Notas iniciais
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- Podem me acompanhar. – Ela disse.

Libby e eu levantamos das cadeiras frias e seguimos a enfermeira. Ela andava pelo corredor com os saltos martelando o chão de mármore. Não estávamos indo para o quarto de nenhum paciente, e sim para mais uma sala. Um médico esperava sentado em uma grande poltrona. Ele escrevia algo na sua prancheta.

- Elas estão aqui. – disse a enfermeira. – pelo que me parece, a tia dele ainda não chegou.

- Está bem. – Ele se levantou.

- Ele sobreviveu doutor? – Libby perguntou, antes que eu o fizesse.

O médico ajeitou os óculos. – Ele está repousando. A faca o atingiu em um ponto do pulmão, mas não o suficiente para comprometer o órgão. Entretanto, a perda de sangue foi significativa. Ele precisa descansar mais do que tudo. É provável que ele sobreviva.

- Nós podemos visitá-lo agora? – Perguntei.

- Não posso permitir que fique sozinha com o garoto antes de ser interrogada pelos policiais.

Fiquei chocada. Eles estão pensando que fui eu quem esfaqueei Nate? Eu não gostava muito dele, mas “assassina” não estava na minha lista pessoal de adjetivos. As pessoas não perceberam que EU estava suja de sangue e com as costas inteiramente furadas por pequenos pedaços de vidro? O meu uniforme foi destroçado em menos de 24h naquela escola. Falando nisso, já eram três horas da manhã e eu estava cansada, com sono e mentalmente indisposta para qualquer coisa.

- Tá bem, é só isso que queremos saber. Obrigada. – Eu virei as costas e Libby foi junto comigo.

- Jacey, você acha mesmo que Nate está seguro aqui nesse hospital?

- Não. – eu já pensei nisso. Nate e eu descobrimos a passagem secreta do assassino para se mover pela escola sem ser visto. Ele tentaria me matar antes que eu pudesse contar para alguém e tentaria matar Nate também. Logicamente, matar Nate seria três vezes mais fácil. Ele estava enfraquecido por causa dos remédios, imóvel por causa das talas nas costas e sentia pontadas de dor quando se mexia.

- Temos que falar com a polícia.

Não foi uma pergunta, mas eu respondi do mesmo jeito. — Temos. Acho que vão me interrogar.

- É bem provável.

~~*~~

- Nós só vamos fazer umas perguntas e você vai poder ir para o seu dormitório.

O policial me encarava de forma assustadora. Mas nada poderia me assustar tanto quanto o que aconteceu naqueles malditos túneis. Libby ficou para trás, mandaram ela de volta para os dormitórios. Eu me encontrava sentada em outra cadeira fria, às três e quarenta da madrugada enquanto dois policiais andavam de um lado para o outro na mesma sala que eu.

- Tá.

O primeiro, um magro e alto, dirigiu a palavra para mim. – Pode me chamar de Okkie. E aquele é o Tompson. – Ele fez uma pausa, eu assenti. — O que você e Nathan Glantz estavam fazendo no depósito da escola, que por sinal era proibido à entrada?

- Estávamos na diretoria, eu vi o corredor mais cedo e pedi para que ele me acompanhasse para descobrir o que tinha lá dentro. – Eu estava dizendo a verdade, mas era muito irritante ter que responder perguntas quando se quer dormir.

O outro policial, Tompson, começou a andar atrás de mim, com a mão no cinto. – E como encontraram o alçapão?

- Foi Nate quem encontrou, eu estava mexendo em uma fotografia. Ele que teve a ideia de pular para dentro do túnel.

- Interessante... – ele chegou mais perto do policial Okkie e sussurrou algo em seu ouvido. – Você chegou a ver o rosto do assassino? Poderia nos descrever como foi que ele enfiou a faca nas costas de Nathan?

Respirei fundo para tentar reviver aquela maldita cena. – Não. Estávamos andando pelo túnel quando Nate e eu sentimos uma brisa. Uma corrente de ar, como ele tinha dito. Tivemos uma noção de que a saída estava próxima. Então ouvimos passos, Nate e eu viramos para ver no fundo do corredor e as luzes penduradas no teto começaram a se apagar. E os passos iam ficando mais e mais próximos. Quando faltavam algumas lâmpadas acesas, Nate conseguiu achar a saída. Ele gritou meu nome. Como eu corri na frente, tive que voltar alguns passos, o que deu tempo do assassino quase nos alcançar. Nate desceu para me ajudar a subir, eu não alcançava o pequeno buraco na parede. Tive tempo de subir e puxá-lo de volta, e nisso o assassino cravou a faca nas costas dele. – Aquelas lembranças me assustariam pelo resto da vida.

- E depois? Como foram parar na biblioteca? – Tompson perguntou.

- A passagem dava no banheiro da biblioteca. Eu carreguei Nate mas as portas e janelas estavam trancadas. Ele me disse para arremessar um livro na janela para podermos sair. Bem, eu fiz. Depois lembro que Nate não conseguia pular por causa da ferida. Então a luz do banheiro se apagou e eu com medo, o puxei junto comigo e caí em cima dos cacos de vidro. Eu gritei como louca por socorro e uns guardas apareceram, depois o serviço ambulatório da escola levou Nate para o prédio hospitalar. — Eu havia esquecido um detalhe. – Ah, e eu me lembro de ter visto uma silhueta na janela em que pulamos. Ele estava parado. – Fecho os olhos e vejo a cena. A faca na mão, o rosto envolto pelas sombras e o pouco do corpo iluminado pela luz da lua. Assustador.

- Você está falando a verdade, Jacey? – Okkie indagou com os olhos cheios de dúvida e de ameaças.

- Sim. Estou. Eu juro.

- Quando você jura, está provando ser digna de confiança. Está dando a sua palavra. Está fazendo uma promessa. Você acha mesmo certo jurar a sua inocência?

- Acho.

- Você acha? Não tem certeza?

- Sim. Quer dizer, não. Eu tenho certeza.

- Você me parece culpada Jacey. Foi você quem enfiou a faca nas costas de Nate?

- Onde eu arrumaria uma faca? Mesmo se tivesse uma não a usaria para matar Nate. – “...eu não seria capaz de fazer mal a Nate” – Nem ninguém, claro. – “Exceto Marietta”

- Você sabe de algo sobre o assassinato de Penny Allen hoje cedo? – Tompson perguntou.

O que eu sabia era o que Nate e eu tínhamos deduzido. Qualquer ajuda seria o suficiente para desvendar o mistério e colocar aquele louco psicótico atrás das grades. – Eu sei que o assassino que nos perseguiu era o mesmo que matou Penny. A faca que ele estava usando era do mesmo tamanho e formato que a mesma que prendia Penny na árvore. E ele usa os túneis para andar pela escola.

- Nós vamos conversar com a diretora sobre esses túneis.

- É o certo. E quanto a mim?

- Você vai voltar para o seu dormitório. Vamos colocar quatro guardas armados na porta do seu quarto. Também já lacramos as janelas.

- E se eu quiser ir ao banheiro?

- Um guarda vai te acompanhar até lá. – Okkie respondeu por Tompson.

- Quero pedir que coloquem guardas na porta do quarto de Nate. – acho que estou mais preocupada com Nate do que comigo.

- Isso já está sendo providenciado. – Okkie andou e deu a volta na minha mesa. – Você e Nathan... São namorados?

Eu deveria ter gargalhado e rolado no chão. Mas a situação não era das melhores e não senti vontade. Nate e eu? Namorados? Talvez no dia que o sol nascer no oeste e o se por no leste. – Não! Eu conheci Nate hoje!

- Calma não precisa gritar. – Tompson disse. – Acho que já é suficiente, Okkie. Chame Augustus para acompanhá-la até o dormitório.

O policial Okkie saiu da pequena sala e voltou com um guarda novo. Ele era lindo. E jovem. No máximo 18 anos. Eu estava para fazer 16 daqui três meses. Não era uma diferença tão grande de idades. Ele estendeu a mão para me cumprimentar.

- Augustus Frey.

Respondi, a mão dele estava fria. – Jacey Sparks.

O policial Okkie pediu para que saíssemos da sala. – Augustus, acompanhe Jacey até o dormitório. E fique de guarda até as cinco. Depois mando outro para tomar conta do seu posto.

Nós dois saímos do prédio administrativo onde fui interrogada e atravessamos o campus mais uma vez a caminho do dormitório. Eu estava faminta. Comi apenas umas batatas chips da máquina de comida do hospital e aquele chocolate quente. Augustus andava do meu lado. Ele era como um armário. Alto e forte. Os cabelos dele eram loiros e os olhos azuis piscina. A mão dele sempre pousada no cabo da arma, que pendia no cinto. Os olhos atentos para qualquer movimento que fosse incomum.

- Você vai mesmo ficar até às cinco da manhã na porta do meu quarto?

Augustus não respondeu. Ele nem olhou para mim. Desisti de puxar assunto com ele. Andamos em silêncio até os dormitórios. Subi as escadas, ele sempre atrás de mim. Abri a porta e senti o cheiro do meu quarto. Ajoelhei no guarda-roupa onde horas antes Nate estava dentro. Procurei pelo meu pijama, vesti e fui em direção aos chuveiros. Olhei para trás e Augustus estava lá, andando atrás de mim como uma sombra. As enfermeiras removeram todos os cacos de vidro e colocaram curativos, passaram álcool e eu tive que tomar antibióticos para não inflamar. Eu tinha terra em todos os cantos do corpo. Meu uniforme não sobreviveu. As enfermeiras rasgaram para poder examinar as minhas costas e a saia estava tão esfolada e suja quanto. Eles me deram uma roupa de hospital para sair do prédio. Enquanto a água caia, eu revivia aquele dia que parecia ter bem mais que 24h. As aulas da semana continuariam normalmente, mas eu não compareceria por estar terrivelmente ferida. O que me daria tempo de visitar Nate todos os dias. Libby traria o dever de casa para mim.

Augustus me observava enquanto eu escovava os dentes. Já tinha tomado banho no hospital. O que foi terrivelmente doloroso.

- Você vai ficar me observando mesmo?

Achei que ele não fosse responder: — Eu sou pago para isso.

- Você está tirando a minha privacidade.

- Estou garantindo a sua vida.

- Eu não vou morrer sozinha dentro de um banheiro. O que pode acontecer?

Ele não respondeu. Augustus era incrivelmente bonito, mas era como uma pedra. Não falava quase nunca e ficava imóvel exatamente como uma. Ele mal olhava nos meus olhos para falar comigo.
Terminei de escovar os dentes e saí do banheiro. Augustus continuava me seguindo. Abri a porta do pequeno quarto e depois bati a mesma na cara de Augustus. Joguei-me na cama, puxei o cobertor e tentei dormir. De uma coisa eu tenho certeza, teria pesadelos pelo resto da minha vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado do Augustus ... hmmm