A Garota De Bronte
19 XVIII
Notas iniciais
Acordei com o celular vibrando debaixo do travesseiro. Olhei para a janela, ainda meio grogue de sono, o céu estava escuro e nublado. Eram 2h40min da madrugada e precisava encontrar Nate na biblioteca.
O único problema era o guarda na minha porta.
Quando as meninas e eu fomos escovar os dentes antes de dormir, combinamos tudo. Natalie, que era a mais sensata de nós, foi a que demorou mais tempo a ser convencida.
– Vocês estão loucas?! – Ela dizia. – Escutem, é perigoso e mesmo que consigam sair, vão levar uma punição imensa por serem pegas fora do dormitório com um assassino pelo campus.
Notei que Natalie não se incluiu na missão suicida.
– Não vamos ser pegas. – Alyss disse. – Poderíamos pular a janela. O que acham?
– Alyss, são três metros de queda. – Natalie disse. – Não dá pra pular.
– Na janela da Jacey tem um cano, dá pra descer por lá. – Libby disse. – Nate já o usou para invadir o quarto dela. – Ela riu. – Enfim, podemos descer por lá.
Mas elas estavam se esquecendo de um grande e imenso problema – Tem um guarda na porta do meu quarto. Como vamos nos livrar dele, topeiras?
– Viram? É loucura! Por favor, não façam isso. – Natalie dizia. – Eu não vou acompanhar vocês nessa ideia idiota.
Alyss, que estava de cabeça abaixa, se levantou depressa. – Ótimo, não precisa ir com a gente. Você pode distrair o guarda!
Natalie ficou incrédula. – Eu não acredito que ainda persistem para que eu participe nessa história!
– Por favor, Natalie! Você não vai se encrencar, é só fingir que você estava pegando alguma coisa na cozinha ou sei lá. – Eu disse. – Se você fizer isso, eu te ajudo com o L. – Tá, eu não tinha descoberto nada de importante, mas precisava de Natalie. E mesmo assim, a cor do rosto dela desapareceu. Devagar, ela passou os olhos por todas nós, procurando saber se Alyss e Libby também tinham conhecimento do que eu estava falando. Por sorte, as outras duas pareciam não saber também, porque não estavam entendendo nada.
Natalie balançou a cabeça devagar. – Se eu me ferrar, levo as três juntas e o maldito Nathan também por ter essa ideia idiota.
Agora, eu estava vestindo uma calça preta qualquer que encontrei na minha mala, silenciosamente. Vesti uma das camisetas vermelhas da educação física e calcei um all star velho. Esperei debaixo das cobertas até ouvir o sinal de todas.
Meu celular vibrou.
Alyss: pronta. Esperando a Nat.
Meu celular vibrou outra vez.
Libby: Tudo ok. Tô na porta do quarto.
E quase que no mesmo instante, vibrou outra vez.
Natalie: Vou sair do armário em dez segundos. Se preparem.
Nós forçamos Natalie a ficar dentro de um dos armários de DVDs da sala de TV lá embaixo. Demos a ela um livro para que não ficasse no tédio. Era arriscado deixá-la dentro do quarto, como era apenas um grande corredor com todos os dormitórios do primeiro ano, o guarda veria Natalie saindo do seu quarto.
Eu estava sentindo aquele frio na barriga, quando você está prestes a despencar de uma montanha russa, uma mistura de medo e ansiedade. O plano poderia falhar em vários sentidos. O guarda poderia chamar outros guardas e ficar parado na minha porta sem se mexer ou Natalie poderia ser pega no corredor... Deixei o pessimismo de lado e abaixei para ver os pés do guarda debaixo da porta. Ele estava lá. Pelos meus cálculos faltavam uns quatro segundos para Natalie entrar em ação. 3...2...1.
Ouvi uma porta do andar debaixo batendo, em seguida, os sons de alguém andando apressadamente. Os pés do guarda se mexeram, a luz da lanterna refletiu no chão e iluminou o meu rosto.
– Quem está ai? –O guarda disse do outro lado da porta.
Ouvi mais passos e o som de alguma coisa se quebrando, um vaso talvez? Os pés do guarda se moveram para longe da porta, pude ouvi-lo se afastando. Pelo som dava para imaginar que ele estava perto da escada, os sons foram diminuindo.
– Quem está ai? Fale agora! – O guarda disse, no andar debaixo.
Levantei rápido e abri a porta, esperei até Alyss do quarto 3 e Libby do 19 saírem. As duas correram para o meu quarto, eu fechei a porta rapidamente e girei a chave.
– Prontas? – Eu perguntei, abrindo a janela.
– Nunca tive tanta adrenalina circulando pelo meu corpo. – Alyss vestia uma calça de ginástica azul, tênis de caminhada e uma camiseta velha das Meninas Super Poderosas.
Libby sorriu nervosa. Ela vestia uma blusa de moletom vinho e calças jeans azul desbotado, estava com um all star branco velho como o meu. Ela carregava uma pequena bolsa.
Levantei a janela e uma brisa gelada cortou o meu rosto. Alyss foi na frente e desceu com alguma dificuldade. Lá embaixo, ela olhou para nós e levantou o polegar. Libby foi em seguida.
Ouvi vozes no corredor.
– Não faça isso de novo, mocinha. – Era o guarda. Natalie fora pega.
– Me desculpe, é que eu estava com muita fome. Eu não fui ao jantar. – Natalie dizia.
– Sim, agora volte para o seu quarto. – Ele disse. – Ainda não entendo como saiu sem que eu tenha te visto.
– Eu adormeci em um dos pufes da sala de TV. – Natalie mentia muito bem, porque a voz dela não falhava em hora nenhuma.
– Ah.
Ouvi a porta do quarto de Natalie se fechar e o guarda girar a chave do meu quarto. Fechei a janela com rapidez e me joguei na cama, cobrindo o meu corpo, inclusive o all star.
O guarda abriu a porta e mirou a lanterna no meu rosto. Depois de se certificar de que eu estava respirando e dormindo, ele entrou no meu quarto e olhou debaixo da cama e dentro do guarda-roupa. Meu coração estava batendo forte.
Alguns minutos depois, ele saiu do meu quarto. Eu esperei até que ele passasse a chave de novo para poder abrir a janela.
Libby e Alyss olharam para mim com perguntas nos olhos. Eu me segurei no cano preso à parede e encostei a janela. Desci com um pouco de dificuldade, apoiando os pés nos parafusos. Quando faltavam alguns metros para o chão, pulei.
Libby olhou para mim por trás dos óculos. – O que aconteceu? – ela sussurrou.
– O guarda entrou no meu quarto. Natalie foi pega. – Disse no mesmo tom. – Vamos sair daqui.
Nós três nos esgueiramos por entre as plantas até chegarmos à biblioteca. O lugar estava fechado com uma faixa amarela de policia e havia dois guardas dando voltas. Eu ainda não tinha visto Nate em lugar nenhum.
– O único jeito de entrarmos é por aquela janela quebrada. – Alyss observou. – O guarda não passa por ela muitas vezes.
Nós estávamos atrás de um arbusto e de umas árvores baixas. Ouvimos um galho quebrando atrás de nós e viramos, eu estava com o coração na mão.
Uma sombra saiu de trás de uma árvore.
– Não vamos precisar entrar, sigam-me. – Era Nate. Eu levei um pequeno susto com a voz dele.
Nate nos levou por uma trilha por entre os jardins até chegarmos ao Instituto Esportivo do Internato. Eram muitas quadras, de tênis, vôlei, futebol, handebol, basquete, futebol e outras com cobertura. Aquelas quadras eram só para jogos oficiais entre um colégio e o Internato, ou para campeonatos de interclasse ou algo do tipo. Quando tínhamos aula de educação física, jogávamos em uma quadra poliesportiva do ginásio que ficava anexada em um dos corredores do prédio das aulas. E aquelas todos eram imensas. Nunca tinha estado ali.
– Aqui vamos poder conversar. – E realmente, os guardas foram ficando cada vez mais escassos até que não havia nenhum em um raio de duzentos metros. – Ok. Primeiramente, vamos fazer um levantamento do anuário. E depois vamos investigar com mais cuidado.
O rosto de Alyss se iluminou. – Então vocês sabem o que é esse anuário?
– Vocês não contaram para ela. – Nate disse. – Ok. Eu explico. – Nate contou todos os mínimos detalhes, incluindo a parte da minha mãe e que eu era uma possível vítima. Alyss ouviu tudo com atenção.
– Mas como você sabe do anuário? – Nate perguntou.
Alyss se acomodou e se sentou no gramado, se apoiando na parede do instituto. – Eu e a Natalie ouvimos a conversa da diretora Ross com a mãe da Caroline e do Allan. Era uma espécie de interrogatório, na verdade.
Libby pegou um pedaço de papel amarelado da pequena bolsa. – Eu trouxe a lista de alunos do terceiro ano que se formaram e ... – Ela pegou uma espécie de bloquinho de papel. Só que este estava mais novo. – As listas de chamada de todas as turmas deste ano.
Eu queria dar um beijo em Libby. – Como conseguiu as listas deste ano? – Perguntei.
– Eu invadi a sala do professor Richard de geografia durante a aula de educação física de hoje e copiei tudo. – Libby se sentou e Nate e eu fizemos o mesmo. – Ele é o professor mais estranho que temos. Não sei, mas aquele sobretudo que ele sempre usa e aquele cabelo lambido...
– Parece que ele passa óleo de carro no cabelo. – Nate disse. – Ei, foco, não temos muito tempo. Libby passa pra cá a folha, vou ler em voz alta.
Passamos uns trinta minutos tentando encontrar todos da lista. Dava para contar mais ou menos uns quarenta alunos da escola inteira que tinham os mesmos sobrenomes, no total, contamos vinte e sete alunos filhos de ex-alunos que estavam entre o primeiro e o terceiro ano.
– Não é possível que ele vá matar vinte e sete alunos. – Nata observou.
– Na verdade vinte e cinco porque ele já matou duas. – Alyss corrigiu. “Penny, a espetada na árvore e Caroline, a Blood Mary do Internato Bronte” Me repreendi mentalmente por pensar nessas piadas idiotas.
– E os alunos do fundamental II? Será que eles também correm perigo? – Libby disse e aquilo realmente vazia sentido. E as outras crianças de outras séries?
– Eu não sei... Vamos ter que checar depois. – Nate disse. – Vamos ter que avisar as pessoas que estão correndo perigo. E queria dizer para vocês não confiarem em Augustus.
Eu queria entender porque Nate tinha tanta implicância por conta de Augustus. Acho que eu já sabia a resposta. – Nate, qual é o problema com Augustus? – Eu já estava perdendo a paciência. Um tentava me jogar contra o outro!
– Eu não acho que ele está aqui realmente para protegê-la Jacey, e sim para vigiá-la. Você não acha que ele é novo demais para ser um segurança? Quantos anos ele tem? Dezoito no máximo?
– Mas Nate, é o primeiro trabalho dele. Ele carrega uma arma para todos os lados, se não é para me defender é para quê? Me matar? – Porque Nate não entendia? – Quando você tiver uma prova de que ele é um cara mau, você me avisa.
– Está bem, então.
– Nate você está ficando paranoico. – Alyss disse.
Nate abriu a boca para falar algo para Alyss, mas eu disse primeiro. – Na verdade isso se chama ciúmes. – Ok. Libby que acompanhava tudo com muita atenção soltou um riso baixo e olhou para o outro lado. Alyss simplesmente levantou as mãos em um sinônimo de “não me meto mais nessa história” e Nate ficou sério.
– Depois a gente conversa sobre isso, Jacey. – Ele disse. – Vamos continuar com a lista.
Listamos direitinho todos os filhos de ex-alunos em uma lista. Entre os alunos do primeiro ano estava Allan Turner, Beatrice Willem (não vou mentir, fiquei feliz pelo nome dela estar ali) Summer e Louis Samuels, Rachel Farell e Jacob Wood. Os alunos do terceiro e segundo ano eu não conhecia praticamente ninguém. Alyss conhecia a maioria, ela estudava lá desde pequena.
– Bom, vamos ter que avisar a polícia ou sei lá. – Libby disse.
– Nós temos a lista, mas não temos a ordem. – Alyss disse. – Não sabemos quem é o próximo.
– Na verdade sabemos sim... – Eu disse. – Libby leia a lista de formandos do terceiro ano a partir do Benjamin. Acho que está em ordem alfabética.
Ela pegou a lista de um jeito atrapalhado e forçou os óculos para ler. – Catelyn Cast... Connor Wood...
– Wood é o sobrenome do Jacob. – Em interrompi. – Ele é o próximo. Não tem ninguém com o sobrenome Cast, tem? – Ninguém respondeu. – Ok, nós temos que avisá-lo.
– Está bem. Avisamos amanhã antes do jogo. – Alyss disse. – Podemos invadir o vestiário ou algo do tipo.
Todos concordaram. Invadir um vestiário parecia ser uma loucura divertida entre amigos. Se o meu pensamento estiver certo, bom minha mãe se chama Rebecca Sparks, ainda há grande parte do alfabeto até chegar ao R. Estou salva por um bom tempo.
Voltamos para o dormitório pelo mesmo caminho e entramos por uma janela da cozinha que a Natalie deixou aberta. Andamos silenciosamente até a sala de TV, Alyss sentou em um dos pufes e eu também, relaxamos por um momento até que Libby tropeçou em uma mesinha que ficava ao lado da TV e caiu fazendo um enorme barulho. Ela derrubou a mesinha com todos os controles de TV e umas embalagens de DVDs.
Naquele momento eu quis enforcar Libby.
Ouvimos passos do guarda.
– Para a cozinha, rápido. – Alyss nos puxou de volta para a cozinha. As botas do guarda já estavam visíveis descendo a escada.
Alyss empurrou a porta da minúscula cozinha, lá só havia alguns armários com pouquíssima comida, uma geladeira pequena e um micro-ondas. Era só para casos de emergência quando algum aluno perde o horário do almoço ou café da manhã ou algo do tipo.
Depois que o guarda entrou na sala de TV, olhei pela fresta da porta. – Vamos, rápido.
Nós corremos ignorando todo o barulho e subimos as escadas correndo, Alyss entrou na segunda porta do lado esquerdo, Libby na porta de número dezenove e eu depois de alguns segundos, tirei a chave do pescoço e destranquei a porta. Entrei praticamente com o coração na boca, as minhas mãos tremiam para trancá-la novamente.
Ouvi os passos do guarda no corredor e me joguei na cama, me enrolando nas cobertas mais uma vez.
Notas finais
xoxo
~Veronica
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