juro. – Ele me apertou forte. – Não sou o culpado por isso Jay, não desconfie de mim. – Nate deu um beijo em minha testa, igual quando foi no refeitório. O mundo poderia acabar ali e agora. Eu estava segura nos braços de Nate. Ele sabia o que se passava e embora tudo estivesse desmoronando, ele poderia me manter segura de um jeito que Augustus não entendia. – Eu não mentiria para você Fiona, vai que me serve para o jantar?
– Nate, me desculpe. – Eu disse ignorando completamente a piada fora de hora. – Por tudo. – Mais lágrimas saíram dos meus olhos. – Oh meu deus eu não paro de chorar desde que cheguei aqui, você viu em quem ele atirou? – Eu me afastei dele.
Nate ainda olhava para Augustus de canto, que ainda não havia guardado a pistola, muito pelo contrário, ele apertava o cabo da arma imaginando ser o pescoço de Nate. – Vi, acertou Jacob. No peito. Como havíamos deduzido.
– Pobre jovem... – Richard ainda estava parado lá, eu nem teria percebido se não tivesse falado. – Guarde essa arma garoto! Ou vão começar a suspeitar de você. E é melhor pararem com as ameaças aqui. Voltem para dentro do colégio. – Ele nos mandou de volta para a entrada do colégio, atravessou a porta de incêndio e subiu para a quadra.
Libby estava secando algumas lágrimas, ela segurou a minha mão e a de Nate. Augustus estava andando do meu lado, furioso, ele evitava olhar para mim. O clima estava tão pesado que nem mesmo eu tive coragem de quebrar o silêncio.
Nate pegou Libby pelos ombros e andou um pouco mais para trás, dizendo coisas engraçadas para que esboçasse um sorriso, nem que seja o menor deles. O motivo real era para que eu tentasse esfriar a cabeça de Augustus.
– Ei. – Eu disse. Ele virou o rosto para o outro lado. – Psiu. – disse novamente. – Para de me ignorar.
Augustus virou e olhou fundo nos meus olhos. Senti minhas pernas fraquejarem. De todas as vezes, nunca o tinha visto tão sério. Nem mesmo quando bati a porta na cara dele no dia que fui dormir no quarto de Libby. – Se você quer dizer que eu sou precipitado ou exagerado e que não gostou da minha atitude tudo bem! Vá em frente! Pode falar! Eu estou tendo um péssimo dia mesmo, acho que piorar um pouco mais não fará diferença. Quando aceitei esse emprego estava pensando que meus piores problemas envolveriam levar tiros, me jogar no asfalto, quebrar alguns ossos ou coisa do tipo. Nunca imaginei que tomar conta de uma garota alguns anos mais jovem fosse dar tanta dor de cabeça! – Definitivamente, não conhecia esse lado de Augustus. – Você é tão... Difícil de lidar!
Sim, eu estava chateada com Augustus por ele ter enfiado uma arma no queixo do meu amigo. Mas entendia que os dois não se gostavam. Augustus prometeu que não iria mais misturar o profissional com o pessoal, mas pelo jeito, ele estava procurando uma porta para resolver os dois problemas de uma vez. Assim, botando a culpa toda em Nate. – Eu sou difícil de lidar? Augustus, você é que está dificultando as coisas. Olha, eu sei que você está apaixonado por mim, mas não precisa justificar o seu ciúme tentando incriminar Nate. – Fui direta. Me arrependi dois segundos depois.
Ele olhou confuso para mim. – Jacey! Não é ciúme. Por que você acha que eu teria ciúme dele? – Augustus apontou com o polegar para trás. – Por favor, não misture as coisas Jacey. Um dia, talvez...
– Não misturar as coisas? Por favor, só peço para que você deixe Nate em paz. Ele não é o que você está pensando... Nós tentamos evitar a morte do Jacob hoje e...
– Mas nem temos certeza de que foi ele quem morreu e se realmente morreu, e o que você quer dizer com isso? – Augustus ignorou completamente a história do ciúme e de Nate e voltou a sua atenção toda para o caso de Jacob Cast. – Como tentaram impedir?
Contei resumidamente o que aconteceu hoje na aula de geografia e confessei o que fiz ontem de noite. Augustus não estava surpreso. – Eu sabia que você e as suas amigas tinham saído na noite passada. Tinha certeza! – Ele parecia orgulhoso por ter a minha confissão. – Você é louca Jacey Sparks.
– O que é a vida sem um pouco de loucura?
– Uma vida normal?
– Ser normal não tem tanta graça assim.
Augustus riu de lado. Finalmente ele teria esfriado a cabeça? – Você é uma peça Sparks.
– Não me chame de Sparks. – Realmente, detestava quando me chamavam de “Sparks”. Lembrava minha mãe. E se não fosse por ela, eu não estaria prestes a morrer.
Augustus empurrou a porta do prédio da escola e uma funcionária surgiu de repente, seus olhos esbugalhados passaram rapidamente por todos nós. – Estão feridos? Se não, sigam para o auditório. – E nos empurrou corredor a dentro.
– Auditório para quê? – Eu queria fugir daquela escola de loucos, mas era proibido. A diretora não autorizava dispensar todos os alunos. Ninguém sabia ao certo por quê.
~~*~~
Nós quatro nos acomodamos nas cadeiras estofadas do auditório. A maioria dos alunos estava lá, com exceção de alguns que estavam na enfermaria e os casos mais graves, no hospital. Já estava escurecendo e nada havia sido resolvido. Eu e Libby procurávamos avistar a cabeleira loura de Alyss no meio das pessoas, quando finalmente a vimos entrando pelas grandes portas. Ela tinha os olhos vermelhos de tanto chorar e vinha apoiando Summer nos ombros, que se sacudia por completo, aos prantos.
– O que será que aconteceu? – Libby perguntou. – Cadê a Natalie? – Libby se levantou para poder ver melhor. – Não consigo ver direito, mas não vejo Matt em lugar nenhum. Será que...
Nossos olhares se encontraram e pensamos a mesma coisa. “...Está morto?”. Ficamos em silêncio por alguns segundos e a diretora Ross apareceu no palco. Ela segurava um microfone e vestia um terno feminino. Tomou frente e mandou todos se sentarem.
– Alunos do colégio interno Bronte. – Ela disse com tanta seriedade na voz, senti as entranhas se contraindo. O que viria a seguir?. – Sei que estão com medo de tudo e que não conseguirão dormir esta noite. Vamos suspender todas as aulas de amanhã, todos os alunos dormirão na quadra poliesportiva na supervisão dos guardas. Durante o fim de semana, os pais estarão autorizados a levar seus filhos embora do colégio para melhor proteção. – Ela fez uma pausa para ajeitar alguns papéis que segurava na mão e prosseguiu. – É com grande pesar que lhes informo que mais um aluno acaba de nos deixar de forma cruel. Jacob Cast foi assassinado. Muitos alunos ainda estão desmaiados na enfermaria e outros com ferimentos mais graves foram levados ao hospital. Por favor, evitem ficar em pânico. Protejam uns aos outros, não deixem que seus colegas se aventurem tentando resolver problemas que não lhe cabem. – Aquilo foi uma indireta?! – E ainda mais importante, se souberem de alguma coisa, de algum comportamento suspeito, contatem as autoridades. – Ela se dirigiu a pequena escada e disse por fim. – Vocês sozinhos são vulneráveis, juntos são a maior defesa que têm.
Com aquelas palavras, desceu do palco e deixou todos os alunos lamentarem suas perdas.
Notas finais
Espero que tenham gostado!
~Veronica
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